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Dos países africanos de língua portuguesa, Moçambique é o que tem uma produção cinematográfica mais variada. Estruturada a partir dos anos 70, ela envolve vários cineastas e tem estabelecido importantes pontes com a Europa e com o próprio Brasil. Moçambique, desde a independência, e com o apoio do presidente Samora Machel, pode estruturar seu setor audiovisual. Mesmo nos momentos mais difíceis de guerra civil, ele continuou existindo, com a vontade de jovens realizadores e a ida para lá de profissionais renomados como Godard e Jean Rouch, afirma Guido Araújo, diretor geral da Jornada baiana. Guido também destaca a ligação histórica com o Brasil, que permitiu situações como o retorno do cineasta moçambicano Ruy Guerra, que à época já era um dos principais nomes do Cinema Novo, para ajudar a criar o Instituto de Cinema de Moçambique. Também permitiu a ida de profissionais brasileiros como o cineasta Licínio Azevedo, desde os anos 70 radicado no país e atualmente um dos mais importantes de lá. Por todos estes motivos, justifica Guido, a XXXI Jornada abre um grande espaço para o cinema deste país africano, através da Mostra do Cinema Moçambicano, da Sessão Memória, da Mostra Chico Carneiro. A primeira mostra, que acontece no Cinema do Museu, reúne doze filmes produzidos entre 1999 e 2004, oferecendo uma boa idéia do que anda sendo feito no país. Há filmes como História de um Mineiro, de Gabriel Mondlane, e A Bola, de Orlando Mesquita, os primeiros filmes moçambicanos que participaram do Festival de Cannes, em 1992. Ambos integraram o projeto Steeps For The Future (Passos para o Futuro), de 2001, que envolveu cineastas de sete países e produziu quarenta filmes com temática geral sobre a Aids. A Sessão Memória (Icba) apresenta dois filmes históricos importantes para o país: Mueda – Memória e Massacre, de Ruy Guerra, e Karingana, de Mário Borgneth. O primeiro, de 1979, relembra o brutal assassinato de mais de 600 pessoas na cidade de Mueda, ocorrido durante o período colonial, que anualmente é relembrando, numa grande mobilização, por toda a cidade; o segundo, de 1982, é uma homenagem ao escritor José Caveirinha, considerado o poeta moçambicano mais importante. A Mostra Chico Carneiro, que acontece no Cine-Teatro do Irdeb, apresenta pela primeira vez em Salvador um apanhado da obra do cineasta paranaense, também radicado em Moçambique. O ciclo dedicado ao país se fecha com a doação de quatro produções da década de 80 à Associação Moçambicana de Cinema – Amocine, considerados perdidos pela entidade. As cópias pertenciam ao arquivo pessoal de Guido Araújo, e foram restauradas pelo MinC. Outro destaque do cinema africano dentro da jornada com a exibição de Nha Fala (2004), último trabalho do cineasta Flora Gomes, sinônimo de cinema no pequeno e pobre Guiné Bissau, país que projetou o nome mais conhecido atualmente do cinema africano. Flora Gomes já participou de festivais importantes como Berlim e Cannes, e Nha Fala concorreu na mostra oficial em Veneza 2002, conquistando prêmio Cidade de Roma – Arco-Íris Latino, criado para estimular a produção, difusão e comercialização do cinema de cultura latina. Nha Fala , quarto longa-metragem de ficção de Flora Gomes, é uma comédia musical que faz uma ponte entre África e Europa. Conta a história de uma jovem, proibida de cantar por seus pais, que viaja à Europa e lá grava um disco, que se torna um grande sucesso. O filme tem sessão dia 11 (segunda), às 21h, no Cinema do Museu, com reprise no dia 14 (quinta), às 15h. Resgate histórico - O tema da XXXI Jornada é extremamente oportuno. Insere-se no momento em que o país define como prioridade em suas relações exteriores o estreitamento das relações e parcerias com a África negra. O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que declarou que o país tem uma dívida histórica com a África, já fez duas viagens ao continente. Atualmente, o Brasil está presidindo a CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, fórum que tem intenção de promover intercâmbios entre Brasil, Portugal e as nações africanas. No Ministério da Cultura, os esforços direcionam-se na mesma linha. O Brasil deverá estreitar muito mais a relação com a África no audiovisual, afirma Orlando Senna que anuncia para o início do próximo ano a assinatura de um amplo acordo com a África do Sul, incluindo produtores e distribuidores dos dois países. Segundo Senna, o governo estuda a possibilidade de um acordo semelhante com os países da CPLP. A Jornada, desde seus primeiros anos, sempre teve uma estreita ligação com o cinema africano, incluindo em sua programação filmes daquele continente ou trazendo cineastas para participar do evento , lembra Guido Araújo. Ele chama atenção para momentos importantes como a exibição, em 1976, do documentário 25, de José Celso Martinez e Celso Lucas, que trazia as primeiras notícias sobre o processo de independência em Moçambique; a articulação no Brasil da I Mostra do Cinema Angolano, que passou por dez estados em 1983; a presença, em duas ocasiões, do documentarista francês Jean Rouch, nome fundamental quando se fala em cinema africano; a exibição do filme Come Back, África (1984), com o qual o americano Lionel Rogosin mostrou ao mundo a crueza do apartheid; ou a 24ª Jornada (1997), que destacou o cinema da África negra lusófona e francófona. O festival baiano, em mais uma edição, reafirma seu interesse por um cinema que revela uma diversidade de olhares para as muitas realidades mundiais. Justamente por sua proposta, a Jornada sempre enfrenta dificuldades em atrair parcerias. Este ano, ela acontece com patrocínio da Petrobras e Ministério da Cultura, mesmo assim, teve de driblar uma série de dificuldades burocráticas, que ameaçaram a própria realização do evento, o mais antigo festival de cinema nordestino.
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