![]() |
Caminho das Missões5º dia São Miguel das Missões - Carajazinho 34 km26-02-2004 |
|||
| Fundada em 1632 e instalada definitivamente em 1687 | ||||
|
Clinete acordou muito cedo como sempre e me pegou mais uma vez roncando, mas menos que na noite anterior. Leila também levantou às 5:00 e o bate papo das duas me acordou, mesmo estando de tampões. Café da manhã divino, com bolos, queijos, presunto, suco natural de laranja, e empadão de frango. Saímos às 7:00 horas juntos para visitarmos a única fonte de água ainda existente dentre as cinco Missões por onde passamos e que fica em um terreno particular. Ela é toda de pedras, sendo que uma delas é esculpida com anjos. Está muito bem preservada. Passamos por uma goiabeira cheia de frutas e aproveitamos para garantir o lanchinho de mais tarde. A cada dia, o sol parecia mais ardente o que juntamente com as pedras fazia a caminhada mais esgotante. A poeira chegava a nos cobrir sempre que um carro passava por nós. Uma F-100 passou a toda velocidade e quase nos sufocou. Um pouco adiante encontramos uma pequena raposa recém atropelada e morta na estrada o que nos levou a deduzir que havia sido a F-100. Sueli não aguentava mais o estrago que as bolhas estavam fazendo em seus pés e arrumou uma carona de trator, devidamente documentada por Clinete. Muita soja coberta de barro por todos os lados. O calor foi ficando sufocante até que alcançamos a pedreira Ezequiel.Era de lá que as pedras eram retiradas para a construção das Missões. Clinete não estava bem . Sentíamos os efeitos do sol sobre nossos corpos e miolos. A água era pouca e estava morna. Sorte a nossa que havia uma sombra de uma árvore frondosa nos chamando a descansar. A turma saiu na frente, mas Jane, Cli, Romaldo e eu resolvemos dar um tempinho. O guia deu algumas informações a respeito da pedreira, mostrou como as pedras eram facilmente cortadas, embora contivessem bastante ferro. O difícil de imaginar, era como aquelas pedras enormes e pesadas eram transportadas até S. Miguel que estava a uns doze quilometros de distância. | ||||
| ||||
|
Três quilômetros à frente chegamos a nossa parada para almoço. Um galpão sem janelas que parecia uma estufa de tão quente. Jane, Cli e Lisete resolveram tomar uma chuveirada, eu fiquei na vontade porque não tinha com que me secar. Ofereci-me para massagear os pés de Sueli, e Leôncio com álcool de Romero e creme Nívea. Foi o suficiente para formar uma fila. Rodadas de um licor feito com uma frutinha típica do sul, o Butiá, faziam meu trabalho mais agradável. O butiá é um coquinho cor de laranja que se descasca com os dentes. Não gostei muito da fruta, mas o licor era bem bonzinho. Almoço farto com macarrão, frango, salada. Não consigo lembrar a sobremesa. Acabada a comilança todos queriam dar uma cochilada, mas diante do forno do galpão era impossível. Mário e Claudia conseguiram um cantinho perto da porta e dormiram profundamente embalados pelo ronco do Joca. Debaixo de uma única pequena sombra, dividimos o espaço com bostas de boi. Não aguentei o calor, levantei e decidi tomar banho sem toalha mesmo. Parecia coisa de louco. Um banho refrescante, tinha até sabonete, e depois, inteiramente encharcada, tornar a vestir aquela roupa suada e imunda. Como não conseguia ficar parada, sugeri a Sueli que saíssemos logo à procura de uma carona até o local de pernoite. Creio que aqui a Jane esqueceu o cajado da Lisete, que ela tinha emprestado com mil recomendações. Eu desde o inicio da caminhada tinha avisado ao guia que não andaria os 34 quilômetros. Embora não estivesse em más condições, não queria arriscar, pois por experiência, todas as vezes que ultrapassava 25/27 quilômetros por dia, chegava ao final da jornada machucada, ou com algumas bolhas novas. Muito devagar, andamos uns quatro quilômetros sem conseguir nada. Dois caminhões passaram por nós e nem diminuiram a marcha, um terceiro foi parando, mas estava com três homens mal- encarados na boléia. Quando me aproximei para dispensar a carona, o motorista acelerou e nos deu um banho de pó. Sueli disse que não conseguia dar nem mais um passo. Passei a mão no celular e pedi a Romaldo que conseguisse um apoio para nós. Nem dois minutos depois apareceu um carro com o Joca (o rei da carona) que nos recolheu. Êta eficiência!! Era um veterinário indo em socorro de uma vaca com complicações no parto. Deixou-nos num posto de gasolina , a um quilômetro da casa e bolicho do sr. João de Matos, nosso hospitaleiro em Carajazinho. Sabem o que é um BOLICHO? É um pequeno e antigo armazem de interior que vende bebidas, biscoito, pasta de dente, tudo de primeiríssima necessidade. Tem um balcão de madeira com uma vitrina embaixo e um rádio, desses a válvula, sempre ligado. Esse tinha TV, é o progresso! Como chegamos primeiro, fomos logo marcar as camas. Reservei uma para a Clinete e o Joca garantiu a da Josy. Era um só quarto para todos os quinze peregrinos. Sete beliches e uma cama. Tudo era muito, mas muito simples. Notava-se que tinha sido uma estrebaria que havia passado por uma reforma. Duas portas davam para um terreno onde as galinhas ciscavam e um bezerrinho mugia. O cheiro não era dos mais agradáveis, mas acho que com o tempo acostumei. Dois chuveiros e uma privada. Corri para o banho. Cheirosa e arrumada dirigi-me a frente do Bolicho, onde Seu João, vestido como um autêntico gaúcho, nos esperava com o chimarrão para um bom bate-papo. Ficamos umas duas horas papeando com ele e sua vizinha, que há muito conhece o Romaldo. Coitado, virou o centro da conversa e das fofocas. Devia estar de orelhas quentes. O sol estava se pondo quando os "apressadinhos" chegaram. Os mosquitos atacaram novamente. Escureceu e nada do Romaldo, Clinete e Jane. Seu João ofereceu-se para ir buscá-los e eu agradecida aceitei. Porém cinco minutos depois ele voltou dizendo que os encontrou bem perto e que recusaram a carona. O menu da noite era esperado com grande ansiedade. Churrasco, maionese de batatas, e aipim. O comentário geral foi que o churrasco estava muito salgado, aliás uma constante desde o início da caminhada. O aipim estava delicioso, assim como a maionese. Ao final do jantar Seu João declamou versos seus, no que foi muito aplaudido. Fomos todos para o quarto onde uma animada conversa retardou nossa hora de dormir. Leôncio provocou sonoras gargalhadas ao improvisar com dois cajados, uma proteção para não cair do beliche. Preocupada em não perturbar o sono dos outros, demorei muito dormir e pude distinguirr vários roncos diferentes. |
||||
| Anterior | Retorna | Próximo | ||