Face the Future
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Terminar tudo
é fogo. Você sempre faz mil planos, ensaia na sua
cabeça, pensa em todas as possibilidades de como a outra pessoa
vai reagir, dá uma de RH de empresa (“que tal demitirmos em tal
dia pra não traumatizar tanto?”) e no fim das contas nada sai
como o planejado.
Aliás, chegar à
decisão de terminar é muito, muito
difícil. Os meses passam e você tenta adiar a “tarefa”
(tem gente inclusive que faz de tudo para empurrar o dirty job
para o outro), vendo se realmente não vale a pena agüentar
“mais um pouquinho”. Mas não adianta: se você não
estiver 100% confortável, um dia chega a hora. Há que ser
sábio para conseguir enxergar esse dia chegando - pra
também não acabar perdendo o bonde e ter que esperar
sabe-se lá mais quantos dias, semanas, meses, ANOS, até
passar outro!
É fato: quanto mais tempo se tem de
relação, mais complicado vai ficando de terminar. Se mora
junto, então, pior ainda! A não ser que surja um “outro”
na história, ou as brigas estejam mesmo absurdas, é
improvável que alguém consiga dispensar uma companhia de
anos assim, pff!, como quem dá tchau ao entregador de
jornal.
Neste caso o álibi foi perfeito: tinha surgido um
outro. Por seis enlouquecedores meses o affair foi seguindo
(e intensificando). E ela lá, fazendo cálculos
complicados de prós e contras, tentando pesar coisas abstratas
como o amor pelo namorado e a paixão pelo amante. Como tomar uma
decisão racional se o que está em jogo é puramente
emocional?
O que se deve pensar nessas horas? No próprio ego, no relationship
status, no amante, no oficial, ou na sua própria
felicidade? Oras, mas não está tudo misturado?
No fim do segundo “mês caótico”, ela pegou um bloquinho no
trabalho e começou a rascunhar:
O FIM DO MEU NAMORO-CASAMENTO.
O QUE EU QUERO:
1. Ficar só com o amante. (namoro
ou não, I don’t care)
2. Me sentir mais feliz do que isso.
CORRO O RISCO DE:
1. Me arrepender.
2. Tomar um pé do outro.
Bom, a questão do arrependimento é crucial: voltar
atrás vai ser ridículo. Namoro vai-e-vem é o fim
da picada.
Então ela fez um asterisco e escreveu embaixo:
* Pensar
500.000 vezes antes de decidir. Só terminar quando não
houver possibilidade de arrependimento.
Sobre tomar um pé, ela raciocina: “bom, para morrer basta estar
vivo”.
Então ela fez outro asterisco e escreveu:
**
Está pronta para arriscar? Preparada para tombo? Só
terminar quando responder ‘sim’ a pelo menos uma dessas perguntas.
Então os meses passam. Ele continua ligando, mandando indiretas,
dizendo com todas as letras que pensa nela sem parar, que o que sente
é “muito forte”, e lá fica ela que nem retardada, achando
tudo lindo.
“O amante não pode influenciar minha decisão. O amante
não pode influenciar minha decisão. O amante não
pode influenciar minha decisão.” Este é o mantra, mas
não está ajudando. Afinal, como não
influenciar se a culpa disso tudo foi ele ter surgido?!?
(Também não está ajudando o fato do namorado
não criar um conflito sequer durante esse tempo todo.)
Então, no fim do sexto mês, ele liga contando que acabou
com a namorada. Que estava solteiro e que não ia desistir de
correr atrás do que ele quer. Que respeitaria qualquer
decisão que ela tomasse, mas que pra ele já não
dava mais.
No dia
seguinte, ela se vê no trabalho folheando o bloquinho, lendo e
relendo.
Está pronta para arriscar? E o
tombo?
Respira fundo, conta até 500.000, murmura “que tombo? Tô
nem aí” e resolve pagar pra ver. That’s it. É agora ou
nunca.
Aí
você pensa: ela está feliz. Aliviada por ter decidido o
que fazer. Hmm... not quite. Pede para sair mais cedo do trabalho (o
almoço não caiu bem), volta para casa, entra no chuveiro
e ali chora compulsivamente. Chora, chora, chora, tira tudo do seu
sistema. O choro é alto, nervoso, soluçante, alternado
com o que parece ser um grito de desespero. Mas é medo.
Pânico completo pelo rumo da vida ser de repente alterado. De um
dia pro outro, plim!, o que antes era um futuro previsível (e
até bocejante), vira um magnífico
ponto-de-interrogação-misturado-com-frio-na-barriga.
Chutar tudo assim de repente????? E as lágrimas correndo... o
choro aumentando... coragem diminuindo?
Terminar tudo é fogo. Chegar a essa decisão é
ainda mais difícil. Mas, na hora H, é
a-pa-vo-ran-te. É como se desse um branco.
Mas o pior de tudo foi ele, o namorado, chegando naquele momento e
ouvindo o desespero. E ela então, sem poder voltar atrás
nem que quisesse, tendo que falar, aos soluços e
gerúndios: “Eu vou estar terminando com você”.
Definitivamente,
no fim das contas nada sai como o planejado.
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