— Pedro,
você acredita em se apaixonar enquanto já se
está apaixonada?
— Coméquié?
— Isso é possível? Você gostar de alguém e
de repente do nada surgir alguém que tira
seu chão?
— Você está falando do DJ...... [tédio]
— Hum-hum.
— Você está apaixonada por ele?
— Não. Não sei bem o que sinto agora. Tô só
perguntando se isso existe...
— É meio esquisito né.
— Eu costumava acreditar que se você vê algo
além do permitido num chifre é porque seu namoro
não vai bem...
— É, faz mais sentido do que a maluquice que você falou
antes.
— Você acha que algo não vai bem com o meu
namoro-casamento?
— Não sei... não sou eu que saio por aí chifrando
os outros com DJs.
— Ihh... qual é o problema hein?
— Cara, nada. Esquece.
— Você tá me julgando??
— Não. Só acho errado. Mas você faz o que quer da
sua vida, só tô dando minha opinião.
— Eu sei. Percebi isso desde o primeiro dia. Só achei estranho
porque você nunca questionou meus outros chifres.
— Eu não questiono nada.
— Então por que acha errado o que eu faço?
— Porque você está enganando qu--- três pessoas.
Você, o DJ e o Rodrigo. Pára e pensa, Aline. O cara passa
anos tentando casar com você...
quando finalmente ele consegue que pelo menos vocês se mudem pro
mesmo teto você vai e se envolve num caso nada-a-ver com um... DJ?
— Quem disse que é só um caso nada-a-ver?
— Ah é, você está apaixonada pelos dois, esqueci. [irônico]
— Não sei se estou. Você não tá
entendendo, Pedro. Eu não escolhi isso.
— Ahh, não?!? [irônico] Alguém te
forçou a fazer algo?!?
— Claro que não, mas eu não escolhi me sentir confusa
assim.
— A partir do momento que você deu esse passo, tinha que estar
ciente do risco. Agora agüenta.
— “Agora agüenta”? É isso que você tem pra falar pra
mim?? “Agora agüenta”?
— Você quer que eu fale o quê? Que tudo vai se resolver?
Que você vai beber uma poção mágica e
instantaneamente tudo vai passar?
— Credo, que bicho te mordeu?
— Nenhum, Aline... [cansado] Mas você não acha
que está na hora de crescer?
— ???!!!
— Por que você se envolveu assim com o DJ?
— É ISSO QUE EU TÔ TENTANDO DESCOBRIR!
— A resposta é ridícula de fácil: porque
você tem medo de compromisso sério.
— Claro que tenho, isso é óbvio. Só que isso
justifica todos os outros chifres insignificantes, não
este!
— Você se deixou envolver de propósito...
— CLARO QUE NÃO, FICOU DOIDO?!?
— ...porque falta maturidade.
— Nunca ouvi coisa mais ridícula, Pedro!!! Que absurdo!
— ...
— E se eu realmente me apaixonei por outro???? E se eu descobri agora
que minha vida não é pra ser com o Rodrigo?!?!??? Vou
respirar fundo, engolir seco e fingir que não é comigo
só para emular uma certa “maturidade”???? Tenha a santa
paciência!!!!!
— Aline...
— Você não acredita que isso possa ser possível??
— Nessa altura do campeonato? Não. Se você aceita morar
com alguém, não deveria ter olhos para outro.
— [riso leve] A questão não é essa,
Pedro...
— Claro que é!
— Ahã! E num mundo ideal não existiria adultério!
— Se todo mundo pulasse de uma ponte você pularia também?
Não cometa o mesmo erro dos outros... você não
está presa numa relação, é só sair
dela quando quiser.
— Aí é que tá. Não sei. Não sei se eu quero, não sei o
que eu quero.
— C’mon, Line, you’re better than that...
— Pedro, entenda uma coisa: ISSO ACONTECE. Desculpe, mas acontece.
Quando eu comecei essa conversa foi pra ver se você saberia me
dar uma luz sobre... bem, sobre por que exatamente eu estou assim.
Não quero liçãozinha de moral do paladino da
fidelidade, p-lease!!
— Estou só dando a minha opinião...
— Não, você está me JULGANDO, me acusando de
imaturidade, me mandando “crescer”!
— Tá, você quer saber então por que diabos
está caidinha por um DJ estúpido, é isso? E quer
que eu te dê a resposta mágica?? Pois tome: não se
pode gostar de duas pessoas ao mesmo tempo. O que significa que
você não gosta do Rodrigo tanto assim, portanto
está se enganando ao resolver casar com ele. E enganando o pobre
coitado, que poderia estar hoje com alguém que realmente o
valorizasse. Ou então significa que você é imatura,
incapaz de relacionamentos longos e pra-sempre, e portanto se engana
mais uma vez, e ainda engana o DJ, pois toda hora inventa pretexto pra
trocar o certo pelo incerto com a desculpa de que dessa vez, ‘oh puxa’,
é um chifre diferente. Quer saber, Aline? Não é um
chifre diferente – chifre é chifre. Vamos supor que você
troque o Rodrigo pelo DJ; ok, so what? Não dou três meses
pra você chifrar o DJ e provavelmente achar outra pessoa com a
qual você vai sentir algo “diferente”, e assim vai.
— [rosnando de ódio] Você *sabe* que isso
não é verdade!!!! Há anos eu não chifrava o
Rodrigo!! How dare you? How dare? Como ousa jogar em mim essa
análise de botequim, quando você sabe MUITO BEM que isso
nunca foi uma regra na minha vida???
— Ah, não?? Quantos namorados? Quatro! Quantos namorados cornos?
QUATRO!
— E quantos desses chifres foram iguais a esse do DJ??? HEIN
HEIN HEIN??
— [mudo]
— NENHUM!!!!! NENHUM!!!!! Nem com o Renato foi assim – foi
o meu chifre mais foda por causa *da situação*, mas
em NENHUM MOMENTO me fez questionar o namoro!!!!!!! E agora, pela
PRIMEIRA VEZ NA MINHA VIDA, me encontro nessa encruzillhada do cacete,
com todos os ossos do meu corpo se corroendo de dúvida, e
você vem me dizer que é porque sou “imatura”??? Que
amigo!!! Te procuro com o coração na mão e
é assim que você me recebe????
— ...
— Você acha que eu aceitei morar com ele por falta do que
fazer??? Eu REALMENTE adoro o Rodrigo. Eu REALMENTE considerava passar
o resto da minha vida com ele – e você *sabe* que esta não foi uma decisão fácil
pra mim. Foi uma decisão racional, prática. [pausa] E
pode também ter sido a decisão ERRADA,
já pensou nisso? Eu não tinha noção do
que ia acontecer um mês depois! E se isso foi um grande
alerta pra mim?? E se essa for a chance?
— Que chance?
— *A* chance. A *minha* chance.
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