Lunch Break

- Oi.
- Hmm??
- Não me reconhece, né?
- Not really...
- Sou o amigo e vizinho do Rodrigo, Júlio.
- Humm...
- Você não fala muito, né?
- Hum-hum.
- Especialmente de boca cheia, né?

Aline ri.

- Posso sentar aqui?

Aline consente, fazendo um sinal com a cabeça. Ela está em sua hora de almoço e ele também, pelo visto. Trabalham no mesmo prédio.

- É o meu primeiro dia de almoço aqui.
- Humm? - Aline concentrava-se na mastigação.
- Pois é... eu era estagiário antes. Agora não, sou gente! [ri] Fui promovido, comecei direto ontem. No quarto andar, empresa de telefonia.
- Hummm!
- E você, trabalha aqui aonde? Que andar?
- Oitavo. O consultório 'teen'.
- Sei qual é, que maneiro!!! Eu poderia ser atendido lá??
- Sure.
- Ei, você fala alguma frase com verbo??

Aline ri:

- Não necessariamente.
- Tô vendo...[ri] Acho que nunca tinha ouvido sua voz antes.
- Hum?
- Mas tudo bem. Hey, tem tempo que você não vai lá no prédio.
- Uma semana.
- Só isso?
- Hum-hum.
- Ele vive mais mais lá na sua casa né.

Aline faz que sim com a cabeça, mexendo com os ombros como se falasse um desenxabido 'fazer o quê, né?' Júlio sorri:

- Eu estou te chateando?
- Não.
- Menos mal... [dá um gole no suco] Eu sempre vejo você muito séria. "Sempre" é modo de falar, né... acho que só te vi quatro vezes na minha vida.

Aline ri, e ele continua:

- O Rodrigo é gente boa...

Aline concorda com a cabeça, desconfiadíssima do que poderá estar prestes a ouvir.

- Onde vocês se conheceram??

Ah. Bingo! A frase clássica. Aline ri de forma misteriosa:

- Never...
- Ok, desculpe. Agora eu estou te chateando?
- Médio. [sorriso]
- Não gosta de falar sobre ele, né?
- Não mesmo.
- É porque ele é conhecido , né?
- Yep.
- Há quanto tempo vocês namoram??
- 6 meses, 9 anos atrás; 1 ano e meio agora.
- Iau!! 9 anos??... Mas... Só isso mesmo, 1 ano e meio?
- [ri] "Só"???
- Quer dizer... eu imaginava mais, e...tal...porque....
- Ah. Não.
- E vão casar?
- Não.

Aline o fuzila com um olhar de desprezo por tal interrogatório.

- D-desculpe, acho que me empolguei aqui...[riso nervoso] o Rodrigo volta e meia me fala de você, então quando eu te vi, eu---
- Você....?? [olhando-o de banda e esperando a frase]
- Eu quis logo falar contigo, mas realmente não soube por onde começar, então tentei falar do Rodrigo... Não deu lá muito certo, mas...!

Aline ri.

- Mas... mas quem sabe eu falando do U2 . Ele me disse que você é fã...
- Hum-hum. Você também?
- Não muito, mas eu tenho uma blusa deles. Um dia---
- Qual??
- Do Best of, Rodrigo falou que você tinha uma igual. Por isso que... por isso que eu sei que você é fã.
- Hum!

Aline agora já está muito mais receptiva ao diálogo. Ele percebe, sorri e diz:

- Desculpe minha eventual babaquice.
- Ok.
- Você continua sem falar nenhum verbo!
- Haha!
- Bom, só posso afirmar que está sendo uma experiência e tanto me comunicar com você.
- Thanks!

Os dois riem. Ficam conversando sobre várias besteiras, em sua maioria sobre a programação de uma determinada rádio que faz "trilha sonora" diária de quem almoça ali. Júlio explicava à Aline sua louca teoria:

- Quero provar a existência de um processo logarítmico lógico para a repetição das músicas dessa estação.
- Hahahaha!
- É, a partir de hoje eu vou começar a anotar, neste caderno, todas as músicas que ouvir durante o meu almoço. E vou marcar aqui quais são as "novidades" e quais são as que já existem há mais de 2 anos. Pra mim mais de dois anos já é flash-back!
- Que isso!
- Pô, fala sério, as rádios não reciclam, e a minha teoria é a de que todas elas estão se transformando lentamente em lights FM, manja?? Sabe aquelas que só tocam velharias??
- Yeah...
- Considerando que elas são especializadas no segmento jovem, isto é preocupante, não?
- Verdade...
- Já percebeu que as novidades são todas músicas novas de bandas velhas ??
- Humm...
- Você vai ver!!

Júlio desandou a anotar freneticamente todas as músicas tocadas e, de fato, sua teoria era assustadoramente verossímil. Aline se impressionou com o rapaz, que devia ser alguns anos mais jovem que ela. Falante, sorridente, simpático.
E amigo do Rodrigo. É nessas horas que ela se orgulha do namorado que tem.

Quando já ia se despedindo dele, Aline arrisca uma frase com verbo:

- Tenho que ir. Nice to meet you. Rodrigo já havia falado de você.
- Sério?? [sorriso]
- É, ele disse que eu ia gostar de você.
- E você me achou um chato.
- Haha, achei não. Você é gente boa.
- Ufff, que alívio!
- [ri] Sou muito brava, né?
- Nããh... imagiiina! [faz uma cara de pânico, de brincadeira]
- Hehehe, eu sei que eu sou assim. Sou auto-programada para odiar todos os amigos do Rodrigo. Você é o segundo que eu gosto.
- Uau, estou me sentindo honrado!!!

Aline ri, levanta-se da mesa a acena um tchauzinho. Júlio se apressa:

- Amanhã, na mesma bat-hora, no mesmo bat-local??
- [rindo, irônica] Espero que você não tenha sido 'convocado' para me espionar.

Pelo susto que o menino tomou, e pela quantidade de "nãos" pronunciados em tão pouco espaço de tempo, ela viu que realmente o garoto só queria uma companhia para o almoço. Sorriu e concordou:

- Tô brincando. Até amanhã.
Marina
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