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Grandes aventuras de jvk

Episódio de hoje: Eric, o estagiário

Capítulo 2

Eric entrou no fórum como um marido entra em casa disposto a ir à maternidade nove meses depois. Seguiu pelos corredores, eu atrás, como se soubesse onde estava indo. Dobrou corredores em uma velocidade assustadora. Chegou em uma porta, abriu e entrou. Eu comecei a rir, o que deixou irritada a mulher que fumava ao lado das duas portas. Voltei alguns corredores e sentei, ainda rindo, num banco. E quando digo rindo, era rindo mesmo. Nem tanto, claro, mas mesmo. A mulher saiu pelo corredor, me viu ainda rindo e ficou mais irritada, aí sumiu. Logo veio o Eric:

- O cara, que que tá se abrindo aí?
- Sim! Tu entra no prédio, sai quase correndo e entra no... [intervalo de um segundo] banheiro!
- Ah... eu queria mijar...

Aí subimos para o segundo andar. Lá, pra variar, tinha um monte de portas. Eric leu “Juizado de causas civis”, ou alguma coisa do gênero, e avançou pela porta. O bilhete onde se lia “transferido para o quinto andar” deixou-nos putos da cara. Hora de chamar o elevador. Lá dentro, Eric vê que ao lado de cada botão está escrito os departamentos do referido andar. No segundo, o tal juizado. Ele aponta o erro para a ascensorista, ríspido:

- Tem que arrumar isso aí.

Ao que ela respondeu um tímido “pois é...”. No quinto andar uma moça interiorana muito (pouco) simpática nos aguardava. A pedido do Eric, ela alcançou o processo que ele precisava e ainda reinou com a história da autorização quando ele pediu para tirar xerox.

A sala do xerox, a propósito, ficava no terceiro andar, e lá fomos nós descendo as escadas. Tal recinto era o escritório de uma frustrada funcionária municipal, que o dividia com uma fotocopiadora e outras funcionárias, estas provavelmente sem diploma em fotocópia. O que mais nos chamou não só a atenção como também os instintos cleptomaníacos: a térmica de café. Alias, anexados por todos os lados estavam bilhetes com dizeres que nos irritaram profundamente: “20 centavos a folha”. Sim, mais caro que a PUC. A sorte do Eric é que os gastos dele são cobertos pelo escritório, e os R$ 1,50 não pesaram em nada no bolso dele. A única coisa que pesou foi o seguinte diálogo com a atendente carrancuda:

- Tu pode me ver um recibo?
- Sim. Ponho em nome de quem?
- Não precisa de nome.

Até aí tudo bem, ela só tava sendo chata como era de se esperar. Então respondeu com voz grossa:

- Eu preciso (com ênfase no eu). É pra segunda via.
- Ah - respondeu Eric, intimidado - põe Eric...
- Eric do quê? - disse a atendente, mais antipática ainda.

A situação, convém frisar, ficou deveras complexa. Eric e eu não precisávamos nem nos olharmos, pois um já sabia da cara de vou chutar o balde do outro. Nesse meio segundo de silêncio, a tensão cresceu de maneira tão intensa que os níveis de comicidade da sala atingiram índices mirabolantes. Com um brilho cachorro nos olhos, Eric então respondeu:

- Eric Macha... (dois segundos de intervalo) ...do!

Pausa! Essa piada interna merece explicação. Começou algumas horas antes, no Bifão, quando Faganello soltou o seguinte comentário: “Eric tem sérios problemas de personalidade. Pra começar não sabe se é Símon ou Simôn; Castanha ou Castaguina. E pra piorar tem gente que ainda pergunta se Machado se escreve com X!”; “ou mesmo Eric com K”; “Não cara, tem gente que escreve certo!”. Fim da pausa.

De posse das cópias, devolvemos o processo no quinto andar, voltamos ao carro e pegamos a estrada feliz de volta a Porto Alegre. Opa! Lembra da passeada dos pequenos agricultores? Ela causou congestionamento imensos na BR 116, o que, na prática, queria dizer que nós não chegaríamos em casa tão cedo. Foi aí que surgiu a idéia:

- Vou por dentro das cidades, assim não pegamos congestionamento.

Era o início do nosso terror interiorano.

 
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