L'Enfer
.
— Acho que a
gente precisa conversar.
— Também acho.
— Sobre ontem......
— O que foi aquilo, aliás? Quantos
drinks você bebeu?
— Uns 9...
— Caraca! Quê que te deu? [leve
sorriso]
— Bom... não sei...
— Não lembra?
— Não... eu lembro......
Ele lembra. Mesmo com tanta bebida embrulhando o estômago, ele
lembra de tudo. Da carrapeta ele vê
tudo:
Aline chega na boate mais tarde, com os amigos do colégio, sobe
direto para o segundo andar. Quarenta minutos depois ela desce e o
encontra bebendo, normalmente, com os amigos. Pergunta se ele quer
subir com ela para conhecer o Zé, ele diz que não, que
mais tarde, que tem que entrar no som dali a pouco. Ela diz ok,
“Zé vai ter que descer em algum momento anyway”, se descola do
“namorado” (coisa estranha chamá-lo assim agora!), sobe a escada.
— Lembra o
quanto vomitou no banheiro?
— Eu vomitei no banheiro?
— [ri] Vomitou... graças a
deus não foi no táxi!
— Vixe... [levemente embaraçado]
— [sorrindo, ca-ri-nho no ca-be-lo]
Não entendi nada, para falar a verdade... mas sem problemas,
tá tudo bem agora.
— É...
— Né?
— Acho que sim... [passando a mão
na nuca]
E da carrapeta ele acha que a viu descendo com ele... e
parando pouco antes da pista, ao lado da porta. Tranqüilo, todos
no maior bate-papo. Aline dando altas gargalhadas, girando o drink com
o canudo, o amigo acendendo um cigarro. Aline se distrai com dois
manés dançando ao seu lado, com a menina que tenta passar
no meio deles e não consegue, e por aí vai, aí
então ele acha que viu Zé olhando bastante pra
ela, quase alheio ao que a outra menina falava; até que de
repente ele acha que viu Zé puxando Aline pela cintura de um
jeito no mínimo curioso, e, por fim, ele acha
que aquilo foi para começar um abraço do nada – e, de
fato, os dois se abraçam. Abraçam, abraçam,
abraçam.
Agora ele acha que os dois amigos estão mais
próximos que o normal... (defina “normal”, oras, ele mesmo pensa
automaticamente. São melhores amigos e tal. Que não se
vêem há tempos. Compreensível. É.)
—
[beijando-o na bochecha, carinhosamente. Sorriso]
— Mas e aí, gostou da festa? Seus
amigos curtiram?
— Sim, sim, ótima como sempre!
— Não vi muito você---
vocês... na pista... dançando... as músicas estavam
chatas?
Por que ela não foi dançar? Por que, quando ele tocou uma
de suas bandas favoritas, ela não esbanjou qualquer
alteração? Por que ela não largou o amigo um
pouquinho só para dançar? Por que Zé teve
toda a atenção dela mesmo com uma das
seqüências mais geniais que ele pensou poder ser capaz de
tirá-la dali? Péra, parece que ela queria, sim, ir
dançar, pois o puxava pela mão. Mas ele a puxou de volta.
E ficaram mais próximos ainda. Por quê? Por que ela
cochicha algo animadamente no seu ouvido, ele ri e tenta
aproximá-la ainda mais (como se isso ainda fosse
possível)? Por que ela deixa, e ainda reclama que a
mão dele nas suas costas está com um cigarro?
E por que isso segue por mais de 4 músicas bacanas?
— Que nada!
Talvez pra Dadá, que não é muito chegada...
— E o seu amigo, o Zé?
— Ahh, tenho certeza que ele adorou!
— Ele falou algo?
— Não, mas não precisa
né. [ri, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo]
— Como assim não precisa?
— Eu sei que ele gostou.
— Ahn. Hum. Você não me
apresentou a ele.
— Pois é, você não quis
subir naquela hora... depois a gente ficou desencontrando o tempo
inteiro!
É, mas na hora da despedida ele bem estava saindo da carrapeta.
Arrumava seus discos e, quando levantou a cabeça...
Aline e Zé abraçados no meio da pista de dança era
como se o tempo tivesse parado. Sua última música
está para acabar. O outro DJ entra, põe outra. E mais
outra. O abraço? Ainda acontecendo. Ninguém se soltando.
É assustador. Zé faz um movimento estranho.
AVANÇOU O ROSTO EM DIREÇÃO AO ROSTO DELA?! ELA
DESVIA?! AQUILO É UM DESVIO OU UM AVANÇO?
Péra, não se vê nada nessa escuridão.
Começa outra música.
Virar o drink do amigo que está por perto (além do seu
próprio!) foi apenas o começo. Outros 5 vieram.
Ele passa por trás da namorada, em direção ao bar,
e ela nem o vê. Aline parece capturada num momento
‘mágico’ (mágico?!) que ele não quer ver
como vai terminar (terminar!?).
— É,
mas por que na hora de embora você não o levou na
carrapeta para dizer tchau?
— Você já não estava mais
lá...
— Não estava?
— Seu set já tinha acabado, acho.
— Você acha?
— É, porque você não
estava mais nem na pista. Só fui te ver lá pro final,
já tropeçando no bar...
— Eu vi como ele te abraçou.
Silêncio.
— Eu vi tudo.
Vocês ficaram?
— CLARO QUE NÃO.
— Pois parecia que ele ia te beijar, ali na
minha frente.
— Que maluquice!
— Ele sabe que você tem namorado?
Silêncio.
— Ele
não sabe? Você não falou nada pra ele?
— Não tive nem tempo.
— Não teve tempo? [leve
alteração no tom de voz]
— [indignada] ?!?
Ué, e a coisa mais importante que eu tenho pra falar com ele
é sobre um namorado???
Silêncio.
— Eu esqueci,
ok? Aliás, eu sequer pensei que deveria ter preenchido todo o
precioso e curto tempo dele falando da MINHA VIDA, quando é DELE
que não tenho notícias!!! Como é que eu ia
adivinhar que o meu recém-namorado ia surtar de dentro de uma
carrapeta ao ACHAR que viu algo “suspeito” naquele breu???
— Line...
— Que é??? [iraaaada]
— Você queria mesmo me apresentar pra
ele?
— Hein?!? Eu te chamei e você
não quis subir naquela hora, esqueceu?! O que você
está insinuando? Que eu queria ficar com ele?
— [tenta em vão interromper]
—Ahh, que gênia que eu sou, hein? Levo
o meu melhor amigo pra boate onde o meu namorado está
discotecando para justamente ficar com ele???? Você acha que eu
sou o quê, idiota??
— [tenta novamente interromper,
novamente em vão]
— Péra, que ainda fica melhor!!
Não só levo o Zé para a mesma boate pra ficar com
ele como NÃO VOU PARA A OUTRA PISTA!!!! E SEQUER ESPERO PELO
PRÓXIMO DJ!!! SIM!!!! Resolvo chifrar meu novo namorado na cara
dele, sem qualquer motivo aparente!!! Sim, este mesmo namorado QUE ERA
AMANTE, pelo qual larguei aquele outro
namoro!!! Nossa, como sou esperta...
Silêncio. Se ele der um pio agora será fatal. Aline
está furiosa.
— Ahh, claro,
você deve estar pensando que é isso mesmo, que justamente
para não despertar suspeitas fui mega-ultra-ninja e arrisquei um
chifre ali! Ou então eu resolvi copiar a sua ex naquele
Carnaval, fazendo igualzinho... Gah!!!! Acorda, Feel, eu sou sua NOVA
namorada, não a sua ex!!!!
Mais silêncio.
— Só
faltou explicar por que diabos eu botaria esse nosso namoro a perder
por tão pouco... considerando que ele começou de dois
adultérios...
Silêncio.
— [olhar
distante]... e por alguém que provavelmente só vai
voltar daqui a outros 10 anos.
Silêncio.
— Eu nutro
algo muito forte SIM pelo Zé, mas você está vendo
tudo distorcido. É amor de amigo, cacete.
— Mas Aline, eu vi o que eu vi...
— Você ficou louco!
— Não fiquei não, aquilo ali
não foi normal.
Antes que ela começasse a se enervar de novo, ele mesmo
prossegue:
— É,
você tá certa. Não faz mesmo muito sentido. Mas
é que eu não posso ignorar o que vi. Esse seu amigo... te
abraçou, sei lá, de um jeito MUITO estranho... nunca vi
isso.
Silêncio. Ele não gosta, é sinal de que ela
também percebeu que foi estranho. Então por que ficou
tão irada?
— Vocês
já ficaram? Na época do colégio?
— Quê?? Você acha que para ter o
que eu tenho com ele é por causa de um namorico de
portão?? Pff!
— Não, é que... pôxa,
tudo bem que vocês não se viam há tempos, mas
aquilo foi um exagero... dele... perguntei porque podia ser nostalgia,
sei lá...?
— A gente nunca ficou. Nunca. O que a gente
sente, o que a gente tem, é outra coisa, muuuito superior a
meras ficadas. É diferente.
Humm. Ele não gostou do caminho dessa conversa.
— [respira
fundo] Feel, seguinte: vou ser sincera. Nunca sonhei em
beijá-lo na vida, eu e Zé nunca ficamos. Sempre me
diverti horrores com ele ao meu lado, e por um tempo significativo ele
foi a minha companhia constante e preferida. Pra mim somos amigos do
peito, de coração. E só. Mas eu não me
espanto com essa sua reação. É revoltante, mas
normal! Você é apenas mais um que não compreendeu. [ligeiramente
frustrada]
“Mais um”? Como assim?
— O
Andrézinho tinha uma birra ridícula dele. Os inspetores
do colégio implicavam, ficavam de graça pra cima da
gente. Uma amiga insinuou pra cima de mim besteirinhas no dia da
despedida dele. Estou acostumada.
— Então você entende...? [relativamente
mais calmo]
— Mais ou menos, né.
Você é meu namorado, tinha que confiar em mim. [olho
no olho]
Silêncio. O olhar dela chega pesado. Ele desvia. Ela não:
— [tentando
esconder a aflição com uma frieza sem par] Agora, se
você achar que é melhor terminar tudo...
— Terminar tudo?!? Eu não tô
querendo terminar tudo, Aline, pôxa.
Silêncio. Silêncio? Ele se apressa:
—Você
quer terminar??
— Não, Feel, não quero. Mas
é que se continuarmos assim, vamos passar o resto do dia com
argumentações intermináveis que não
vão levar a lugar algum. Eu não vou arredar pé das
minhas convicções, e você vai continuar dizendo que
“viu o que viu”, que o Zé queria me beijar, essas coisas. E isso
não vai acabar nunca.
— É que eu nunca tinha visto nada
assim.
— Pois é, nem eu. Também levei
um susto. Mas... ao mesmo tempo... receber aquele abraço ali fez
sentido. It felt so right! Desculpa, mas eu achei lindo. A COISA MAIS
LINDA DO MUNDO. E estou numa felicidade tão suprema,
tão... tão... indescritível que
não vou perder mais meu tempo tentando justificar algo que
você talvez nunca compreenda. E nem é pra entender,
né? Aquilo só diz respeito a mim e ao Zé.
Mais silêncio.
— Você
é meu namorado, Feel. Aja como um.
— Mas estou agindo, ué. Esse
ciúme todo você acha que vem de onde?
Os dois sorriem quase que em simultâneo.
A briga
passa. Mas nenhum dos dois esquece.
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