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Uma janela indiscreta
��� O apartamento faz frente para a entrada principal do pr�dio. .............................................................................................................................................
��� Pausa para que voc� possa imaginar, se n�o todos,
pelo menos alguns dos sen�es dessa infeliz circunst�ncia que o morador do t�rreo
padece. Para o mais esmerado solid�rio acrescente-se o detalhe da proximidade de um
imenso estacionamento, bem ali na sua cabeceira, onde seus fi�is vizinhos podem nin�-lo,
madrugada adentro, ora com um "rap non-sense", ora com o samb�o da pesada,
ax�s, pagodes , sertanejas e �s vezes, at� mesmo o coitado do Beethoven sai daquele
inocente brinquedinho, dia seguinte ao "da crian�a" _ Pour Elise, quem te viu,
quem te v� ! Diga-se de passagem, n�o h� do que se queixar o consumidor, as pilhas s�o
de muito boa qualidade, quase tanto quanto as baterias desses ve�culos (que s�o ligados,
bem cedinho, para aquecimento do motor) que se auto-alimentam atrav�s dessa maravilha de
tecnologia chamada afogador, at� que o carro fique prontinho para o passeio de domingo!
Guarde este nome: a-fo-ga-dor !
��� Onde est�vamos? Ah sim, vivendo um dia de "morador do
t�rreo"!
��� Continuemos. Se voc� j� estiver estressado, s� de imaginar, saia um
pouquinho, d� uma voltinha, mas cuidado para n�o trope�ar no carrinho de feira colocado
ali, bem � sua porta! Tamb�m n�o se esque�a de fechar a janela para impedir a entrada
daquelas moscas coloridas que rondam o lixo ali da ca�amba e que podem cismar de botarem
seus fecundos ovinhos em cima daquele bife que voc�, insensatamente, deixou descongelando
sobre a pia.
��� Esse detalhe me fez divagar pelos campos da Biologia: insetos. Coisa
interessante a vida deles! Os pernilongos, por exemplo, t�o delicada sua complei��o
f�sica e t�o t�nues suas asinhas que n�o voam muito alto; dizem que no m�ximo at� o
quarto ou quinto andar de um pr�dio. Particularmente, acho que eles gostam mesmo � de
voar baixinho, mais ou menos s� at� � altura do... t�rreo!
��� Voltando � vaca fria (ou ao bife congelado), digo, mudemos o rumo
desta prosa para nada mais nada menos que janelas (essa mesma que voc� havia fechado por
causa da mosca verde e tamb�m daquela vizinha que voc� pegou no pulo, bem na horinha em
que ela estava com meio corpo dentro da sua cozinha, s� passando uma vista d'olhos para
saber como � l� dentro!).
��� Custou, mas chegamos ao dilema lema do tema ! Filmes, quadros e
m�sicas j� falaram sobre ela _ o que seria da Janu�ria, n�o fosse a janela! _ mas n�o
me lembro de nada que rendesse tributo � sua caracter�stica mais importante: a
permissividade. H� quem chame de invas�o de privacidade, mas visto com menos rigor e
quase poeticamente, a janela � o limite virtual entre o lado de l� e o lado de c�;
interface amistosa entre quem olha l� de fora e quem escuta c� de dentro _ a janela
permite ao ser humano esse interc�mbio! N�o s�o as pessoas, indiscretas, mas as
janelas. H� de se reconhecer tamb�m o certo controle que ela nos permite. Agora, por
exemplo, vou fechar minha janela porque n�o estou com muita vontade de ouvir os latidos
desses c�es; a briga do casal na cal�ada; o assobio insistente daquela crian�a; o
escapamento aberto daquela moto; essa m�e aflita gritando o filhinho pelo interfone, e
aquele outro, � viva voz, chamando, l� de cima, o cachorrinho que est� c� em baixo (no
t�rreo!); o ronco do caminh�o de lixo; a camioneta turbinada; a sirene do resgate; a
bombinha de S�o Jo�o... Al�m disso, N�O QUERO TANTO OXIG�NIO AQUI DENTRO!
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