Votar não é, por
si só, um ato de cidadania. Da mesma forma, tirar documentos e pagar
impostos não são, de maneira isolada, exercícios de cidadania. Muito mais do
que um conjunto de atos e práticas, cidadania é um processo de
conscientização e de tomada de conhecimento das posições no espaço-tempo e
nas relações sociais - e dos critérios para uma ocupação dessas posições -,
um projeto de objetivação da subjetividade e, enfim, uma trajetória de
construção do respeito às diferenças culturais e de combate às desigualdades
sociais.
Ser cidadão,
então, é ter consciência e controle do próprio processo, projeto e
trajetória de formulação / reformulação identitária. As evidências trazidas
pela pesquisa antropológica confirmam que as identidades se criam e recriam,
por um lado, cada vez que o "mesmo" encontra o "outro" e, por outro lado,
cada vez que o "indivíduo" encontra o "coletivo". Ou seja, é na dupla
relação com o "outro" e com "coletivo" que as identidades são elaboradas.
Ora, essa relação com o "outro" e com o "coletivo" é sempre ritualizada,
precisamente por se tratar de um momento crucial da vida social. Assim, em
último caso, a cidadania, enquanto processo, projeto e trajetória
identitários, só se exerce plenamente a partir de situações ritualizadas,
como festas, grandes reuniões, eleições, eventos extraordinários e/ou
cíclicos, carnavais... A experiência individual do conjunto dessas situações
- e nenhuma delas isoladamente - é que faz do indivíduo um cidadão.
Podemos entender,
a partir das considerações acima, porque é que os franceses dão tanto valor
ao desenvolvimento das práticas esportivas em bairros periféricos das
grandes metrópoles habitados essencialmente por imigrantes muçulmanos
marginalizados, oriundos de antigas colônias norte-africanas. O esporte e
seus rituais serviriam como um locus de inclusão social. Mais aprimorados
são os projetos, inicialmente esportivos, desenvolvidos no Morro da
Mangueira, no Rio de Janeiro, com ajuda de órgãos governamentais e,
principalmente, ONGs estrangeiras. Naquela favela, as atividades
empreendidas vão desde a prática esportiva profissionalizante até escolas de
costura e culinária, passando pela dança e teatro.
Mais que o
esporte, a arte pode servir, logo, como ponto de partida para a inclusão
social e o exercício da cidadania. Inúmeras escolas de dança funcionam em
favelas cariocas, como a Pequena Obra Nossa Senhora Auxiliadora - PONSA - no
Morro Dona Marta, que teve como ponto de partida uma obra caritativa
assistencialista e redencionista e que se transformou, ao longo de décadas
de funcionamento, numa incubadora de grandes talentos, usando as
musicalidades de origem dos alunos. É nesse confronto de trocas simbólicas
entre musicalidades autóctones "populares" e musicalidades alógenas
"clássicas" que as identidades parecem se formular e se reformular, gerando
"vivências" de cidadania sustentável.
Assim foi o I
Festival Interartes da Serra da Capivara, realizado pela Fundação do Homem
Americano, com apoio do governo do estado e de empresas privadas. Em
realidade, o Festival não foi um ato único, mas a ponta de um iceberg, dando
visibilidade a uma caminhada que começou, talvez, com a chegada da Profa.
Niède Guidon e sua equipe no Piauí, nos idos dos anos 70: muito mais do que
aqueles espetáculos isoladamente apresentados para os telespectadores de
todo o estado pela TV Meio-Norte, o Interartes foi também uma série de
oficinas de dança e música, conferências e palestras, visitas
inteligentemente guiadas a sítios arqueológicos, interações de todas as
naturezas entre o público do Festival e os habitantes das cidades e povoados
de toda a micro-região de São Raimundo Nonato, contatos inusitados e cheios
de surpresa com a fauna e a flora da caatinga, "aulas" informais de
introdução à sobrevivência no semi-árido... Isso é a construção da
cidadania.
Cidadania, para
citar somente dois exemplos, é o que produz o trabalho de produção de
cerâmica "típica" da Serra da Capivara: com apoio do BID e objetivando o
reaproveitamento da mão-de-obra até então ocupada na caça predatória,
criou-se a fábrica de cerâmica, a partir de técnicas desenvolvidas em
conjunto por pessoas nativas e por pessoas de fora e ensinadas aos
ex-caçadores. Mas, o exemplo que mais me chamou a atenção é o das aulas
ministradas por Lina do Carmo, a dançarina piauiense radicada na Alemanha,
responsável pela coordenação artística do Festival. Ela conseguiu fazer com
que meninos e meninas, assim como seus familiares pobres, vissem na dança
uma forma de interagir, de maneira brincalhona, porém séria, com seu
meio-ambiente, com sua história, com sua gente, com o mundo... Isso é a
construção da cidadania.
Enfim, pequenas
ações, como as aulas de dança para crianças da Serra da Capivara (e todas as
conseqüências dessas aulas), tornam-se verdadeiros instrumentos do processo
de construção da cidadania. É através da arte e da (re)apropriação cultural
- e, principalmente, da chamada "cultura popular" ou "tradicional", por
oposição absurda à erroneamente chamada "cultura erudita" - que um povo se
constitui enquanto nação e reforça o ideal da diversidade cultural e do
respeito à convivência das diferenças.
O governo do
estado do Piauí, através da FUNDEC e da PIEMTUR, já entendeu que é passada a
hora de estimular - não só financeiramente, mas instigando a criatividade -
essa (re)apropriação cultural, com eventos como a teresinense Feira de Artes
da Praça Pedro II (a "Feirinha da P2") ou o Festival Interartes. Chegou a
hora de retomar o bomba-meu-boi, os reisados e tantas outras práticas
rituais, fazendo com que, nos eventos, os grupos e classes sociais, as
faixas etárias, os sexos e as orientações sexuais, as cores de pele, enfim,
"os diferentes", se encontrem e, desse encontro, ressurja a identidade
piauiense... Mas, não basta montar o palco e fazer festa; há de se dar
sustentabilidade a essas atividades, pois a cidadania, repito, é um
processo, um projeto, uma trajetória...