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Música e Cognição

 

Desidério Murcho [Licenciado em Filosofia e mestre em filosofia da linguagem e da consciência pelo Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa] (Enviar e-mail)

 

As tecnologias de gravação e reprodução trouxeram a possibilidade de ouvir a mesma peça musical tantas vezes quantas as que o melómano desejar. Este facto deu aos compositores a possibilidade de alargar as linguagens musicais para além do familiar, uma vez que os ouvintes não têm já que compreender uma peça musical assim que a escutam pela primeira vez. Antes de a ciência permitir essa pequena maravilha que são os discos, as cassetes e em especial os compactos, os compositores tinham que obedecer a padrões formais rígidos, de forma a permitir que os ouvintes pudessem reconhecer pelo menos parte do que estavam a escutar. Esta exigência deriva da estrutura cognitiva humana, que não permite compreender imediatamente qualquer coisa que seja absolutamente nova — o reconhecimento é a condição de possibilidade do conhecimento. Mas se oferecermos à cognição alguns elementos reconhecíveis, podemos fazer variar com alguma amplitude outros aspectos que, sendo novos, já poderão no entanto ser apreciados contra o pano de fundo dos familiares. É assim que um melómano do século XIX pode chegar a compreender uma nova sinfonia a que assiste pela primeira vez, e que em toda a sua vida não ouvirá mais de dez vezes — o compositor oferece ao seu público sinais familiares, dentro dos quais os ouvintes podem apreciar a novidade.

Ao contrário do que acontecia no passado, os músicos de hoje não têm de obedecer a padrões formais, uma vez que o seu público terá a possibilidade de repetir a audição tantas vezes quantas desejar, até conseguirem aquela compreensão que numa única audição não seria jamais alcançável. Todavia, o alargamento dos horizontes musicais possibilitado pela tecnologia não é usado senão por uma pequena minoria de músicos e ouvintes. A esmagadora maioria da população usa os recursos que a tecnologia coloca ao seu dispor com o propósito oposto, colocando-se assim na mesma situação dos povos das sociedades primitivas, que não podem ouvir senão o que os seus músicos locais executam. Veja-se o panorama radiofónico: ouvem-se pelo menos 20 horas por dia do mesmo tipo de música, formalmente tão rígida quanto uma sonata, mas esteticamente muitíssimo pior. E o mesmo acontece nas discotecas (as que vendem e as outras) e na televisão.

Este comportamento revela a completa demissão da inteligência, mas não surge isolado. Outro fenómeno curioso é o facto de a música raramente ser encarada como uma experiência acústica, mas antes como expressão de variadas atitudes que nada têm que ver com a realidade sonora. É assim que a música é encarada como expressão de uma atitude rebelde (estéril ou não) de adolescentes (tardios ou na puberdade), ou como uma atitude elitista de quem pretende fazer-se passar por superior, ou como algo que está por detrás de imagens (clips ou cinema), ou como pano de fundo que disfarça o silêncio embaraçoso num bar, ou como um ingrediente que cria «ambiente», ou como parte de um programa geral de design gráfico, ou como uma atitude, uma moda, uma maneira de vestir, uma forma de cortar o cabelo ou deixá-lo crescer, uma companhia nas longas e penosas noites de trabalho, um meio para dançar, ou apenas como uma coisinha alegre, superficial e divertida, para quando não se tem mais nada que fazer, ou como parte de uma atitude mística perante o universo, ou como parte de uma atitude qualquer perante qualquer coisa.

Proponho uma explicação para estes dois fenómenos que quero submeter ao seu exame crítico. Sem querer entrar numa discussão filosófica acerca do valor da música, não posso no entanto deixar de dizer desde já que defendo que a música tem valor cognitivo. Ora, o que se detecta quer nos usos que se fazem da música, quer na recusa em aceder a novas linguagens musicais, é uma manifesta dificuldade em compreender que a música possa ser realmente algo mais do que um superficial e inconsequente entretenimento. A generalidade da população não sabe que a percepção musical pode ser ensinada e treinada, tal como se ensina e treina o raciocínio lógico, ou o ballet. Por outro lado, a música é uma arte de difícil apreensão porque os elementos da cognição desejada são na verdade o resultado do uso da faculdade auditiva. Ora, o resultado do uso da audição é bastante mais abstracto do que o resultado do uso da visão. E a verdade é que quanto menos concretos são os dados sobre os quais irá incidir a cognição, maior esforço é necessário para a realizar. Não é assim de estranhar que a simples ideia de ouvir música sem pensar em nada, num esforço consciente em que a atenção é unicamente dirigida para os diferentes elementos sonoros que compõem uma peça musical, seja inacessível à generalidade do público.

Defendo que a música é a mais nobre das artes porque é a que consegue o feito espantoso de ser a mais afastada da razão discursiva — muito mais afastada do que a poesia ou a literatura —, sem no entanto perder alcance cognitivo. Mas não existiria certamente uma tão rica indústria discográfica se a música fosse necessariamente isso; na verdade, a música pode ser, e é frequentemente, algo inócuo e superficial. Melhorar a percepção auditiva e alargar a compreensão dessa parte substancial do mundo atmosférico constituído pelos sons não é um projecto atraente para a generalidade das pessoas porque exige um esforço intelectual que para elas só pode ser realizado penosamente e sem perspectiva alguma de quaisquer recompensas. É sabido que tudo o que exige esforço intelectual vende pouco e que tudo o que não exige esforço intelectual vende muito — as indústrias do entretenimento aí estão, florescentes e poderosas, para o demonstrar.

É assim a incapacidade de reconhecer o carácter cognitivo da música e a sua natureza abstracta, que explicam que a generalidade da população se deixe expor a milhares de horas de músicas rigidamente iguais e sem qualquer valor, e que se use a música como expressão de atitudes que não têm nenhuma relação com a percepção acústica. O resultado deste estado de coisas é o seguinte: tal como no caso da palavra «banco», que tanto pode denotar uma instituição financeira como um artefacto similar a uma cadeira, também já à palavra «música» tem de ser reconhecido o facto de denotar duas categorias completamente diferentes de objectos, que originam um, uma experiência acústica e cognitiva, e o outro, uma massagem talvez reconfortante nas zonas menos desenvolvidas do cérebro, mas sem qualquer consequência para a percepção e compreensão da parte sonora do mundo.

 
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Última atualização: 14/09/03.

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