Dadá estava furiosa. Se pudesse, virava um soco na cara da Beth
agora mesmo. Mas Beth, claro, não está na sua frente,
pois simplesmente “furou” com a galera. Não apareceu no encontro
marcado e organizado por Dadá. Mas isso é o de menos...
(afinal, quem se importa com Beth?) Quem realmente faz falta ali
é o Zé – daí a raiva de
Dadá. Sim, por mais patético que isso possa soar, sem
Beth não há Zé no recinto!
Sim, isso agora está claro como água!! Beth discretamente
monopolizou a vinda do Zé para o Rio para ver o show do U2.
Não deu o telefone dele pra ninguém; pediu que, em vez
disso, todos ligassem para ela, e aí conforme for a
combinação ela entrava em contato com o Zé (!!).
É, pois é.
Com boa-fé e achando que Beth estava lhe fazendo um grande favor
ao avisar o Zé, marcou com o pessoal das antigas e nem insistiu
em pegar o telefone do amigo. Ela faria isso pessoalmente, no encontro.
Ha!
São duas da manhã e os dois não deram as caras
até agora. Todo mundo já acomodado, mesas para 15 pessoas
– e só 13 ali presentes! Beth tinha prometido “levar o Zé
com certeza”! Como Dadá não desconfiou antes da
palhaçada??
Isso é ridículo... Até 23:30 cada um se revezava
no orelhão da esquina tentando ligar para a casa da Beth; depois
todo mundo ficou com medo de acordar o pai dela e as
ligações cessaram.
2:15, todos na mesa já frustrados com a falta do Zé (e
ninguém lembrando sequer da existência da Beth, claro),
resolvem então ir embora. Dadá pede a conta ao
garçom, quando resolve contar as “cabeças” - e vê
que são só 12... alguém mais faltando, vejamos...
Sim, a Aline!! A Aline não veio!
Então um flashback rápido veio à sua mente: na sua
festa de aniversário, no final de 97, Aline estava toda
elétrica, avisando a todos que já tinha pilhado Zé
para vir ao tão sonhado show do U2. Seguiu-se o diálogo:
BUM! Assim como a conta astronômica da cerveja (culpa da outra
Fernanda!), a lembrança caiu como uma bigorna.
Dadá está ansiosa. Recebeu um e-mail do Zé com as
confirmações de praxe sobre a data do seu vôo – e
percebeu que ele digitou o e-mail da Beth faltando um y! (“pra que
ter um login com três yyy se nem o próprio nome tem
essa letra, senhor? Tsc!”)
Era obrigação m-o-r-a-l Dadá encaminhar
o e-mail para o endereço correto de Beth, certo? Pois é,
mas daí à prática........
Essa era a chance. *A* chance!
Ok, Dadá encaminhou o e-mail – mas trocou a data.
Em vez de 21, 22. Assim, mesmo que Beth falasse algo com Zé para
confirmar, não daria tempo de ele ver a resposta dela e corrigir
a informação.
Só que bateu o pânico. Depois de pressionar “Send”,
claro. De-pois! Ela precisava de um cúmplice no
crime. Pensou em Aline, mas não tinha contato com ela há
anos.
Então estava redigindo outro e-mail para Beth quando ‘Plim!’,
chega a resposta: “Combinadíssimo! Mas olha só... como
vamos fazer? Porque ele vem aqui pra minha casa, né...
vou levá-lo no meu carro, ok?? Você não
fica chateada de ir e voltar sozinha não, né?”
Aproveitou então a própria
mensagem e pediu o contato de Aline sob o pretexto de “tentar reunir a
galera mais uma vez”.
E como Aline não era o Zé, foi facílimo. Aí
começou a troca de mensagens mais conspiratória dos
últimos meses:
E assim foi.
Dadá está uma alegria só. (“Culpinha?
É de comer?”)
Já Aline carrega o coração na boca de tanta
expectativa: são mais de 10 anos sem vê-lo. Mais de 10
anos privada da convivência com uma das pessoas mais especiais
que conheceu.
Seu melhor amigo, seu companheiro, seu braço direito, seu
parceiro predileto para as coisas mais bestas do universo – que ficavam
ainda mais divertidas entre os dois. Porque era entre os dois.
“Amigão do peito mesmo”, dizia sua mãe.
Mas e agora? Como será quando ele descer daquele avião?
As coisas mudam tanto em tão pouco tempo...
Aline, depois de 10 meses longe da melhor amiga do colégio,
Flávia, simplesmente não conseguia mais se comunicar com
ela. Foi triste, horrível. Aquela falta de assunto, aquela
sensação de “errr....”. E foram só 10
MESES!
Medo... ai, que medo...
Comovendo Aline profundamente, a felicidade do Zé era
visível de longe. Uma coisa assim indescritível, mas ao
mesmo tempo clara como água.
E ela recebeu o que pode ser chamado de ‘o maior abraço de todos
os tempos’. Foram incontáveis minutos, talvez para compensar os
tantos anos separados, e foi a coisa mais linda do mundo. A COISA MAIS
LINDA DO MUNDO, A COISA MAIS LINDA DO MUNDO. Aline e Zé, juntos
de novo. A dupla infalível da época do colégio, inseparáveis
no segundo grau, dando uma aula de amor pleno no saguão
aeroporto. Aline experimentou nos ossos a saudade que sentiam
(literalmente falando: Zé a apertava tanto no abraço que
suas costelas doíam!).
O abraço demorou tanto (tanto!), que as malas dele ficaram
girando, girando, sozinhas, até a máquina parar.
Dadá foi apanhá-las, voltou e o abraço continuou.
Estava comovida também. Comovida e cada vez mais certa de que
não fez nada de errado adulterando o e-mail. Esse encontro
não estaria acontecendo se Beth estivesse aqui.
Beth não faz por mal? Beth sofre de uma paixonite freak? Beth
simplesmente quer se “vingar” (?) dos anos de colégio? Foda-se.
Aline não tem nada a ver com isso. Tentar impedir algo
tão bonito e natural é patético. Dadá
não sente um pingo de remorso.
Finalmente, após Zé largar Aline e abraçar
Dadá, ele pergunta com uma cara meio surpresa / meio sacana:
Dadá arregalou os olhos, Aline não soube se ria ou abria
a boca de espanto. Zé continua, observando as
reações das amigas:
Olha para Aline, que está sorrindo de volta pra ele “meio”
embasbacada. E pisca para uma Dadá ainda perplexa:
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