Para apagar a má
impressão residual dos atentados de 11 de setembro, nada melhor do que
desviar as atenções para outros acontecimentos associados à mesma data.
Nosso governo vai
celebrar nesse dia a memória de Salvador Allende, morto em 11 de setembro de
1973. Pranteado como vítima de "golpe militar", Allende foi tirado do poder
constitucionalmente, por decisão da Câmara dos Deputados e da Suprema Corte,
que, ante sua resistência armada, convocaram o Exército para expulsá-lo.
Padeceu o que padeceria Fernando Collor se, após a votação do impeachment,
transformasse o Palácio do Planalto num bunker em vez de voltar para casa
(v. "A Tale of Two Chileans", de Robin Harris,
www.lakota.clara.net/harris.pdf).
Outro 11 de
setembro, já festejado antecipadamente, é o centenário de Theodor Adorno,
segundo a mídia nacional um dos maiores filósofos do século XX. Na verdade,
não existe nenhuma filosofia de Theodor Adorno, apenas aplicações engenhosas
que ele fez das idéias de seu amigo Max Horkheimer à estética e à crítica
cultural. Horkheimer e Adorno são inseparáveis como o yang e o yin -- sendo
Adorno o yin, o lado mais externo e aparente.
A inspiração
comum dos frankfurtianos é bem óbvia, ainda que invisível até hoje para suas
tietes. Seu marxismo inicial era bem diluído. Estavam vagamente interessados
em judaísmo, e suas primeiras críticas ao mundo moderno lembravam as dos
tradicionalistas românticos. Mas, meninos ricos, revoltadíssimos contra as
famílias que os paparicavam, o retorno à religião de seus pais era mais do
que seu orgulho podia suportar. Por isto seu destino não foi o do seu
contemporâneo Franz Rosenszweig, materialista reconvertido: seus estudos
judaicos se desviaram, em vez disso, para o lado mais fácil -- a heresia
gnóstica. Aí encontraram a fórmula para poder continuar marxistas sem
abdicar de uma certa aura de mistério religioso. Os princípios da "teoria
crítica" de Horkheimer e Adorno são pura gnose traduzida em freudomarxês. O
gnosticismo jura que a criação foi um erro maligno cometido por uma
divindade menor, o Demiurgo, contra a vontade do deus superior, entidade
excelsa que jamais cairia em semelhante esparrela. O universo sendo
inteiramente mau, o dever do espírito é lutar pela destruição de tudo o que
existe. A "teoria crítica" segue essa receita à risca, enxergando horror por
toda parte e afirmando mesmo que uma sociedade mais justa não pode existir
ou sequer ser imaginada, mas acreditando ver nisso um motivo a mais para
odiar as injustiças do presente. Abominar o mal sem crer no bem parece coisa
de herói trágico, e aí reside o "glamour" peculiar dos frankfurtianos. Mas,
no fundo, é de um comodismo atroz. Moralmente, permitiu a Max Horkheimer
proclamar, com Maquiavel, que todo poder e riqueza vêm da opressão e da
mentira, e ao mesmo tempo encarnar pessoalmente essa teoria, gabando-se de
dominar seus colaboradores "como um ditador" (sic) e enriquecendo à custa da
vil exploração do trabalho deles. Intelectualmente, a brincadeira era ainda
mais cínica. Não havendo critério de justiça, a denúncia das injustiças
estava autorizada, sem pecado, a ser ela própria injusta, arbitrária e
louca. Assim, embora reconhecendo que o comunismo soviético era "o mal
absoluto", Adorno e Horkheimer preferiram deixá-lo em paz, concentrando suas
baterias no ataque à sociedade americana e fornecendo ao movimento comunista
o simulacro de autoridade moral que o ajudou a sobreviver à queda da URSS.
Seu colaborador Herbert Marcuse achava o livre debate uma coisa barbaramente
repressiva, preferindo, como mais democrático, o cerceamento direto de todo
discurso anti-esquerdista. Através de Marcuse, a Escola de Frankfurt
inspirou a censura "politicamente correta", que hoje, em muitas
universidades americanas, condena a estágios de "reeducação sensitiva"
obrigatória, como nos centros soviéticos de "reforma da mentalidade", quem
quer que se oponha à ortodoxia marxista dominante (v.
www.zetetics.com/mac/articles/reeducation.html,
www.newsmax.com/commentarchive.shtml?a=2000/10/29/152520 e
www.shadowuniv.com/reviews/9901hlr-has-kors.html). Parece estranho
apostar na Novilíngua de "1984" como instrumento de "libertação", mas como
poderia ser de outro modo se o ponto de partida é a universalidade do mal e,
portanto, a absoluta falta de vontade -- ou capacidade -- de discerni-lo do
bem? Quando Marcuse nos intoxica de expressões tão manifestamente
embromatórias quanto "tolerância repressiva" e "intolerância libertadora",
ele apenas enfeita com o rótulo de "dialética" a técnica pavloviana da
estimulação paradoxal que dissemina a confusão maliciosa de liberdade e
opressão. A teoria crítica inteira, com efeito, é uma coleção de engenhosos
artifícios de auto-estupidificação moral, que culminam na louvação devota do
Marquês de Sade como exemplo de conduta superior e na apologia da
"perversidade polimórfica" (sic) -- incluindo, evidentemente, sadismo,
masoquismo e pedofilia -- como única forma de sexualidade saudável. Não
espanta que, fugidos do nazismo, Horkheimer e Adorno não conseguissem
enxergar diferença substantiva entre morrer numa câmara de gás em Auschwitz
e pontificar livremente numa bem remunerada cátedra em Columbia, sob os
aplausos da sociedade chique. Tal é a origem do equivalentismo moral que,
hoje, finge igualar a democracia americana aos mais sangrentos
totalitarismos, dos quais o próprio equivalentista, já que ninguém é de
ferro, busca refúgio em Nova York ou Miami. Raros filósofos foram, como os
frankfurtianos, tão escrupulosos em apontar os pecados alheios quanto
insensíveis aos seus próprios. Mas a "teoria crítica" consiste precisamente
nisso, segundo confessava Horkheimer: rosnar soturnamente contra o universo
mau, mas tratando de levar, enquanto isso, "um alto padrão de vida" (sic).
Nesse sentido, não se pode julgar que Theodor Adorno tenha agido mal quando,
ao ver as doutrinas da Escola de Frankfurt levadas à prática por estudantes
rebeldes, chamou a polícia tão logo eles invadiram sua sala.