Capítulo 01 – Fuga da Rua dos Alfeneiros n.4
Um rapaz magricela e entediado mirava
o teto na Rua dos Alfeneiros, n. 4, Little Whinging, Londres, enquanto a tarde
modorrenta findava lá fora, o sol finalmente dando lugar ao abraço sombrio da
noite, enquanto as estrelas apareciam pipocando debilmente ao fim do
crepúsculo. O garoto mordeu os lábios mais uma vez, sentindo os dentes
apertarem as gengivas até que um pequeno filete de sangue vermelho escorreu
pela boca, seguido por uma imprecação em voz baixa. Estancando o ferimento com
as costas da mão, Harry Potter seguiu emburrado até um minúsculo espelho de
porta, rachado e bolorento, que os Dursley lhe presenteara no seu último
aniversário. Abrindo a boca, a dor retornou em uma careta medonha, enquanto o
rapaz examinava o ferimento. Os olhos verdes, semicerrados, quase desapareciam
atrás dos óculos redondos e da franja negra que teimava em tapar sua visão.
Vestindo roupas desengonçadas, grandes demais para seu tamanho, o garoto limpou
novamente o sangue que continuava a escorrer, bufando de raiva e frustração.
Desanimado, voltou para sua cama,
desabando sob os lençóis desarrumados. Seus sentimentos estavam tão difusos
quanto os seus cabelos bagunçados e o tédio das últimas semanas. Como único
garoto bruxo das vizinhanças, Harry logo se tornara um paria em meio da
sociedade terrivelmente normal das redondezas. Desde a noite fatídica, há cinco
anos atrás, quando um certo meio gigante arrombara a porta dos seus tios e lhe
dera a aterradora notícia de que o rapaz era, na verdade, um bruxo, sua vida
infeliz virara de cabeça para baixo. Em pouco tempo, o garoto franzino e tímido
chegara a Escola de Magia e Bruxaria Hogwarts, onde a história de sua vida fora
descortinada em sua frente, as vezes de forma bem dolorosa. Os seus pais,
Lílian e Tiago, haviam perdido a vida confrontando um bruxo maligno, Lorde
Voldemort, que tentara matar o próprio garoto, quando este ainda era um bebê.
Protegido por um feitiço de amor de sua mãe, o garoto sobreviveu e, desde
então, fora morar com seus tios trouxas, termo comumente utilizado para os que
não possuem poderes mágicos. Ao ingressar novamente na vida dos bruxos, o
pequeno garoto descobrira que se tornara famoso. A derrota do líder das hostes
das trevas correra o mundo e sua façanha, mesmo que acidental, se tornara
lendária.
Infelizmente, Voldemort não morrera e,
no último ano, ele finalmente conseguira recuperar seu corpo, chamando
novamente para si os seus seguidores sanguinários, os Comensais da Morte.
Cedrico Diggory, um rapaz quintanista de Hogwarts, morrera pelas mãos de Pedro
Pettigrew. Harry assistira tudo e a cena do assassinato do colega ainda lhe
queimava a mente, atormentando seus sonhos. No entanto, o ressurgimento do
bruxo mais maligno que já existiu não teve testemunhas, além do próprio Harry.
O Ministro da Magia, Cornélio Fudge, se recusara a acreditar na palavra do
garoto, o que ainda fazia ferver o sangue do pequeno bruxo.
Atormentado com o assassinato do
colega e desiludido com o Ministério da Magia, o retorno para a casa dos
Dursley lhe pareceu duas vezes mais penoso no último ano. Sem saber o que se
passava pela cabeça do rapaz, os seus tios lhe trataram como habitualmente, o
que, no caso do Tio Valter e da Tia Petúnia, se resumia a ignorar soberbamente
o rapaz o maior tempo possível. Dudley, Duda ou Dudão, primo de Harry, atingira o tamanho descomunal de um elefante
em miniatura. No entanto, assustado com as últimas vezes em que encontrar um
bruxo – já tivera um rabo de porco preso nos fundilhos e a língua espichada em
quase dois metros – o garoto resolvera aderir a campanha dos pais e fingir que
o primo não existia. Considerando que Harry tinha espasmos só de pensar em
conversar com seus tios sobre os problemas que o atormentavam – os Dursley já
haviam deixado bem claro, em inúmeras vezes, que qualquer menção as atividades
escolares do garoto estavam absolutamente proibidas na sua casa – a falta de
consideração dos seus tios era considerado quase uma benção pelo garoto.
Deixado em paz, ele podia pensar e refletir sobre o que acontecera e,
principalmente, como ele poderia combater o mestre das trevas.
A idéia de perseguir Voldemort não lhe
saíra da cabeça nas últimas semanas. Depois de constatar que o Ministério da
Magia realmente não mexeria uma palha nesta direção – o Profeta Diário, o
jornal dos bruxos, não trouxera uma linha sequer sobre os acontecimentos na
final do Torneio Tribruxo, limitando-se a lamentar a morte acidental de um dos
competidores -, o garoto passara da frustração e raiva para a determinação.
Voldemort havia matado seus pais. Por causa dele e dos seus seguidores, Neville
Longbottom, um menino gorducho e tímido de sua escola, tivera sua infância
destruída ao presenciar a tortura de sua mãe e de seu pai, que estavam
internados em definitivo no Hospital St. Mungus para Doenças e Acidentes
Mágicos. Inúmeras outras famílias haviam sido separadas, entes queridos estavam
mortos. Mesmo os trouxas, que não tinham a mínima idéia da existência do mundo
dos bruxos, sofreram nas mãos dos Comensais da Morte, que os torturavam e
matavam por prazer. No entanto, a raiva lhe subia a cabeça ao se lembrar da
prisão de Sirius Black, seu padrinho, acusado injustamente de matar treze
pessoas. Mesmo sabendo a verdade – Pedro Pettigrew havia assassinado os trouxas
e se fingido de morto -, Harry não conseguira provar sua história durante o
terceiro ano em Hogwarts. Mais uma vez, o Ministério da Magia fizera ouvidos
moucos a suas reclamações e o padrinho continuava a viver como um refugiado,
transfigurado em um cão vagabundo e comendo ratos em cavernas para sobreviver.
Todas aquelas injustiças atiçaram o
sangue juvenil do garoto. Ele trocara algumas poucas palavras com seus grandes
amigos em Hogwarts, Rony Weasley e Hermione Granger, mas não quisera colocar no
papel os seus planos – mesmo porque, suas idéias estavam longe de alcançar um
senso prático. A única certeza em seu coração estava na necessidade de fazer
alguma coisa, qualquer coisa que
ajudasse na derrocada do bruxo que trouxera tanta dor e desespero.
No entanto, a falta de informações e a
aparente imobilidade do Mestre das Trevas lhe trazia uma inquietação ainda
maior.
- O que Voldemort está esperando?
– pensava, remoendo possibilidades e odiando aquela espera enfadonha.
Sentindo
tão desejado quanto um besouro em sua própria casa, o garoto praticamente se
trancara no seu quarto durante todas as férias, acumulando um nível incrível de
energia que precisava ser gasta de algum modo. E o rapaz canalizara toda sua
frustração para um único pensamento: Voldemort. Ele precisava ser detido, a
qualquer custo.
Harry
só não sabia como...
Mesmo
remoendo estes pensamentos sombrios, o garoto ainda encontrava motivos para
sorrir. Seu décimo quinto aniversário havia sido lembrado pelos seus amigos.
Hermione lhe mandara uma veste completa dos DragonFlys,
um time de Quadribol do País de Gales. Rony devia ter raspado sua pequena
poupança para lhe presentear com um tabuleiro de Xadrez de Bruxo. Hagrid
enviara dois enormes bolos fumegantes, carregados por quatro exaustas corujas
das torres, que quase haviam desmaiado para realizar a entrega.
- Bolos de dragão! Espero que
goste, é a minha receita favorita! – dizia o
bilhete, escrito na caligrafia garunchada do Guardião das Chaves e das Terras
de Hogwarts.
- Só podia mesmo – resmungara Harry, entre
risos, enquanto fugia de uma labareda mais forte. O garoto tivera um trabalhão
com os tais doces. Além de esfumaçar como um charuto velho, eles cuspiam
pequenas baforadas de fogo e teimavam em correr e guinchar pelo quarto cada vez
que o garoto se aproximava com uma colher. Harry perdera a conta das vezes que
o Tio Dursley subira as escadas correndo, esbaforido para saber o que diabos
fazia tanto barulho. Sem querer complicar ainda mais a sua instável relação com
os tios, o garoto finalmente desistira e trancara os bolos em seu malão,
deixando para se preocupar depois como contaria para o amigo que não conseguira
provar os doces.
Além
dos presentes, a única coisa que lhe trazia algum ânimo era a folhinha do
calendário, que o garoto arranjara recortando de um jornal velho que o tio
jogara fora. Meio amassada e já amarelada pelo uso, ela marcava inexoravelmente
a passagem do tempo e agora, só dois quadradinhos ainda restavam até o embarque
para Hogwarts. A mistura do tédio inebriante dos últimos dias com a expectativa
de finalmente poder se livrar dos Dursley, deixara os nervos do garoto em
frangalhos.
Depois
de verificar pela milésima vez que a folha do calendário estava correta – será que eu não esqueci de marcar um dia? -,
Harry se aproximou da porta e a abriu lentamente, deixando uma pequena
fresta entreaberta. O garoto sabia que a noite já avançava e, a qualquer
momento, o Tio Dursley o chamaria para jantar. Desde que fizera o longo trajeto
entre a Estação King’s Cross e a Rua Alfeneiros, n. 4, o seu tio se esforçara
para se aproximar o mínimo possível do garoto. Nos últimos dias, adquirira como
hábito chamar o rapaz para as refeições em um tom de voz extremamente baixo,
torcendo para que o garoto não ouvisse, o que aconteceu uma única vez. Desconfiado
pela demora do jantar, há algumas noites, Harry desceu pé ante pé pelas
escadas, entrando na sala de refeições quando a Tia Petúnia já retirava os
pratos.
Antes
que pudesse perguntar qualquer coisa, um sorridente Tio Valter vociferou que
ele tinha mais o que fazer do que ficar gritando várias vezes no pé da escada
até que o sobrinho mal educado descesse. Duda quase teve um ataque de tanto
rir, enquanto a Tia Petúnia exibia um discreto sorriso em seus lábios finos,
emoldurando a cara de cavalo.
Harry
engoliu em seco. Sabia que não adiantava reclamar que não ouvira nada. Dando de
ombros, voltou para o quarto com o ar mais digno que conseguiu. Lá dentro,
extravasou sua frustração socando, silenciosamente, a cama até cansar. No
entanto, o garoto estava acostumado com as peças de Fred e Weasley, os
irrequietos irmãos gêmeos de Rony. Sem dar o braço a torcer, passara a vigiar
os horários do almoço e da janta, mantendo os ouvidos abertos. Tio Valter
tentou trocar alguns horários, adiantando ou atrasando as refeições, mas não
conseguira lograr novamente o garoto, que se sentava satisfeito na mesa
enquanto recebia olhares indecisos do tio e furiosos do primo.
Espichando
o pescoço para fora, conseguiu ver as horas no carrilhão que enfeitava o corredor.
Eram quase sete e trinta, o horário habitual para o jantar, antes das
tentativas frustradas dos Dursley em confundi-lo. Antes que pudesse voltar para
o quarto, o Tio Valter aparecera na escada, pronto para chamá-lo com um
sussurro que não acordaria um bebê. Os olhares do tio e do sobrinho se
cruzaram. Apertando os olhos como se pudesse esmagá-lo, o Tio Valter retornou
para a cozinha, sem dizer uma única palavra.
Harry
sorriu consigo mesmo e desceu. Havia vencido mais uma batalha.
***
A atmosfera no jantar dos Dursley
continuava tão ruim quanto no dia anterior e, provavelmente, tão ruim quanto no
próximo dia. A única coisa digna de nota foi o ar repugnante da Tia Petúnia,
que passou do lábio cortado de Harry para suas mãos sujas de sangue seco, obviamente
preocupada que o rapaz contaminasse sua cozinha impecavelmente limpa. Como era
de esperar, ela não teceu nenhum comentário sobre o assunto, observando com o
canto do olho o garoto se lavar na pia. A simples idéia de perguntar sobre o
estado de saúde de seu sobrinho jamais passaria pela cabeça da tia.
Enquanto
Harry se sentava, Tio Valter se concentrava no noticiário da televisão,
comentando alguma coisa com a Tia Petúnia, que fingia entender a mistura de
mastigar e imprecações que o seu marido presenteava a todos os presentes. Duda,
que continuava no regime iniciado no ano anterior, devorava rapidamente sua
minúscula refeição e, aproveitando que seus pais não lhe davam a mínima
atenção, contrabandeava pedaços de bolos e tortas para a boca, arrancados dos
bolsos com as mãos emporcalhadas. Harry já presenciara aquela cena repugnante
de gula compulsiva, mas nunca se intrometera no assunto. O seu primo lhe
lançava olhares assassinos quando ele percebia que o garoto o observava. Como
Potter tinha certeza absoluta que ele seria culpado pela quebra de regime do
primo, ele preferia ignorar as tentativas insanas do garoto em aumentar o seu
peso corporal, o que já provocara a quebra de duas cadeiras na sala de jantar –
Harry estava sentado em uma destas cadeiras, cuja perna fora toscamente
consertada com um arame; o garoto passava o jantar inteiro colocando o peso na
direção oposta, torcendo para não desabar.
Assim que o jantar terminou, o garoto
levou os talheres até a pia. Tia Petúnia, que possuía uma mania terrível por
limpeza, não admitia que ninguém lhe assistisse neste trabalho. Depois de levar
o lixo para fora, Harry retornou em passos curtos até o quarto, fechando
silenciosamente a porta atrás de si. Agora, teria mais algumas horas de tédio
até a madrugada.
Horas mais tarde, o último Dursley se
recolheu – seu primo Duda, depois da terceira tentativa do Tio Valter em
mandá-lo dormir, finalmente levara seu corpanzil até o quarto vizinho de Harry.
O garoto esperou ainda quase meia hora antes de puxar os seus livros do buraco
no soalho. Proibido de fazer qualquer coisa anormal
durante as férias, esta era a única hora em que o garoto podia dar uma olhada
nos seus livros de Hogwarts, cujas figuras se mexiam e as fotos davam acenos e
desapareciam depois de alguns minutos, visitando os colegas e retornado ao seu
lugar original. O garoto lançou uma torrada que havia subtraído da mesa para
Edwiges, sua bela e inteligente coruja branca e, enquanto ela mordia,
agradecida, o petisco, o garoto estudava as manobras radicais do apanhador da
seleção de quadribol da Grã-Bretanha, que fazia um vôo rasante para agarrar o
pomo no último segundo antes de se esborrachar no chão, dando, mesmo
desacordado, a vitória para a sua equipe. Harry franziu levemente o cenho. Não
sabia se tinha tanto amor assim pela equipe de Grifinória. Numa hipótese de uma
final contra o time da Sonserina, ele até poderia pensar no caso ...
No entanto, seus devaneios foram
brutalmente interrompidos por um estampar seco no andar de baixo.
Harry se levantou prontamente, a
varinha em punho. Ele conhecia muito bem aquele estalido. Alguém acabara de
aparatar dentro da casa dos seus tios.
Sua respiração pesada era o único som
que ecoava na madrugada abafada sob o número quatro da Rua dos Alfeneiros.
Engolindo em seco, tentou acalmar seus nervos, temeroso que a batida
descontrolada do seu coração reverberasse no soalho de madeira, denunciando seu
medo. Seria um ladrão?
-
Porque um ladrão bruxo estaria roubando trouxas? – pensou Harry, que
desconhecia qualquer objeto de valor que os Dursley tivesse para o bruxo comum.
Era bastante óbvio que qualquer bruxo mediano pudesse entrar e sair de uma casa
trouxa, a hora que quisesse. No entanto, o Ministério da Magia mantinha
registros e fiscalizava com especial atenção quem aparatasse ou desaparatasse
em uma região trouxa. O garoto tinha certeza que Hermione havia lhe comentando
qualquer coisa a respeito sobre as normas rígidas do Ministério acerca das
relações entre bruxas e trouxas, principalmente em relação as suas
dependências.
- Mas
Voldemort não se importaria em quebrar uma regra do Ministério – sua
mente lhe avisou, acendendo novamente uma centelha de pânico, acalmada
brevemente pela lembrança de Dumbledore, o antiqüíssimo diretor de Hogwarts,
que lhe garantira que em sua própria casa, o Mestre das Trevas e seus
seguidores estavam impedidos de entrar.
Esta confusão de pensamentos e
sentimentos não durou mais do que alguns segundos, tempo mais que o suficiente
para que as costas de Harry banhassem em suor frio. Mordendo os lábios
novamente, o rapaz caminhou lentamente pelo quarto, sentindo seus músculo rijos
enquanto os pés descalços pisavam de leve nas tábuas frias.
O garoto encostou o ouvido na porta,
prendendo a respiração. O som era quase imperceptível, mas Harry podia jurar
que alguém subia pelas escadas, as vestes compridas roçando nos degraus
encerados. Ele apagou a luz da varinha e girou a maçaneta, odiando
terrivelmente o clique da fechadura,
que lhe pareceu absurdamente alto na quietude da noite. Enquanto entreabria a
porta, as dobradiças rangendo em espasmos secos, vislumbrou um vulto que já
atingia o segundo andar.
Potter apertou a varinha com tanta
força que temeu que ela se partisse entre seus dedos esbranquiçados. Tentando
se lembrar de todas as azarações que aprendera no ano passado – finalmente o Torneio TriBruxo lhe trazia
algo de positivo -, Harry empunhou a varinha e abriu a porta em um
rompante. Surpreendido, o vulto deu um passo para trás e tropeçou.
- Caramba! Quer me matar do coração? –
resmungou o homem, com a voz entrecortada e a mão no peito.
Harry reconheceria aquele som de
latido em qualquer lugar.
- Sirius?! – perguntou o garoto,
esquecendo de onde estava e acendendo a luz.
- Oi, Harry! – respondeu jovialmente o
seu padrinho, puxando o capuz que lhe escondia o rosto e exibindo um sorriso
incerto. Seu rosto estava menos magro do que a última vez que se encontraram –
Dumbledore havia escoltado Sirius para dentro de Hogwarts depois que Harry
confrontara Voldemort no final do ano passo -, mas as marcas dos anos de
solidão e desespero em Azkaban ainda demorariam muito para sair da face
encovada do bruxo. O bigode negro pendia desleixado pelo queixo quadrado e suas
vestes provavelmente haviam sido confeccionadas para outra pessoa, ligeiramente
menor.
- O que diabos o senhor está fazendo
aqui? – sibilou Harry, subitamente consciente que seu padrinho, provavelmente o
bruxo mais procurado de toda a Inglaterra, aparatara dentro da casa de um
trouxa que, a julgar pelo barulho que vinha do quarto dos fundos, estaria com
eles em questão de segundos.
- Não temos tempo para explicações,
Harry – disse Sirius, apertando a mão do garoto, mesmo que este não tivesse
estendido seu braço – Dumbledore me prometeu somente alguns minutos. Temos que
ir logo!
- Dumbledore? Mas o que...
- Depois, Harry – cortou Sirius,
olhando duro para o garoto – Você quer se despedir dos seus tios?
- Meus tios?! Não... Quer dizer...
- Ótimo! Menos uma coisa para você se
preocupar! – exclamou o bruxo, entrando no quarto do garoto e inspecionando
rapidamente o local.
- É aqui que você dorme, então?! –
comentou, com a voz duvidosa – Nada mal, para um trouxa... – resmungou entre os
dentes.
Harry, que ainda não se recuperara do susto,
acompanhou o olhar atento do padrinho com a expressão que misturava alívio com
um terror absoluto. Se o Ministério capturasse Sirius por sua culpa, ele nunca
poderia se perdoar.
- Não há como aparatarmos com todas
estas coisas – resmungou o bruxo, esticando a cabeça enquanto examinava a pilha
de livros e vestes que se encontravam espalhadas pelo quarto, a vassoura de
corrida Firebolt escondida dentro do
armário e a gaiola dourada da Edwiges, grande e imponente, presa com uma fina
corrente no canto leste do aposento.
- Aparatar? – conseguiu perguntar
Harry, trocando a preocupação pelo espanto genuíno. Em dois dias ele deveria
pegar o Expresso para Hogwarts. Onde seu padrinho tencionava levá-lo?
Antes que Sirius tivesse a chance de
responder, o corpulento e atarracado Tio Valter invadira o quarto de Harry com
uma expressão zangada. De certo, o patriarca da família Dursley imaginava
encontrar seu sobrinho fazendo alguma mal-criação. Nada no mundo lhe prepararia
para o choque de encontrar Sirius Black, em roupas esfarrapadas e com a
expressão bruta lhe encarando de dentro do quarto.
- É ele... – conseguiu balbuciar,
enquanto se agarrava no vão da porta, a força subitamente lhe escorrendo pelas
pernas. Harry, que já vira o Tio Valter na presença de bruxos antes, estranhou
a atitude do tio até que a compreensão lhe chegou como um raio. Na ânsia em
capturar o único bruxo que fugira de Azkaban, o Ministério da Magia divulgara
para a polícia trouxa o retrato falado de Sirius Black, tentando conseguir
informações com a comunidade não mágica em geral. Harry, mesmo sabendo a
verdade sobre a inocência do padrinho, não comentara este fato para os tios. Na
sua concepção, ter um parente perigoso poderia ser muito útil para a
convivência forçada a que ele era obrigado a se submeter todos os anos.
- Olá, Valter – resmungou Black, o
ódio trespassado pelos olhos negros. Mesmo sem conviver com o afilhado nos
últimos anos, Sirius tinha uma idéia bastante clara do tipo de tratamento que
era dispensado pelos tutores legais de Harry.
- O que você quer? – perguntou o Sr.
Dursley, a voz praticamente sumindo.
- Com você, trouxa... – sibilou, acentuando a palavra com desprezo – ... eu não
quero nada. Meu assunto é com Harry.
- Esta é a minha casa – protestou
Valter, segurando a Tia Petúnia que se aproximara para saber o que estava
acontecendo. A visão do bruxo assassino na sua casa fizera a pobre mulher
desmaiar nos braços rechonchudos do marido.
- Não se preocupe. Nós já vamos nos
retirar dela – completou Black, dando de ombros e se virando para Harry,
ignorando completamente os Dursley.
- Alguém virá buscar suas coisas
depois. Traga somente sua varinha – completou, consultando rapidamente um
bonito relógio prata de bolso – Nós não temos muito tempo!
Harry olhou rapidamente para o
pesadelo que constituía a figura triste dos seus tios, praticamente desabando
sob sua porta. A menção do seu padrinho de que outro bruxo retornaria nos
próximos dias destruiu completamente com o que restava dos nervos do Tio
Valter. No entanto, ao notar o semblante preocupado de Sirius e se lembrando
que o padrinho mencionara Dumbledore, o garoto resolveu cooperar sem mais
delongas. Atirando uma veste da escola desajeitadamente sob os ombros e
agarrando sua varinha, correu para o lado do padrinho.
- Mande sua coruja para alguém tomar
conta – resmungou Sirius, olhando de soslaio para os Dursley – Eu não confio
neles...
Harry correu até a gaiola e retirou
Edwiges de seu poleiro. A coruja estava completamente desperta, olhando curiosa
para toda aquela movimentação em plena madrugada.
- Vai, Edwiges. Voe até o Rony e fique
por lá, ok? – disse rapidamente Harry, praticamente empurrando a ave pela
janela. A coruja lhe soltou um pio de censura por ter sido despachada sem
nenhuma mensagem para entregar antes de desaparecer no céu noturno de Londres.
- É melhor trancar também todas suas
coisas – ainda pediu Sirius, consultando novamente o relógio.
Sem pestanejar, o garoto empurrou os
livros, vestes, sua Firebolt e todos os seus pertences mágicos para dentro do
grande malão de Hogwarts. Sirius se aproximou, fechando o cadeado e lançando um
feitiço.
- Cannis
lorromora! – sibilou, enquanto um jato vermelho atingia o malão, provocando
um leve tremor no quarto. A caixa de couro e madeira subitamente adquirira uma
grande bocarra, onde dentes caninos estavam a mostras, compridos e ameaçadores.
- Pronto! Agora, somente um bruxo
poderá abri-lo – disse, sorrindo e olhando com desdém para os Dursley – Vamos,
Harry, está na hora de ir.
O garoto lançou um olhar espantado
para seu antigo malão antes de agarrar as vestes do padrinho, se preparando
para desaparatar. Ele nunca tinha tentado isso com ninguém e não sabia qual
seria o efeito, mas os comentários de Hermione sobre o assunto – que já havia
lido tudo o que poderia existir sobre
este tipo de locomoção – não eram nada animadores.
- Agarre meu braço, Harry – disse
Sirius, apontando a varinha para a própria cabeça. Antes de sumir, ainda se
dirigiu para as duas figuras prostradas e humilhadas no chão do quarto.
- Seu eu fosse vocês, não me
aproximaria do malão. Bagagens transfiguradas costumam ser muito temperamentais
– disse, piscando um olho enquanto passava uma mão sobre a mala-cachorro, que
latiu alto e rosnou.
A
última visão de Harry foi o choro descontrolado do Tio Valter, que carregava a
desacordada Tia Petúnia para o corredor. No outro instante, o garoto sentiu seu
estômago embrulhar e encolher, como se todo seu corpo estivesse desaparecendo
para dentro.