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(Lição 2) Literatura: Definição

   Em sentido lato, dá-se o nome de literatura ao conjunto da produção escrita. Nesse vago conceito cultural estariam incluídas todas as obras de conhecimento científico, filosófico e espiritual.

   Em sentido restrito, literatura é a ficção, a criação duma supra-realidade com os dados profundos, singulares da intuição do artista. Para entendermos melhor essa definição, é necessário fazermos uma distinção entre a linguagem que usamos no dia-a-dia e a linguagem literária.

   Ora, a língua, pela função representativa, tende a retratar a realidade objetiva, mediante um vocabulário predominantemente denotativo. Em contraposição, pela função expressiva, tende a criar uma supra-realidade subjetiva, através do emprego eminentemente conotativo do código.

   Para a elaboração da linguagem literária, o artista serve-se do mesmo código utilizado pelo cientista. Não obstante, o tratamento dado ao processo de comunicação pelo poeta, pelo romancista ou pelo cronista, é bastante diverso. Vejamos, agora, que tratamento é esse.

   Uma das características da linguagem literária é a capacidade polissêmica dos vocábulos, ou seja, a virtude que têm as palavras de, através de um único significante, apresentar uma variedade de significados. Assim, no dizer de Aguiar e Silva, a linguagem polissêmica ou plurissignificativa ocorre quando "os signos lingüísticos (as frases) são portadores de múltiplas dimensões semânticas, tendendo para uma multivalência significativa, fugindo da univocidade característica do discurso científico e didático..." Teríamos, neste último caso, a dimensão monossignificativa da palavra.

   É comum, pois, verificarmos na interpretação de textos literários a ocorrência de imagens, comparações, metáforas etc., que são expedientes de que a literatura usa para multiplicar significados.

   Para melhor compreender o fenômeno, tomemos o seguinte exemplo: "Passei no bar e comprei um maço de cigarros. Vinte cigarros. Eram os vinte amigos que iam passar a noite comigo."

   Destaquemos, agora, as seguintes frases e façamos a comparação ente elas:

   a) Comprei um maço de cigarros.

    b) Vinte cigarros.

    c) Eram os vinte amigos que...

   Podemos observar o seguinte: A frase (a) insinua na mente do leitor uma imagem definida visualmente e que corresponde ao objeto existente na realidade exterior: "um pequeno cilindro de papel, geralmente branco, em cujo interior há fumo".

   A frase (b) introduz um elemento novo - vinte - propondo uma caracterização quantitativa de (a), mas os cigarros continuam sendo cigarros.

   A frase (c) repete o numeral vinte. Contudo, o leitor, preparado mentalmente pela repetição anterior - cigarros, cigarros -, espera encontrar-se novamente com o mmesmo ser. Mas vê que o autor do texto escamoteou a realidade objetiva. Não se referiu mais a cigarros, mas sim a amigos.

   Assim, o que antes assumia uma forma definidamente imaginável (cigarros) passou a configurar um sentimento (a amizade).

   Diante dessa simples análise, podemos concluir o duplo significado de cigarro nesse contexto:

A.

cigarro = amigo
Denotativamente, respeitadas todas as pesquisas da medicina, tal sentido chega a ser falso. Conotativamente, porém, é verdadeiro.

B.

cigarro = cilindro de papel com fumo
Verdadeiramente, sob o ponto de vista referencial, mas que a ciência prova ser inimigo da saúde humana.

      Assim como essa metáfora, há outras nos textos literários e é próprio da análise literária ir descobrindo tais relações semânticas e compreendê-las na sua beleza expressiva.


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