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A Globalização de Milton Santos: entre a perversidade e a possibilidade
TAVARES, Quintino L. C. A globalização de Milton Santos: entre a perversidade e a possibilidade.  Jusfilosofia,  out. 2008. Disponível em: <http://br.geocities.com/jusfilosofia/resumos/milton_santos2.htm>

 

SUMÁRIO: 1. Considerações Introdutórias; 2. A Arquitetura da Globalização Atual.

2. A Arquitetura da Globalização Atual

Auge do processo de internacionalização do mundo capitalista, a globalização tem como característica dois elementos fundamentais: o estado das técnicas e o estado da política. Para a sua compreensão, é necessário perceber que, no final do século XX, por força dos progressos da ciência, produziu-se um sistema de técnicas liderado pelas técnicas da informação, garantindo ao novo sistema técnico uma presença em todo planeta, bem como ações que garantiram o surgimento de um mercado global.

Dizia Kant que a história é um progresso sem fim, mas é preciso acrescentar que é também um progresso sem fim das técnicas, pois a cada evolução das técnicas, uma nova fase da história se torna possível. Nunca uma técnica aparece sozinha, em vez disso, o que se estabelece são grupos de técnicas, verdadeiros sistemas.

Essas famílias de técnicas carregam uma história, representado épocas distintas. Na atualidade, o que é representativo do sistema de técnicas é a chegada da técnica da informação, através da cibernética, da informática, da eletrônica. Este novo sistema tende a possibilitar duas grandes coisas: (1) as diversas técnicas existentes se comunicam entre elas; (2) exerce um papel determinante sobre o tempo, possibilitando, em todos os espaços, a convergência dos momentos, garantindo a simultaneidade das ações e, por conseguinte, acelerando o processo histórico.

Há de se constatar, entretanto, que quando aparece uma nova família de técnicas, as outras não desaparecem. O novo sistema passa a ser utilizado pelos novos atores hegemônicos, enquanto os não hegemônicos continuam usando os conjuntos menos atualizados e poderosos, determinando-se a importância de um determinado ator pelas condições que possui para mobilizar as técnicas consideradas mais avançadas do período.

Na história da humanidade, diz Milton Santos, é primeira vez que tal sistema de técnicas engloba o planeta como um todo e marca a sua presença. As técnicas típicas de hoje (técnicas da informação), presentes num só lugar, possuem uma influência marcante sobre o resto do país, alcançam, direta ou indiretamente, a totalidade de cada nação. Cada lugar passa a conhecer o acontecer dos outros. O princípio de seletividade age também como princípio de hierarquia, pois todos os outros lugares são avaliados e devem tomar como referência os lugares dotados das técnicas hegemônicas. Trata-se de um fenômeno novo em que não há divisão entre técnicas hegemônicas e não hegemônicas, as técnicas não hegemônicas são hegemonizadas.

Mas as técnicas devem ser vistas como técnicas já relativizadas, não como algo absoluto, ou seja, como técnicas usadas pelo homem, portanto, apenas se tornam história com a intermediação da política, quer dizer, da política das empresas e da política dos Estados, juntas ou separadamente.

O sistema técnico dominante na atualidade tem outra característica: a de ser invasor. A sua vocação, ainda que tal não aconteça, é se expandir na produção e no território. O que é também o fundamento da ação dos atores hegemônicos, como, por exemplo, as empresas globais – uma parte da produção pode ser feita na Tunísia, outra na Malásia, outra no Paraguai – o que é viável graças à técnica hegemônica presente ou passível de presença em todos os lugares. Tudo se unindo depois mediante a "inteligência" da empresa (caso contrário, não seria empresa transnacional).

No período em que vivemos, há uma íntima relação entre essa característica da economia da globalização e a natureza do fenômeno técnico correspondente a este mesmo período histórico. Se há a divisão da produção, há, por outro, a unidade política de comando que funciona no interior das firmas. Cada empresa comanda dentro da sua respectiva topologia, ou seja, no conjunto dos lugares da sua ação, enquanto a ação dos Estados e das instituições supranacionais é insuficiente para impor uma ordem globa. "Levando ao extremo esse raciocínio, poder-se-ia dizer que o mercado global não existe como tal" (p. 27).

Há uma relação de causa e efeito entre o progresso técnico atual e as restantes condições de implantação do presente período histórico. Da unicidade das técnicas, em que o computador é uma peça central, surge a possibilidade de uma finança universal, responsável pela mais-valia mundial, bem como a unicidade do tempo. Por sua vez, estes dois resultados, a mais-valia globalizada e a unicidade do tempo dão eficácia à unicidade da técnica.

A unicidade do tempo não significa apenas a mesma hora para diferentes lugares, há a convergência também dos momentos vividos. Existe uma confluência ou convergência dos momentos como resposta ao que se denomina de tempo real na física e, do ponto de vista histórico, chamado de interdependência e solidariedade do acontecer. Como fenômeno físico, a percepção do tempo real não é apenas a mesma hora, mas também que podemos usar os múltiplos relógios de maneira uniforme. O tempo real também permite usar o mesmo tempo a partir de múltiplos lugares e todos os lugares a partir de apenas um só deles.

É a grande e nova mudança da história: somos capazes, em qualquer lugar, de conhecer o acontecer do outro. "Essa é a grande novidade, o que estamos chamando de unicidade do tempo ou convergência dos momentos" (p. 28).

Entretanto nem todos são atores do tempo real. A ideologia de um mundo único e da aldeia global entende o tempo real como um patrimônio coletivo da humanidade, mas ainda estamos longe desse, todavia, alcançável ideal. Os grandes atores do tempo real é que comandam a história e, ao mesmo tempo, são os senhores da velocidade e os autores do discurso ideológico. Fisicamente, ou potencialmente, ele está para todos, mas efetivamente, ou seja, socialmente, o tempo real é excludente e garante exclusividades ou, no mínimo, privilégios de uso. "Como ele é utilizado por um número reduzido de atores, devemos distinguir entre a noção de fluidez potencial e a noção de fluidez efetiva" (p. 29).

Voltando-se na história, o imperialismo permitiu vários motores, cada um com a sua força e extensão próprias: o motor inglês, o motor alemão, o motor português, o espanhol, entre outros. Todos motores do capitalismo, mas que levavam as máquinas e os homens com ritmos, modalidades e combinações diferentes. Hoje, entretanto, há um único motor, que é a mais-valia universal, criada a partir da nova possibilidade de utilização do tempo. A mais-valia que foi possível devido à produção à escala mundial, através das empresas mundiais que atuam numa concorrência extremamente feroz.

Esse motor único se concretizou porque estamos frente a um novo patamar da internacionalização, com uma verdadeira mundialização do produto, do dinheiro, do crédito, da dívida, do consumo, da informação. Um conjunto de mundializações, uma suportando e impulsionando a outra, impondo-se mutuamente – é também um fato novo.

Devido à mundialização da técnica e da mais-valia, poder-se-ia crer que o mundo caminha para um padrão único. Mas tudo não é mais do que tendência, uma vez que não houve em nenhum lugar ou país uma completa internacionalização. O que existe por todos os lados é uma vocação às diversas combinações de vetores e formas de mundialização.

Continua

REFERÊNCIA:

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 5ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2001. 174 p.




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