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Perfil sócio-econômico e sexual dos universitários da UFPI / 2002

 

Susana Sousa [Estudante de História na Universidade Federal do PIauí e responsável pelo intercâmbio do curso com a equipe do Interação] (Enviar e-mail)

 

Essa pesquisa é o segundo passo nas pesquisas desenvolvidas pelo professor Ricardo Arraes do Departamento de Geografia e História da UFPI, e constante na programação da disciplina História e Gênero. A presente pesquisa tem por objetivo traçar o perfil sócio-econômico e sexual dos estudantes da UFPI. O questionário era composto por 34 questões com temas sócio-econômico e sexual. Foram pesquisados 456 alunos de todos os cursos da UFPI no mês de Março de 2002, discriminados da seguinte forma: 208 homens (46,60%) e 248 mulheres(54,40%).

A partir da aplicação dos questionários pelos alunos envolvidos na pesquisa, obtivemos os seguintes resultados que levaram a montagem desse perfil dos alunos.

Na pesquisa realizada foram entrevistados 456 alunos (4%) de um universo de 11.394 alunos matriculados no 2º período do ano de 2002. Do universo de 5.839 (51,20%) alunos masculinos, foram pesquisados 208 (45,60%), o que corresponde a 3,50% do geral masculino. Do universo de 5.555 (48,80%) alunas femininas, foram pesquisadas 248 (54,40%) o que equivale a 4,40% do geral feminino.

Os alunos da UFPI são considerados jovens, pois a grande maioria declarou ter entre 21 e 25 anos de idade, das alunas femininas 76 (30,06%) tinham idade entre 17 e 20 anos e 108 (43,50%) tinham entre 21 e 25 anos. Entre os homens 81 (38,90%) tinham entre 21 e 25 anos. A partir desses dados pode-se verificar que o CCA é o centro mais jovem da UFPI, e o CCE é o centro mais velho em idade e também o mais feminino, percentualmente.

Os alunos foram questionados sobre com quem tinham informações sobre sexo e sexualidade. Entre os homens 120 (35,90%) tiveram informações com os amigos e 80 (23,90%) tiveram através dos meios de comunicação. Com as mulheres ocorreu o mesmo, 126 (29,30%) tiveram informações com os amigos e 116 (29,90%) tiveram através dos meios de comunicação. Pode-se concluir que, ainda é difícil, seja para jovens ou adultos, expor seus sentimentos para os pais e os pais naturalmente não se sentem confortáveis em falar sobre sexo com os filhos, por vergonha ou barreira etária. Se os pais não ajudam e a escola muito menos, que ainda não aproveita muito bem esse espaço, os jovens procuram ajuda, ou com meios de comunicação ou com amigos.

Algumas questões despertaram a atenção dos pesquisadores, como “com quem você se iniciou sexualmente?; qual o motivo de sua primeira relação?; com que idade se iniciou sexualmente?; com que freqüência você tem orgasmo?” foram as perguntas que mais geraram constrangimentos nos entrevistados. Na medida em que a pesquisa avançou na intimidade e na subjetividade dos estudantes, mais eles foram se afastando do desafio de responder as perguntas. Dessa forma, contata-se que os temas de sexo e sexualidade ainda são sim um tabu para parte considerável dos estudantes da UFPI.

O CCE foi o centro que os estudantes se iniciaram mais tarde, 9 estudantes só se iniciaram após os 21 anos. No CCHL 107 estudantes disseram que tiveram sua iniciação sexual antes dos 18 anos de idade. Entre os centros, o CT foi aquele com estudantes mais precoces: 18 entrevistados iniciaram-se sexualmente antes dos 18 anos e todos os 20 pesquisados começaram a manter relação sexual antes dos 20 anos de idade.

Esses dados podem representar um certo conservadorismo ainda presente em uma parcela dos estudantes. No entanto, pode ser reflexo do medo de ser “taxado” de “avançadinhos”, “saidinhos”, por seus colegas por isso se abstiveram das respostas “comprometedoras”.

A maioria dos estudantes 252 (53,30%) afirmou que a primeira relação sexual só deveria ocorrer quando existir amor entre o casal. Outros 76 (16,70%) afirmaram que o momento ideal seria após o casamento. Muito embora 177 (38,80%) respondessem que o prazer seja uma condição suficiente para a consumação do relacionamento. Desagregando os dados por centro o CCS seria então aquele em que o início da sexualidade completa era visto com mais reserva, uma vez que para 32 estudantes a primeira relação só deveria ocorrer após o casamento e para 88, somente quanto existisse amor entre o casal. Nesse sentido o CT seria o mais liberal posto que 19 disseram que o prazer é razão suficiente para o sexo.

Com relação às práticas preventivas a camisinha é disparada a campeã pois 246 estudantes (53,90%) revelaram que no momento do ato sexual é assim que se previnem. Outros 52 (11,40%) utilizam a pílula e, partindo para métodos mais arriscados, 25 (5,50%) afirmaram que se utilizam do método natural do coito interrompido. Outros 78 (17,10%) afirmaram que ainda não tinham tido relações sexuais.

De uma forma geral, concluímos que o fato de ser virgem às vezes depende do entendimento dos estudantes sobre o significado elaborado por eles para a “iniciação sexual” e “virgindade”, sua perda e manutenção. Assim o nº de virgens pode variar de acordo com entendimento de cada um para os conceitos referidos. Basta observar algumas questões específicas como “qual método anticoncepcional que você utiliza?”, 78 estudantes responderam que nunca tiveram relação sexual. Supõem-se portanto que seriam virgens. Outras questões como a “as DST’s influenciam a sua vida sexual?” eles já somariam 94 (20%) pois responderam que nunca haviam tido relação sexual.

Já nas questões “com quem você se iniciou sexualmente?”, “qual o motivo de sua iniciação sexual?” e “com que idade você se iniciou sexualmente?”, 112 (24,60%), 119 (26,10%) e 116 (25,40%) estudantes simplesmente não responderam as respectivas questões. Existe aí uma grande convergência ou coerência nas repostas dos alunos. Esses dados mostram uma relativa coerência das respostas dos estudantes bem tendem a reforçar a credibilidade da pesquisa e de seus resultados para a sociedade. Tirando uma média apenas dessas respostas teríamos então cerca de 115 estudantes ditos “virgens”.

Um outro ponto de extremo acordo entre as respostas e que nos levaria a concluir que o número de virgens pesquisados esteja abaixo de 80. Isso pode ser visto nas questões que aparecem na seqüência, “que métodos anticoncepcionais você usa?” e “qual sua freqüência sexual?” apontam, respectivamente, 78 e 77 estudantes que afirmaram que ainda não tinham relações sexuais ou que a freqüência era “nunca”. No entanto a questão “DSTs influenciam sua vida sexual?” coloca um problema pois o número de virgens subiria para 94 (20,6%).

Se aceitarmos a resposta da questão específica “você é virgem?” encontramos um total de 149 estudantes, ou 42,50%, embora como já foi visto, quando avançamos na intimidade dos estudantes, as respostas tendem a ser divergentes. O que reforça a idéia de que o conceito de virgindade e de iniciação dependem do ponto de vista e da elaboração desses conceitos por parte dos alunos.

Para 260 estudantes as DSTs influenciam as suas sexualidades. Para estes é imprescindível o uso da camisinha e ter um parceiro fixo, 174 (38,20%) e 86 (18,90%), respectivamente. Outros 41 estudantes (9%) afirmam que as DSTs não influenciam sua vida sexual pelo fato de que possuem um parceiro fixo. No entanto, convém lembrar que essa prática só é realmente segura se essa for uma opção de ambos envolvidos na relação. Enfim, de nada adiantaria ter um parceiro fixo para se proteger e ser fiel se não houver a contrapartida do outro.

A religião como uma instituição cultural e repressora de enorme penetração e determinação de diversos valores e padrões consolidados na sociedade como a condenação do sexo antes do casamento, o uso de anticoncepcionais e de outras práticas sexuais como a sodomia também não influencia a sexualidade dos estudantes. Para 278 (61%) dos entrevistados ela não exerce mais qualquer tipo de influência em sua atividade sexual. Muito embora para 56 (12,30%) e 112 (24,60%) ela ainda influencie “significativamente” e “parcialmente”, respectivamente.

A família é outra instituição cultural tradicional de onde os indivíduos recebem uma poderosa carga de informações e ideologias, muitas delas relacionadas a atividade sexual comumente de caráter repressivo influenciando em determinados tipos de formação do caráter das pessoas não possui influência para grande parte dos estudantes pesquisados. Para um contingente de 312 alunos e alunas (68,40%) a instituição familiar não exerce qualquer tipo de controle no que se relaciona às suas condutas sexuais. Mas essa opinião não é compartilhada por outros uma vez que a família ainda influencia na hora da decisão do estudante de escolher, por exemplo a cor da pele do parceiro, 11 (2,40%), ou a classe social 29 (6,40%) ou ainda a religião professada pelo parceiro 11 (2,40%). Outros 64 estudantes (14%) afirmaram que a família influencia sua sexualidade de outras maneiras.

De uma maneira em geral, conclui-se que tanto a religião como a família enquanto agregados culturais com raízes profundas como ancoradoras da condição de ser e estar das pessoas na sociedade e enquanto espaços de controle e determinação das ações dos indivíduos, ocupam um espaço limitado no universo das opções e práticas das sexualidades dos estudantes da UFPI no momento da realização da pesquisa.

Com relação ao papel da fidelidade no imaginário dos estudantes a fidelidade é de longe um elemento agregador de extrema relevância em um relacionamento. No universo pesquisado 275 (60,30%) afirmaram que a fidelidade é essencial. Para 155 (34%) ela é muito importante. Apenas 111 estudantes (2,40%) disseram que ela não é importante para um relacionamento.

Já o sexo exerce no conjunto pesquisado uma importância de igual proporção. Para 163 (35,70%) ele é necessário, enquanto para 177 (38,80%) ele é muito necessário. Apenas 36 (7,90%) afirmaram que o sexo não importa para as suas vidas. Outros 80 estudantes (17,50%) não responderam a questão. Seriam os virgens das questões 19, 20 e 21?

Um dos objetivos desta pesquisa era montar um perfil dos alunos da UFPI. Outro objetivo mais ousado era fazer uma radiografia da sua sexualidade. A ousadia se revela pelo fato de ser a primeira experiência mas, principalmente, devido ao fato de se tratar de uma pesquisa que envolve temas ainda delicados para grande parte da sociedade: sexo e exercício da sexualidade. O paradigma que nos movia era o de responder a seguinte questão: predominaria o conservadorismo no seio dos estudantes ou eles já estão avançados, enfim, seguem o que se passa a nível mais geral no Brasil?.

A análise exaustiva dos dados colhidos no conjunto de 34 questões que compõem a pesquisa existem 11 que nos permitem afirmar com segurança que os temas sexo e exercício da sexualidade ainda são sim encarados por uma parcela significativa de jovens com verdadeiros tabus. Enfim, que eles não se sentem muito à vontade para relatar ou expressar sua idéias sobre questões mais íntimas. Esse fechamento revela, por seu turno, um certo conservadorismo, talvez por medo, insegurança ou mesmo vergonha, identificado, especialmente, no universo feminino.

Questões como “você é virgem?”, “você já se iniciou sexualmente?”, “com quem você se iniciou sexualmente?”, “qual o motivo de sua iniciação?”, “com que idade?”, “qual a sua freqüência sexual?”, “qual a freqüência do orgasmo nas relações” e “qual o papel do sexo na sua vida”, foram verdadeiros desafios para uma parcela considerável de estudantes, com destaque para as mulheres. Chamou a nossa atenção a questão “qual o motivo de sua iniciação sexual?”. Do universo de 456 estudantes pesquisados 119 (26,10%) simplesmente não responderam. É estranho por que quando argüidos se eram virgens, apenas 4 (0,90%) se abstiveram de responder.

A análise dos números coletados permite-nos concluir também que existem opiniões diversas acerca do significado de “iniciação sexual” e “virgindade”. Partimos do paradigma de que são várias as possibilidades uma pessoa iniciar-se que pode se dar, inclusive com a relação sexual propriamente dita, o que quebraria toda uma cadeia de aprendizado e práticas como carícias, beijos e o auto-erotismo. Já a perda da virgindade, como aceita no sentido tradicional enraizado na sociedade, ocorreria com a penetração vaginal e o rompimento, ou não, do himem.

A UFPI tinha 5.555 mulheres matriculadas <48,8%) no semestre passado; 79,1% eram solteiras e, 90% delas, se declararam heterossexuais; Cerca de 63% delas já trabalham; O Serviço Social é o curso que tem mais mulheres (249). Seguido pelos cursos de Letras (235), Direito (180) e História e Geografia, ambos com 129 alunas; Ciências Sociais é o curso que possui o maior número garotas que declararam não ser mais virgens; Administração é o curso que tem mais garotas virgens; 60,8% das mulheres do CCHL preferem sexo convencional (o velho e bom “mother-and-farher position”). Nesse mister predomina uma espécie de conservadorismo feminino: apenas 0,83% declararam gostar de sexo anal ou grupal. Sexo oral é aceito para 12,5% delas; As historiadoras estão entre aquelas alunas que mais se declaram “não mais virgens” (70,5%). Elas só perdem para as garotas das Ciências Sociais e estão à frente das assistentes sociais; Geografia, Letras e História são os cursos que possuem os maiores planteis das garotas mais jovens do CCHL, isto é, situadas na faixa etária de 17 a 20 anos, (66,60%, 42,80% e 35,30% respectivamente).

A UFPI possuía 5.839 homens matriculados no semestre passado; O CCHL possui 60% de alunos masculinos; 87% são solteiros e apenas 9% são casados; 89,6% se declararam heterossexuais; Geografia é o curso que possui o maior número de estudantes do sexo masculino, seguido de Economia e de Administração; Virgindade já não faz parte do vocabulário dos meninos dos cursos de Direito, Filosofia e História, todos os entrevistados se disseram “não virgens”; 61% dos homens do CCLH preferem o sexo do tipo convencional (sexo vaginal). Aí há um empate com as mulheres. Nesse sentido também existe pouca variação: cerca de 12,90% afirmaram gostar de sexo oral e 4,20% afirmaram praticar sexo anal; Já os alunos de Administração encontram-se todos abaixo dos 25 anos de idade, é o curso com o maior número de jovens, no curso de História 84,60% dos alunos tinham até 25 anos; Contábeis e Direito foram os cursos em que os homens menos acham que o SEXO seja um algo NECESSÁRIO em suas vidas (apenas 2,80%) enquanto os rapazes de Administração (100%) e de Contábeis (71,4%) acreditam que o sexo seja algo muito importante em suas vidas; Os cursos que mais têm homens são: Direito (308), Economia (206), Geografia (203) e História (198). Serviço Social tem apenas 9 homens.

 
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Última atualização: 14/09/03.

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