Capítulo 02 – A Casa Forte
Harry mantinha os olhos fechados,
apertando com força o braço do padrinho. Sua cabeça girava e ele sentia que
poderia desmaiar a qualquer instante. Nunca havia desaparatado antes e a
sensação era muitas vezes pior do que viajar por uma chave de portal. O garoto
preferia mil vezes voar em uma vassoura.
- Harry, chegamos – disse Sirius, em
seu latido bondoso.
Suspirando fundo, o garoto abriu os
olhos para a casa de bruxos mais estranha em que já estivera. As paredes foram
construídas com blocos de pedra cinzenta, cortadas toscamente. Duas minúsculas
janelas, quase no alto, levavam ao que lhe pareceu ser o jardim, pois a grama
crescia desregrada pelos cantos do vidro sujo, que mal deixava transparecer uma
tênue luminosidade. Um vento frio e encanado corroborava a sensação de estarem
presos dentro de um porão.
Não havia portas visíveis em lugar
algum. Em um canto, uma cama de dossel já lascada fora arrumada rapidamente com
alguns lençóis velhos. Ao seu lado, um colchão antiqüíssimo estava enrolado, um
travesseiro de plumas e cobertores largados apressadamente por cima. Uma
minúscula penteadeira finalizava o quarto improvisado dos ocupantes da casa.
Sem nenhum tipo de divisória ou parede, o porão continuava com uma pequena e
suja cozinha, onde armários desconjuntados vizinhavam uma mesa de madeira de
pinho e quatro cadeiras desaparelhadas. Um fogão a lenha de duas bocas jazia
enferrujado no canto posterior, a chaminé, enegrecida pela fumaça, subindo
serpenteando até sumir no teto de madeira.
Do outro lado do porão, a sensação de
uma casa simples de um subúrbio inglês desaparecia completamente. Espalhados
por todos os cantos, uma série infinita de artefatos e aparelhos mágicos se
amontoavam em caixões e suportes de metal gasto. Coleções de pergaminhos e
livros fechados com cadeados grossos e mal encarados, que rosnavam
ameaçadoramente quando alguém se aproximava, estavam espalhados por estantes
tortas, que mal se mantinham em pé. Uma bancada comprida continha uma coleção
de ingredientes e substâncias raras que causaria inveja ao seboso professor de
poções, Severo Snape. Um caldeirão fumegante jazia em um canto, sob um fogo
alaranjado e incipiente.
O olhar embasbacado de Harry percorreu
o lugar por alguns minutos, voltando novamente ao padrinho, que observava o
afilhado com um sorriso. Nesse instante, o outro ocupante da estranha casa
apareceu das sombras.
- Professor Moody! – exclamou o
garoto, fazendo menção em se aproximar, sendo seguro fortemente por Sirius.
- Espere, Harry – disse o padrinho,
retirando um pedaço de pergaminho e depositando rapidamente no chão, onde uma
tênue luz roxa formava um círculo, englobando os dois bruxos. O garoto não
conseguiu ler o que dizia o pedaço de couro, que desapareceu com um pequeno
estampido. A luz roxa esvaeceu por alguns instantes e sumiu.
- Pode ir – acenou Sirius, retirando a
capa e a jogando sob uma cadeira.
Harry olhou desconfiado para o chão
antes de dar um passo incerto em direção a Alastor Moody, que observava o
garoto com seu olho de vidro mágico, rodopiando sem parar.
- Olá, professor.
- Olá, Harry – grunhiu Moody, piscando
o olho normal com rapidez enquanto encarava o garoto – Proteção contra as artes
das trevas, garoto – acrescentou, ao notar a insistência do olhar de Harry para
onde eles haviam desaparatado.
Potter encarou o professor Moody,
obviamente sem entender.
- Sabe, Harry, não adianta manter uma
vigilância constante contra os Comensais da Morte se qualquer desgraçado pode
aparatar dentro da minha própria casa – resmungou Alastor, percebendo a
confusão do garoto.
- Eu achei que o Ministério
controlasse estas viagens – comentou Harry, se lembrando das palavras da
Hermione.
- O Ministério é formado, em sua
maioria, por um bando de bruxos gagás e desmiolados – resmungou Sirius, tomando
um grande gole de água em um copo tão sujo que provavelmente causaria náuseas à
Tia Petúnia.
- Um feitiço quidpro bem forte é capaz de confundir os fiscais do Ministério –
explicou Moody, avançando com dificuldades com sua perna de madeira até uma das
cadeiras. O garoto suspirou quando o professor lançou seu corpanzil sobre o
frágil assento, mas a madeira rangeu e não lascou.
- Minha casa é tão protegida contra
aparatamentos não autorizados quanto Hogwarts – continuou, com orgulho – Você
sabia que não é possível aparatar ou desaparatar na escola?
- Sim – respondeu Harry, com um
sorriso, se lembrando das milhares de vezes que a Mione havia comentado este
fato ao ler o descomunal livro Hogwarts,
uma história.
- Muito bem, garoto. Eu conjurei este
Círculo Exclusivatório para que vocês pudessem viajar para minha humilde
residência.
- Círculo Exclusivatório? – perguntou
Harry, sem entender.
- É um círculo de confiança – disse
Sirius, se intrometendo entre dois grandes bocejos.
Como o garoto continuava com a
expressão de quem não estava entendendo, Moody o chamou com um aceno, enquanto
massageava o toco da perna dura.
- Um Círculo Exclusivatório só permite
que bruxos autorizados aparatem dentro de seus domínios. Quem não tiver o
pergaminho com uma concordância explícita do bruxo que conjurou o círculo é
enviado de volta de forma rápida e muito dolorida – resmungou Moody, lançando
um olhar bastante significativo para o garoto, que engoliu em seco. Ele
conhecia suficientemente o excêntrico e desconfiado Olho-Tonto Moody para
imaginar o tipo de penalização que um incauto e desavisado bruxo sofreria ao
tentar invadir seus domínios.
- Bom, espero que goste do que vê –
concluiu Moody, puxando um copo de café com a varinha – Seja bem vindo a minha
casa forte, sua residência pelos próximos dias.
- É bastante... interessante –
respondeu Harry, que na verdade não sabia bem o que achar da fortaleza contra
os bruxos das trevas que Olho-Tonto transformara seu porão. Tentou parecer simpático
com um sorriso incerto, mas não soube se foi muito bem sucedido. Moody mantinha
seu olho mágico grudado no garoto enquanto Sirius escondia um sorriso debochado
entre bocejos.
Harry aguardou alguns momentos,
esfregando as mãos, enquanto Alastor tomava seu café e Sirius se recostava em
um canto, praticamente dormindo em pé.
- Sirius, professor Moody – disse
Harry, olhando desconfiado para o teto de madeira, subitamente temeroso que
alguém pudesse ouvi-los – O que eu estou fazendo aqui? Onde está Dumbledore? E
Voldemort? – disparou o garoto, soltando em um verdadeiro vendaval todas as
perguntas que o inquietavam durante as férias de verão.
- Achei que nunca fosse perguntar –
latiu Sirius, erguendo uma sobrancelha.
- Dumbledore é o motivo pelo qual você
está aqui – explicou Moody, tirando o olho mágico e o limpando com um pano
manchado.
- Ele está bem? – insistiu Harry,
sentindo uma estranha sensação lhe gelando o estômago.
- Não se preocupe, garoto. Dumbledore
está bem.
- Alvo está preso, Alastor – resmungou
Sirius, subitamente mal humorado.
- Dumbledore está em Azkaban?! –
gritou Harry, levando subitamente as mãos na boca e olhando novamente para o
teto, amaldiçoando a própria burrice.
- Não, não garoto. Nem Cornélio Fudge
ousaria tanto – resmungou Olho-Tonto, tomando mais um gole do seu café e
ignorando as apreensões do garoto quanto aos seus vizinhos – Ele está mantido
sob custódia no próprio ministério.
- Porque? – insistiu Harry, em um
misto de alívio e preocupação.
- Voldemort – sibilou Sirius, entre os
dentes.
Harry encarou o padrinho, sem
entender.
- Dumbledore estava preocupado. O
Mestre das Trevas recuperara seu antigo poder e o Ministério se recusava a
acreditar no retorno dos Comensais da Morte.
O garoto balançou a cabeça em concordância.
Ele estivera sentindo os mesmos receios durante seu exílio do mundo mágico na
casa dos Dursley.
- Depois de tomar providências para
combater as forças das trevas, Alvo achou que era sua obrigação avisar a
comunidade bruxa – continuou Moody, lançando um olhar significativo para o
rapaz, que se lembrou da última conversa que tivera com o professor Dumbledore
depois de lhe contar do retorno de Voldemort no último ano. O diretor convocara
todos os seus amigos e confidentes para combater o mestre das trevas depois que
Cornélio escarnecera de seus avisos.
- Muitas das mortes de bruxos e trouxas
ocorreram quando Voldemort ainda buscava se consolidar no poder – interviu
Sirius, as sobrancelhas grossas formando uma linha quase contínua, sinal claro
que seu padrinho estava muito preocupado.
-
Alvo temia que o massacre reiniciasse sem que os bruxos comuns estivessem
preparados para se defender. A vigilância de seus próprios lares não tem sido
uma constante preocupação entre a comunidade bruxa – serrilhou Moody entre os
dentes – Eu sempre insisti para que Dumbledore fosse mais duro com os alunos de
Hogwarts! Contudo... – ainda resmungou, dando de ombros.
-
Acho que Dumbledore sempre fez o que achava melhor – retorquiu Sirius, com um
leve toque de aborrecimento na voz.
-
Esse sempre foi o jeito dele, sem dúvida – sibilou Moody, largando a caneca de
café e voltando a esfregar a perna amputada com força, uma careta de dor
trespassando sua face.
-
E o que aconteceu?
-
Quando Alvo insistiu em suas declarações e ameaçou chamar o Profeta Diário,
Cornélio se sentiu acuado – continuou Sirius, bufando levemente.
-
O desgraçado mandou prender Dumbledore sobre uma acusação ridícula de desrespeito a ordem e a paz pública –
ruminou Moody, piscando sem parar.
-
Então, ele continua preso?
-
Tecnicamente, Harry, ele está sob custódia até que a investigação termine e o
julgamento ocorra – observou Sirius, erguendo uma sobrancelha.
-
Vai haver um julgamento?! – insistiu o garoto, erguendo as sobrancelhas e
sentido uma leve taquicardia no peito.
-
Não se preocupe, garoto – resmungou Moody, levantando a perna de pau até uma
outra cadeira e a depositando com um grande estrondo – As acusações são
ridículas e Cornélio sabe disso. O que ele quer é ganhar tempo.
-
Não tenho certeza se entendi...
-
Compreenda, Harry, que Dumbledore tem se tornado... como posso dizer... uma
pedra no sapato de Fudge – disse Sirius, com a voz desagradável.
-
Uma pedra bem grande e incômoda – disse Moody em uma careta que o garoto achou que
fosse a forma como o professor conseguia rir.
-
Enquanto Dumbledore estivesse na cadeira mais alta de Hogwarts, a mística da
escola o suportaria. Qualquer campanha difamatória não arranharia a imagem de
Alvo perante a comunidade – continuou Sirius, em um latido indiferente.
-
Mas afastado da escola, mesmo que por uma acusação menor... – sugeriu Moody,
girando velozmente o olho mágico até encarar Harry.
-
Mas ele vai voltar, não vai? – perguntou Potter, se lembrando com nítida
vivacidade os dias terríveis por que passara na escola quando Dumbledore fora
afastado durante seu segundo ano em Hogwarts.
-
Infelizmente, a morte trágica do filho de Diggory não contribuiu muito para
melhorar a imagem de Alvo – disse Sirius, com pesar, jogando o corpo com
estrondo em uma cadeira velha.
-
Mas Dumbledore não teve nada a ver com isso. Foi Pettigrew que matou Cedrico! –
exclamou, a injustiça das palavras do padrinho lha atingindo como um dardo
incandescente.
- Não diga este nome na minha
presença! – rugiu Sirius, em um latido assustador. Por causa de
Pedro Pettigrew, Black ainda vivia como um proscrito e, de quebra, ainda
ajudara Voldemort a retornar dos mortos. Sirius possuía um ódio mortal do
ex-colega, alimentado de forma contínua nos longos anos em que estivera preso
em Azkaban.
-
Nós sabemos toda a história, garoto – resmungou Moody, sem se importar com o
acesso de raiva de Black – No entanto, para o Ministério a morte de Cedrico foi
um acidente. E um acidente que ocorreu
dentro da escola – completou ele, olhando significativamente para Harry.
-
E o diretor da escola... – começou Potter, finalmente compreendendo.
-
...foi indiretamente responsabilizado, mesmo que a família Diggory não tenha
requerido uma acusação formal. E, pode apostar, garoto, Fudge tentou de tudo
para que Amos acusasse Dumbledore. Eu vi a frustração nos olhos do ministro
quando o Sr. Diggory o expulsou da sua casa com as mãos vazias.
-
Mas então... – começou Harry, com uma ponta de esperança na voz.
-
Mesmo sem a acusação formal... – interrompeu Sirius com um aceno de mão -..., a
desconfiança sobre os métodos de Dumbledore já estava firmemente plantada na
comunidade. Cornélio inventou uma desculpa qualquer para que Alvo fosse detido.
-
Desta forma, o Conselho Escolar fora obrigatoriamente chamado para avaliar a
situação. E a história da morte de Diggory fora repetida a exaustão para os
conselheiros – concluiu Moody, desgostoso.
-
Mas o julgamento... – insistiu Harry, franzindo o cenho.
-
O julgamento não interessa! – esbravejou Sirius, batendo com o punho na mesa –
Dumbledore foi demitido!
Harry
segurou a respiração, o grito do padrinho o atingindo como uma bofetada.
Dumbledore demitido! A única coisa que mantivera Voldemort longe de Hogwarts
era a presença certa e harmonizadora do diretor da escola. Com Dumbledore fora
da escola, o Mestre das Trevas invadiria aquele lugar quando ele bem quisesse.
-
E tem mais – resmungou Moody, encarando mais uma vez Harry, que sentiu seu
sangue gelar – Em protesto, todos os professores de Hogwarts entregaram seus cargos,
tentando pressionar Cornélio a não aceitar o pedido de demissão do Conselho da
Escola.
-
Então... – disse Harry, engolindo em seco com a pequena centelha de esperança
que se apagou ao ver os olhos frios do padrinho.
-
O tiro saiu pela culatra. Fudge aproveitou a deixa e demitiu a todos, se
livrando do que ele chamava de influência
de Dumbledore.
Agora
Harry sentiu suas pernas balançarem. Os olhos ficaram pesados e, por alguns
instantes, tudo se tornou turvo e desfocado. Sirius correu até o afilhado, mas
este já se recuperara.
-
Sente aqui, tome um copo de água – ofereceu Black, com um sorriso amarelo.
Harry
tomou o assento mecanicamente e forçou um gole de uma água rançosa para dentro
da garganta ressequida.
-
A escola fechou? – ainda teve forças para perguntar, encarando Moody.
-
Antes fosse... – rosnou Olho-Tonto, batendo com a bengala no chão – O Conselho
já escolheu um novo diretor.
-
Quem? – perguntou, temendo a resposta que veio em um rosnado raivoso de Sirius.
- Lúcio
Malfoy.
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