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Cultura, arte e cidadania

 

Prof. Dr Fabiano Gontijo [Doutor em Antropologia pela EHESS-França e Professor do Departamento de Ciências Sociais e do Mestrado em Políticas Públicas na Universidade Federal do Piauí] (Enviar e-mail)

 

Votar não é, por si só, um ato de cidadania. Da mesma forma, tirar documentos e pagar impostos não são, de maneira isolada, exercícios de cidadania. Muito mais do que um conjunto de atos e práticas, cidadania é um processo de conscientização e de tomada de conhecimento das posições no espaço-tempo e nas relações sociais - e dos critérios para uma ocupação dessas posições -, um projeto de objetivação da subjetividade e, enfim, uma trajetória de construção do respeito às diferenças culturais e de combate às desigualdades sociais.

Ser cidadão, então, é ter consciência e controle do próprio processo, projeto e trajetória de formulação / reformulação identitária. As evidências trazidas pela pesquisa antropológica confirmam que as identidades se criam e recriam, por um lado, cada vez que o "mesmo" encontra o "outro" e, por outro lado, cada vez que o "indivíduo" encontra o "coletivo". Ou seja, é na dupla relação com o "outro" e com "coletivo" que as identidades são elaboradas. Ora, essa relação com o "outro" e com o "coletivo" é sempre ritualizada, precisamente por se tratar de um momento crucial da vida social. Assim, em último caso, a cidadania, enquanto processo, projeto e trajetória identitários, só se exerce plenamente a partir de situações ritualizadas, como festas, grandes reuniões, eleições, eventos extraordinários e/ou cíclicos, carnavais... A experiência individual do conjunto dessas situações - e nenhuma delas isoladamente - é que faz do indivíduo um cidadão.

Podemos entender, a partir das considerações acima, porque é que os franceses dão tanto valor ao desenvolvimento das práticas esportivas em bairros periféricos das grandes metrópoles habitados essencialmente por imigrantes muçulmanos marginalizados, oriundos de antigas colônias norte-africanas. O esporte e seus rituais serviriam como um locus de inclusão social. Mais aprimorados são os projetos, inicialmente esportivos, desenvolvidos no Morro da Mangueira, no Rio de Janeiro, com ajuda de órgãos governamentais e, principalmente, ONGs estrangeiras. Naquela favela, as atividades empreendidas vão desde a prática esportiva profissionalizante até escolas de costura e culinária, passando pela dança e teatro.

Mais que o esporte, a arte pode servir, logo, como ponto de partida para a inclusão social e o exercício da cidadania. Inúmeras escolas de dança funcionam em favelas cariocas, como a Pequena Obra Nossa Senhora Auxiliadora - PONSA - no Morro Dona Marta, que teve como ponto de partida uma obra caritativa assistencialista e redencionista e que se transformou, ao longo de décadas de funcionamento, numa incubadora de grandes talentos, usando as musicalidades de origem dos alunos. É nesse confronto de trocas simbólicas entre musicalidades autóctones "populares" e musicalidades alógenas "clássicas" que as identidades parecem se formular e se reformular, gerando "vivências" de cidadania sustentável.

Assim foi o I Festival Interartes da Serra da Capivara, realizado pela Fundação do Homem Americano, com apoio do governo do estado e de empresas privadas. Em realidade, o Festival não foi um ato único, mas a ponta de um iceberg, dando visibilidade a uma caminhada que começou, talvez, com a chegada da Profa. Niède Guidon e sua equipe no Piauí, nos idos dos anos 70: muito mais do que aqueles espetáculos isoladamente apresentados para os telespectadores de todo o estado pela TV Meio-Norte, o Interartes foi também uma série de oficinas de dança e música, conferências e palestras, visitas inteligentemente guiadas a sítios arqueológicos, interações de todas as naturezas entre o público do Festival e os habitantes das cidades e povoados de toda a micro-região de São Raimundo Nonato, contatos inusitados e cheios de surpresa com a fauna e a flora da caatinga, "aulas" informais de introdução à sobrevivência no semi-árido... Isso é a construção da cidadania.

Cidadania, para citar somente dois exemplos, é o que produz o trabalho de produção de cerâmica "típica" da Serra da Capivara: com apoio do BID e objetivando o reaproveitamento da mão-de-obra até então ocupada na caça predatória, criou-se a fábrica de cerâmica, a partir de técnicas desenvolvidas em conjunto por pessoas nativas e por pessoas de fora e ensinadas aos ex-caçadores. Mas, o exemplo que mais me chamou a atenção é o das aulas ministradas por Lina do Carmo, a dançarina piauiense radicada na Alemanha, responsável pela coordenação artística do Festival. Ela conseguiu fazer com que meninos e meninas, assim como seus familiares pobres, vissem na dança uma forma de interagir, de maneira brincalhona, porém séria, com seu meio-ambiente, com sua história, com sua gente, com o mundo... Isso é a construção da cidadania.

Enfim, pequenas ações, como as aulas de dança para crianças da Serra da Capivara (e todas as conseqüências dessas aulas), tornam-se verdadeiros instrumentos do processo de construção da cidadania. É através da arte e da (re)apropriação cultural - e, principalmente, da chamada "cultura popular" ou "tradicional", por oposição absurda à erroneamente chamada "cultura erudita" - que um povo se constitui enquanto nação e reforça o ideal da diversidade cultural e do respeito à convivência das diferenças.

O governo do estado do Piauí, através da FUNDEC e da PIEMTUR, já entendeu que é passada a hora de estimular - não só financeiramente, mas instigando a criatividade - essa (re)apropriação cultural, com eventos como a teresinense Feira de Artes da Praça Pedro II (a "Feirinha da P2") ou o Festival Interartes. Chegou a hora de retomar o bomba-meu-boi, os reisados e tantas outras práticas rituais, fazendo com que, nos eventos, os grupos e classes sociais, as faixas etárias, os sexos e as orientações sexuais, as cores de pele, enfim, "os diferentes", se encontrem e, desse encontro, ressurja a identidade piauiense... Mas, não basta montar o palco e fazer festa; há de se dar sustentabilidade a essas atividades, pois a cidadania, repito, é um processo, um projeto, uma trajetória...

 
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Última atualização: 14/09/03.

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