DEBRUÇADO NO BALCÃO, COMO UMA FIGURA TRISTE DE VAN GOGH


Sentei-me no banquinho mais perto da parede do fundo.

O movimento na rua já era lento, de carros e gentes, uma luz meio-meia entrava sem pedir permissão, e se juntava à lançada pelas lâmpadas que miravam a cara dos fregueses.

Veio a moça atender-me.

- Pois não?

Pelo sorriso, deveria estar trabalhando naquele dia há pouco tempo, não é possível que alguém nesses dias ainda guente sustentar na cara uma máscara dessas de boa-vontade por mais de alguns minutos, sem que se derreta com o vapor quente da asperidade das ruas, dos cachorros desempregados, das pessoas.

Sorri, meio forçado.

- Quanto é o café?

- Cinquenta.

Peguei as moedas do troco dô ônibus que estavam no bolso, contei-as, como se não soubesse quanto havia.

- Cinquenta?

Cinquenta, claro, todos os dias eu parava lá. Todos os dias em que eu passava por perto.

Ela achou que...

- Tem frio, resto do da manhã, é vinte e cinco.

- Dá um frio então. Duplo.

Café frio não é pra qualquer um. Tem que ter o estômago preparado pra, além de moer, ainda ter antes que esquentar as parcas refeições que por lá passam.

Eh, coisa ruim mesmo é não saber se se quer que o tempo passe ou congele.

Bebia devagar, escutava duas garotas conversando. Nada de interessante, como sempre.

Abri a carteira, olhei.

Chamei a menina que atende quando a gente chama, e que no mais fica é sentada olhando uma televisãozinha preto-e-branco do Paraguai presa no teto.

- E pão-com-manteiga, tem?

Fiquei contrariado nesta hora, pois ao invés de responder "sim" ou "não" ela deu logo o preço, como se dissesse: "Tem, mas você pode pagar?"

- Um e vinte. - ela disse.

E com manteiga estragada, é mais barato?

- Ela riu, e saiu.

Ó, mal-educada, mais uma vez não respondeu, onde estará o gerente desta budega?

Trouxe em um prato forrado com guardanapo.

- Cortesia da casa.

- Eu tenho dinheiro.

- Não precisa pagar. É meu lanche, não tou com fome. Quase nunca como.

Comecei a comer e quando estava na metade alumiei-me.

Chamei-a de repente, com um grito:

- Ei, ei!

Ela veio rápido.

- Pra beber vocês não ganham nada?


# # #

- Você está querendo o meu refrigerante? - ela disse "meu" assim: "meeeu", a mão apontando o dedo para o peito, como se um refrigerante fosse um vinho.

- Não, ia te oferecer um.


# # #

- Já tomei o meu. - ela respondeu. Disse "meu" assim: "meeeu", bem baixinho, quase engolindo a palavra, como se um refrigerante fosse um copo de água de torneira.

Olhou de relance para mim, desceu um pouco a vista, corou.

Mais tarde me disse que seu nome era Amanda.

Escrito por Fernando César, psiquiatra, 27 anos, Goiânia (GO). Leia mais em Dias Confusos.
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