03  a  24 de janeiro de 2009, Paraíba

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HISTÓRICO

V Jornada Nacional de Extensão Universitária

Estágio de Vivência em Comunidades 2009

Movimento de Extensão Popular Paraibano

Na Construção de Alternativas de Poder Popular

 

Desde 1987, na Paraíba, temos a experiência dos Estágios de Vivência em Comunidades, onde muitos, hoje militantes sociais, já passaram ao longo destes mais de 20 anos por processos extremamente transformadoras no que diz respeito ao compromisso ético-político com as lutas populares, entendendo quais as estratégias de luta e resistência que nosso povo vem desenvolvendo desde o início da empresa capitalista que foi a colonização brasileira. De lá para cá, os oprimidos sempre demonstraram sob diversas formas sua opção pela liberdade no contexto da luta de classes, desde as nações indígenas, os insurretos quilombolas, os colonos pobres, os imigrantes operários, até chegarmos hoje na luta dos sem-terras, dos sindicatos de luta, dos desempregados, dos grupos de cultura popular, e porque não dizer também setores do movimento estudantil.

 

Durante duas semanas de estágio de vivência, há a oportunidade de participar da luta que grupos e movimentos populares constróem no seu cotidiano, colaborando com o processo de organização social destes, fugindo das práticas assistencialistas que encobrem a maioria dos projetos de extensão brasileiros, como as experiências do Projeto Rondon, Universidade Solidária, CRUTAC's e tantos outros.

 

Durante este período, a proposta é se "ensopar" de realidade no contato com comunidades de pescadores, quilombolas, sem-terras e pequenos agricultores, movimentos culturais de periferia urbana, indígenas potiguaras, não só numa inserção curiosa, mas numa mobilização interior que possa provocar em nós: qual o sentido de nossa luta?! Quem sou eu neste contexto de luta de classes que marca a sociedade desigual em que vivemos?! De que lado eu estou?!

É fugir da política de projetos prontos e sim entrar na dinâmica do "aprender a aprender". Aprender em ato, participando de todas as dimensões do trabalho social útil que os movimentos e grupos populares já desenvolvem na sua luta cotidiana, que em suma é pela sua sobrevivência e emancipação, com todas as contradições que são inerentes a isto tudo.

A estratégia deste estágio de vivência é "entrar o mais discreto possível na comunidade e também sair o mais discreto possível"...mas a partir daí se sentir parte das lutas populares em quaisquer espaços que estivermos ao retornarmos para o nosso lugar de origem.

Por isto acreditamos que o grande estágio de vivência deste ano, configurado como a V Jornada Nacional de Extensão Universitária (V JORNEXU), em parceria com o Programa Interdisciplinar de Ação Comunitária da Universidade Federal da Paraíba (PIAC/UFPB), é uma grande oportunidade de se estabelecer uma poderosa relação de troca entre estudantes, membros da comunidade universitária e o meio popular, fortalecendo os processos de formação política de militantes estudantis, universitários e populares, no difícil processo que é mudar este país...e mudar para transformar!!!

Os Caminhos percorridos até a proposta da V JORNEXU- Jornada Nacional de Extensão Universitária

 

Desde o I Congresso Brasileiro de Extensão Universitária (I CBEU), em 2002, em João Pessoa, diversos atores do movimento estudantil nacional, envolvidos com a militância junto a grupos e movimentos populares, tem tecido diversas reflexões sobre o assistencialismo, a burocratização e a privatização branca que tem acompanhado os processos de trabalho da extensão universitária nas IES's de todo o país, através de práticas onde pouco se valoriza a luta, as construções de autonomia e a dinâmica de trabalho e resistência representadas pelos movimentos sociais. O Projeto Rondon e o Universidade Solidária são exemplos típicos de um caráter extensionista que pouco modifica a realidade social, e que por isto temos oposição a estes, pois pouco criam raízes dentro da luta pela vida nas localidades onde acontecem, se limitando à práticas de prestação de serviços pontuais à comunidades, assim não sendo parceiros no fortalecimento de processos de organização autônoma dos trabalhadores frente ao Estado e as elites políticas e sociais de nosso país.

 

Já no I Congresso Brasileiro de Extensão tínhamos uma crítica bem estabelecida diante da baixa participação dos movimentos sociais durante os espaços do encontro, pois analisávamos que apesar de todo o discurso da "Academia" em criar elos e dialogicidade entre "Universidade - Sociedade a sua volta", parecia que este debate era algo fetichizado. Até porque pensemos: "quem é a sociedade a nossa volta? É algo homogêneo? É possível estabelecer uma relação sem antagonismos com diversos setores ao mesmo tempo?".

 

Em 2004, no II Congresso Brasileiro de Extensão Universitária (II CBEU), em Belo Horizonte, em momentos contínuos de reunião e discussão entre diversos atores do movimento estudantil, inclusive com a participação de várias Federações e Executivas Nacionais de Curso, víamos que as críticas presentes no I Congresso de Extensão continuavam predominando e que era necessário a partir daquele momento um resgate conceitual de práxis que resgatassem diversas iniciativas pioneiras e históricas do movimento estudantil, que contribuíram na construção de um jeito de se entender extensão, e que tiveram um papel fundamental na formação de militantes, como os CPC's da UNE, os trabalhos de parceria com movimentos do campo na época das Ligas Camponesas, as iniciativas de ação direta no meio popular, como as experiências de alfabetização a partir da sistematização freiriana, entre diversas outras na década de 60.

Diante desta questão pactuamos em estar criando relações e vínculos entre as diversas experiências extensionistas já existentes de integração movimento estudantil-movimentos populares, como os Estágios de Vivência com Movimentos Sociais. É importante ressaltar que Executivas Nacionais e Federações de Curso como as da área das agrárias (FEAB, ENEV e ABEEF), além de algumas executivas da área da saúde como a DENEM e a EXNEEF e alguns CA's, DA's e DCE's pelo país tem construções históricas neste campo, com reflexões e experiências primorosas num entendimento e compromisso do papel histórico do ME para a transformação social necessária para o nosso país.

 

A idéia da II JORNEXU foi de fortalecer estes laços entre as diversas experiências de Estágios de Vivência com Movimentos Sociais já existentes, estruturando referências nacionais para a construção de novas iniciativas. Nossa idéia era de que anualmente a Jornada Nacional de Extensão fosse realizada por uma destas localidades organizadoras de Estágios de Vivência, em sistema de rodízio nacional, para possibilitar um fluxo por todo o país de estudantes que queiram em realidades diferentes das que estão habituados no seu cotidiano incorporar, sensibilizar, acumular, capílarizar e se comprometer com os processos de lutas sociais, que ocorrem nas bases dos movimentos sociais populares no seu dia a dia.

 

Pela experiência que tínhamos acumulado na Paraíba durante quase 20 anos de estágio de vivência em comunidades, resolvemos naquele momento tomar a frente com outros diversos atores nacionais deste processo de articulação, e de sediar esta proposta da Jornada Nacional de Extensão. Mas deixávamos claro que não nos colocávamos como um modelo único, um detentor do pacote e do segredo de como realizar estágios de vivência com movimentos sociais. Acreditávamos que cada local tinha uma característica, seja diante dos atores do movimento estudantil, seja diante dos movimentos sociais locais, seja pela capacidade material de estruturação de uma proposta. Queríamos meramente ter o papel de instigar, gerar algumas referências e empolgar com o desafio, mas cada um teria que descobrir qual caminho a seguir de acordo com a sua caminhada particular.

 

No III CBEU tivemos um momento muito importante. A partir do Espaço da Tenda Paulo Freire, previamente articulada por uma iniciativa de estudantes, professores e diversos outros miliantes que vinham construindo, num primeiro momento mais a partir do setor saúde, em diversos encontros desta área um processo de identificação e aglutinação a partir da concepção de extensão popular (desenvolvida pelo professor Francisco José de Melo Neto da UFPB), a organização de um campo de atores sociais que se propõem a discutir e construir um paradigma diferente de Universidade e de Ensino. Surgiu neste momento a ANEPOP - Articulação Nacional de Extensão Popular. Neste processo, muito importante a participação do movimento de extensão popular paraibano, principalmente com gentes dos projetos Educação Popular e Atenção à Saúde da Família (PEPASF) e Vivências e Estágios em Educação Popular e Saúde/ Estágio Nacional de Extensão em Comunidades da UFPB (VEPOP/ENEC), este último uma síntese dos processos de estágios de vivência de mais de uma década, só que agora com uma proposta mais contínua de trabalho durante todo um ano junto a diversas comunidades. Ou seja, estas duas iniciativas são frutos de décadas de movimentação extensionista na UFPB (PEPASF, antigo projeto do Grotão - desde 1997/ Estágios de Vivência em Comunidade - desde 1987), e conseqüentemente, importantes referências nacionais.

 

De lá para cá o conceito de Extensão Popular está em evidência, e é um importante elo de articulação entre as experiências construídas a partir do aporte institucional das Universidades e aqueles que vêm sendo construídas por fora destas a partir do movimento estudantil. Pois tal conceito deixa bastante claro que independente dos espaços, há uma unidade de propósitos que é integrar setores de luta das universidades com setores de luta do meio popular, movidos por um ideal de transformação profunda nas estruturas atuais da sociedade brasileira.

 

Assim, da III JORNEXU para cá, temos construído um acúmulo neste sentido, de fortalecer os espaços de reflexão teórica sobre os desafios dos movimentos populares, especialmente na América Latina, além de ter uma provocação mais propositiva no sentido de compreender o papel de cada um na mobilização para a luta após a sensibilização da vivência.

 

Queremos seguir nesta V JORNEXU avançando ainda mais no refinamento desta importante ferramenta de formação de militantes e consciências.

 

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