
Rebeldia Consciente
José Serra
Bem cedo, iniciando minha juventude, engajei-me na causa política. Eu queria ajudar a construir o meu país, tornar o Brasil melhor, mais justo. Aos 20 anos, reforcei minha caminhada, engajando-me com determinação no movimento estudantil. Isso foi em 1962, quando estudava na Escola Politécnica da USP. No ano seguinte, elegi-me presidente da UNE, a União Nacional dos Estudantes. Desde então, firmemente, luto em prol do desenvolvimento nacional, querendo transformar um grande sonho, da liberdade e da igualdade, em movimento concreto, real.
Nada foi fácil. Aos 22 anosenfrentei a ditadura militar, que acabara de dar o golpe de 1964. Perseguido, exilei-me no exterior, fugindo da repressão. Muitos dias de minha juventude passei distante da família, dos amigos, da pátria. Mas não me arrependo. Meu idealismo nutria minha vontade em superar dificuldades, aprender novas línguas, estudar, conhecer o mundo.
Com a redemocratização, em 1977, retornei ao Brasil. Reiniciei minha vida como professor universitário, na Unicamp, retomando a atividade política. Em 1983, tive a honra de assumir a Secretaria de Planejamento de São Paulo, a pedido do governador Franco Montoro. Foi meu primeiro cargo público de destaque.
Desde então, não parei mais. Elegi-me duas vezes deputado federal, uma vez senador. Ocupei os ministérios do Planejamento e da Saúde, durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Candidatei-me a Presidência da República. Passou o tempo, mas sempre guardei fundo aquilo que aprendi na juventude: sem idealismo e conhecimento de causa, com muita conversa e articulação política, não se provoca mudança pra valer.
Aquela impaciência própria da juventude, uma vontade de se rebelar, de enfrentar o status quo, de se revoltar contra a injustiça, esse sentimento eu nunca abandonei em toda a minha vida pública. Essa é minha palavra a você, jovem, que está abrindo essa cartilha: mantenha sua capacidade de se indignar, irrete-se, sim, com o conformismo, brigue sempre contra o conservadorismo. Jamais deixe de se sentir um revolucionário.
Assim, quando muitos se calam, ou se conformam, são os jovens que avançam, erguem a voz. Redemocratização, anistia, constituinte, eleições diretas, grandes movimentos de rua sempre tiveram na juventude sua graça e sua força. Ao contrário do que muitos pensam, juventude é solução, não problema.
Nos tempos de hoje, quantos desafios novos surgem na sociedade brasileira e no mundo globalizado. Das questões ambientais à reforma da universidade, do primeiro emprego às drogas e à violência. A agenda da juventude exige ações de governo para construir melhores perspectivas de futuro, criar mecanismos eficazes de integração social, valorizando suas iniciativas e sua identidade. A pauta jovem deve ser tratada como instrumento estratégico para o país.
Assim pensa a social-democracia. O mundo de amanhã depende do idealismo jovem de hoje. Mas o futuro depende da participação ativa no presente. O jovem idealista, lutador, esse sim faz acontecer. Tenham em mim, sempre, um parceiro para essa rebeldia consciente.
José Serra, Governador do Estdado de São Paulo.
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