1984: uma resenha pessoal

por João Paulo Cursino P. Santos
jpcursino(arroba)yahoo.com
24/11/2008 -- melhorado em 15/12/2008

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Conforme já comentei, estou lendo 1984, de George Orwell. Imagino que teria sido prematuro lê-lo antes, porque ele denuncia todo o sistema social opressivo em que vivemos hoje de um modo como só recentemente venho mesmo observando. 1984, Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, e Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, compõem um clássico trio de distopias que ressaltam o massacre do indivíduo em estruturas totalitaritárias, cínicas e utilitaristas como podiam ser percebidas mesmo antes da II Guerra Mundial.

A partir da Revolução Industrial, a ascensão da máquina levou a este nosso sistema, onde cada homem se reduz voluntariamente a sua função econômica, tornando-se mero insumo à produção. Em 1984, a sociedade é dominada pelo Partido, uma organização onipresente que não tolera qualquer conduta que se desvie do óbvio praticado por todos. As pessoas são conduzidas a comportamentos mecânicos conformes, e seus menores gestos estão sendo observados, de modo que só podem fazer aquilo que delas se espera e nada além. O protagonista, Winston Smith, tem um emprego burocrático de uma rotina tediosa entre casa e trabalho. Para seu desespero, a maioria das pessoas vive em apatia, aderindo voluntariamente às convocações do Partido e acreditando em toda palavra oficial. A principal motivação de Winston é recuperar algum contato com o passado para, por comparação, conhecer a realidade e finalmente entender algo sobre o mundo. Isso lhe é negado na medida em que o Partido constantemente reescreve todo registro histórico, condenando a população a um presente permanente de verdades absolutas. De tudo, a mais massacrante prática do Partido (e todas são massacrantes) é o apagamento da História.

Um dia, Winston se apaixona pela jovem Julia, que, para seu espanto, odeia e resiste ao Partido, nos seguintes termos.

"A vida, para ela, era bem simples. Você queria se divertir; 'eles', significando o Partido, queriam impedi-lo; você quebrava as regras da melhor forma possível. Ela parecia pensar que fosse igualmente natural que 'eles' quisessem roubá-lo de seus prazeres e que você quisesse evitar ser apanhado. Ela odiava o Partido, (...) mas não lhe fazia qualquer crítica geral. Exceto onde tocasse sua própria vida, ela não se interessava pela doutrina do Partido. (...) Qualquer tipo de revolta organizada contra o Partido, que estava destinada a fracassar, parecia-lhe burra. O inteligente era quebrar as regras e continuar vivo. Ele se perguntava vagamente quantos outros como ela poderia haver na geração mais jovem -- pessoas que haviam crescido no mundo da Revolução, nada mais conhecendo, aceitando o Partido como algo inalterável, como o céu, não se rebelando contra sua autoridade mas simplesmente fugindo dela, como um coelho escapa de um cão. (...)

"Freqüentemente, ela estava pronta a aceitar a mitologia oficial, simplesmente porque a diferença entre verdade e falsidade não lhe parecia importante. Por exemplo, ela acreditava, tendo aprendido na escola, que o Partido havia inventado o avião. (...) E, quando ele lhe contou que os aviões já existiam antes de ele nascer, e muito antes da Revolução, o fato pareceu-lhe totalmente desinteressante. Afinal, que importava quem havia inventado o avião? Foi um choque maior para ele quando descobriu, de um comentário fortuito, que ela não se lembrava de que, quatro anos atrás, a Oceania [país onde se passa o livro] estivera em guerra com a Orientásia e em paz com a Eurásia. Era verdade que ela encarava a guerra toda como um engôdo: mas, aparentemente, ela nem sequer havia notado que o nome do inimigo havia mudado. 'Eu pensava que sempre tivéssemos estado em guerra com a Eurásia', disse vagamente. Isso o assustou um pouco. A invenção do avião datava de muito antes do nascimento dela, mas a mudança na guerra havia acontecido apenas quatro anos atrás, bem após ela ser crescida. (...) No fim, ele conseguiu forçar a memória dela até que, fracamente, ela lembrou que, em certo momento, o inimigo havia sido a Orientásia, não a Eurásia. Mas o assunto ainda lhe parecia desimportante. 'Quem se importa?' disse impacientemente. 'É sempre uma maldita guerra depois da outra, e a gente sabe que o noticiário são só mentiras mesmo.'"

Infelizmente, a resistência de Julia não vem de uma convicção política, mas apenas do egoísmo de se sentir invadida e proibida, e ela não tem qualquer particular crença ideológica em valores como liberdade ou verdade objetiva. Tendo nascido após a revolução, Julia não tem com que comparar sua vida atual. Sabe que tudo que o Partido diz é mentira, mas não se importa com a verdade nem tem conhecimento de História. Até onde sabe, poderia ser tudo verdade, mas, se o Partido só mente, então ela nada escuta, e não constrói nenhuma visão de mundo. Está apenas tentando sobreviver, dia após dia. Para decepção de Winston, quando Julia opta por se dissociar da realidade, sua mera inércia comodista é útil a que o Partido continue dominante, na medida em que obedece a ele ainda que nele não acredite ìntimamente.

No trecho em que estou, Winston consegue ler um livro que, bem clara e subversivamente, explica o mundo em todos os seus fundamentos teóricos praticados pela classe dominante. Primeiro, ele lê o capítulo que demonstra por que há uma guerra sem fim entre as superpotências.

É preciso ter em mente que 1984 foi escrito com a II Guerra Mundial em curso e publicado antes da Guerra da Coréia. Diante disso, é impressionante o poder de profecia do Autor. Veja o trecho abaixo (que traduzo de meu original britânico).

"O que é mais notável é que todas as três potências já possuem, na bomba atômica, uma arma, de longe, mais poderosa do que qualquer uma que suas pesquisas presentes têm probabilidade de descobrir. Apesar de o Partido, conforme seu hábito, alegar a invenção como sua, as bombas atômicas surgiram pela primeira vez nos anos 1940 e foram usadas em grande escala pela primeira vez cerca de dez anos depois. Naquele momento, algumas centenas de bombas foram lançadas sobre centros industriais, principalmente na Rússia européia, Europa Ocidental e América do Norte [N. do T.: os mesmos alvos previstos pela Guerra Fria]. O efeito foi convencer os grupos dominantes de todos os países de que algumas bombas atômicas a mais significariam o fim da sociedade organizada e, portanto, do próprio poder deles. Conseqüentemente, apesar de nenhum acordo formal ter sido jamais feito ou sugerido, nenhuma outra bomba foi lançada. Todas as três potências meramente continuam a produzir bombas atômicas e acumulá-las para a oportunidade decisiva que, todas acreditam, virá mais cedo ou mais tarde. Nesse meio tempo, a arte da guerra permaneceu quase estacionária por trinta ou quarenta anos. Helicópteros são mais usados do que eram de início [N. do T.: o que realmente é verdade hoje], aviões de bombardeio foram grandemente ultrapassados por projéteis autopropulsados [N. do T.: o que é verdade em parte -- os projéteis autopropulsados são chamados "mísseis" e são lançados por aviões menores do que os antigos bombardeiros], e o frágil e móvel encouraçado deu lugar à quase inafundável Fortaleza Flutuante [N. do T.: de fato, os encouraçados foram substituídos pelos porta-aviões, nenhum dos quais afundou ou foi alvejado desde 1945]; mas, de outro modo, houve pouco desenvolvimento. O carro de combate, o submarino, o torpedo, a metralhadora, até mesmo o fuzil e a granada de mão ainda estão em uso [N. do T.: o submarino e o torpedo foram importantes até o fim da Guerra Fria; os demais ainda são]. E, apesar das chacinas sem fim relatadas pela imprensa e pelas teletelas [N. do T.: como temos visto nas guerras do Golfo, dos Bálcãs e do Afeganistão], nunca se repetiram as batalhas desesperadas das guerras anteriores, nas quais freqüentemente eram mortas centenas de milhares ou mesmo milhões de homens em algumas semanas."

Além disso, desde a vitória do Neoliberalismo e o estabelecimento da Nova Ordem Mundial a partir de 1990, temos visto uma queda acentuada no padrão educacional de vários países e uma aceleração do emburrecimento alienado das populações urbanas. Veja abaixo o cenário descrito por Orwell nos anos 40.

"No passado, também, a guerra era um dos principais instrumentos pelos quais as sociedades humanas se mantinham em contato com a realidade física. Todos os governantes, em todas as épocas, tentaram impor uma visão falsa do mundo a seus seguidores, mas não podiam se dar o luxo de encorajar qualquer ilusão que tendesse a prejudicar a eficiência militar. Enquanto a derrota significasse a perda da independência, ou algum outro resultado geralmente considerado indesejável, as precauções contra a derrota tinham de ser sérias. Os fatos físicos não podiam ser ignorados. Em filosofia, ou religião, ou ética, ou política, dois mais dois podiam ser cinco, mas, quando se estava projetando uma arma de fogo ou um avião, tinham que ser quatro. Nações ineficientes sempre eram conquistadas mais cedo ou mais tarde, e o esforço pela eficiência era avesso a ilusões. Além disso, para ser eficiente, era necessário ser capaz de aprender com o passado, o que significava ter uma idéia razoavelmente precisa do que havia acontecido no passado. Jornais e livros de História sempre foram, é claro, coloridos e tendenciosos, mas a falsificação do tipo que se pratica hoje teria sido impossível. A guerra era uma salvaguarda garantida para a sanidade, e, enquanto as classes dominantes estavam preocupadas, provavelmente era a salvaguarda mais importante de todas. Enquanto as guerras podiam ser vencidas ou perdidas, nenhuma classe dominante podia ser completamente irresponsável.

"Mas, quando a guerra se torna literalmente contínua, ela também deixa de ser perigosa. Quando a guerra é contínua, não existe necessidade militar. O progresso técnico pode parar e os fatos mais palpáveis podem ser negados ou desconsiderados. (...) A eficiência, mesmo a eficiência militar, não é mais necessária. (...) Uma vez que cada um dos três Superestados é inconquistável, cada um é efetivamente um universo separado dentro do qual quase qualquer perversão de pensamento pode ser praticada em segurança. (...) Removido do contato com o mundo exterior, e com o passado, o cidadão de Oceania é como um homem no espaço interestelar, que não tem como saber qual sentido é para cima e qual é para baixo. Os governantes de tal Estado (...) são forçados a evitar que seus seguidores passem fome até morrer em quantidades tão grandes que sejam inconvenientes, e são forçados a se manterem ao mesmo baixo nível de técnica militar de seus rivais; mas, uma vez que esse mínimo seja atingido, eles podem distorcer a realidade à forma que escolherem.

"A guerra, portanto, se a julgarmos pelos padrões das guerras anteriores, é meramente uma impostura. (...) Mas, apesar de ser irreal, ela não é sem sentido. Ela consome o excesso de bens e ajuda a preservar a atmosfera mental especial de que uma sociedade hierárquica precisa. A guerra, como se verá, é agora um assunto puramente interno. No passado, os grupos dominantes de todos os países, apesar de poderem reconhecer seu interesse comum e portanto limitar o caráter destruidor da guerra, realmente lutavam um contra o outro, e o vitorioso sempre pilhava o vencido. Em nossos dias, eles absolutamente não estão lutando um contra o outro. A guerra é movida por cada grupo dominante contra seus próprios súditos, e seu objeto não é obter ou prevenir conquistas de território, mas manter intacta a estrutura da sociedade. A própria palavra "guerra", portanto, tornou-se enganosa. Seria provavelmente acurado dizer que, ao se tornar contínua, a guerra tenha deixado de existir. (...) O efeito seria praticamente o mesmo se os três Superestados, em lugar de lutar um contra o outro, concordassem em viver em paz perpétua, cada um inviolado em suas próprias fronteiras. Porque, nesse caso, cada um ainda seria um universo hermético, liberto para sempre da influência do perigo externo, causadora de sobriedade. Uma paz que fosse verdadeiramente permanente seria o mesmo que uma guerra permanente. Esse — apesar de a vasta maioria dos membros do Partido o entender apenas em um sentido mais raso — é o significado mais nuclear do slogan do Partido: Guerra é Paz."

Ainda em matéria de emburrecimento, Winston continua a ler o livro em sua análise de outro slogan do Partido: Ignorância é Força. Nesse sentido,

"Por toda a História, e provavelmente desde o fim do Neolítico, tem havido três tipos de pessoas no mundo, os Altos, os Médios e os Baixos. Eles foram subdivididos de muitas formas, eles tiveram incontáveis nomes, e suas quantidades relativas, bem como sua atitude um em relação ao outro, têm variado com as épocas: mas a estrutura essencial da sociedade nunca se alterou. Mesmo após enormes levantes e mudanças aparentemente irrevogáveis, o mesmo padrão sempre se reafirmou, tal como um giroscópio sempre retorna ao equilíbrio, não importando o quanto seja empurrado numa direção ou noutra. (...)

"Os objetivos desses três grupos são inteiramente irreconciliáveis. O objetivo dos Altos é se manterem onde estão. O objetivo dos Médios é trocar de lugar com os Altos. O objetivo dos Baixos, quando têm um objetivo — porque uma característica obediente dos Baixos é que eles são muito esmagados por tarefas tediosas para estarem mais do que intermitentemente conscientes de qualquer coisa fora de seu dia-a-dia —, é abolir todas as distinções e criar uma sociedade onde todos os homens devam ser iguais. Assim, através da História, repete-se uma luta que é a mesma em suas linhas principais. Por longos períodos, os Altos parecem estar no poder em segurança, porém, mais cedo ou mais tarde, sempre chega um momento em que [enfraquecem]. Então, eles são derrubados pelos Médios, que recrutam os Baixos fingindo que estão lutando por liberdade e justiça. Assim que atingem seu objetivo, os Médios atiram os Baixos de volta a sua antiga posição de servidão e tornam-se, eles mesmos, os Altos. Imediatamente, um novo grupo Médio se separa de um dos outros grupos, ou de ambos, e a luta recomeça. Dos três grupos, apenas os Baixos nunca têm sucesso sequer temporariamente em seu objetivo. Seria um exagero dizer que, através da História, não tenha havido progresso material. Mesmo hoje, em um período de declínio, o ser humano médio está fisicamente melhor do que estava alguns séculos atrás. Mas nenhum avanço em riqueza, nenhuma suavização dos comportamentos, nenhuma reforma ou revolução jamais trouxe a igualdade humana um milímetro mais perto. Do ponto de vista dos Baixos, nenhuma mudança histórica jamais significou muito mais do que uma mudança no nome de seus mestres. (...)

"Em comparação com aquela existente hoje, todas as tiranias do passado eram incompletas e ineficientes. Os grupos dominantes foram sempre infectados por idéias liberais em alguma extensão, e estavam satisfeitos em deixar pontas soltas por toda parte, cuidando apenas dos atos ostensivos e desinteressando-se pelo que seus súditos estivessem pensando. Pelos padrões modernos, até a Igreja Católica medieval era tolerante. Parte da razão disso era que, no passado, nenhum governo tinha o poder de manter seus cidadãos sob vigilância constante. Entretanto, a invenção da imprensa facilitou a manipulação da opinião pública, e o cinema e o rádio levaram o processo adiante. Com o desenvolvimento da televisão [lembre-se de que 1984 foi escrito antes de a televisão povoar os lares], e o avanço técnico que possibilitou receber e transmitir simultaneamente no mesmo instrumento, a vida privada acabou. Todo cidadão, ou ao menos todo cidadão suficientemente importante para valer a pena de observá-lo, podia ser mantido vinte e quatro horas por dia sob os olhos da polícia e o som da propaganda oficial, fechados todos os outros canais de comunicação. Agora, pela primeira vez, existia a possibilidade de se impor não apenas a completa obediência à vontade do Estado, mas completa uniformidade de opinião sobre todos os súditos. (...)

"Todas as crenças, hábitos, gostos, emoções, atitudes mentais que caracterizam nossa época são realmente projetados para sustentar a mística do Partido e impedir que se perceba a verdadeira natureza da sociedade. Atualmente, a rebelião física, ou qualquer movimento preliminar no sentido da rebelião, não é possível. Dos proletários nada se deve temer. Deixados a si mesmos, eles continuarão, de geração a geração e de século a século, trabalhando, reproduzindo-se e morrendo, não apenas sem qualquer impulso de se rebelarem, mas sem o poder de entenderem que o mundo poderia ser diferente do que é. Eles só poderiam tornar-se perigosos se o avanço da técnica industrial necessitasse instruí-los melhor; mas, uma vez que as rivalidades militar e comercial não são mais importantes, o nível da instrução popular está, na verdade, decaindo. A questão de quais opiniões as massas têm, ou não têm, é matéria considerada indiferente. Pode-se permitir a elas liberdade intelectual, porque elas não têm intelecto. Por outro lado, em um membro do Partido não se pode tolerar sequer o menor desvio de opinião sobre o assunto mais sem importância.

"Um membro do Partido vive do nascimento à morte sob o olhar da Polícia do Pensamento. Mesmo quando está sozinho, ele nunca pode ter certeza de estar sozinho. Onde quer que possa estar, dormindo ou acordado, trabalhando ou descansando, no banho ou na cama, ele pode ser inspecionado sem aviso e sem saber que está sendo inspecionado. Nada do que faz é indiferente. Suas amizades, seus relaxamentos, seu comportamento em relação à esposa e aos filhos, a expressão de seu rosto quando está sozinho, as palavras que murmura ao dormir, mesmo os movimentos característicos de seu corpo, são todos ciumentamente escrutinizados. Garantidamente, será detectado não apenas qualquer verdadeiro mau comportamento, mas qualquer excentricidade por menor que seja, qualquer mudança de hábitos, qualquer maneirismo nervoso que pudesse ser o sintoma de uma luta interior. Ele não tem liberdade de escolha em qualquer direção. Por outro lado, suas ações não são reguladas pela lei ou por qualquer código de comportamento claramente formulado. Não há lei em Oceania. Não são formalmente proibidos pensamentos ou ações que, quando detectados, significam morte certa, e os infindáveis expurgos, prisões, torturas, encarceramentos e vaporizações [no livro: apagamento da existência de uma pessoa, com a eliminação de todos os registros sobre ela] não são infligidos como punição por crimes que tenham sido realmente cometidos, mas são meramente o apagamento de pessoas que talvez pudessem cometer um crime em algum momento futuro. Requer-se que um membro do Partido tenha não apenas as opiniões corretas, mas os instintos corretos. Muitas das crenças e atitudes exigidas dele nunca são afirmadas claramente, nem poderiam ser afirmadas sem desnudar as contradições inerentes ao Sistema. Se ele for uma pessoa naturalmente ortodoxa (...), em todas as circunstâncias ele saberá, sem pensar, qual é a crença verdadeira ou a emoção desejável. Mas, de todo modo, um treinamento mental elaborado, sofrido na infância (...), torna-o indisposto e incapaz de pensar muito profundamente sobre qualquer assunto.

"Espera-se que um membro do Partido não tenha emoções privadas nem alívios do entusiasmo. Espera-se que ele viva em um frenesi contínuo de ódio aos inimigos estrangeiros e traidores internos, (...) e as especulações que poderiam induzir uma atitude cética ou rebelde são antecipadamente mortas por sua disciplina interna, adquirida cedo. O primeiro e mais simples estágio da disciplina, que pode ser ensinado mesmo a crianças pequenas, é chamado (...) pára-crime. Pára-crime significa a faculdade de parar, como por instinto, ao atingir o limiar de qualquer pensamento perigoso. Inclui o poder de não alcançar analogias, de deixar de perceber erros lógicos, de entender errado os mais simples argumentos se eles forem contrários ao Sistema, e de ficar entediado ou avesso a qualquer seqüência de pensamento capaz de levar em uma direção herética. Pára-crime, resumidamente, significa burrice protetiva."

Neste ponto, devo comentar que minha atenção foi chamada, logo no início do livro, pela seguinte frase: "isto não era ilegal (nada era ilegal, uma vez que não havia mais leis)". Isso diz muito sobre um Estado total. Em uma democracia, as leis são criadas para conter o poder do Estado, que só pode tirar liberdade do súdito na medida em que a lei assim permite. Mas um Estado total não aceitaria ser limitado pela lei: ele quer que sua vontade prevaleça. De início, a lei seria um obstáculo, e, uma vez superada, seria inútil. Se o Estado sempre consegue sua vontade, a lei é desnecessária. E é desnecessária até mesmo como expressão dessa vontade: não é bom que o súdito saiba a vontade do Estado de antemão, nem poderá alegá-la em face dele. Quando o Estado quiser que o súdito saiba sua vontade, ele dirá. Idealmente, o Estado quer mistério, quer que as pessoas permaneçam em dúvida sobre sua vontade. Também, se a lei pretendesse ser a expressão da vontade do Estado, seu caráter fixo seria novamente um obstáculo às mudanças políticas da conveniência do Estado. Ele vai fazer o que vai fazer, não importando o que diga a lei. Mesmo para regular a vida privada dos súditos a lei é irrelevante: em caso de conflito, procurarão a autoridade, mas ela decidirá conforme a diretriz política do momento, vontade soberana do mesmo Estado. Numa organização total, nunca sabemos exatamente o que se espera de nós, e vivemos em uma presunção de culpa, de que algo não vai bem. Mesmo assim, vamos levando, congratulando-nos por termos sobrevivido mais um dia, até o momento em que falharemos sem querer, seremos apanhados e os demais autômatos à nossa volta dirão que isso era inevitável em face de nossa inadequação rebelde.

Voltando à leitura que Winston faz do livro subversivo, ele constata que as explicações coincidem com o que sempre soube, mas de forma muito mais sistemática e articulada. "Os melhores livros, ele percebeu, são aqueles que lhe dizem o que você já sabe." Essa é uma verdade que descobri há anos e que já havia sido comentada por Richard Bach, não lembro em qual livro, creio que com essas mesmas palavras. Os melhores livros são cúmplices que devolvem a você um reconhecimento de que sua percepção do mundo está correta. Tudo aquilo que você tem visto no mundo é explicitado para você, todo o significado oculto que você afinal viu mas no qual não quer acreditar porque diverge do que lhe foi ensinado na escola.

Alguns livros me atraem feito ímãs, e 1984 é um deles. Às vezes, os livros que me atraem são uma espécie de cúmplice: a crítica e os outros Autores discorrem sobre eles, mas eu sei que não são bem o que deles se diz, e vou encontrá-los pessoalmente, onde me esperam para mostrar o que eu e eles já sabíamos em segredo: que são muito mais simples e vigorosos. Assim, por exemplo, os comentaristas sempre se referem ao Grande Irmão como o grande vilão, chefe do sistema opressor de 1984. Entretanto, já li dois terços do livro e, a esta altura, posso dizer com segurança (até porque o livro subversivo foi explícito neste ponto): o Grande Irmão não existe. Ele é um personagem, uma face criada para representar o Partido e focalizar o amor e o ódio de seus seguidores. Não há ninguém chefiando o Partido, não há um antagonista identificado como uma pessoa. Como toda instituição, o Estado total não tem realmente um rosto, o que torna impossível atacá-lo efetiva ou duradouramente. De algum modo, eu já sabia disso mesmo antes de ler 1984. Com um pouco de conhecimento de História, notei a incompatibilidade entre um sistema total contínuo e a dependência sobre a figura de um líder. As pessoas não obedecem a autocratas, mas a instituições, e elas é que são o verdadeiro vilão. Mais perversa do que o Grande Irmão é a estrutura que afirma fazer sua vontade e que, na verdade, detém e pratica o poder atribuído a ele. Até agora, o Grande Irmão não tomou qualquer importância no livro, mas tem sido uma figura sem conteúdo, da qual se fala mas que não se vê realmente fazer nada. Nem poderia ser diferente em um sistema tão maquiavèlicamente arquitetado pelo Partido, este, sim, o verdadeiro causador de todo mal. Portanto, quando você ler uma resenha, crítica ou mera referência em comentário de outro assunto, mencionando o Grande Irmão como o vilão de 1984, pode ter certeza de que quem a escreveu não leu o livro e está apenas repetindo um discurso padronizado, iniciado por quem leu mas não entendeu. É um grande blefe cultural, procurando mostrar erudição diante de quem também não tem conhecimento para discernir que o palestrante é tão ignorante quanto sua audiência. É o cego guiando outro cego.


Este artigo está protegido pela lei no 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, e foi publicado originalmente em http://www.geocities.com/jpcursino/NineteenEightyFour.htm em 24 de novembro de 2008. A reprodução só é franqueada a quem obtiver minha permissão expressa, específica e nas condições ditadas por mim. Eu costumava autorizar a reprodução, até que encontrei meu artigo Uma cronologia de Jornada nas Estrelas na página de uma organização com a qual nunca havia tido contato. O texto havia sido adulterado, com omissão da autoria e meu nome apenas na "bibliografia". Sob minha insistência, concordaram em tirar a obra do ar, mas insinuaram que eu não podia provar ser o autor. Por isso, agora, tudo é registrado.

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