Uma das personalidades mais marcantes da literatura do pós-guerra americana, este era um sujeito complexo que possuía hábitos constrangedores, um escritor poderoso e um poeta brilhante que apesar da resistência dos círculos literários tradicionais ganharia o mundo com suas palavras afiadas.

Henry Charles Bukovski, Jr. - 'Hank' - nasceu no dia 16 de Agosto de 1920, em Andernach, na Alemanha, filho de um funcionário americano e de uma nativa alemã, e veio ainda com dois anos de idade com a família para os Estados Unidos. Cresceu na pobreza em Los Angeles; seus pais eram pessoas difíceis e rigorosas que o castigavam frequentemente quando criança. Buk sentia-se como um estranho naquela casa, rejeitado por eles, e foi de certa forma a partir desta rejeição que começou a aprender um pouco mais sobre si mesmo.

Durante a adolescência, sentido-se envergonhado pela acne terrível que deformava seu rosto, ele refugiou-se na livraria local, onde passava longas horas de sossego. Desenvolvendo com a leitura uma percepção mais apurada da realidade ao seu redor, um sentimento de revolta contra o mundo passou a tomar conta dele, a idéia que persistiria em seus escritos posteriores - de que a sociedade era formada por pessoas estúpidas - e ele soube desde então que para sobreviver entre elas precisaria tirar forças do seu próprio isolamento. Começou a escrever ainda adolescente uma grande quantidade de histórias de ficção, enviando-as para revistas e tendo a maioria delas rejeitada, o que o acabou desencorajando. Tinha pensamentos suicidas e auto-destrutivos frequentes, outro tema que se tornaria constante em sua obra.

Em 1946 ele conheceu a mulher com a qual ficaria envolvido por quase uma década, Jane Cooney Baker. O relacionamento entre eles é narrado no filme Barfly, de 1987, produzido por Francis Ford Coppola (onde Mickey Roorke fez o papel do escritor e o próprio Hank faz uma ponta). Foi durante este relacionamento apaixonado e turbulento (ela bebia ainda mais do que ele e morreu de alcoolismo agudo) que Bukowski começou a escrever a poesia que o tornaria famoso nos anos 60. Depois de seu primeiro livro de poesias Flower, Fist and Bestial Wail, Bukowski passou a circular em todo o tipo de revistas underground da época. Aprendeu também a se utilizar do mito de 'bebedor durão e selvagem' como forma de se auto-promover, o que serviu para torná-lo conhecido por toda a América. Ainda que nunca tenha se relacionado diretamente com Jack Kerouac ou Allen Ginsberg, Bukowski é habitualmente considerado um poeta honorário da geração 'beat'.

Mas o que ele desejava acima de tudo era personificar uma reação aos poetas estabelecidos e aos seus eternos imitadores, e por isso recusava-se a abraçar uma estrutura formal em seus poemas. Dessa época podemos tirar conclusões pelos títulos de seus livros, como Confessions of a Man Insane Enough to Live with Beasts, de 1965, ou All the Assholes in the World are Mine, de 1966, e Days Run Away Like Wild Horses Over the Hills e Notes of a Dirty Old Man (Notas de um Velho Safado), de 1969. De 1958 até o início de 1970 Bukowski trabalhou como funcionário do correio, trabalho que ele odiava, e logo que o largou começou a escrever um romance chamado Post Office; o livro rapidamente entrou para a lista dos mais vendidos e deixou seu editor exultante. Hank, apesar de nunca ter assimilado as crenças de seu pai de que o sucesso dependia de riqueza material, percebeu que era apenas através da prosa que conseguiria dinheiro suficiente para se libertar definitivamente do correio.

Escreveu em grande quantidade durante toda a sua vida, no total mais de 55 livros de prosa e poesia, muitos deles publicados em minúsculas editoras com um pequeno número de cópias que já desapareceram. Foi traduzido para diversos países e fez mais sucesso na Europa do que nos EUA. Falava de conformidade, rebeldia e questões de classe enquanto passeava entre futilidades domésticas, música clássica, corridas de cavalo, vagabundos de rua e prostitutas, sempre se utilizando de uma linguagem simples e vigorosa. Em 1972 publicou o livro Erections, Exhibitions and General Tales of Ordinary Madness (editado no Brasil pela L&PM com o título de 'Fabulário Geral do Delírio Cotidiano'), seguido entre outros por Love is a Dog from Hell, de 1977, e Play the Piano Drunk Like a Percussion Instrument Until the Fingers Begin to Bleed a Bit, de 1979.

Nos livros Factotum (1975), e Ham on Rye, de 1982, Bukowski traça características autobiográficas através do alter-ego Henry Chinaski, contando sua infância, adolescência, a vida peculiar em Los Angeles, sua constante perambulação por empregos, e suas diversas mulheres. Mas até que ponto Buk era um verdadeiro 'outsider' ? Pergunta difícil de responder; deve-se admitir, entretanto, que nele se misturavam uma certa pretensão, dor genuína, medo, isolamento, humor, sadomasoquismo e auto-compaixão. Em 1991, o amigo Neeli Cherkovski publicou uma biografia em vida do autor chamada The Life of Charles Bukowski, contendo seus escritos e entrevistas, e na qual procurou explorar um pouco mais estes aspectos contraditórios.

Em 1983 Bukowski publicou em prosa Hot Water Music (Numa Fria, no Brasil) e Hollywood, em 1989, mas não abandonou nunca sua vasta produção de poesias, inclusive realizando leituras de seus textos em universidades, e culminando com Last Night of Earth Poems de 1992. Bukowski faleceu em São Pedro, na Califórnia, aos 73 anos. Seu último trabalho foi uma bizarra novela policial chamada Pulp (1994) , que ele terminou poucos meses antes de morrer. Após a sua morte a esposa Linda ainda publicou uma coletâna de crônicas retirada de seu diário nos anos precedentes, de 1991 a 1993, chamada The Captain is out to lunch and the sailors taken over the ship. No ano 2000 outra biografia de Bukowski foi publicada, desta vez por Howard Sounes, reunindo entrevistas com amigos, conhecidos e familiares do escritor. Foi lançado no Brasil pela Conrad Editora.



Galeria Charles Bukowski
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