Capítulo
06 – A Surpresa de Madame Rosmerta
O sol vespertino descortinava um horizonte azul claro
nas charnecas vicejantes ao largo de Hogsmeade. Sapos
coaxavam tranqüilamente, anunciando o fim da madrugada fresca, enquanto
agarravam mamangavas com sua língua viscosa. Duas manticoras
escorregavam sua pele escamosa para as sombras do bosque, fugindo dos raios do
sol e escondendo as presas compridas sob a barba ruiva. Em pouco tempo, as
criaturas noturnas estavam todas recolhidas, escapando da luminosidade crescente,
dando lugar a pequenos esquilos, lagartos preguiçosos de sangue frio e um bando
de pássaros roks, de quatro asas e dentes
serrilhados. As aves haviam escolhido o antigo moinho da vila para construir
seus ninhos. Vivendo somente perto das comunidades bruxas, pois se alimentavam
exclusivamente de gnomos de jardim, os pássaros carniceiros eram considerados
de mau agouro e os bruxos e bruxas de bem não gostavam de sua presença. O velho
moinho, depois de se tornar um viveiro involuntário destas aves, se transformara
em um prédio proscrito da comunidade. Ninguém se aventurava nos seus domínios,
motivo pelo qual a atual ocupante se mudará para o interior da construção
abandonada.
Passando pelas tábuas enviesadas e mal pregadas,
pendendo frouxas da janela de madeira carcomida e apodrecida, um gato de listras cinzas e olhos amarelos saltou lépidamente para o chão de gramíneas altas e ervas daninhas
que infestavam o local. Com dois círculos levemente argênteos ao redor dos
olhos, aquele gato, decididamente, não era um animal comum. Caminhando decidido
pela trilha sinuosa que saía do velho moinho, o felino andou em linha reta até
descer a pequena colina onde estava, atingindo uma rua vicinal de Hogsmeade, sem se perturbar pelo caminho, ignorando
solenemente os dois ratos que correram assustados e um pintassilgo que chilreou
agudamente, voando para longe.
O gato parou ao lado de um casebre e olhou rapidamente
para os lados, como se procurasse alguém. O sol recém se levantara e a vila se
espreguiçava lentamente, aproveitando os últimos dias do verão. Mesmo assim, o
felino procurou avidamente por olhos furtivos a espreita, sem encontrar viva
alma. Satisfeito, ele abaixou a cabeça, em um momento de grande concentração.
Para qualquer trouxa que vagasse por aquela região, talvez o comportamento
estranho do gato fosse algo digno de nota, mas a grande maioria dos bruxos
reconheceria um companheiro em processo de transfiguração pessoal. Aumentando
subitamente de tamanho, os pêlos do felino diminuíram até sumir por completo, assim
como a cauda. Os olhos amarelos foram substituídos por duas íris cor de cobre,
finas e sérias. Óculos redondos surgiram magicamente no corpo adulto de uma
bruxa empertigada e já um pouco idosa, o chapéu pontudo negro combinando com as
vestes sóbrias e a expressão fechada. Os lábios estavam tão finos que pareciam
sumir na face encovada da Professora Minerva McGonagall,,
ou melhor, Ex-professora – pensou,
amargurada.
Limpando as vestes do orvalho matinal, a velha senhora
seguiu rapidamente seu caminho, não transparecendo por um segundo que estivesse
cansada ou que sentisse o peso da idade – afinal, ela já era professor de Hogwarts há quase quarenta anos e já poderia ser
considerada uma bruxa de meia idade. Atravessou o beco em que se transformara,
dobrou à direita no final da rua e seguiu até o final da viela, passando pelo
malfadado bar Cabeça de Javali. Dois bruxos bêbados dormiam sob o sopé da
porta, provavelmente escorraçados para fora pelo taciturno
dono do estabelecimento, o truculento mestre Aberforth Dumbledore.
A Sra.
McGonagall olhou com desprezo
para as duas figura patéticas, roncando alto sob o chão de madeira empoeirada,
fungando alto com impaciência. Obviamente, ela não considerava aquele um
comportamento exemplar, ainda mais para um bruxo que vivesse tão próximo da sua
Escola.
Dobrando
à esquerda, seguiu pela rua principal, passando rapidamente pelo Zonko’s, onde lançou outro olhar de reprovação, a Dedosmel e o Correio Bruxo. Apressando o passo, seguiu descendo
a rua até se encontrar na frente do Três Vassouras, o mais famoso bar de Hogsmeade, bastante conhecido e freqüentado pelos alunos e
professores de Hogwarts. Mesmo atravessando quase
toda rua principal, não encontrara ninguém nas imediações, com exceção de dois
cães vagabundos que fuçavam em uma lata de lixo. Indiferente ao horário
matutino, a Sra. McGonagall
bateu com força na porta do bar, o som ecoando pela manhã tranqüila com uma
certa impetuosidade.
Uma
janela a duas casas de distância se abriu e a professora notou que um bruxo careca
e de olhos grandes e amendoados metera a cabeçorra para fora. A Sra. McGonagall o reconheceu de
imediato, inspirando profundamente para controlar os nervos. Era Thomas Newyt, o bruxo mais fofoqueiro e mexeriqueiro de Hogsmeade e, provavelmente, de toda a Grã-Bretanha. Ela lhe
lançou uma olhar penetrante e, tão rapidamente como surgira, o velho
desaparecera, fechando a janela torta com um baque.
-
Hmpf! – fungou, batendo novamente na porta azul do
Três Vassouras. Logo após, ouviu o inconfundível barulho de uma grande tranca
sendo desaferrolhada. A porta abriu em um rompante.
-
Professora McGonagall?!! – exclamou Madame Rosmerta, a vistosa proprietária e administradora do bar.
-
Não tenho muito certeza quanto ao professora,
mas enfim... – resmungou a Sra. McGonagall,
que dispensou um convite para entrar, abrindo caminho pelo hall de entrada e
ingressando no salão vazio. Madame Rosmerta, ainda de
xale lhe cobrindo o pijama de seda oriental em tons avermelhados, fez um gesto
com a varinha e tirou duas cadeiras do alto de uma mesa.
A
Sra. McGonagall, que nunca
estivera no bar tão cedo, examinou com eficiência o tampo dos balcões limpos e
as mesas arrumadas. O lugar não estava tão asseado como o grande salão de Hogwarts, mas servia para a maioria da clientela que
freqüentava o lugar – imaginou, erguendo uma sobrancelha. Mais uma vez, a
lembrança da antiga escola lhe apertou o coração e ela sentiu um calafrio de
frio. Madame Rosmerta notou rapidamente o desconforto
da sua visita inesperada.
-
A senhora está bem? Quer um pouco de chá? – perguntou, oferecendo uma cadeira
para a professora e fazendo menção de lançar um feitiço em direção à cozinha.
-
Não, não, não... Eu estou bem! Não se preocupe, querida – disse a Sra. McGonagall, se recompondo e
olhando diretamente para a dona do estabelecimento enquanto tomava seu assento.
Depois de um breve momento de
silêncio, Madame Rosmerta resolveu facilitar as
coisas para uma das suas mais antigas freqüentadoras.
- Bom, Minerva, não posso dizer que
não esteja surpresa com sua visita – disse, colocando as mãos sob os joelhos e
abrindo um sorriso sincero.
Houve um novo silêncio. A Sra. McGonagall parecia procurar
as palavras certas.
- Julie, eu
preciso de um favor – disse, afinal, e era óbvio que a eficiente ex-professora
fazia um enorme esforço para admitir o fato.
Madame Rosmerta
ergueu uma sobrancelha. Ela sempre se dera muito bem com os professores de Hogwarts; afinal a escola estava a apenas alguns minutos de
caminha de Hogsmeade. No entanto, nunca fora íntimo
de nenhum deles, com exceção, talvez, de Dumbledore e
Hagrid. Mas os dois eram casos especiais. Dumbledore oferecera sua inestimável ajuda quando ela
passara por momentos realmente muito difíceis, há muito tempo atrás, e a bruxa
se tornara extremamente agradecida. E Hagrid... bem, Hagrid era alguém impossível de não gostar. Ótimo
freqüentador do estabelecimento, o ingênuo gigante e protetor da escola,
inúmeras vezes abrira seu coração para ela, encharcado de vários galões de
cerveja amanteigada.
Em relação a Sra.
McGonagall, ela sempre fora muito reservada e Madame Rosmerta desconfiava que esta aparente distância fizesse
parte de sua personalidade – anos atrás de uma mesa de bar a deixaram com uma
espécie de sexto sentido para estas coisas.
De qualquer forma, nunca se sentira ofendida com os modos secos da
professora. Obviamente, ela não conseguia esconder seu ar de surpresa ao
receber a visita da professora em horário tão inoportuno.
A Sra. McGonagall pareceu captar os pensamentos dela no ar.
- Eu sei que nós nunca fomos grandes
amigas, Julie – começou, no seu jeito duro e sincero.
- Deixe disso, Minerva – respondeu
prontamente, eliminando a perplexidade da expressão e examinando com atenção a
velha senhora.
A Sra. McGonagall abriu levemente a boca em um esgar que vagamente
lembrava uma salamandra enrugada tentando sorrir.
- Eu preciso de um emprego, Madame Rosmerta – disse, afinal, sustentando olhar absolutamente
abobalhado com que Julie lhe respondeu.
O queixo da administradora do Três
Vassouras atingiu os joelhos e voltou lentamente para o lugar, a cabeça dando
mil voltas pelo caminho. Subitamente, ela notou as roupas levemente
esfarrapadas da ex-professora e se lembrou das notícias espalhafatosas dos
últimos dias no Profeta Diário. Lentamente, a sua mente voltou a funcionar e
ela juntou os fatos, quase em um tranco.
- Oh, céus, Sra.
McGonagall... Se a senhora estiver precisando de
dinheiro, eu... – ofereceu ela, amaldiçoando em
silêncio a própria falta de tato.
- Não, Julie,
eu acho que você não me entendeu – cortou, agradecendo o oferecimento
espontâneo com um gesto – Hogwarts supriu todas as
minhas necessidades nos longos anos em que estive... a seus serviços –
completou, a amargura transparecendo em cada sílaba. Ela pigarreou antes de
continuar.
- Eu tenho uma boa quantia depositada
em Gringotes, minha cara – acrescentou, com um certo
desdém, como se tais preocupações mundanas não a afetassem. Madame Rosmerta a encarou, sem compreender.
- O que eu preciso... O que estou lhe pedindo,
Julie, é um emprego.
- Porque?
A professora encarou Madame Rosmerta. A sinceridade da mulher o surpreendera por um
minuto, mas ela já estava esperando esta pergunta. Ela não tinha certeza se
poderia confiar plenamente na voluptuosa administradora do Três Vassouras, mas
sabia que não poderia ocultar toda a verdade.
- Dumbledore
quer alguém aqui para vigiar seus alunos e... os novos
professores – disse, quase rosnando as últimas palavras.
- Oh! – exclamou Madame Rosmerta, levando a mão na boca em um espanto – Então...
ele não vai voltar... Minerva, ele vai para Azkaban?
– perguntou, nervosa.
- Não seja tola, Julie
– respondeu a Sra. McGonagall,
com uma certa rispidez que traiu o que deveria demonstrar uma absoluta
confiança – Fudge seria crucificado vivo se cometesse
um destino destes.
- Mas a escola...
- Vai ficar nas mãos dos Malfoy... por enquanto – rosnou, sentindo a fúria lhe
arrebentar as têmporas.
Madame Rosmerta
olhou diretamente para Minerva. Ela herdada o comando do bar dos seus pais há
vários anos e, como qualquer profissional da área, bruxa ou não, sabia quando
alguém precisava desabafar.
- Minerva, querida, se você precisa
conversar... sobre qualquer coisa, eu...
- Não se preocupe com isso, Julie – cortou a Sra. McGonagall, recuperando novamente o autocontrole, os olhos
frios e duros – E então? Posso contar com sua ajuda? Dumbledore
me garantiu que...
- Eu faria qualquer coisa por Dumbledore – respondeu Madame Rosmerta,
cortando as palavras da professora com um gesto, parecendo levemente magoada
com a insinuação – É claro que eu vou ajudar vocês e quaisquer outros bruxos
que lutem contra aquele... demônio – vociferou com raiva.
- Ótimo! – disse Minerva, suspirando
aliviada – Quando posso começar?
- O bar abre às onze horas. A senhora
precisa chegar perto das dez.
- Então... Nos vemos mais tarde, sim?
– disse a professora, dando o assunto como encerrado.
- A senhora tem onde ficar? Eu posso
lhe arranjar...
- Não se preocupe, Madame Rosmerta. Eu aluguei um... lugar adequado, aqui mesmo em Hogsmeade.
Julie acenou
com um sorriso, levemente aliviada. Há muito tempo não morava com ninguém e não
imaginava ter que dividir seus aposentos com alguém tão irascível quanto a
eficiente Minerva McGonagall.
- Até mais, Minerva – se despediu,
enquanto a ex-professora saia para a luz brilhante do sol matutino, os olhos
ardendo depois de passar um bom tempo dentro da penumbra do Três Vassouras.
Julie Rosmerta fechou a porta com um estalo, olhando para seu bar
que lhe pareceu duas vezes mais vazio agora. Nunca tivera alguém trabalhando
com ela, pois nunca precisara. E, tinha que admitir para si mesma, Minerva era
a última pessoa no mundo que ela convidaria para dirigir seu bar.
“Bem, na verdade, ela seria a penúltima
pessoa” - pensou, com um certo sarcasmo. Antes, certamente, estava o professor Snape, que provavelmente espantaria metade de sua freguesia
com seu ar de empáfia e seu jeito resmungão.
Mas ela devia sua vida à Dumbledore e, se o velho bruxo
estivesse certo – e ela nunca o vira errar uma única vez -, Voldemort
retornará e precisava ser detido.
“Aquele-que-não-deve-ser-nomeado acabou com minha vida uma
vez” – resmungou para si mesmo, fechando as mãos em uma garra. E ela não
deixaria que ele tivesse uma segunda chance.
<< Capítulo Anterior Próximo Capítulo>>