| A Globalização de Milton Santos: entre a perversidade e a possibilidade | ||||
TAVARES,
Quintino L. C. A globalização de Milton Santos: entre a perversidade e a
possibilidade. Jusfilosofia, out. 2008.
Disponível em:
<http://br.geocities.com/jusfilosofia/resumos/milton_santos3.htm>
2. A Arquitetura... [continuação]Em relação à natureza da mais-valia ao nível global, podemos dizer que ela é fugidia e nos escapa, mas não é abstrata, pois existe e se impõe como coisa real, embora não seja especificamente mensurável, dado que está sempre mudando. Ela é "mundial" porque mantida pelas empresas globais que se utilizam dos progressos científicos e técnicos disponíveis no mundo e exigem todos os dias mais progresso científico e técnico. A presente competitividade entre as empresas é uma forma de exercício dessa mais-valia universal, que é fugidia exatamente porque estamos não no mundo da competição, mas no da competitividade. Este torna a luta entre as empresas exponencial, que os leva a uma diuturna demanda de mais ciência, mais tecnologia, melhor organização, tudo para estar sempre à frente das outras. Desta forma, a mais-valia está sempre correndo, melhor, sempre fugindo para frente. Por isso não se pode medi-la. E se parece abstrata, ela se impõe como um dado empírico, objetivo, quando usada no processo da produção e como resultado da competitividade. Antes, usávamos os objetos à nossa disposição, mas, hoje, podemos conceber os objetos que queremos utilizar e então produzir a matéria-prima necessária à sua fabricação. No mais, através dos satélites, conhecemos todos os lugares e observamos os outros astros, é a possibilidade de se conhecer largar e profundamente o planeta provocada pelo atual processo histórico. Trata-se de um fato novo imputável precisamente aos progressos da ciência e da técnica, ou de modo melhor, aos progressos da técnica por força dos progressos da ciência. Entretanto, não significa que possuímos os processos históricos que movem o mundo, apenas estamos mais perto de reconhecer os momentos dessa evolução. Os objetos retratados nos chegam apenas como geometrias, não propriamente geografias, porque nos chegam como objetos em si, sem a sociedade que neles vive. "O sentido que têm as coisas, isto é, seu verdadeiro valor, é o fundamento da correta interpretação de tudo o que existe, Sem isso, corremos o risco de não ultrapassar uma interpretação coisicista de algo que é muito mais que uma simples coisa, como os objetos da história" (p. 32). Com a globalização, as empresas discriminam as localizações. Na busca da mais-valia, não é qualquer lugar que interessa. A cognoscibilidade do planeta é um dado fundamental ao trabalho das empresas e à produção do sistema histórico atual. O atual período não possui a característica do capitalismo histórico, que é a fragmentação do tempo conforme dada coerência entre as principais variáveis, que progridem no interior de um sistema. Um período sucede a outro, mas também antecedido e sucedido por crises, ou seja, momentos em que a ordem determinada entre as variáveis é comprometida. Sem a possibilidade de harmonização, uma das variáveis ganha maior força e introduz um princípio de desordem. Contudo, o período atual não possui essa característica porque vigora uma verdadeira superposição entre período e crise, apresentando características de ambas as situações. Por isso, como período novo, as suas principais variáveis estão por toda a parte e a tudo influenciam, direta ou indiretamente. Daí o nome globalização. Como crise, as mesmas variáveis construtoras do sistema continuamente se chocam e exigem novas definições e esquemas. Há uma subdivisão extrema do tempo empírico. O computador é o instrumento de medida e concomitantemente o controlador do uso do tempo. Mas a multiplicação do tempo é apenas potencial, porque, na verdade, cada ator utiliza diferentemente as possibilidades e realiza diferentemente a velocidade do mundo. Por outro lado, devido principalmente aos avanços das técnicas da informática, os fatores hegemônicos de mudança influenciam a todos, mesmo que a rapidez e a extensão desse contágio sejam diferentes conforme as empresas, os grupos sociais, as pessoas e os lugares. Através do dinheiro, a influência das lógicas redutoras, típicas do processo de globalização, transporta a toda parte um nexo contábil, que avassala tudo. Trata-se de um processo de crise sucessivo e permanente, uma crise global que se evidencia tanto por meio de fenômenos globais como através de manifestações particulares. É neste sentido que se afirma ser a crise estrutural. A associação entre a tirania do dinheiro e a tirania da informação, pilares do capitalismo globalizado, leva à aceleração dos processos hegemônicos, legitimados pelo "pensamento único", enquanto os processos não hegemônicos tendem a desaparecer fisicamente ou a ficar de maneira subordinada, com a exceção de algumas áreas da vida social e certas facções do território onde podem permanecer relativamente autônomos, ou seja, capazes de uma reprodução própria. Embora seja sempre uma situação precária, devido aos resultados que são menores ou à ameaça permanente da concorrência das atividades mais poderosas. O período estrutural (dinâmico) atual é também crítico, porque se caracteriza, entre outras coisas, por um uso extremo de técnicas e de normas. Algo que é indispensável à eficácia da ação, mas, porque as atividades hegemônicas tendem à centralização e concentração da economia, a inflexibilidade dos comportamentos aumenta, causando um mal-estar ao corpo social. E por força da união entre as técnicas normativas e a normalização técnica e política da ação, instala-se uma espécie de política em todos os pontos do corpo social, seja como necessidade para o exercício das ações dominantes, seja como reação a essas mesmas ações. Entretanto, não se trata de verdadeira política, mas de mera soma de normatizações particulares, guiadas por atores privados que ignoram o interesse social ou que o tratam de forma residual. O sistema ideológico, que ajuda a globalização a ser considerada a única via histórica, impõe também uma determinada visão da crise e a aceitação dos remédios sugeridos. Conseqüentemente, todos os lugares, pessoas e países comportam-se como se a crise fosse a mesma para todos e a receita para curá-la devesse ser a mesma. Porém, a única crise que os responsáveis querem afastar é a crise financeira. Aqui reside uma causa para mais aprofundamento da crise real (econômica, social, política, moral) que caracteriza a atualidade. REFERÊNCIA:SANTOS, Milton. Por uma outra globalização:
do pensamento único à consciência universal. 5ª ed. Rio de Janeiro:
Record, 2001. 174 p. Copyright © 2008 Jusfilosofia
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