| O prologo e as etapas |
| ? ?Pr�logo nocturno A partida foi dada em quatro baterias de concorrentes. Partimos na traseira do grupo, e desde logo nos surpreendemos com o ritmo elevado, imposto desde in�cio por todos os participantes. Parecia que estavam dispostos a contemplar o p�blico com um bom espect�culo, contudo, a precau��o aconselhava fazer os tro�os mais perigosos de escadas a p�, n�o hipotecando toda a participa��o com uma queda est�pida, numa etapa que nada contava para a classifica��o geral. Etapa I - Saluzzo/S. Damiano (54 Km) Depois do l�dico pr�logo de Domingo, �amos finalmente enfrentar os Alpes. Est�vamos sedentos de ac��o. A primeira etapa, com a extens�o de 54 Km e 2 provas especiais de classifica��o, ligava Saluzzo a S. Damiano. Apesar da altimetria n�o assustar, pod�amos adivinhar um verdadeiro rompe-pernas. N�o imagin�vamos contudo, que as dificuldades t�cnicas fossem t�o elevadas. As descidas onde eventualmente poder�amos descansar, eram afinal "single-tracks" sinuosos, de piso dif�cil, e muito divertidos. Mas tamb�m muito exigentes. Etapa II - S. Damiano / Viraysse (bateria anti-a�rea) (84 Km) A segunda etapa do Ironbike, era aquela de que esper�vamos grandes dificuldades. As subidas eram muito longas e bastante �ngremes. Como se n�o bastasse, atingir�amos cotas muito elevadas, as quais n�o est�vamos habituados, tudo numa extens�o de 84Kms. � a entrada na chamada alta montanha, onde as condi��es atmosf�ricas reservam tamb�m surpresas. Foi uma etapa que estrategicamente gerimos mal, e por isso, pag�mos em penaliza��o no final. Os primeiros 40Kms da etapa eram em constante subida. Algumas zonas eram ultrapassadas com andamentos de 22X32, algo que pelas nossas bandas raramente utilizamos, o que diz bem da dureza da ascens�o. Partimos de uma cota de 745m e atingimos o 2620m, em Rocca Brancia, j� em territ�rio franc�s. Desperdi��mos demasiado tempo no tro�o de liga��o: ritmo moderado, e reabastecimentos muito demorados. Algo que afinal, se viria a revelar fatal no final da etapa, pois excedemos o tempo m�ximo, com a consequente penaliza��o. Acab�mos por isso, por hipotecar todo o esfor�o desenvolvido na longa subida, onde ultrapass�mos bastantes concorrentes. O tro�o de liga��o, entre as provas especiais de classifica��o, era percorrido em asfalto. Consistia na subida ao Col de la Madelaine (1996m), t�o nosso conhecido do "Tour de France", descendo depois, na vertente oposta, at� Meyronnes. A� inici�vamos a 2� prova especial do dia: uma ascens�o de 17Kms, com cerca de 1500m de desn�vel, at� pertinho dos 3000m� A prova terminava numa antiga bateria de canh�es, da lend�ria "linha Maginot", mais concretamente na Fortaleza de Viraysse. A chuva forte fez a sua apari��o, dificultando a progress�o, no j� de si dif�cil terreno pedregoso. Foi uma etapa onde a for�a mental teve um papel determinante, especialmente para enfrentar uma forte penaliza��o final, em virtude do tempo inutilmente desperdi�ado durante a etapa. As dificuldades n�o terminaram com o final da etapa. Chovia, mas havia que montar a tenda. E tentar secar a roupa numa enorme fogueira onde se faziam os belos grelhados do jantar. Felizmente a excel�ncia da organiza��o, havia providenciado forma de termos um duche quente naquele ermo� Que bem nos soube! O �nico sen�o residiu no facto de a log�stica restringir nesta etapa, a bagagem pessoal de cada participante, a somente 20Kg, devidamente acondicionados num saco estanque oferecido para o efeito. Este condicionamento levou-me a optar por deixar os sapatos� Imaginam estar a 3000m de altitude, num dia chuvoso e frio, cal�ando chinelos? Etapa III - Viraysse - Casteldelfino A chuva tinha parado durante a noite. Inici�mos assim a 3� etapa do Ironbike, com tempo seco, mas com frio. A etapa iniciou-se com uma descida t�cnica, num "single-track" recheado de ganchos a 180�, que descia para o vale. Soberbo! Manobr�vamos as bicicletas com extrema concentra��o. Desvi�vamo-nos das pedras, tent�vamos encaixar as rodas na traject�ria certa, premindo em perman�ncia os trav�es, sem que as rodas bloqueassem. N�o obstante este magn�fico cen�rio, sofremos diversas contrariedades nesta etapa. Um pequeno acidente, a p�, obrigou-nos a perder algum tempo, no curativo de um golpe profundo na perna de um de n�s. Algum tempo depois, uma avaria na transmiss�o de uma das bicicletas obrigava-nos a efectuar mais de 20 Kms a p�. A etapa mostrava toda a sua dureza. O frio apertava e a chuva reaparecia. A paisagem, essa, minimizava os efeitos do desgaste f�sico. Como � bela e grandiosa, esta regi�o. Cheg�mos a um lago, um aut�ntico espelho que reflecte o c�u cinzento, a 2426m. Par�mos por momentos, junto a uma nascente de �gua, para atestar o Camelbak. Cumprida a tarefa, olh�mos em redor procurando aqueles que momentos antes nos precediam. Onde estariam eles? Levant�mos o olhar, estupefactos! Todos seguiam, carregando a bicicleta �s costas, por um caminho de rochas soltas, onde devido � inclina��o, se auxiliava a marcha com as m�os no solo. Bem� parecia que o caminho era mesmo aquele� A descida que seguia era bastante t�cnica e as rochas molhadas, dificultavam ainda mais a tarefa. Com o final da prova especial, aproveit�mos para tentar reparar a avaria, eliminando a fun��o do desviador, convertendo a bicicleta em "single-speed". Depois no final, o mec�nico montaria um novo desviador. A tarefa foi conclu�da com �xito, e l� seguimos, rumo � segunda prova especial do dia: 17 Km a subir, at� ao ref�gio de Carmagnola, a 2845m, para descer depois, num trilho tremendamente t�cnico, com 20km de extens�o. Tudo correu bem nos primeiros 5 Kms de asfalto, mas a entrada no estrad�o ditava o colapso final da transmiss�o. Desta vez foi o arrancar dos dentes da cassete. Est�vamos fora da etapa� e sujeitos a mais 10.000 pts de penaliza��o. Fomos de imediato acompanhados por um dos "motards" da de apoio, o qual chamou uma viatura para nos evacuar. A n�s e �s bicicletas. Cheg�mos a Casteldelfino, comemos, mont�mos a tenda e tom�mos um duche. Esper�mos a chegada das bicicletas e desde logo fomos ao mec�nico para solicitar a repara��o. O pre�o dos componentes chocou-nos. Custam cerca de 80% mais do que em Portugal. Mas nada havia a fazer. Sem a repara��o seria imposs�vel continuar. Para a noite, a organiza��o prometia festa� Um jantar especial, para comemorar a passagem das etapas de alta montanha. Durante o "briefing" outra boa not�cia: a etapa seguinte seria mais leve, e totalmente cicl�vel. Etapa IV - Casteldelfino / Paesana (58 Km) Hav�amos conversado na v�spera. A nossa ideia passava agora por tentar optimizar a estrat�gia, no sentido de evitarmos mais erros, os quais sempre se traduzem em penaliza��es pesadas. Como o andamento dos l�deres era muito forte, sab�amos que ter�amos sempre penaliza��es, de acordo com o tempo a mais que demor�ssemos relativamente a eles. Apesar das adversidades dos dias anteriores, partimos motivados para a quarta etapa. Fisicamente sent�amo-nos mais fortes. Inici�mos a ascens�o de 18Kms, ultrapassando in�meros concorrentes, sempre com um ritmo de pedaleio muito certo. Fomos mesmo os primeiros a alcan�ar a zona de abastecimento, onde nos detivemos por cerca de apenas 30". Seguia-se depois uma descida em rocha. Perdemos algumas posi��es, pois impusemos uma toada mais sossegada, a fim de evitar furos ou quedas, as quais naquele terreno teriam, seguramente, consequ�ncias indesejadas. Mais 7Kms para vencer um desn�vel de 800m, e por fim a descida r�pida, mas tranquila at� Paesana. Cheg�mos felizes. T�nhamos tido um desempenho mais pr�ximo das nossas possibilidades. O sol tamb�m batia forte, pelo que aproveit�mos para secar todos os nossos equipamentos, molhados em consequ�ncia das chuvadas anteriores. Etapa V - Paesana / Barge (72,5 Kms) Acord�mos para enfrentar a V etapa. Cansados da rotina, decidimos fazer um pequeno-almo�o diferente, com direito a "capuccino" num caf� local. Esperava-nos uma etapa longa, e muito exigente. Seriam cerca de 73Kms, com 5 subidas trabalhosas. O nosso moral estava elevado. Sent�amo-nos cada vez mais fortes, e acredit�vamos que as trialeiras de p� posto, faziam j� parte da hist�ria do Ironbike 2002. T�nhamos j� ultrapassado as duas primeiras subidas do dia: a de Bivio Laghetto (1315m) e a de Ru�as (1525). Pelo meio tinha ficado uma descida forte, mas recheada de pedras, e por isso algo perigosa. Est�vamos agora num estrad�o, em parte aberto por m�quinas que se encontravam em manobras. O piso estava bem compacto, e segu�amos a cerca de 50Km/h, negociando as traject�rias com confian�a. Tanta confian�a que dois pequeno ressaltos fizeram a bicicleta voar. Infelizmente, o controlo foi perdido. Uma queda muito violenta, sobre um monte de pedras. O sangue pingava do cotovelo direito, e dos dedos da m�o esquerda. A bicicleta jazia, alguns metros mais � frente, em cima de umas rochas, com a corrente toda torcida. Algum tempo para a colocar operacional, e l� seguimos de novo; sem abrandar muito, pois nestas coisas, conv�m n�o deixar que o medo sobrevenha. 10Kms � frente havia um abastecimento, a prova especial terminava. Seguramente estaria por l� o m�dico da prova. Assim foi. Lavada a ferida com soro, colocado um penso protector e uma manga de gaze, e l� seguimos viagem, rumo � segunda prova especial do dia. Uma vez mais fizemos uma boa etapa. N�o obstante a queda, subimos at� alguns lugares na classifica��o geral. Sent�amo-nos pr�ximos do nosso melhor desempenho, e lament�vamos o sucedido na 2� e 3� etapas. Eram contudo, acontecimentos pr�prios da aprendizagem, que uma prova deste tipo encerra. Instal�mo-nos num excelente complexo desportivo, com excelentes condi��es e usufru�mos do nosso tempo da melhor forma. Etapa VI - Barge / Saluzzo (45 Kms) Acord�vamos para a etapa no 6. A �ltima. Curta, mas dif�cil, muito exigente, e com o reviver de todas as situa��es da prova, inclusive do andar com a bicicleta �s costas. Notava-se um certo sentimento de al�vio no ar. Todos estavam felizes por este evento maravilhoso estar achegar ao fim. Afinal, quem aqui estava, tinha j� superado muitas dificuldades, e todos est�vamos cansados. Partimos de Barge, a 375m e subimos, durante 20Kms, at� Croce de Envie a 1280m. Os �ltimos quil�metros, feitos em 22X32, com a roda traseira a resvalar nas pedras soltas. Depois, uma descida r�pida em pedra, muita pedra. Para terminar cerca de 12Kms num single-track, que ora baixava, ora subia, ora cruzava montes de rochas, ora passava linhas de �gua� para chegar a escalada de 15' com a bicicleta �s costas. Depois disso continuava no seu sobe e desce tremendo, e foi com imensa satisfa��o que visualizei a bandeira vermelha, sinal de termo da prova especial. O Ironbike terminava em Rifreddo, com um monumental almo�o. Faltavam apenas 15Kms, feitos em pelot�o, por asfalto, e ligeiramente a descer, para entrar triunfalmente em Saluzzo. Para mim, foi um momento de introspec��o, onde revivi cada momento, cada dificuldade, cada gesto de amizade, e onde pensei: estou cansado, mas amanh�, seguramente, quererei regressar. |
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