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O melhor presente

 

Antonio Carlos Costa Cruz [Estudante de Letras na Universidade Federal do PIauí] (Enviar e-mail)

 

Quem, nos dias que correm, não ouviu falar em seu ambiente de trabalho do papel social das empresas? Embora as ações nem sempre corram parelhas com a intenção, é uma tendência que parece se espalhar. Deveria ser um objetivo contínuo, mas é mais comum no natal.

Foi assim que Leonel Cavalcante se viu nas ruas do bairro Piçarreira, a distribuir presentes nas vésperas do natal. De antemão ficou combinado que não iria vestido de Papai Noel. Também ficou acertado que a distribuição seria em casas distantes uma das outras, para que o agraciado não comunicasse ao vizinho, que comunicaria ao próximo, que... que formariam uma multidão a exigir presentes, que Leonel decerto não teria. Assim, com a ajuda da Associação dos Moradores, escolheu-se as casas dos menos aquinhoados e menos vizinhos.

Leonel, 20 anos de trabalho, cumpriu sua missão sem problemas. Não sentiu lá muita emoção ao verificar a alegria das crianças quando recebiam os presentes. Para ele, cada casa visitada representava apenas um “cliente” a menos para atender.

Quando já se dirigia ao carro, deixado distante para não causar suspeitas, começou a chover. Não teve Leonel outra saída senão pedir abrigo em uma pequena casa, a primeira que encontrou de porta aberta.

Um homem magro, nu da cintura para cima, apontou uma cadeira:

— Pois sim, Siô. Sente aí. A demora da chuva parece qui nun vai ser pouca. Quando fecha o tempo pro lado que o sol nasce…

O horário (17 horas), não impedia que as densas nuvens tornassem a casa um pouco escura. Mas Leonel pode perfeitamente ver a pobreza que se descortinava à sua volta: quatro paredes de taipa circundavam duas cadeiras, um fogão de duas bocas, duas bicicletas, algumas caixas com objetos sem valor e, estendida ao longo da lateral da casa, uma rede velha, acentuadamente suja; o teto, de telha redonda, era o único elemento da casa que lembrava uma habitação digna.

A chuva engrossou mais um pouco, molhando, pela abertura da porta, o piso de barro. O homem magro fecha a porta e o escuro se acentua. Ele acende então uma lamparina. Ante o espanto da visita ao ver objeto tão antigo, explica:

— Siô, cortaro a luz do barraco tá com mais de três ano. Eu inté que fui na CEPISA, mas lá expricaro que num foi eles. Mermo assim o moço lá falou que iria mandar alguém. Preguntou se aqui tinha algum aparêi que ocupasse energia. Digo não, tem só um bico de lampra. Correu mais ou menos um mês e apareceu aqui um deles, em cima dum motor. E disse: Ói, num foi mesmo a CEPISA que cortou o fio de luz. Mas nem por isso. Eu vou ali na Bandeirante e mais com pouca eu volto. Nunca voltou. De lá pra cá eu fiquei assim, na base da lamparina. Eu num digo nada. Pruquê ansê sabe: o calado é vencedor, e o brabo por ele mermo se consome.

Leonel já começava a se interessar pela conversa do homem magro, que falava com voz grossa e lenta, a mostrar os poucos dentes que a cárie ainda não devorara.

— E quem terá cortado?

— Siô, eu desconfio que foi um fulano de tal Alcides, que anda por aí dentro dum carro. Parece que quer tomar aqui a área de chão pra fazer uma casa. Assim me contaro lá na Associação. Passou uma moça aqui e preguntou: ocê sabe quem é o novo presidente? Eu digo não, dona. Eu passo o dia vendendo meus picolé e não dou conta dessas coisa. Aí ela disse: pois quando puder vá falar com ele lá na sede.  Um dia eu fui. Cheguei lá e ele nun tava. Com pouca mais foi que chegou um do bucho mole. Dissero: o home é esse aí. Mandou que eu entrasse e sentasse. E disse: ói, no baião que vai, você vai terminar lá pras bandas do Planalto Uruguia. Lá em casa o telefone não pára. Tem mais de oito aqueredor pro lugar onde você mora. Ansê tem os documentos do terreno? Digo tenho sim. Do tempo que esse senhor de Heráclito Fortes era prefeito. Então vamos ver o que se pode fazer. Foi a resposta que me deu.

A chuva diminuíra um pouco e o encontro dos pingos com o telhado funcionava como uma música de fundo à voz do homem magro, que falava lento, porém sem pausas. Leonel apenas acenava com a cabeça ou emitia pequenas afirmações, a indicar que estava ouvindo. Vez ou outra é que formulava uma pergunta.

— Essa gente do coração ruim, do coração de bicho feroz, é capaz de ser da parte do Diabo, que nem esse tal de Alcides. Pruquê, ansê sabe: hoje em dia o que mais se vê é cabra jeitoso depois do jeito feito — continuou o homem magro.

— Como assim da parte do Diabo? Ele existe mesmo?

— Existe sim, Siô. É só chamar que ele se apresenta. Nestes boteco que tem bebedeiras, ele tá lá. Às vezes a pessoa chega e diz: rapaz, paga uma pinga pra mim. Aí o outro responde: tem mais dinheiro não. Quando num é a pessoa vai até comprar outra coisa. O sujeito chega pra ele e diz: eu sei o que é que tu quer! Faz só arrancar pela faca e caminha pra cima dele. Acontece isso.

Leonel olhou o relógio, que já apontava para as dezessete e trinta. Mas de certa forma desejava a continuação da chuva. O homem magro parece que há muito não encontrava alguém para conversar e a presença de Leonel vinha dar uma trégua à sua solidão.

— Deus primita que o inverno seja bom. Pruquê de tudo por tudo, se chover bem, inté que inté. Mas se faltar chuva, ah! moço! O véi meu pai contava que na era de 32 teve uma seca muito grande. Ele mesmo escapou com caça do mato e uns pintos que criava. Meu pai morreu em 78. Antes de morrer disse que num era pra eu beber árcool. Mesmo que fumasse meu cigarrinho, que fumasse pouco. Pruquê não tem aquele dizer: vício nenhum pertence a Deus? Pois é. O véi nun era besta não. Depois morreu minha mãe. Tá com dezoito anos. Mas pra mim é como se tivesse sido ontem. Pruquê, ói: num tem coisa mais doce do que mãe. Morreu acabou.

— E você nunca se casou? — perguntou Leonel

— Siô, o causo de eu nun ter muier nun é pruquê eu num queira não. O probrema é que só arranjo fia de gente rúim e assim eu nun quero. Pode os parente dela querer me matar com pancada grande. Quando eu tinha meus vinte ano, arranjei um namorada lá em Santa Teresa, onde morava este véi meu pai. Mamãe disse: ói, é mior ansê parar com esse movimento pra casa do Raimundo Porrete, pois sou sabedora que você tá interessado pela filha dele e eu nun quero saber de fio meu casado com essa gente. Aí eu disse: pois bom mamãe, vou acabar. E acabei. Mas fiquei triste, pensativo pelos canto. Um dia chega em Santa Teresa meu padrim, por nome Chico Vinuta, irmão dessa Teresa Vinuta, que era parteira lá de casa. Hoje em dia ela mora aí pras bandas deste conjunto Renascença, onde antigamente era a mata dos agudão. Pois bom, como ia lhe contando. Meu padim disse: óia, se tu quiser ir comigo pro Maranhão, passar por lá com nada um ano, eu te dou duas linhas de roça. Só pra tu tirar alguma ponta de garrancho que tiver pelo meio e… prantá. Eu fui e por lá passei dois anos. Dei paludismo. Eu disse pra meu padrim: meu padrim, o arroz que eu tiver por aí eu vou vender e o apurado que der vou juntar pr’eu ir embora. Aqui não vejo nada de vantagem. Só vejo mesmo é arroz, arroz, arroz. Pra nun dizer que nun vejo nada, vejo muito é muriçoca. Apurei o que foi possível e vim embora. Mas lá Siô, é por essa forma: a pessoa que queira se fornecer no inverno, ou que seja no verão, é só chegar pros donos de armazém que eles vende. Não é como aqui que é só na base do dinheiro, não. Quando chega no fim da safra, tem famia que entrega até carrada de arroz pros donos de armazém. A história deles é essa: não, o meu eu quero receber é em arroz.

Era um sujeito sem trava na língua, o homem magro. Fosse outro e numa situação daquelas, os dois iam ficar a maior parte do tempo calados, afinal estavam diante de alguém nunca visto. A chuva, coitada, ia ser talvez o único assunto a quebrar o silêncio. “Êta chuva forte!” ou, “E eu que pensava que ia passar logo” ou ainda “o inverno parece que vai ser bom”. Leonel decerto puxaria este tipo de assunto, mas como ir por ai diante do homem magro?

— Assim que mamãe morreu é que vim morar neste barraco. Nesta firma por nome ENGENE trabalhei um ano. Eu e outro fumo besta de pedi as conta. De lá pra cá tô neste ramo de picolé, mas o que arranjo só dá pra comer. É como se diz: da mão para a boca. Purquê, ansê é sabedor: nada é mais triste do que escutar panela chiando lá na casa dos outros. E coisa que tá por acolá nun é nunca como aquela que tá perto da gente.

Leonel balançou a cabeça afirmativamente, apesar de certa confusão gerada em sua cabeça diante de tanta citação, ainda mais misturando lá com acolá. O homem continuou:

— Tem dia que eu ganho seis, tem dia que ganho cinco, tem dia que só ganho quatro. Num é peso medido não. E nunca que arranjei uma muié. Por que você sabe, né? A pessoa disprivinida nun é nunca como quem tem. E hoje só se dá crença a quem tem carro. Mas Deus há de me ajudar. Por que tudo é no dia e na hora, até a morte. Ansê conhece aquele cascudo por nome vaga-lume, que alumia as beira de estrada na boca da noite? Onde der muito deles! Ou então quando você passar por um lugar e sentir aquele calor. Ali tem uma mampanha: ou tem alma ou morreu alguém naquele lugar.

Leonel não conseguiu associar os vaga-lumes com o casamento que não houve. Decerto que nunca haverá. E sentiu uma certa pena daquele homem que, ao 50 anos, sem possuir sequer o necessário para si, ainda alimentava a esperança de casar. Como que para esquecer, perguntou:

— O senhor caçou muito?

— Siô, matei muito macaco. Só que a cara dele eu não comia. Parece muito com a da gente. Minha irmã, que hoje mora aí em Timon, é que preparava. Deixava o bicho cozinhá inté …largar a carne dos ossos. Da merma maneira que se cozinha aboba: inté largar da casca. Então, lá era dessa manera. Lá em Santa Teresa, quando chega o inverno e… entra o verão. Ói, naquelas roça de mandioca, dá peba, dá preá, inté cutia entra. Faz vereda. Aqui na cidade tem este porém: nin tem caça, nun se pode plantar, nem criar. E outra é que tem muito ladrão. Que pergunte este Raimundo Quenquem, que trabáia nos Correi. Num tem ali aquele clube que dá o nome de Tigrão, que é dos graúdos da pulíça? Pois ele trabáia ali perto, lado direito de quem vai no rumo do Balão do São Cristóvão. Ói: Pedra Mole, Vila do Avião, Cidade Jardim, Anita Ferraz…o que se vê é homi com a cara pra cima, sem dá prego numa barra de sabão. Assim me disse Raimundo. E gente assim, no lugar de ir trabaiá, vai mesmo é roubar. É como quem diz: ah!, eu já achei este aqui fácil, vou lá atrás do mais difícil?

Leonel não conseguia entender como alguém com aspecto físico tão deprimente podia ter uma conversa até em certo ponto aprumada. Se tivesse estudado, seria um filósofo ou coisa semelhante. Daí lhe veio a vontade de perguntar ao homem magro sobre estudo, ao que ele respondeu ligando um caso a outro:

— Caminhei pro colégio só um mês. Foi no tempo do Mobral. Ansê deve tá lembrado. As aula era de noite. Eu chegava da roça já cansado e pra lá ia. Mas logo, logo saí. Meu pai adoeceu e tive que cuidar dele. Desta justa doença foi que morreu. Depois morreu minha mãe, como já lhe disse. Mamãe era uma muié muito boa. A história dela era essa: qualquer um dos meus fio, sabendo que eu tenho, pode vim pegar. Depois que ela morreu, nunca consegui me apulumar na vida. Venho vindo de lá pra cá nesse sofrimento. Sempre quis arranjar muié, mas já tô com essa demora toda. Mas Deus há de dá o jeito, pruquê é como já lhe disse: tudo é por Deus, inté o castigo.

Da chuva restava apenas espaçados e fracos pingos, núncio de seu fim, mas Leonel permaneceu em sua cadeira desconfortável, não obstante o relógio marcar  18:10 e nada impedir sua saída. Ficou ali ouvindo o homem magro, que agora falava de festas:

— Aqui perto tem este clube, que dá o nome Havaí. Eu mesmo nunca fui por lá, mas daqui escuto a zuada. Só tem mesmo é quem sabe urrar. Num tem mais músico bom, como antigamente. E outra: agora se dança é separado, cada um pro seu lado. No meu tempo se dançava era agarrado, não tinha este negócio de ficar um jogando perna pra ali, outra pra acolá. Agora, a cota a gente pagava. Comprava assim um bilhete numa janelinha, com o nome do clube, ou que fosse do dono da festa. Depois a gente entregava pro porteiro. Parece que ainda hoje é assim. É na base daquela história: o camarada rouba a moça do rei do outro lado do rio e quer passar com ela pras bandas de cá. Só que o passador aqui é combinado com o rei lá. De maneira que quando o cabra chega nas canoa e não tem autorização do rei, não passa. Aí o jeito é jogar o cavalo n’água. Se casualmente o cavalo dé fracasso, é só dá três grito arregaçado e termina atrevessando.

Neste ponto o homem magro deixa escapar uma sonora gargalhada, deixando mais explícito o estrago que a cárie produziu em seus dentes. Leonel também sorriu, mas sustou o ato para ouvir o resto da história:

— Mas acontece muita vez que quando o sujeito chega do outro lado do rio, já topa o rei com tudo quanto é capanga, pra quibá ele. Acontece isso.

Era impressionante como o homem passava de um assunto a outro. Ás vezes não havia nexo, mas no caso da história do roubo da moça, dava para encaixar com o assunto anterior da entrada nas festas. O homem tinha na verdade feito uma comparação.

Por um momento o silêncio imperou na pequena casa. O homem magro parece que cansara, ou esperava ouvir de Leonel alguma história. Ficou absorto, olhando distraído para a rua através da porta, que o vento se encarregou de abrir. Quando divisou umas crianças passando, voltou a falar:

— Ansê vê, enquanto tiver fême produzindo, tuda vai pro rumo do aumento. E o que mais se vê nestas vila é menino. Tem aí umas muié que se junta cum cabra rúim, mas é como se diz: gosto de dois, a despesa é partida no mêi. Essa minha irmã que mora em Timon casou com um chei de ingrisia. É danado pra manda ingnorança pra presença do freguês. Sabedor disso, eu pouco vou por lá, capaz que eu volte pra casa mal-satisfeito. Ou mesmo diga poucas e boas pra ele e termine a gente se atracando. Pruquê ansê sabe, nun se deve facilitar com o Diabo. E tem aquela história que diz: o camim do céu e do inferno nasce no mesmo ponto. Acontece que os diabo limpam o camim pró inferno e colocam espinho no que vai pró céu. Eu mesmo tenho vista cada uma que só pode ser mesmo coisa do Demo, como é o caso que se deu com um tio meu. Ele tinha uma quitandinha lá em Santa Teresa, onde aqueles moradores da vizinhança se forneciam. Um dia chega um por nome Pedro Rosa e fala umas coisa fiado. Meu tio disse não, que a conta já tava muito alta. Pedro Rosa disse: tá certo. E voltou pra casa zangado. Isto foi de manhã. Siô, quando deu boquinha da noite, ele voltou lá e sem nada dizer foi logo engrampando o facão pra cima do meu tio. De nada adiantou ele sair correndo casa adentro. Até passar dibaixo da rede onde dormia uma fia ele passou. Mas quá! Nesta justa hora Pedro Rosa baixou o facão e cortou a perna da menina. Meu tio ainda levou bem uns três cortes, mas num morreu. Depois foi que pegaro Pedro Rosa , que passou uns dias preso aí pras banda da cadeia.

Leonel percebeu que havia na casa duas bicicletas. Num cenário onde tudo evocava a ausência, era estranho existir duas bicicletas. Uma, inclusive, bem conservada, não obstante ser muito velha.

— Esta aqui é a famosa Bristol, não é? — perguntou.

— É sim siô. Esta aí é que eu usava pra trazer jacá aqui pra Teresina. Nesta outra é que eu caminho pra esse movimento do picolé. Vendi jacá de 67 a 77. A partir de 72 foi que comecei a trazer nesta bicicleta. Antes trazia de jumento. Vendia carvão também. Só que em dias diferente. Trazia três jumentos carregados de carvão. Eu e mais este meu irmão mais véi que inda hoje mora lá em Santa Teresa. Agora, só dois jumento era da gente, o outro era alugado. Um dia de serviço. Pra ansê vê como naquele tempo jumento tinha valia. Hoje se diz por aí que ninguém faz mais impenhe.

— E conseguia vender tudo?

— Era contratado. Tinha aqueles dono de armazém que comprava. Naquele tempo pouca gente em Teresina tinha fogão. Só fazia perguntar: quantas latas vieram? Tantas. Aí era só bota a carga abaixo e receber o dinheiro. Depois a gente ia comprar as coisas pra casa. Tinha assim um tiosques de madeira cheio de sacos cereais comestível, onde a gente se fornecia.

Leonel olhou o relógio: 19 horas. Era tarde demais para quem planejara chegar em casa às 17:30. Despediu-se do homem magro e dirigiu-se ao carro. A maioria das casas estava fechada, mas delas vinha um barulho de vozes, sinal de que ali se vivia em grupo. Impossível não comparar com a casa do homem magro, que Leonel não quis olhar novamente. Lá a vida era levada em absoluta solidão.  Havia ali um homem que, por nada consumir, por não dispor de meios para adquirir o que o sistema produz (necessário ou supérfluo) nada valia. E o irônico era que Leonel saíra a distribuir presentes às crianças. E que presentes? Bonecas, carros, motos… Era de brinquedo, está claro. Mas, reparando bem, por trás deste singelo ato, havia também a sedimentação de personalidades. Era como se dissesse: Isto é importante, e quando você crescer, se não possuir estas coisas, pode desistir de ser alguém. Não fosse pela chuva, nunca teria encontrado aquele homem. Quem, mesmo no atípico mês de dezembro, se daria ao trabalho de ir conversar com ele, senão um sujeito com medo da chuva? Vá lá que as pessoas pobres precisam de presentes, de comida, essas coisas. Mas é incrível como o pessoal da empresa (bem como as demais pessoas) não sabe, ou não quer saber, que além disso as pessoas precisam de consideração, de respeito. Precisam ser vistas pelos outros, sem que funcione como obstáculo a ausência de bens. É engraçado: os ricos passam o ano inteiro logrando os pobres e, no final do ano, lá vêm com presentes, numa atitude com objetivo duplo: enganar os pobres e aliviar a consciência dos ricos. Isto é, dos ricos que ainda possuem este sentimento.

Leonel chegou ao carro com a convicção de que a visita que fizera ao homem magro tinha sido, naquele dia, o seu melhor presente.

 

 

                                                                                                  A Cíntia Cardoso,

                                                                                                  figura humana ímpar.

 
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Última atualização: 14/09/03.

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