Seqüestro de amigo em três atos
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1998. Cena 1.


Dadá estava furiosa. Se pudesse, virava um soco na cara da Beth agora mesmo. Mas Beth, claro, não está na sua frente, pois simplesmente “furou” com a galera. Não apareceu no encontro marcado e organizado por Dadá. Mas isso é o de menos... (afinal, quem se importa com Beth?) Quem realmente faz falta ali é o – daí a raiva de Dadá. Sim, por mais patético que isso possa soar, sem Beth não há Zé no recinto!

Sim, isso agora está claro como água!! Beth discretamente monopolizou a vinda do Zé para o Rio para ver o show do U2. Não deu o telefone dele pra ninguém; pediu que, em vez disso, todos ligassem para ela, e aí conforme for a combinação ela entrava em contato com o Zé (!!). É, pois é.

Com boa-fé e achando que Beth estava lhe fazendo um grande favor ao avisar o Zé, marcou com o pessoal das antigas e nem insistiu em pegar o telefone do amigo. Ela faria isso pessoalmente, no encontro.

Ha!

São duas da manhã e os dois não deram as caras até agora. Todo mundo já acomodado, mesas para 15 pessoas – e só 13 ali presentes! Beth tinha prometido “levar o Zé com certeza”! Como Dadá não desconfiou antes da palhaçada??

Isso é ridículo... Até 23:30 cada um se revezava no orelhão da esquina tentando ligar para a casa da Beth; depois todo mundo ficou com medo de acordar o pai dela e as ligações cessaram.

2:15, todos na mesa já frustrados com a falta do Zé (e ninguém lembrando sequer da existência da Beth, claro), resolvem então ir embora. Dadá pede a conta ao garçom, quando resolve contar as “cabeças” - e vê que são só 12... alguém mais faltando, vejamos... Sim, a Aline!! A Aline não veio!

Então um flashback rápido veio à sua mente: na sua festa de aniversário, no final de 97, Aline estava toda elétrica, avisando a todos que já tinha pilhado Zé para vir ao tão sonhado show do U2. Seguiu-se o diálogo:

— Dadá, você tem Internet?
— Hãn?
— É que eu só tenho o e-mail do Zé aqui para contato... e como tô proibida de acessar até o fim do mês, queria ver se você conseguia falar com ele para pegar mais detalhes da vinda dele.
— Proibida de acessar o quê, mulher?
— A Internet, Dadá... quando os computadores se conectam com o resto do mundo via modem e telefone...?
— Quer falar numa língua não-nerd comigo, faz favor?!
— Esquece... [ri] é que eu não queria que só a Beth tivesse acesso a ele, sei lá né. Você não tem noção o parto que foi pra conseguir arrancar dela este endereço eletrônico... [bufa] Bom, vai que ela some da face da Terra e a gente fica sem notícias do Zé a três semanas da vinda dele?!
— Humm, a gente fica no pé dela!
— Aaaii! Gngngn... Tá bom... [com aquela cara hilária de ‘não-confio-na-Beth-nem-a-pau’]


BUM! Assim como a conta astronômica da cerveja (culpa da outra Fernanda!), a lembrança caiu como uma bigorna.

[Nota: Dadá só conseguiu rever Zé num Carnaval anos depois, quando ela mesma resolveu visitá-lo. Não, Beth não sabe disso.]

2007. Cena 2.


Dadá está ansiosa. Recebeu um e-mail do Zé com as confirmações de praxe sobre a data do seu vôo – e percebeu que ele digitou o e-mail da Beth faltando um y! (“pra que ter um login com três yyy se nem o próprio nome tem essa letra, senhor? Tsc!”)

Era obrigação m-o-r-a-l Dadá encaminhar o e-mail para o endereço correto de Beth, certo? Pois é, mas daí à prática........

Essa era a chance. *A* chance!

Ok, Dadá encaminhou o e-mail – mas trocou a data. Em vez de 21, 22. Assim, mesmo que Beth falasse algo com Zé para confirmar, não daria tempo de ele ver a resposta dela e corrigir a informação.

(Dadá nunca foi cruel assim, mas não se mexe com os brios da garota...!)


Só que bateu o pânico. Depois de pressionar “Send”, claro. De-pois! Ela precisava de um cúmplice no crime. Pensou em Aline, mas não tinha contato com ela há anos.

Então estava redigindo outro e-mail para Beth quando ‘Plim!’, chega a resposta: “Combinadíssimo! Mas olha só... como vamos fazer? Porque ele vem aqui pra minha casa, né... vou levá-lo no meu carro, ok?? Você não fica chateada de ir e voltar sozinha não, né?”

(grifos da Dadá)

Aproveitou então a própria mensagem e pediu o contato de Aline sob o pretexto de “tentar reunir a galera mais uma vez”.
E como Aline não era o Zé, foi facílimo. Aí começou a troca de mensagens mais conspiratória dos últimos meses:

FernanDadá diz:
Alininha! Fudeu! Surtei!! Informei pra Beth a data errada de chegada do Zé!!!!!!

Line B. quicando nas tamancas diz:
Caralho, que maneiroooooo!!!!! SENSACIONAL!!!!

Line B. quicando nas tamancas diz:
*Só assim mesmo para conseguirmos encontrar com ele*

FernanDadá diz:
Aaaahh, então você não acha que fiz maluquice??

Aline B. quicando nas tamancas diz:
CLARO QUE NÃO! Fez o certo!!!! Depois você informa do errinho...

Aline B. quicando nas tamancas diz:
“Oi Beth, tô te ligando para devolver o Zé... ele chegou ontem por engano!”

FernanDadá diz:
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

FernanDadá diz:
“Ele está inteirinho, viu?”

Aline B. quicando nas tamancas diz:
Hehehe, que sacanagem... mas, na boa, que opção a gente tinha?? Lembra de 98, quando teve o show do U2?? ELA foi ao show com ele. EU não. E ELA ficou com o contato dele, simplesmente NÃO DAVA O TEL DELE NEM A PAU!!!!!!

Aline B. quicando nas tamancas diz:
Nada contra *ela*, mas por que me excluir assim, cacete??

Aline B. quicando nas tamancas diz:
RIDÍCULO!!!!!

FernanDadá diz:
E não se esqueça do babado do encontro...

Aline B. quicando nas tamancas diz:
Ele nem foi né...

FernanDadá diz:
Pois é. Isso não pode acontecer de novo! A gente seqüestra o Zé no aeroporto e o entrega são e salvo no dia seguinte, que tal?

Aline B. quicando nas tamancas diz:
FECHADO! E tenho certeza de que ele topa passear no aeroporto no dia seguinte e nos ajudar no caô... kkkkkkk


E assim foi.

Cena 3. O seqüestro.


Dadá está uma alegria só. (“Culpinha? É de comer?”)

Já Aline carrega o coração na boca de tanta expectativa: são mais de 10 anos sem vê-lo. Mais de 10 anos privada da convivência com uma das pessoas mais especiais que conheceu.

Seu melhor amigo, seu companheiro, seu braço direito, seu parceiro predileto para as coisas mais bestas do universo – que ficavam ainda mais divertidas entre os dois. Porque era entre os dois.

“Amigão do peito mesmo”, dizia sua mãe.

Mas e agora? Como será quando ele descer daquele avião? As coisas mudam tanto em tão pouco tempo...

Aline, depois de 10 meses longe da melhor amiga do colégio, Flávia, simplesmente não conseguia mais se comunicar com ela. Foi triste, horrível. Aquela falta de assunto, aquela sensação de “errr....”. E foram só 10 MESES!

Medo... ai, que medo...

Medo que desapareceu assim que o viu. Sorrindo. Caminhando em sua direção. Abrindo os braços.


Comovendo Aline profundamente, a felicidade do Zé era visível de longe. Uma coisa assim indescritível, mas ao mesmo tempo clara como água.

E ela recebeu o que pode ser chamado de ‘o maior abraço de todos os tempos’. Foram incontáveis minutos, talvez para compensar os tantos anos separados, e foi a coisa mais linda do mundo. A COISA MAIS LINDA DO MUNDO, A COISA MAIS LINDA DO MUNDO. Aline e Zé, juntos de novo. A dupla infalível da época do colégio, inseparáveis no segundo grau, dando uma aula de amor pleno no saguão aeroporto. Aline experimentou nos ossos a saudade que sentiam (literalmente falando: Zé a apertava tanto no abraço que suas costelas doíam!).

O abraço demorou tanto (tanto!), que as malas dele ficaram girando, girando, sozinhas, até a máquina parar.

Dadá foi apanhá-las, voltou e o abraço continuou. Estava comovida também. Comovida e cada vez mais certa de que não fez nada de errado adulterando o e-mail. Esse encontro não estaria acontecendo se Beth estivesse aqui.

Beth não faz por mal? Beth sofre de uma paixonite freak? Beth simplesmente quer se “vingar” (?) dos anos de colégio? Foda-se. Aline não tem nada a ver com isso. Tentar impedir algo tão bonito e natural é patético. Dadá não sente um pingo de remorso.
Finalmente, após Zé largar Aline e abraçar Dadá, ele pergunta com uma cara meio surpresa / meio sacana:

— Quê que vocês fizeram pra Beth não estar aqui?? Adulteraram meu e-mail e colocaram a data errada?


Dadá arregalou os olhos, Aline não soube se ria ou abria a boca de espanto. Zé continua, observando as reações das amigas:

— Já vi que tenho que voltar aqui amanhã e fingir que estou chegando de novo, é isso? [caindo na gargalhada] Vocês são loucas!


Olha para Aline, que está sorrindo de volta pra ele “meio” embasbacada. E pisca para uma Dadá ainda perplexa:

— Quantos ‘y’ mesmo eu coloquei a menos no e-mail?


Marina
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