Capítulo 03 – As
Atribulações da Família Weasley
Algumas
horas depois da visita inesperada de Sirius ao seu famoso afilhado, Ronald
Weasley se espreguiçava languidamente na parte de baixo de beliche que dividia
com seus irmãos gêmeos mais velhos, Fred e Jorge. Enquanto esticava os
músculos, observava com o canto dos olhos o pacote suspeito que a dupla
depositara aos seus pés na noite anterior.
- O
Natal chegou mais cedo, irmãozinho – resmungara Fred, com um sorriso irônico
que irradiou pelas sardas rubras.
- Não
seja tímido, abra o pacote – insistiu Jorge, entre risos.
- Não
há nada aí que vá lhe prejudicar – continuou Fred.
-
Talvez lhe arranque um dedo ou dois...
- Da
mão esquerda...
- Nada
que você vá dar falta...
E, com
este último comentário, os gêmeos haviam desaparatado do quarto, deixando um
atônito e preocupado Rony para trás. Ele tinha bastante experiência com os
irmãos para saber que abrir um pacote dos gêmeos sem o mínimo de cuidado
provavelmente lhe valeria uma passagem direta para o Hospital St. Mungus. No
entanto, o que intrigava o alto e desengonçado bruxo de cabelos acobreados era
a etiqueta do pacote, visível em cores chamativas.
Pollwhish &
Pollwhitch
Vestes de gala
para bruxos de porte especial
Estabelecido
desde 1573
Rony
conhecia a loja, ela ocupava quase um quarteirão inteiro dentro do Beco
Diagonal, próxima ao Gringotes, o Banco dos Bruxos. Freqüentada somente pela
alta sociedade mágica, e com uma predileção especial e notória pelos bruxos de
sangue puro, os gêmeos deviam ter despendido uma pequena fortuna para comprar o
presente do garoto.
Andando
de um lado para o outro, o bruxinho continuava a olhar de soslaio para o
presente. Praticamente não pregara o olho durante a noite e só conseguira
adormecer depois que os gêmeos haviam se deitado também – se eles estavam se arriscando a dormir no
mesmo quarto, o feitiço deveria estar bem protegido. Se houvesse um feitiço...
A
embalagem parecia corroborar a etiqueta. Apesar de Rony nunca ter chegado nem
perto de um presente da Pollwhish & Pollwhitch, o elegante laço emoldurado
por duas tulipas douradas carregavam consigo um traço de sofisticação que o
garoto nunca vira antes. No entanto, Fred e Jorge, assim como toda a família
Weasley, não possuíam muito dinheiro. O parco salário do Sr. Weasley mal cobria
as despesas com todos os seus filhos. Mesmo sem apreciar o trabalho que Percy,
o último irmão de Rony a se formar em Hogwarts, havia conseguido no Ministério,
Arthur Weasley agradecera secretamente aos céus. Afinal, mais um filho seu
estava ganhando seu próprio dinheiro. Mesmo sem contribuir com as despesas do
lar – a Sra. Weasley insistira que o garoto guardasse o seu dinheiro, afinal,
um dia ele precisaria de um lar e era bom ele começar uma poupança -, a
matrícula de um filho a menos em Hogwarts fora um alívio para as combalidas finanças
do casal.
Rony
tinha ciência da situação financeira da família. Obviamente, esta constatação
só servia para deixar o rapaz mais preocupado com aquele arroubo de
generosidade dos irmãos, afinal, eles usualmente só lhe dispensavam piadas e
chistes jocosos. Mesmo que todos os galeões que o seu pai havia economizado fossem
depositados nas mãos dos gêmeos, ainda assim o garoto duvidava que eles
conseguissem comprar uma veste de gala na loja grã-fina. E duvidava mais ainda
que eles resolvessem gastar todo aquele dinheiro com ele.
O quer
Rony não sabia, enquanto andava de um lado para o outro, matutando em silêncio,
era que o seu melhor amigo em Hogwarts, Harry Potter, havia deixado o dinheiro
do prêmio do Torneio TriBruxo nas mãos de seus irmãos. Mil galeões era uma
quantia considerável para qualquer um e os gêmeos, pela primeira vez na vida,
ficaram sem palavras com aquele ataque de generosidade do amigo do irmão
caçula. A única condição do colega fora que eles comprassem, finalmente, um
traje de gala legal para Rony – uma forma de amenizar a vergonha que o garoto
passara no último ano, quando fora obrigado a comparecer ao Baile de Inverno
com um traje antiqüíssimo e que parecia ter sido confeccionado para a sua irmã
menor, Gina. Cumprindo a promessa a risca, Jorge e Fred escolheram o melhor e
mais chocante traje de gala para o irmão, guardando o resto para os seus empreendimentos.
Mesmo
mantendo a palavra com Harry, os irmãos Weasley não perderiam uma chance destas
para tirar sarro do irmão menor. Rindo as escondidas, os dois apostavam quanto
tempo Rony ainda levaria para abrir o presente. Fred acreditava que ele só
fosse desembrulhar as vestes em Hogwarts. Para Jorge, o irmão medroso nem
levaria o pacote para a escola. Se eles não falassem nada, o garoto poderia
jurar que Rony deixaria o embrulho debaixo da cama durante o ano todo.
Enquanto Rony meditava sozinho nos andares
superiores da Toca, a forma carinhosa como os Weasley se dirigiam a própria
casa, Gina ajudava sua mãe a preparar o almoço. O Sr. Weasley e Percy estavam
trabalhando no Ministério e só deveriam retornar para o jantar. Os gêmeos se
divertiam lá fora com uma sonora e estampida partida de snap explosivo.
Carlinhos e Guilherme já moravam há um bom tempo fora de casa. Desta forma, o
garoto tinha um bom tempo sozinho para pensar no que fazer. Ele já se decidira
por abrir aquele pacote quase uma centena de vezes, e sempre recuara no último
segundo.
De varinha em punho, Rony tirou uma mecha
vermelha dos olhos e se aproximou do embrulho, tentando abrir um cantinho do
pacote para espiar. Somente um cantinho, um rasgo bem pequenininho...
BAMPF!
Ronald Bilius Weasley sentiu seu coração
saltar pela boca enquanto ele caia para trás, a cabeça dura batendo fortemente
na guarda da cama.
- Mas que diabos foi isso? – resmungou para si
mesmo, levando a mão no cocuruto onde um galo de bom tamanho crescia
rapidamente.
Fechando os olhos por causa da dor, o garoto
demorou em perceber um enorme e alvo pássaro que batia freneticamente contra a
janela. Ainda esfregando a cabeça, Rony ergueu a armação de madeira e vidro,
deixando Edwiges entrar.
- Droga, Edwiges! Você me deu um susto e tanto
– reclamou, olhando com censura para a pobre coruja, que não parava de piar.
- Vamos, me entregue logo a mensagem –
continuou Rony, ansioso para descobrir porque Harry o escrevera tão próximo de
sua partida para Hogwarts. No entanto, para sua grande surpresa, Edwiges não se
aproximou do garoto, piando e voando pelo quarto de forma desordenada.
- Venha até aqui, coruja maluca! – vociferou
Rony, que já estava perdendo a paciência, a cabeça ainda lancinando. Depois de
um grande esforço, que lhe rendeu diversas bicadas e um monte de penas
perdidas, finalmente o garoto percebeu o porque do comportamento estranho da
coruja. Não havia nenhuma mensagem ali!
Rony olhou atônito para a coruja e para seu
embrulho amassado. Dois grandes mistérios em menos de vinte e quatro horas.
- Isso não pode ser nada de bom – resmungou
para si mesmo, arrastando a coruja porta abaixo.
***
Enquanto
Rony lutava contra a coruja no andar superior, coisas surpreendentes também
aconteciam na espaçosa cozinha da Sra. Weasley. Quem notou primeiramente foi
Gina, que observava o famoso relógio da mãe. Ele não servia para ver as horas,
mas seus nove ponteiros representavam os membros da numerosa família e onde
estavam no momento. Como era de se esperar, os ponteiros de Percy e do Sr.
Weasley se encontravam No trabalho.
Enquanto lavava a louça suja, Gina notou uma perturbação no relógio encantado.
Em pouco tempo, o ponteiro do seu pai se deslocara para Viajando e, finalmente, Em
casa.
- Mãe,
papai está aqui – disse a garota, franzindo o cenho.
- Deixa
de falar bobagem e termina esta louça. Seu pai só retorna para o jantar –
resmungou a Sra. Weasley, que notara rapidamente que a única filha estava se
tornando tão rebelde e metida a gracinhas quanto os gêmeos.
- Mãe!
– reclamou Gina, olhando furiosa para ela e apontado para o relógio.
Bufando
de leve e se preparando para ralhar com a garota, a Sra. Weasley arriscou uma
olhadela para o relógio no alto da parede. Extraordinário! Sua filha estava com
a razão. Arthur estava voltando para casa.
Nem bem
terminara esta linha de pensamentos quando o Sr. Weasley abriu a porta de
entrada, caminhando com passos largos em direção a mulher.
- Tudo
bem, Arthur? – perguntou a Sra. Weasley, notando o ar preocupado do marido, que
acabara de largar um capote surrado sob a mesa.
- Ah...
sim, tudo bem... – resmungou o Sr. Weasley, com o sorriso amarelo e lançando
discretamente um olhar para Gina.
- Muito
bem, querida. Você já me ajudou bastante – disse a Sra. Weasley, que reconheceu
imediatamente a deixa do esposo – Vá, vá lavar suas mãos e arrumar seu quarto –
completou, praticamente empurrando a garota para fora da cozinha.
- Mas o
meu quarto está limpo – reclamou Gina, que sabia muito bem que estava sendo
escorraçada para que os adultos pudessem
conversar a sós.
- Então
limpe o quarto do Percy. Ele não tem tido muito tempo e você sabe como ele
gosta das coisas organizadas – sentenciou a Sra. Weasley, com o tom de voz de
quem já estava perdendo a paciência.
- Eca!
Eu não entro naquele quarto por todo os sacos de bombas de bosta do mundo –
reclamou Gina, correndo para cima.
- Sacos
de bombas de bosta? – perguntou o Sr. Weasley, olhando desconfiado para as
costas da sua única filha que subia as escadas lépidamente. Há alguns dias, ela
era apenas uma garotinha... O que teria acontecido?
- Não
pergunte – respondeu secamente a Sra. Weasley, lançando uma toalha sob o ombro
– O que aconteceu, Arthur?
- Lúcio
Malfoy assumiu o comando de Hogwarts. Ele... me mandou uma coruja simpática
hoje de manhã – resmungou, desgostoso.
- Malfoy é o novo diretor de Hogwarts?! –
gritou Molly, exasperada.
- Quem é
o novo diretor de Hogwarts? – perguntou Rony, descendo as escadas da Toca e
tropeçando nos pés grandes demais enquanto protegia seus braços das bicadas
furiosas de Edwiges.
- Quando esta coruja chegou aqui? – interrogou
o Sr. Weasley, os olhos esbugalhados, praticamente arrancando a ave das mãos do
filho.
- Hoje de manhã – gaguejou Rony, olhando
espantando para o pai e sua reação intempestiva. Normalmente o Sr. Weasley era
muito calmo e contrito. Aquele comportamento não era nada que o garoto pudesse
reconhecer como normal.
- Pai, quem é o novo diretor de Hogwarts? –
insistiu.
- Molly, me ajuda aqui – resmungou o Sr.
Weasley, levando uma bicada mais forte enquanto tentava examinar as patas da
corujas.
- Deixa comigo, Arthur. Você nunca teve jeito
para mexer com estas aves – ralhou a Sra. Weasley, retirando bondosamente
Edwiges das mãos atabalhoadas do marido. A coruja lançou um olhar reprovador
para o Sr. Weasley, se empoleirando no ombro da sua esposa, arrolhando com
gosto enquanto suas penas eram separadas com delicadeza.
- Ela trouxe alguma mensagem? – perguntou o
Sr. Weasley, voltando novamente sua atenção para Rony.
- Não... Pai, quem é o novo...?
Mas o Sr. Weasley o ignorou com um gesto,
observando com atenção o exame detalhado da esposa na coruja branca.
- Ela está bem, Arthur – concluiu a Sra.
Weasley, sorrindo, enquanto seu marido deixava escapar um grande suspiro
aliviado – Acho que ela não foi atacada.
- Atacada?!! Mas... porque alguém atacaria
Edwiges? – balbuciou Rony, atônito.
- Eles não teriam tempo de enviar uma
mensagem, de qualquer maneira – resmungou o Sr. Weasley, coçando o queixo – E
Harry provavelmente não a levaria para aquele lugar horrível – completou,
consternado.
- Lugar horrível? – murmurou Rony, ainda mais
apavorado.
- Harry está bem, Arthur – murmurou a Sra.
Weasley, com sorriso conciliatório para o marido, enquanto dava uns tapinhas
reconfortantes no seu braço – Apesar de todos os problemas na escola...
-
Problemas na escola! PAI! Quem é o novo diretor de Hogwarts? – exclamou Rony, sem conseguir se conter.
Assustados com o rompante do filho, o Sr. e a
Sra. Weasley observaram o garoto como se ele acabasse de aparatar na cozinha.
Os dois se entreolharam, nervosos.
- Rony, querido... O que seu pai quis dizer...
– começou a Sra. Weasley, com um sorriso amarelo e as mãos levemente trêmulas,
sinais claros que o garoto conhecia muito bem.
- Não tente me enrolar, mãe! – reclamou, as
faces vermelhas corando com a súbita inspiração de coragem – Eu ouvi muito bem
que o pai estava falando alguma coisa sobre Hogwarts! E aquele imbecil do
Malfoy! E a coruja de Harry sendo atacada! – concluiu, nervoso, esfregando as
mãos.
- Pai! O que está acontecendo aqui? – pediu,
quase suplicando.
O Sr. Weasley suspirou fundo e trocou olhares
significativos com a esposa, antes de resmungar, dando de ombros.
- Eles vão descobrir tudo em poucos dias, de
uma maneira ou de outro. É melhor que seja por nós do que pelas fofocas de trem
– disse, olhando cansado para o filho e sorrindo tristemente. Retirando a
edição matutina do Profeta Diário de suas vestes, entregou o jornal dos bruxos
para o filho, que agarrou as folhas rapidamente.
Na capa, um sorridente e pomposo Lúcio Malfoy
acenava com desdém para a multidão de fotógrafos e transeuntes na frente da Fonte
dos Irmãos Mágicos, no Ministério da Magia. Seus cabelos louros, sedosos e
fracos, emolduravam o ar de rapina dos olhos brilhantes. Ao seu lado, Narcisa
Malfoy, sua esposa, mantinha uma pose distinta, o nariz arrebitado como se
estivesse achando tudo aquilo uma grande chatice. E lobo abaixo, com o olhar
malicioso e fazendo caretas de desprezo, Draco Malfoy, o sujeito mais irritante
e desprezível que Rony já conhecera. E agora, para o desespero do garoto, era o
feliz e insuportável filho do novo diretor de Hogwarts. As letras garrafais
acima da foto, cujos personagens se mexiam sem parar, apresentavam a manchete
principal do noticiário:
Novo Diretor de
Hogwarts Anuncia Primeiras Contratações
Logo
abaixo, em uma notícia quase escondida no rodapé, o garoto leu, consternado.
Alvo Dumbledore
continua detido para interrogatório
Rony
cambaleou, fazendo menção de se sentar no espaço vazio atrás de si.
- Accio cadeira – exclamou a Sra. Weasley
com sua varinha, providenciando um assento para o filho antes que ele se esborrachasse
no chão.
- Como?
– balbuciou Rony, segurando, trêmulo, o jornal com as duas mãos.
Desanimado,
o Sr. Weasley apresentou um resumo da mesma conversa que Sirius e Olho-Tonto
Moody haviam tido com Harry ainda na madrugada.
-
Malfoy... o novo diretor? – choramingou Rony, batendo os dentes.
O Sr.
Weasley confirmou com a cabeça, sentindo a garganta subitamente seca.
-
Arthur, querido, o que este sujeito queria
com você? – perguntou Molly, a voz ácida enquanto apontava para a face alva de
Malfoy, sorridente na capa do Profeta Diário.
- Ele
cortou as bolsas do Ministério. Todas elas! – enfatizou, levando a mão na teste
e franzindo o cenho.
A Sra.
Weasley se sentou em um baque.
- Todas as bolsas? – insistiu, como se
fosse necessário ouvir novamente da boca do marido a notícia avassaladora.
- Sim,
querida – murmurou em assentimento.
Seguiu-se
um silêncio constrangedor, somente quebrado pelas panelas chiando e o fogão
crepitando no canto.
Rony
foi o primeiro a retornar à realidade.
- Nós
não vamos retornar para Hogwarts – disse, se referindo aos irmãos. Não era uma
pergunta, na verdade. Era muito mais uma afirmação.
- É
claro que vão! – exclamou o Sr. Weasley, dando um soco na mesa e olhando
furioso para o próprio filho. Pela primeira vez na vida, o patriarca da
numerosa família se sentia impotente na frente de um dos seus filhos. Ele e
Molly lutaram muito a vida inteira para dar a melhor educação possível para os
filhos, a despeito das constantes dificuldades financeiras. Agora, sentia que
tudo desmoronava como um castelo de cartas, o que era algo que o obstinado pai
não permitiria.
- Eu
vou fazer horas extras! Molly pode arranjar um emprego... Os nossos filhos...
Eu... – balbuciou ele, baixando o tom de voz novamente, constrangido por ter
gritado com Rony. A Sra. Weasley correu até o marido e o abraçou, lágrimas
grossas escorrendo pela face levemente enrugada.
Rony
sentiu que este era o momento dele se retirar, enquanto seu pai escondia o
rosto no dorso da esposa. Sabia que era melhor para seus pais ficarem sozinhos,
por ora.
-
Ronald – chamou o Sr. Weasley, quando o garoto já colocava os pés grandes no
primeiro degrau da escada – Não conte nada para seus irmãos! Isso só vai
chateá-los sem necessidade – pediu, os olhos marejados e o sorriso triste.
O
garoto respondeu com um aceno, subindo desanimado para o quarto, enquanto uma
idéia brotava lentamente em sua mente... Uma fagulha de luz nas trevas que lhe
obscureciam o futuro.
Enquanto
isso, Molly afagava carinhosamente o marido, com um sorriso.
- A
amizade deles é forte, Arthur – resmungou, limpando uma lágrima – Eles ainda
vão se reencontrar.
O Sr. Weasley
não respondeu, imaginando quando teria coragem de contar para o filho que Harry
não voltaria para Hogwarts aquele ano.
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