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CLARICE LISPECTOR

 

Introspectiva, de estilo marcadamente pessoal, assim era Clarice Lispector

(1920-1977), que tinha só dois meses de vida quando veio da Ucrânia para

o Brasil. Em sua obra, o esmagamento fortuito de uma barata pode conduzir

a uma reflexão angustiada sobre a existência de Deus, assim como o enterro

de um cão força o dono a meditar a respeito do sentimento de culpa.

 

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Leia abaixo alguns trechos da última entrevista da escritora  CLARICE LISPECTOR.

Esta entrevista foi concedida pela escritora à JÚLIO LERNER e extraída da REVISTA SHALON.


Clarice: página 1 - 2>

 

1977, janeiro .

Contrariando seus hábitos, Clarice Lispector comparece a uma emissora de televisão, em São Paulo, para participar de um programa de debates     sobre cinema, da TV Cultura.

    Sua presença é uma grande surpresa. Mas o espanto se torna ainda maior quando, após o programa, o diretor da emissora Walter George Durst arrisca um convite para que ela também grave um depoimento pessoal. Surpreendendo a todos, ela aceita...

    pelo telefone Walter Durst localiza Júlio Lerner na redação de "Panorama", da qual o jornalista é editor-chefe, e o convida para realizar a entrevista.

 

    De minha sala na redação de "Panorama" até o saguão dos estúdios tenho de percorrer cerca de 150 metros. Estou tão aturdido com a possibilidade de entrevistá-la que mal consigo me organizar naquela curta caminhada... Talvez falar sobre A Paixão Segundo G.H... Ou quem sabe A Maça no Escuro e Perto do Coração Selvagem... Vou recordando o que Clarice escreveu. Será que li tudo? Em  apenas cinco minutos consegui um estúdio e uma equipe fora dos horários normais para entrevistá-la. São quatro e quinze da tarde e disponho apenas de meia hora... Às cinco entra ao vivo o programa infantil e quinze minutos antes terei de desocupar o estúdio B... Estou correndo e antes mesmo de vê-la a pressão do tempo começa a me massacrar. Não terei condições de preparar nada antes, nem mesmo   conversar um pouco. Não poderei sequer tentar criar um clima adequado para a entrevista... Eu odeio a TV brasileira!... Só meia hora para ouvir Clarice... O pessoal da técnica foi novamente generoso e se empenhou para conseguir essa brecha... Olho o relógio, não consigo me organizar, estou correndo, olho novamente o relógio, estou desconcentrado, atinjo o saguão dos estúdios e já a vejo ali, dez metros adiante, Clarice de pé ao lado de uma amiga, perdida no meio de um grande alvoroço...

    Paro diante dela, estou um pouco ofegante, estendo-lhe a mão e sou atravessado pelo olhar mais desprotegido que um ser humano pode lançar a um seu semelhante... Ela é frágil, ela é tímida, e eu não tenho condições para lhe explicar que o problema do tempo elevou meus níveis de ansiedade. Clarice me apresenta Olga Borelli (ela não sabe que eu sei, sua melhor amiga), entramos e a conduzo ao centro do pequeno estúdio. Peço para que ela sente numa poltrona de couro de tonalidade café-com-leite. Clarice segura apenas um maço de Hollyood e uma caixa de fósforos, providencio um cinzeiro, os refletores malditos são ligados, Clarice me olha, o setor técnico envia pelos alto-falantes o agudo sinal de mil ciclos, o olhar de Clarice me interroga, só   disponho de uma única câmera, o olhar de Clarice suplica, Olga se ajeita numa lateral escurecida, e fica encolhida e calada, o  calor está ficando insuportável e o arcondicionado não funciona, está quebrado, chega o aviso que em um minuto o VT já estará  ajustado, são quatro e vinte, Clarice tenta me dizer alguma coisa mas não falo com ela,  preocupado em ajustar um questão de iluminação, o hálito da fornalha já nos atinge a todos, devemos ter agora no estúdio uns 50 ou 60 graus, maldita TV, bendita TV do Terceiro Mundo que me possibilita estar agora frente a frente a ela, Clarice me olha, medrosa, assustada e seu olhar me pede para que eu a tranqüilize...

   -"Ok, Juliooooo... tudo pronto", a voz metálica vem da caixa dos alto-falantes. Peço a toda a equipe para sair, cabo-man, iluminador, assistente de estúdio, agradeço, Clarice percebe que caiu numa arapuca e já não há como voltar atrás, peço silêncio total e depois de uns dez segundos ecoa um "gravandooooo"...

   Silêncio.

   Olga e Miriam na   parte escura de um dos lados, Moacir escondido atrás da câmera, eu que me posiciono ao lado da câmera para não aparecer, a fim de que o público não descubra minha impiedosa cara-de-pau e ... Clarice. Solitária, no centro do estúdio... Não conversamos antes e disponho apenas de 23 minutos... Estou completamente desconcentrado, fico um longo minuto em silêncio fitando Clarice, estou oco, vazio, não sei o que dizer... Clarice me olha, curiosa mas vigilante, defendida... Sou o senhor do castelo e - prepotente -  guardo comigo a chave desta prisão... Ninguém pode entrar ou sair sem meu expresso consentimento. Todos devem se submeter à minha autoritária vontade.

   Não sabes, Clarice... Te conheci agora  porém te conheço há muito tempo... Te amo, te respeito e no entanto agora   começo a te invadir. A fornalha arde, meu coração dispara, minha boca está seca e debaixo destes tirânicos mil sóis sou o maior dos tiranos. Começa a entrevista.


  Clarice Lispector nasceu a 10 de dezembro de 1920, em Tchetchelnik, na Ucrânia.

  Em 1923 chega com a família ao Brasil, que se fixa em Alagoas e três anos depois muda-se para o Recife. Em 1937 nova mudança da família, desta vez para o Rio de  Janeiro.

  Adolescente ainda, Clarice começa a escrever para diversos jornais e revistas. Em 1944, forma-se advogada, muda-se com o marido, o diplomata Maury Gurgel Aranha, para Nápoles e publica Perto do Coração Selvagem, que recebe o Prêmio Graça Aranha.

  A entrevista avança. Seus olhos azuis-oceânicos revelam solidão e tristeza. Quero mergulhar, por vezes consigo... Clarice agora está encapotada, ela se deixa agarrar mas logo escapa. e volta, e me pega, e me sugere o longe e o não-dizível, depois se cala... E quando

nada mais espero, ela volta a falar... Faço uma antientrevista, pausas, silêncios, Clarice agora esta fugindo para uma galáxia inabitada e inatingível, mas volta em seguida e, tolerante, suporta toda a minha limitação.

  Em 1946 Clarice muda-se para Berna. Três anos depois nasce seu primeiro filho, Pedro. Em 1952 ela vai para a Inglaterra, onde fica seis meses. Em 1956 nasce um Washington seu segundo filho, Paulo.

  A produção literária de Clarice vai se avolumando.

  Acho que ela vai se levantar a qualquer instante e me dizer: "Chega!". Clarice pressente que por trás de meu sorriso aparentemente compreensivo e de minha fala suave esconde-se um ser diabólico autodenominado "repórter e que quer possuir sua intimidade. Seu corpo exprime receios, ela me afasta mas de novo me atrai,

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