Quem, nos dias
que correm, não ouviu falar em seu ambiente de trabalho do papel social das
empresas? Embora as ações nem sempre corram parelhas com a intenção, é uma
tendência que parece se espalhar. Deveria ser um objetivo contínuo, mas é
mais comum no natal.
Foi assim que
Leonel Cavalcante se viu nas ruas do bairro Piçarreira, a distribuir
presentes nas vésperas do natal. De antemão ficou combinado que não iria
vestido de Papai Noel. Também ficou acertado que a distribuição seria em
casas distantes uma das outras, para que o agraciado não comunicasse ao
vizinho, que comunicaria ao próximo, que... que formariam uma multidão a
exigir presentes, que Leonel decerto não teria. Assim, com a ajuda da
Associação dos Moradores, escolheu-se as casas dos menos aquinhoados e menos
vizinhos.
Leonel, 20 anos
de trabalho, cumpriu sua missão sem problemas. Não sentiu lá muita emoção ao
verificar a alegria das crianças quando recebiam os presentes. Para ele,
cada casa visitada representava apenas um “cliente” a menos para atender.
Quando já se
dirigia ao carro, deixado distante para não causar suspeitas, começou a
chover. Não teve Leonel outra saída senão pedir abrigo em uma pequena casa,
a primeira que encontrou de porta aberta.
Um homem magro,
nu da cintura para cima, apontou uma cadeira:
— Pois sim, Siô.
Sente aí. A demora da chuva parece qui nun vai ser pouca. Quando fecha o
tempo pro lado que o sol nasce…
O horário (17
horas), não impedia que as densas nuvens tornassem a casa um pouco escura.
Mas Leonel pode perfeitamente ver a pobreza que se descortinava à sua volta:
quatro paredes de taipa circundavam duas cadeiras, um fogão de duas bocas,
duas bicicletas, algumas caixas com objetos sem valor e, estendida ao longo
da lateral da casa, uma rede velha, acentuadamente suja; o teto, de telha
redonda, era o único elemento da casa que lembrava uma habitação digna.
A chuva engrossou
mais um pouco, molhando, pela abertura da porta, o piso de barro. O homem
magro fecha a porta e o escuro se acentua. Ele acende então uma lamparina.
Ante o espanto da visita ao ver objeto tão antigo, explica:
— Siô, cortaro a
luz do barraco tá com mais de três ano. Eu inté que fui na CEPISA, mas lá
expricaro que num foi eles. Mermo assim o moço lá falou que iria mandar
alguém. Preguntou se aqui tinha algum aparêi que ocupasse energia. Digo não,
tem só um bico de lampra. Correu mais ou menos um mês e apareceu aqui um
deles, em cima dum motor. E disse: Ói, num foi mesmo a CEPISA que cortou o
fio de luz. Mas nem por isso. Eu vou ali na Bandeirante e mais com pouca eu
volto. Nunca voltou. De lá pra cá eu fiquei assim, na base da lamparina. Eu
num digo nada. Pruquê ansê sabe: o calado é vencedor, e o brabo por ele
mermo se consome.
Leonel já
começava a se interessar pela conversa do homem magro, que falava com voz
grossa e lenta, a mostrar os poucos dentes que a cárie ainda não devorara.
— E quem terá
cortado?
— Siô, eu
desconfio que foi um fulano de tal Alcides, que anda por aí dentro dum
carro. Parece que quer tomar aqui a área de chão pra fazer uma casa. Assim
me contaro lá na Associação. Passou uma moça aqui e preguntou: ocê sabe quem
é o novo presidente? Eu digo não, dona. Eu passo o dia vendendo meus picolé
e não dou conta dessas coisa. Aí ela disse: pois quando puder vá falar com
ele lá na sede. Um dia eu fui. Cheguei lá e ele nun tava. Com pouca mais
foi que chegou um do bucho mole. Dissero: o home é esse aí. Mandou que eu
entrasse e sentasse. E disse: ói, no baião que vai, você vai terminar lá
pras bandas do Planalto Uruguia. Lá em casa o telefone não pára. Tem mais de
oito aqueredor pro lugar onde você mora. Ansê tem os documentos do terreno?
Digo tenho sim. Do tempo que esse senhor de Heráclito Fortes era prefeito.
Então vamos ver o que se pode fazer. Foi a resposta que me deu.
A chuva diminuíra
um pouco e o encontro dos pingos com o telhado funcionava como uma música de
fundo à voz do homem magro, que falava lento, porém sem pausas. Leonel
apenas acenava com a cabeça ou emitia pequenas afirmações, a indicar que
estava ouvindo. Vez ou outra é que formulava uma pergunta.
— Essa gente do
coração ruim, do coração de bicho feroz, é capaz de ser da parte do Diabo,
que nem esse tal de Alcides. Pruquê, ansê sabe: hoje em dia o que mais se vê
é cabra jeitoso depois do jeito feito — continuou o homem magro.
— Como assim da
parte do Diabo? Ele existe mesmo?
— Existe sim, Siô.
É só chamar que ele se apresenta. Nestes boteco que tem bebedeiras, ele tá
lá. Às vezes a pessoa chega e diz: rapaz, paga uma pinga pra mim. Aí o outro
responde: tem mais dinheiro não. Quando num é a pessoa vai até comprar outra
coisa. O sujeito chega pra ele e diz: eu sei o que é que tu quer! Faz só
arrancar pela faca e caminha pra cima dele. Acontece isso.
Leonel olhou o
relógio, que já apontava para as dezessete e trinta. Mas de certa forma
desejava a continuação da chuva. O homem magro parece que há muito não
encontrava alguém para conversar e a presença de Leonel vinha dar uma trégua
à sua solidão.
— Deus primita
que o inverno seja bom. Pruquê de tudo por tudo, se chover bem, inté que
inté. Mas se faltar chuva, ah! moço! O véi meu pai contava que na era de 32
teve uma seca muito grande. Ele mesmo escapou com caça do mato e uns pintos
que criava. Meu pai morreu em 78. Antes de morrer disse que num era pra eu
beber árcool. Mesmo que fumasse meu cigarrinho, que fumasse pouco. Pruquê
não tem aquele dizer: vício nenhum pertence a Deus? Pois é. O véi nun era
besta não. Depois morreu minha mãe. Tá com dezoito anos. Mas pra mim é como
se tivesse sido ontem. Pruquê, ói: num tem coisa mais doce do que mãe.
Morreu acabou.
— E você nunca se
casou? — perguntou Leonel
— Siô, o causo de
eu nun ter muier nun é pruquê eu num queira não. O probrema é que só arranjo
fia de gente rúim e assim eu nun quero. Pode os parente dela querer me matar
com pancada grande. Quando eu tinha meus vinte ano, arranjei um namorada lá
em Santa Teresa, onde morava este véi meu pai. Mamãe disse: ói, é mior ansê
parar com esse movimento pra casa do Raimundo Porrete, pois sou sabedora que
você tá interessado pela filha dele e eu nun quero saber de fio meu casado
com essa gente. Aí eu disse: pois bom mamãe, vou acabar. E acabei. Mas
fiquei triste, pensativo pelos canto. Um dia chega em Santa Teresa meu
padrim, por nome Chico Vinuta, irmão dessa Teresa Vinuta, que era parteira
lá de casa. Hoje em dia ela mora aí pras bandas deste conjunto Renascença,
onde antigamente era a mata dos agudão. Pois bom, como ia lhe contando. Meu
padim disse: óia, se tu quiser ir comigo pro Maranhão, passar por lá com
nada um ano, eu te dou duas linhas de roça. Só pra tu tirar alguma ponta de
garrancho que tiver pelo meio e… prantá. Eu fui e por lá passei dois anos.
Dei paludismo. Eu disse pra meu padrim: meu padrim, o arroz que eu tiver por
aí eu vou vender e o apurado que der vou juntar pr’eu ir embora. Aqui não
vejo nada de vantagem. Só vejo mesmo é arroz, arroz, arroz. Pra nun dizer
que nun vejo nada, vejo muito é muriçoca. Apurei o que foi possível e vim
embora. Mas lá Siô, é por essa forma: a pessoa que queira se fornecer no
inverno, ou que seja no verão, é só chegar pros donos de armazém que eles
vende. Não é como aqui que é só na base do dinheiro, não. Quando chega no
fim da safra, tem famia que entrega até carrada de arroz pros donos de
armazém. A história deles é essa: não, o meu eu quero receber é em arroz.
Era um sujeito
sem trava na língua, o homem magro. Fosse outro e numa situação daquelas, os
dois iam ficar a maior parte do tempo calados, afinal estavam diante de
alguém nunca visto. A chuva, coitada, ia ser talvez o único assunto a
quebrar o silêncio. “Êta chuva forte!” ou, “E eu que pensava que ia passar
logo” ou ainda “o inverno parece que vai ser bom”. Leonel decerto puxaria
este tipo de assunto, mas como ir por ai diante do homem magro?
— Assim que mamãe
morreu é que vim morar neste barraco. Nesta firma por nome ENGENE trabalhei
um ano. Eu e outro fumo besta de pedi as conta. De lá pra cá tô neste ramo
de picolé, mas o que arranjo só dá pra comer. É como se diz: da mão para a
boca. Purquê, ansê é sabedor: nada é mais triste do que escutar panela
chiando lá na casa dos outros. E coisa que tá por acolá nun é nunca como
aquela que tá perto da gente.
Leonel balançou a
cabeça afirmativamente, apesar de certa confusão gerada em sua cabeça diante
de tanta citação, ainda mais misturando lá com acolá. O homem continuou:
— Tem dia que eu
ganho seis, tem dia que ganho cinco, tem dia que só ganho quatro. Num é peso
medido não. E nunca que arranjei uma muié. Por que você sabe, né? A pessoa
disprivinida nun é nunca como quem tem. E hoje só se dá crença a quem tem
carro. Mas Deus há de me ajudar. Por que tudo é no dia e na hora, até a
morte. Ansê conhece aquele cascudo por nome vaga-lume, que alumia as beira
de estrada na boca da noite? Onde der muito deles! Ou então quando você
passar por um lugar e sentir aquele calor. Ali tem uma mampanha: ou tem alma
ou morreu alguém naquele lugar.
Leonel não
conseguiu associar os vaga-lumes com o casamento que não houve. Decerto que
nunca haverá. E sentiu uma certa pena daquele homem que, ao 50 anos, sem
possuir sequer o necessário para si, ainda alimentava a esperança de casar.
Como que para esquecer, perguntou:
— O senhor caçou
muito?
— Siô, matei
muito macaco. Só que a cara dele eu não comia. Parece muito com a da gente.
Minha irmã, que hoje mora aí em Timon, é que preparava. Deixava o bicho
cozinhá inté …largar a carne dos ossos. Da merma maneira que se cozinha
aboba: inté largar da casca. Então, lá era dessa manera. Lá em Santa Teresa,
quando chega o inverno e… entra o verão. Ói, naquelas roça de mandioca, dá
peba, dá preá, inté cutia entra. Faz vereda. Aqui na cidade tem este porém:
nin tem caça, nun se pode plantar, nem criar. E outra é que tem muito
ladrão. Que pergunte este Raimundo Quenquem, que trabáia nos Correi. Num tem
ali aquele clube que dá o nome de Tigrão, que é dos graúdos da pulíça? Pois
ele trabáia ali perto, lado direito de quem vai no rumo do Balão do São
Cristóvão. Ói: Pedra Mole, Vila do Avião, Cidade Jardim, Anita Ferraz…o que
se vê é homi com a cara pra cima, sem dá prego numa barra de sabão. Assim me
disse Raimundo. E gente assim, no lugar de ir trabaiá, vai mesmo é roubar. É
como quem diz: ah!, eu já achei este aqui fácil, vou lá atrás do mais
difícil?
Leonel não
conseguia entender como alguém com aspecto físico tão deprimente podia ter
uma conversa até em certo ponto aprumada. Se tivesse estudado, seria um
filósofo ou coisa semelhante. Daí lhe veio a vontade de perguntar ao homem
magro sobre estudo, ao que ele respondeu ligando um caso a outro:
— Caminhei pro
colégio só um mês. Foi no tempo do Mobral. Ansê deve tá lembrado. As aula
era de noite. Eu chegava da roça já cansado e pra lá ia. Mas logo, logo saí.
Meu pai adoeceu e tive que cuidar dele. Desta justa doença foi que morreu.
Depois morreu minha mãe, como já lhe disse. Mamãe era uma muié muito boa. A
história dela era essa: qualquer um dos meus fio, sabendo que eu tenho, pode
vim pegar. Depois que ela morreu, nunca consegui me apulumar na vida. Venho
vindo de lá pra cá nesse sofrimento. Sempre quis arranjar muié, mas já tô
com essa demora toda. Mas Deus há de dá o jeito, pruquê é como já lhe disse:
tudo é por Deus, inté o castigo.
Da chuva restava
apenas espaçados e fracos pingos, núncio de seu fim, mas Leonel permaneceu
em sua cadeira desconfortável, não obstante o relógio marcar 18:10 e nada
impedir sua saída. Ficou ali ouvindo o homem magro, que agora falava de
festas:
— Aqui perto tem
este clube, que dá o nome Havaí. Eu mesmo nunca fui por lá, mas daqui escuto
a zuada. Só tem mesmo é quem sabe urrar. Num tem mais músico bom, como
antigamente. E outra: agora se dança é separado, cada um pro seu lado. No
meu tempo se dançava era agarrado, não tinha este negócio de ficar um
jogando perna pra ali, outra pra acolá. Agora, a cota a gente pagava.
Comprava assim um bilhete numa janelinha, com o nome do clube, ou que fosse
do dono da festa. Depois a gente entregava pro porteiro. Parece que ainda
hoje é assim. É na base daquela história: o camarada rouba a moça do rei do
outro lado do rio e quer passar com ela pras bandas de cá. Só que o passador
aqui é combinado com o rei lá. De maneira que quando o cabra chega nas canoa
e não tem autorização do rei, não passa. Aí o jeito é jogar o cavalo n’água.
Se casualmente o cavalo dé fracasso, é só dá três grito arregaçado e termina
atrevessando.
Neste ponto o
homem magro deixa escapar uma sonora gargalhada, deixando mais explícito o
estrago que a cárie produziu em seus dentes. Leonel também sorriu, mas
sustou o ato para ouvir o resto da história:
— Mas acontece
muita vez que quando o sujeito chega do outro lado do rio, já topa o rei com
tudo quanto é capanga, pra quibá ele. Acontece isso.
Era
impressionante como o homem passava de um assunto a outro. Ás vezes não
havia nexo, mas no caso da história do roubo da moça, dava para encaixar com
o assunto anterior da entrada nas festas. O homem tinha na verdade feito uma
comparação.
Por um momento o
silêncio imperou na pequena casa. O homem magro parece que cansara, ou
esperava ouvir de Leonel alguma história. Ficou absorto, olhando distraído
para a rua através da porta, que o vento se encarregou de abrir. Quando
divisou umas crianças passando, voltou a falar:
— Ansê vê,
enquanto tiver fême produzindo, tuda vai pro rumo do aumento. E o que mais
se vê nestas vila é menino. Tem aí umas muié que se junta cum cabra rúim,
mas é como se diz: gosto de dois, a despesa é partida no mêi. Essa minha
irmã que mora em Timon casou com um chei de ingrisia. É danado pra manda
ingnorança pra presença do freguês. Sabedor disso, eu pouco vou por lá,
capaz que eu volte pra casa mal-satisfeito. Ou mesmo diga poucas e boas pra
ele e termine a gente se atracando. Pruquê ansê sabe, nun se deve facilitar
com o Diabo. E tem aquela história que diz: o camim do céu e do inferno
nasce no mesmo ponto. Acontece que os diabo limpam o camim pró inferno e
colocam espinho no que vai pró céu. Eu mesmo tenho vista cada uma que só
pode ser mesmo coisa do Demo, como é o caso que se deu com um tio meu. Ele
tinha uma quitandinha lá em Santa Teresa, onde aqueles moradores da
vizinhança se forneciam. Um dia chega um por nome Pedro Rosa e fala umas
coisa fiado. Meu tio disse não, que a conta já tava muito alta. Pedro Rosa
disse: tá certo. E voltou pra casa zangado. Isto foi de manhã. Siô, quando
deu boquinha da noite, ele voltou lá e sem nada dizer foi logo engrampando o
facão pra cima do meu tio. De nada adiantou ele sair correndo casa adentro.
Até passar dibaixo da rede onde dormia uma fia ele passou. Mas quá! Nesta
justa hora Pedro Rosa baixou o facão e cortou a perna da menina. Meu tio
ainda levou bem uns três cortes, mas num morreu. Depois foi que pegaro Pedro
Rosa , que passou uns dias preso aí pras banda da cadeia.
Leonel percebeu
que havia na casa duas bicicletas. Num cenário onde tudo evocava a ausência,
era estranho existir duas bicicletas. Uma, inclusive, bem conservada, não
obstante ser muito velha.
— Esta aqui é a
famosa Bristol, não é? — perguntou.
— É sim siô. Esta
aí é que eu usava pra trazer jacá aqui pra Teresina. Nesta outra é que eu
caminho pra esse movimento do picolé. Vendi jacá de 67 a 77. A partir de 72
foi que comecei a trazer nesta bicicleta. Antes trazia de jumento. Vendia
carvão também. Só que em dias diferente. Trazia três jumentos carregados de
carvão. Eu e mais este meu irmão mais véi que inda hoje mora lá em Santa
Teresa. Agora, só dois jumento era da gente, o outro era alugado. Um dia de
serviço. Pra ansê vê como naquele tempo jumento tinha valia. Hoje se diz por
aí que ninguém faz mais impenhe.
— E conseguia
vender tudo?
— Era contratado.
Tinha aqueles dono de armazém que comprava. Naquele tempo pouca gente em
Teresina tinha fogão. Só fazia perguntar: quantas latas vieram? Tantas. Aí
era só bota a carga abaixo e receber o dinheiro. Depois a gente ia comprar
as coisas pra casa. Tinha assim um tiosques de madeira cheio de sacos
cereais comestível, onde a gente se fornecia.
Leonel olhou o
relógio: 19 horas. Era tarde demais para quem planejara chegar em casa às
17:30. Despediu-se do homem magro e dirigiu-se ao carro. A maioria das casas
estava fechada, mas delas vinha um barulho de vozes, sinal de que ali se
vivia em grupo. Impossível não comparar com a casa do homem magro, que
Leonel não quis olhar novamente. Lá a vida era levada em absoluta solidão.
Havia ali um homem que, por nada consumir, por não dispor de meios para
adquirir o que o sistema produz (necessário ou supérfluo) nada valia. E o
irônico era que Leonel saíra a distribuir presentes às crianças. E que
presentes? Bonecas, carros, motos… Era de brinquedo, está claro. Mas,
reparando bem, por trás deste singelo ato, havia também a sedimentação de
personalidades. Era como se dissesse: Isto é importante, e quando você
crescer, se não possuir estas coisas, pode desistir de ser alguém. Não fosse
pela chuva, nunca teria encontrado aquele homem. Quem, mesmo no atípico mês
de dezembro, se daria ao trabalho de ir conversar com ele, senão um sujeito
com medo da chuva? Vá lá que as pessoas pobres precisam de presentes, de
comida, essas coisas. Mas é incrível como o pessoal da empresa (bem como as
demais pessoas) não sabe, ou não quer saber, que além disso as pessoas
precisam de consideração, de respeito. Precisam ser vistas pelos outros, sem
que funcione como obstáculo a ausência de bens. É engraçado: os ricos passam
o ano inteiro logrando os pobres e, no final do ano, lá vêm com presentes,
numa atitude com objetivo duplo: enganar os pobres e aliviar a consciência
dos ricos. Isto é, dos ricos que ainda possuem este sentimento.
Leonel chegou ao
carro com a convicção de que a visita que fizera ao homem magro tinha sido,
naquele dia, o seu melhor presente.
A Cíntia Cardoso,
figura humana ímpar.