Boa
tarde a todos. Antes de mais nada, quero agradecer muito cordialmente o
convite para estar aqui com vocês; convite feito pelo Prof. Lauand e também
pelo Prof. Severino. E agradecer ao Departamento de Filosofia da Educação.
O grande
cientista e humanista Albert Einstein disse, pouco antes de morrer, esta
dramática frase: "a força desencadeada pelo átomo transformou tudo, menos
nossa forma de pensar. Por isso, caminhamos rumo a uma catástrofe sem
igual". E qual é a forma de pensar, a mentalidade, que deveríamos ter mudado
para evitar essa catástrofe?
A cada
dia que passa, me convenço mais de que o momento atual da humanidade – não
em função da mudança de milênio, que não possui maior importância – é o mais
propício para que pensemos séria e detidamente sobre essas questões: Qual é
a nossa maneira de pensar? Qual é o ideal que temos na vida? Para onde
direcionamos a vida? Qual é a meta?
Muitos
livros de ética – até mesmo livros didáticos – tratam de muitos temas:
liberdade, solidariedade, tolerância, amor etc. etc., temas que são
importantes... Mas, não se diz uma palavra sobre o ideal da vida. Apesar
disso, alguns pedagogos dizem: mais importante na vida é a meta que se quer
alcançar. E isso parece lógico, como veremos.
Durante
quatro séculos, desde o início da grande ciência moderna (digamos,
século XVI) até começos do século XX, qual foi o ideal – o ideal de vida, a
meta – que impulsionou a todos aqueles que criaram a grande ciência, a
grande técnica? Este ideal era expresso pelo chamado "mito do eterno
progresso": pensava-se que algum conhecimento científico produziria um pouco
de conhecimento técnico; um pouco de conhecimento técnico produziria algum
domínio da realidade, a criação de artefatos, de bem estar e – era assim que
se pensava – um pouco de conhecimento científico garantiria, portanto, um
pouco de felicidade. Elevando-se essa progressão à enésima potência,
pensava-se que a um elevado nível de conhecimento científico corresponderia
uma medida correlata de técnica, domínio da realidade, de bem estar e de
felicidade. Contudo, no começo do século XX, em 1914, quando o conhecimento
científico era assombroso, não encontramos a felicidade humana mas o
desastre coletivo: 1914-1918, milhões de jovens inocentes perderam a vida
nas terríveis trincheiras, fruto de um erro de seus antepassados.
Qual é o
erro? Que a ciência produz técnica e bem estar?! Não! Onde reside então o
erro? Em pensar que a ciência e a técnica produzem automaticamente
felicidade. A questão é: ciência e técnica produzem bem estar, sim, mas...
para quem? Para mim, para mim, para mim, para o meu povo. Trata-se, então,
de um egoísmo, individual ou coletivo – o que dá no mesmo: há um egoísmo
coletivo, igualmente perigoso. Esquecem-se de que a técnica e a ciência,
destinadas egoisticamente ao nosso próprio bem estar, não conduzem à
felicidade, como se pôde verificar, tragicamente, em 1914.
Reparem,
a partir de 1918, nessa prodigiosa década de 20 a 30 (como sabem, a
filosofia avança por décadas), onde surgem inúmeros caminhos – filosóficos,
fenomenológicos, dialógicos etc. –, há muitos autores, grandes pensadores –
um Guardini, um Buber, um Heidegger, um Jaspers... – que, ao escrever,
transmitem praticamente uma mesma idéia fundamental: é preciso mudar!
Mudar o
ideal. Vejam, uma sociedade, uma pessoa, pode viver sem ideal? Sim, mas
estará como um barco à deriva, em meio a uma tempestade. Um indivíduo, uma
sociedade sem ideal, realmente estão perdidos.
A partir
de 1918, o ideal da Idade Moderna desmoronou totalmente. Este grande
pedagogo, este grande pensador, que foi meu professor em Munique, Romano
Guardini, disse-me pessoalmente em uma ocasião: "você não imagina como
encontrei a juventude alemã, nos anos 30, quando cheguei em Munique para
dirigir o Movimento de Juventude Alemã (o famoso Jugendbewegung).
Essa juventude – tão cheia de vida e de energia, como o são os jovens
alemães – não possuía outro ideal na vida que não encerrar-se nos bares,
encher o ar com fumaça de cigarro, embebedar-se com cerveja e jogar cartas".
Não possuía mais ideal, depois de quatro séculos promovendo a ciência e a
técnica para ser mais feliz... e, ao final, desembocar na hecatombe.
O ideal rompeu-se. Daí aqueles autores dizerem sempre: o ideal deve ser
mudado!
O ideal
do domínio deve ser substituído pelo ideal da solidariedade: o que importa
não é que eu te domine ou que esta nação domine outra, mas, sim, que lhe
seja solidária. O ideal da arrogância deve ser substituído pelo ideal da
simplicidade. O ideal do ter deve ser substituído pelo ideal do ser. O ideal
que consiste em dominar os outros, em ser mais que os outros, deve
transformar-se em um ideal de serviço.
Era
justamente isso que nos propunham, por exemplo, Heidegger, quando falava de
passar da vida inautêntica à vida autêntica, e também Jaspers ou Marcel, que
postulava passar do problema ao mistério: no fundo, todos estão a dizer que
se deve mudar o ideal. Pois, como veremos em seguida, tudo depende do ideal:
conforme seja o ideal, assim será o seu sistema de valores.
Com um
novo ideal, tudo muda. Mas..., o ideal mudou? Para algumas pessoas, sim;
para alguns grupos, sim; mas, para a sociedade em conjunto, não; para os
dirigentes, não. E veio a Segunda Guerra Mundial. Todo o período de
entreguerras foi dedicado à preparação da vingança: e chegou 1939 e a Europa
cobriu-se de escombros.
Eu me
lembro que, quando jovem, fui à Alemanha – eu tinha 23 anos e a Segunda
Guerra Mundial terminara há 5 anos –, cheguei de trem em Colônia e ali me
deparei, diante da estação, com a grande mole da famosa catedral – uma
imagem guardada na retina desde que, criança, a vira nos livros: a grande
catedral gótica – vestida como uma grande dama de luto: fora castigada pelas
bombas e, à sua volta, somente ruínas (incluindo as famosas igrejas
românicas que circundam a catedral: todas no chão). Eu costumava ir da minha
residência à universidade passando no meio daquilo tudo... – não havia ruas,
não havia casas – e as crianças questionavam se, algum dia, houve casas ali:
cinco colinas surgiram com os escombros; preencheram-nas com terra e agora
eram parques... e os jovens passeavam por eles sem saber que, logo abaixo,
estavam as casas e, muitas vezes, os cadáveres de seus parentes.
Eu me
perguntava então: como foi possível que a grande Europa, que criara tanta
ciência, arte e cultura, pôde destruir-se a si mesma com tal frenesi, com
tal fúria?
E
encontrei a resposta em um grande antropólogo vienense, um professor de
escola primária, Ferdinand Ebner, que, em 1921, publicou uma obra genial
(que a editora Herder recusou-se a publicar por ter a "genial" intuição de
que sua obra não era filosofia, mas, quando muito, teosofia) A palavra e
as realidades espirituais, fonte inspiradora da melhor antropologia
filosófica do século XX: grandes autores como Theodor Haecker, Romano
Guardini, Karl Rahner e tantos outros valeram-se de Ebner (nem todos o
citam, certamente, pois citar exige, às vezes, humildade...). Ebner, em
1921, já dissera: "Cuidado! A Europa criou uma grande cultura, mas, muitas
vezes, essa cultura é simplesmente sonhar com o espírito e não viver vida
espiritual". Esta idéia é muito importante: a Europa criou muita música,
muita literatura, muita arquitetura – fantástico... Mas essa arte será
sempre vida espiritual ou é, simplesmente, sonhar com o espírito? Há uma
diferença. Ebner acrescenta: se compreendêssemos bem essa idéia, haveria uma
revolução em toda a Europa, que daria lugar a uma cultura humana,
portanto a um homem novo, a uma época nova, uma época pós-moderna. Desde
1918, estamos dizendo que a Idade Moderna acabou...: um rico período – não
nos esqueçamos – que produziu, para a Europa e para todo o mundo, benefícios
e avanços fantásticos na ciência, na técnica, na Medicina... Devemos
reconhecer e assumir esse fato. Agora, Ebner nos diz: nem tudo que se
considerava cultura era cultura do espírito; mas, sim, sonhar com o
espírito. E ainda mais: não serei eu quem fará essa revolução (ele era um
homem doente, sem forças, era um professor de uma escola do interior); virá
alguém que a fará (possivelmente vocês...).
Ebner,
então, deu-me uma pista para entender por que a Europa, tão rica em cultura,
destruiu-se a si mesma. Muitas vezes, a cultura é entendida de uma maneira
desligada da criação de vínculos pessoais: uma pessoa pode ser um grande
poeta, pode ser um grande músico e ser cruel com os outros... Esta pessoa é
culta? Não me é fácil aceitar! Certa ocasião, participei de um congresso
sobre arte com uma pessoa que era um grande poeta, um crítico de arte muito
bom, um homem educado; eu havia dado uma conferência e ele, outra. E, na
manhã seguinte, ele sugeriu: vamos ver os jornais! E vimos o artigo de um
jovem jornalista, que falava sobre a minha conferência, mas não sobre a dele
(possivelmente porque só chegou a tempo de assistir a minha e não a dele –
não sei... –; não foi por má vontade: era apenas um jovem que começava a
carreira...).
E aquele
homem, um grande poeta, irritou-se tanto que passou a agredir aquele pobre
jornalista, insultando-o, dizendo-lhe que não tinha tido o desprazer de
conhecê-lo. Eu fiquei estupefacto, com as mãos na cabeça (aliás, passo a
vida com as mãos na cabeça...), pensando: mas não dizíamos que a arte forma
as pessoas? Na Espanha, agora, gastam-se milhões e milhões de dólares ao ano
com arte, esporte etc. Dizem que o esporte forma, que a arte forma... E eu
me pergunto: forma incondicionalmente ou só em certos casos? Eu, diante da
reação daquele colega, dediquei-me, então, a estudar como um homem tão
culto, refinado e bom poeta podia ser tão cruel com os outros. Eu tentava
acalmá-lo, segurava o seu braço pois queria bater no jornalista. Quanto mais
eu tentava acalmá-lo, mais ele se enfurecia e quase passou a me bater...!
A
autêntica cultura, em que consiste? Escrever crítica de arte? Fazer poesia?
Sim, mas, acima de tudo, consiste em cultivar as relações pessoais: é isto
que Ebner nos diz. Quando começa a autêntica vida espiritual? Quando há uma
palavra dita com amor e não com ódio: uma palavra dita com ódio destrói a
cultura. E não se dá a devida importância a isto. Um professor, por exemplo
(façamos um pouco de autocrítica), que dá aulas brilhantes, que possui
muitos conhecimentos, mas não cria um ambiente de diálogo na escola, um
ambiente de encontro, estará realmente fomentando a cultura ou somente
fomenta a informação?
E veio
então a Segunda Guerra Mundial. Foi terrível como a Europa ficou, a
catástrofe física... Vocês sabem quantos jovens russos morreram na frente de
batalha? Dezessete milhões! E sete ou oito milhões de alemães, e não se sabe
quantos ingleses, americanos, australianos... Não se sabe! Um oficial do
exército norte-americano, que desembarcou na Normandia, disse-me: "Nunca
saberemos e nunca será revelado quantos morreram ali, pois nós, que
avançávamos pela praia, só conseguíamos avançar graças às pilhas de
cadáveres dos companheiros, já que a praia era aberta e os alemães atiravam,
não desperdiçando uma só bala".
Um
massacre terrível... Mas a catástrofe moral, a derrocada moral foi pior.
Depois de 1945, dizíamos: não há solução, não haverá um meio de vencer o
ódio. Esta era a questão.
Houve
empenho, depois de 1945, para destruir o ódio: tivemos a sorte de contar com
três dirigentes: Schumann, Adenauer e De Gasperi que – vamos reconhecer
porque realmente foi assim – disseram: a Europa foi cristã, o cristianismo é
amor e, nós, eoropeus, temos que esquecer o ódio e viver o cristianismo. E,
nesse momento, propuseram unir novamente a Europa. Pensávamos que seria
impossível e não foi: já nos unimos no aspecto econômico, agora no aspecto
político, mas falta o aspecto espiritual, unirmo-nos pessoalmente... Eu
ousaria dizer: amarmo-nos.
Até
pouco tempo, dizia-se: como um francês pode deixar de odiar os alemães ou
vice-versa? Ou um inglês deixar de odiar um francês? E todos eles..., os
italianos? Pois agora vemos que é possível com um novo humanismo. E tantos
autores nos disseram: é necessário um novo homem, o homem que prefira o amor
ao ódio, o homem que se pergunte todas as manhãs: "A que estou chamado? A
destruir ou a construir? A amar ou a odiar?"
Eu estou
cada vez mais convencido (isto parece simples, mas é muito sério) que, a
cada manhã, devemos nos perguntar: "A que me sinto chamado?". Está aí a
vocação; vocação vem de vocare, chamar. Bom, para não ficar só no
negativo...: isto parecia impossível na Europa, mas agora já estamos
sentindo que somos irmãos! Nós, espanhóis, que sempre estivemos em luta
contra os ingleses, estamos nos unindo e percebendo que os ingleses são
estupendos (e, agora, milhões de ingleses vêm à Espanha) e, eles, por sua
vez, vêem que não somos assim tão maus...
Mas
reparem bem, já está crescendo na Europa a idéia de que, quando estivermos
unidos – e seremos muito fortes, sem dúvida alguma –, a Europa não poderá
fechar-se em si, terá que abrir-se com amor aos outros continentes. Fala-se
muito seriamente, agora, da união da Europa com a África – que é nossa
vizinha – e até mesmo com a Ibero-América. Não podemos nos fechar. Para que
queremos ter muita força?! Para poder competir com os norte-americanos e com
os grandes do Oriente – o que é necessário para que haja um equilíbrio...
Mas o ideal é de domínio: o ideal é ser mais que o Japão, mais que os
Estados Unidos. E muitas pessoas pensam assim, enquanto outras, não: o ideal
ideal requer um equilíbrio de forças para a solidariedade.
Por
exemplo, os africanos estão tentando vir à Europa; claro, na Europa, há um
nível de vida superior ao deles. E os coitados vêm em barcos..., como
podem... e muitos naufragam. E há um movimento fantástico na Espanha que
diz: isto não pode continuar assim! Estas pessoas que, com boa vontade, vêm
em busca de um trabalho, não podem morrer no mar. O governo espanhol disse,
alguns dias atrás, e foi aceito pelo Parlamento, que fará contratos com
países do norte da África e também da Ibero-América – aqueles que quiserem –
para aceitar dois milhões de imigrantes na Espanha, legalmente; porque,
hoje, há muitos ilegais, com muitas dificuldades.
Abrir-se
e criar unidade: isto é um bom futuro! Todos pensam assim e temos que
trabalhar para consegui-lo. Em 1962, Romano Guardini – este grande pedagogo
e pensador ítalo-alemão – foi a Bruxelas receber o prêmio de melhor
humanista europeu e proferir uma preciosa conferência: Europa, realidade
e tarefa. Ao terminar a conferência, disse: "A Europa criou, durante
séculos, uma magnífica cultura do poder; agora, tem a tarefa de criar uma
cultura de serviço" – exatamente uma guinada de 180 graus: do poder ao
serviço – e acrescentou: "Que nenhum europeu tenha medo da palavra
serviço, pois este tipo de serviço não avilta, não rebaixa; eleva,
dignifica a um e a outro: ao que presta o serviço e ao que aceita esse
serviço, colocando-nos em atitude de solidariedade".
Este é o
caminho. Em filosofia, em antropologia, se está agora – e já há muitos anos
– ressaltando muito a seguinte idéia: os homens – vocês e eu – não são como
uma circunferência, com o centro no "eu", do qual eqüidistam todos os
pontos, tudo servindo ao eu... Essa é uma idéia egoísta do ser humano. Hoje,
tende-se a pensar que o ser humano deve ser representado como uma elipse,
possuidora de dois centros: o eu e o tu, que apresentam um dinamismo
reversível nos dois sentidos: eu preciso de você e você precisa de mim. Essa
idéia – e o pensamento biológico a tem ressaltado muito – é importantíssima:
Ebner, Buber, Guardini, Levinas, Nedoncelle e muitos outros autores a tem
enfatizado muito...
Muito
bem, o que nós devemos fazer agora para que esta orientação que, poderíamos
dizer, está começando, de uma maneira bastante forte, em muitos países, esta
orientação rumo à unidade e não à luta? O que deveremos fazer, sobretudo
vocês, os jovens – que têm toda a vida pela frente, toda energia e talento
–, o que teremos que fazer?
No meu
modo de ver, devemos ter tudo isto bem fundamentado. E fazer ver – aos
líderes, aos políticos, aos diretores de jornais, aos dirigentes culturais e
econômicos – o ser humano, que é – como o afirma a melhor ciência atual – um
ser de encontro.
E sobre
essa teoria do homem, falaremos na segunda parte.
Vejam,
eu penso que para formular uma boa teoria do homem, para dizermos idéias que
sejam fecundas, devemos nos basear em algo muito sério. Não valem os
palpites. Eu posso ter muitas idéias geniais, mas também idéias que não
valem nada – mais freqüentemente a segunda opção (risos). Eu não posso
fundamentar a minha vida em cima de um palpite... Há pessoas que dizem:
"minha opinião a respeito disso é assim...". Bem, isso é lá com elas. Pois
tais opiniões, talvez não sejam sólidas, não estejam bem fundamentadas.
Estas pessoas podem estabelecer suas vidas sobre algo que pode não ser
sólido, não ser firme. Eu não subo em um avião se o piloto não souber
pilotar bem ou se a companhia não tiver bons aviões, pois as conseqüências
podem ser muito graves. Se isto acontece no trânsito, quanto mais na vida
ética... Na vida ética, deixamo-nos levar, muitas vezes, por nossas idéias
mais ou menos superficiais, ou por idéias de pessoas que não entendem nada
disso, mas que têm a possibilidade de falar diante de um microfone todos os
dias, aparecer na televisão, escrever etc. etc...
Vejam,
vou dizer-lhes uma coisa: um dos grandes males da situação atual é o
meter-se a falar do que não se sabe. Por exemplo, se me ponho a falar na
televisão de um tema que não conheço bem, eu me arrisco, ao emitir juízos, a
desorientar o público... Eu recuso sempre... Às vezes me dizem: "Alfonso,
venha falar disso, venha falar na televisão, pois teremos um debate." E eu
pergunto: "sobre o quê?" "Ora, que importa? Você vem e diz o que quiser!". E
eu respondo: "não!" Dizer o que se quer pode ser uma indevida intromissão...
porque se emito opiniões que não estejam bem fundamentadas, posso causar um
mal ao público, posso desorientá-lo. E isso eu não posso fazer. Agora, se se
trata de um tema que conheço, que conheço bem e não de qualquer maneira,
então eu vou, me sinto com liberdade para falar.
Vejam
que importante é isso: eu sinto que tenho liberdade para falar – liberdade
interior. Dizem-me: mas somos nós que te damos a liberdade. E respondo: não
me interessa a liberdade que me dão, me interessa a liberdade que tenho.
Vejam, o direito de falar em público sobre temas importantes deve ser
comprado, conquistado. E então é quando eu me permito dar liberdade a mim
mesmo, senão não. Por quê? Porque se pode causar muito mal.
Bem,
então eu diria: temos que recorrer não a nossas idéias superficiais, mas sim
ao que diz, por exemplo, a pesquisa científica, a pesquisa ética, a pesquisa
antropológica, a pesquisa da teoria da criatividade, não é mesmo? Porque,
vejam, a pesquisa não é própria somente de uma pessoa, ou de outra, de um
páis ou de outro... Como vocês sabem, hoje há um intercâmbio em todo o
mundo, há métodos rigorosos... progride-se... Se vocês vêem, por exemplo, o
melhor da pesquisa ética atual, se vocês vêem como se está estudando em todo
o mundo, isso merece respeito porque, claro, são muitas pessoas, grupos
sociais... O melhor da pesquisa biológica merece respeito. Eu pergunto: o
que diz, por exemplo, a pesquisa biológica mais qualificada na atualidade?
Há como que um consenso em todo o mundo para se dizer o seguinte: o ser
humano – vocês e eu – é um ser de encontro. Vive como pessoa, desenvolve-se,
aperfeiçoa-se, criando encontros.
Qual é o
primeiro encontro do bebê, quando nasce, com o meio? É o encontro com a mãe.
Imediatamente com o pai, com os irmãos, se tiver. Encontro com o lar. Hoje
os biólogos dizem às mães: se for possível, as mães devem amamentar seus
bebês, pois amamentar uma criança, dar-lhe de mamar, não é somente dar-lhe
alimento, é muito mais: é acolhê-lo. O que uma criança mais necessita quando
nasce é sentir-se acolhida, perceber-se querida. E estar em um ambiente no
qual haja amor. Não basta que o pai ame a criança e a mãe a ame, e eles,
entre os dois, estejam se matando... eles têm de amar-se e os irmãos
também... criar um espaço de amor. E é nesse espaço de amor onde cresce de
verdade a criança, pois há encontro.
O mesmo
podemos dizer de uma escola, uma escola primária, uma escola secundária,
incluindo a universidade. Se há um âmbito de encontro, é um âmbito de
formação; se não o há, pode ser um âmbito de informação, mas não de
formação. Se os professores estão um contra o outro e todos contra a
direção, se os funcionários estão um contra o outro... isto é um campo de
luta, não é um campo formativo. Deve ser um campo de encontro.
Pois
bem, os mesmos biólogos dizem às mães: se for possível, vocês mesmas, os
pais, os filhos, avós, irmãos, cuidem das crianças. Por que somente se
referem aos familiares? Porque se supõe que os familiares amem
incondicionalmente as crianças, o bebê que nasce. O que uma criança mais
necessita é sentir-se amada. Hoje se dá, a cada dia, como vocês sabem, muita
importância a isto: o sentir-se amado, mas naturalmente também se diz à
criança que ela deve amar para que haja um intercâmbio. Vejam vocês, cuidar
de uma criança, por exemplo, asseá-la, lavá-la... uma babá poderá fazê-lo,
não é mesmo? Pode pegar a criança, colocá-la no banho, limpá-la, limpá-la de
novo, deixá-la um "brinco", mas eu me pergunto: e se o fizer sem amor? Hoje
os biólogos (os biólogos! Não somente os pedagogos, os pediatras...!) dizem:
se a pessoa que cuida da criança o faz sem amor, essa criança corre o grande
perigo de desenvolver-se anormalmente. E muitas raízes de violência que
acabam com a juventude, que são a desgraça da vida dos jovens e das
famílias, procedem da falta de carinho dos primeiros anos.
E hoje
realizam-se estudos muito sérios, por exemplo, nos Estados Unidos, e também
em meu país, e suponho que aqui também, claro, sobre o fracasso escolar.
Muitos, muitos meninos e meninas, abandonam a escola porque fracassam, não
são capazes de continuar os estudos. E agora realizam-se pesquisas em que se
percebe que esses meninos e essas meninas estão demasiado sozinhos em suas
casas, não têm carinho. As famosas crianças da chave no pescoço, a chave da
casa.
Eu,
quando estudei na Alemanha há anos, trabalhava em uma escola e via que todas
as crianças tinham uma chave, uma chave dessas pequenas, assim como se fosse
uma corrente, pendurada no pescoço. E eu dizia: "e você, para que essa
chave?" "Ah, porque quando terminamos aqui, ao meio-dia, vou para casa, abro
a porta, fico sozinho porque meus pais não estão, se deixaram alguma coisa
para comer, como, e venho à escola de novo. À tarde, ou às seis da tarde,
faço o mesmo: vou, com a minha chave, e entro. E se encontro algo, janto".
"E seus pais?" "Não estão. Só vêm de noite. Eu, às vezes, nem os vejo. Vou
dormir e nem os vejo."
Bem,
estas crianças da chave no pescoço são crianças que carecem de ternura – não
porque seus pais não as amem, mas sim porque não estão com elas. A criança
precisa de acolhimento.
Então,
se as coisas são assim, qual é a chave para fundamentar bem nossa vida e,
portanto, para criar este homem novo? Um homem que não volte a fracassar em
outra guerra mundial, um homem de uma nova época. Qual é a chave? Eu creio
que, segundo a pesquisa atual, a chave é a compreensão do encontro,
compreender bem o encontro, a fundo. Porque, vejam, o importante na educação
não é recitar conceitos, mas sim, dizê-los de tal maneira que a criança e o
jovem os compreendam por dentro, não os aprendam superficialmente só porque
lhes dizem, mas sim que os compreendam de tal maneira que digam: "ah, sim...
claro, isso eu vejo... isso é assim", e, para que isto ocorra, é preciso
ensinar de tal maneira que não lhes soe como algo estranho, mas que o captem
por dentro... e é então quando se entusiasmam com os valores que há nisso
tudo.
Vamos
fazer -dentro do pouco tempo que temos- um esforço para compreender o que é
o encontro. Permitam-me, entre parênteses, contar um episódio. Escrevi um
livro, um grosso volume, sobre a arte de pensar com rigor e de viver
criativamente, e começava pelo encontro, porque eu, com a ciência na mão,
dizia: a biologia diz que o homem é um ser de encontro, comecemos o livro –
um livro para explicar o processo de formação, o processo de crescimento, de
desenvolvimento – pelo encontro.
Mas,
pouco antes de mandá-lo à grafica, peguei o livro, tencionando lê-lo com
distância, como se fosse um leitor, e eu me perguntei, fiz o esforço para
ver, se com o que eu dizia no primeiro capítulo, poderia compreender por
dentro o que era o encontro. E percebi que não. Então acrescentei seis
capítulos, antes deste... e agora o livro, podem ver vocês, tem em seu
sétimo capítulo o capítulo do encontro.
E que
disse antes do capítulo sete? Tive que acrescentar um capítulo sobre um
termo, um conceito de filosofia que não vejo por aí, nos livros, e que é
absolutamente necessário para se fazer uma teoria da educação, uma teoria do
que seja o homem. Esse conceito, confesso, hoje, não sei dar um passo nem em
filosofia teórica, nem em filosofia aplicada, filosofia da educação, por
exemplo, nem em filosofia da arte, sem ele. Esse conceito é o de âmbito, em
alemão, Raum. Que significa isto? Eu vejo que há muitos autores que
escrevem, escrevem, escrevem e tudo fica, muitas vezes, pouco claro e eu, às
vezes, digo: que pena!... se introduzissem a categoria de âmbito ficaria
muito mais claro.
Vejam,
este objeto, esta caneta... pode-se delimitá-la, eu sei que vai daqui até
aqui, isto é o que ela abarca, posso segurá-la com a mão, posso pesá-la –
pesa tantos gramas –, posso deixá-la aqui, aqui ou aqui, posso manipulá-la,
posso fazer com ela o que quiser, não é verdade?
Ora,
estou vendo vocês: não conheço a imensa maioria... Você, por exemplo, com
uma fita métrica, posso medir, o que possui de altura e de largura, não é
mesmo? Com as mãos, toco os ombros e digo: "isto compreende fulana de tal,
esta senhora compreende isto." Você poderia me dizer, com toda razão, quanto
ao corpo, sim – meu corpo começa aqui e termina aqui –, mas minha pessoa,
não. Você abarca certo campo, no aspecto afetivo, você ama pessoas, elas te
amam; no aspecto estético, você aprecia, talvez toque algum instrumento; no
aspecto profissional, no aspecto ético, no aspecto religioso – se possui
crenças –... cada um de vocês abre um campo enorme. Ou seja, cada um de
vocês, não abarca só o que eu estou vendo agora, sei que abarcam muito mais.
Cada um é um nó de relações, como dizia Saint-Exupéry. E isto inspira um
imenso respeito pelas pessoas.
Eu,
quando inicio um curso e vejo os alunos diante de mim, penso: este jovem que
vejo aí ou esta jovem é muito mais do que estou vendo... Eu, nele, vejo:
seus pais, que estão desejando que estude, sua namorada, seu namorado, os
irmãos... vejo seus projetos para o futuro, vejo suas recordações do passado
– que cada um tem, pois possui uma história –, vejo tantas e tantas
realidades, o talento que tem, o afeto... Cada pessoa é um nó. Então, vejam,
vocês não são como a caneta, que começa aqui e termina aqui. Vocês são como
um campo de realidade, poderíamos dizer, um âmbito de realidade ou,
simplesmente, um âmbito.
Um
âmbito é como um campo. Os olhos não o vêem, mas a mente, sim. Eu, com a
mente, vejo... com a imaginação, vejo que vocês são muito mais do que
parecem. Mas isto não somente com as pessoas, mas com muitas realidades que
não são pessoas, mas tampouco são objetos como a caneta. Por exemplo, um
piano. Eu vejo um piano. Como móvel é igual a esta mesa, não é? Um objeto
como esta mesa, mas como instrumento, que tipo de realidade apresenta? Isto
deve ser estudado – e muitos autores não o estudam e isso é uma pena porque
assim não se pode fazer uma teoria realmente séria do que seja a realidade.
Um piano, como instrumento, me oferece possibilidades de tocar. Suponhamos
que eu seja pianista: eu ofereço ao piano possibilidades de criar formas
musicais no teclado. Imaginem em seguida uma partitura: uma partitura como
um monte de papel é um objeto – como esta caneta: pode-se delimitá-la, pesar
etc., mas como partitura, como papel, que me oferece possibilidades de criar
uma nova obra, a partitura não é um objeto, é mais do que um objeto. Mas
tampouco é um sujeito, sujeito é o compositor. É uma realidade
intermediária. Há autores que, pensando nisso, ficam confusos e dizem: que
sentido, que realidade apresenta esta partitura? É parecida com o compositor
porque está revelando uma obra, mas tampouco é o compositor. Também se
parece com um objeto porque é um pedaço de papel, é um monte de papel e é,
assim, intermediária. Pois, vejam vocês, eu digo simplesmente: uma partitura
como partitura é um âmbito, é um campo de realidade que pode relacionar-se
comigo e eu com ela. Um objeto pode relacionar-se contigo, pode ter
iniciativa para dizer-te algo? Não! Esta mesa tem iniciativa para falar
comigo? Não! A partitura, sim! Eu pego uma partitura, coloco no piano...,
está me dizendo, está me convidando para tocá-la, está me corrigindo – se eu
toco mal, a partitura me diz: não!
Por
exemplo, pensemos em outra realidade, como há muitas que, por um lado, são
objetos, mas, por outro, são âmbitos. Por exemplo, uma obra de arte. O
grande esteta francês Mikel Dufrenne – a quem conheci, um homem simpático –
tem uma grande obra: "Fenomenologia da Experiência Estética", em dois
volumes. No segundo volume, propõe o seguinte problema: que estatuto
ontológico, ou seja, que tipo de realidade possui uma obra de arte... por
exemplo, a sétima sinfonia de Beethoven? E ele se atrapalha todo! Pois
começa a dizer: "a sétima sinfonia de Beethoven não é uma pessoa – pessoa
era Beethoven – mas tampouco é um objeto como é a mesa – porque ela tem
iniciativa..., a sétima sinfonia tem vida, a sétima sinfonia se pode assumir
como própria". Porque, vejam, eu não posso assumir esta mesa como própria,
como uma voz interior, está sempre fora de mim. Mas, por outro lado, um
regente de orquestra e alguns músicos podem assumir a sétima sinfonia como
própria, tomando-a como o princípio de seu trabalho musical. Isto não se
pode fazer com um objeto.
Ele
confunde-se e diz: "por um lado, parece um sujeito, que tem vida; por outro,
é um objeto no sentido de que é diferente do sujeito, distinto das pessoas."
Confunde-se! E sabem como resolve o problema? Depois de um tempo, diz ao
final: "bem, digamos que é um quasi sujeito". Vocês aprenderam algo? Eu
fiquei na mesma. Eu penso que, quando há uma realidade que é diferente de
uma e de outra, deve-se inventar uma palavra – uma palavra que determina
exatamente o que é. Eu, então, me recordo que, na margem do livro – que era
meu próprio –, escrevi: mas diga simplesmente que é um âmbito e deixa de
atrapalhação!
O que
significa ser um âmbito? Que uma obra musical é como uma fonte de
possibilidades e se pode dialogar com ela, pode-se assumi-la como própria. E
você, então, tem de dialogar com ela, ela manda em você e você manda nela.
Ou melhor: ninguém manda em ninguém, mas sim ela lhe dá possibilidades para
criar uma obra e você lhe dá possibilidades para que essa obra seja – é um
enriquecimento mútuo. Temos, então, uma descoberta muito importante que é a
das experiências reversíveis: são experiências que têm dupla direção. Aqui
está o sujeito, aqui está o objeto – este objeto que não é um objeto, mas
sim âmbito. Então, entre um e outro, estabelece-se uma relação reversível.
Eu influencio você, você me influencia... e isto é o aspecto reversível. Eu
convido você para um passeio pelo jardim e você me diz: sim, mas não agora;
depois. Eu convido você, influencio você, mas você responde e diz: sim, mas
por aqui. Então estamos, nós dois, colaborando: é reversível.
Estas
experiências reversíveis são importantíssimas na vida humana. Uma
experiência linear é a que vai do sujeito ao objeto – eu dou um impulso na
caneta e a caneta sofre esse impulso e aí permanece. O esquema que estrutura
esta ação é o esquema ação / paixão: eu atuo-ele padece. Na experiência
reversível, não é assim; eu atuo sobre você, você atua sobre mim, são duas
atuações livres que complementam a nós dois. Isto enriquece-nos muitíssimo.
Vejam, quanto mais maduros estivermos na vida, menos experiências lineares
realizamos e mais experiências reversíveis. Por exemplo, um professor que se
considere o "tal", que fale e pontifique... e os alunos não tenham mais que
simplesmente padecer o que ele diz, somente recebendo, mas sem iniciativa,
seria um professor que vive de experiências lineares. Mas se o professor
fala, atua sobre os alunos, mas eles também reagem, por exemplo, fazendo
trabalhos, propondo perguntas... é uma experiência reversível na aula, isto
é mais maduro.
Então já
temos: primeira descoberta (agora, em muito pouco tempo, teremos que fazer
várias descobertas...): os âmbitos; segunda, experiências reversíveis e a
terceira, o encontro. O que é o encontro? O encontro não é mera proximidade.
Eu posso agarrar-me a esta mesa e depois levanto as mãos e o que aconteceu?
Não aconteceu nada. Criei algo? Não. Agora, por exemplo, se vejo um piano e
o toco por fora, desse mesmo modo, quando levanto as mãos, não aconteceu
nada. Houve encontro? Não. Há proximidade, mas não há encontro. Eu posso
conviver com você a vida inteira e não lhe encontrar rigorosamente uma única
vez – porque o encontro não é mera proximidade. A proximidade é muito fácil:
eu dou três passos e estamos perto. Mas, com isso, não criamos encontro . O
encontro é um enriquecimento mútuo: você é um âmbito de vida, repleto de
possibilidades, projetos etc. Você os oferece a mim e eu os ofereço a você;
você tem vontade de compreender-me e eu tenho vontade de compreender você;
eu tenho vontade de ir com você, você, comigo; e criamos um campo de jogo
comum, criamos um campo de liberdade comum... e isso é o encontro.
Agora
vejamos algo importantíssimo: quando há encontro de verdade, superam-se as
divisões. Se você e eu não somos amigos, não criamos encontro, eu estou aqui
e você está aí, fora de mim, verdade ou não? Mas se você e eu criamos
encontro, você já não está fora de mim – nossos corpos, sim, mas nossas
pessoas não. Eu não estou fora de você, você não está fora de mim. Seus
problemas são meus problemas, minhas alegrias são suas alegrias,
comunicam-se, isto é maravilhoso. Quando há encontro, há uma comunicação.
Seria absurdo, por exemplo, que um centroavante, quando visse que o goleiro
de seu time sofreu um gol, dissesse: "ah, isto é problema dele". Isto não é
meu problema: não teria entendido o que é uma equipe – uma equipe é
justamente um encontro... quando há uma equipe, há encontro. Seus problemas
são meus problemas. Outro dia, falando com um grupo de jovens em Madri,
disse-lhes: cuidado, pois, às vezes, vocês são cruéis com seus pais.
Sexta-feira à noite, sábado à noite, saem, não dizem quando voltam, não
dizem aonde vão, seus pais ficam angustiados... E um dos rapazes me diz (um
rapaz normal, bom): "Que acontece, que nossos pais sofrem, ficam angustiados
porque estamos fora?" "Sim, muito." "Ah, isso é problema deles." E digo:
"Como? Problema de quem?" "Deles, dos meus pais." Sabem o que lhe disse
então? Disse: "Veja, perdoe-me, se me diz isto, sinto muito mas tenho que
dizer-lhe uma coisa muito triste... você não tem lar." "Como não tenho
lar?!", disse-me. "Sim, sim, apartamento, casa, você tem, mas lar, não."
"Como?" "Sim, senhor. Lar diziam os latinos: focus, é o lugar onde arde o
fogo do amor, o lugar onde há encontro. Você não se encontrou com seus pais
nunca, pelo menos até agora e me diz: ‘Como que não, se os vejo todos os
dias?’" E digo-lhe: "Claro que você os vê todos os dias, mas não se encontra
com eles."
Isto de
que estamos falando são claves de interpretação da vida, são muito
importantes para entender a vida. Então, já temos a descoberta do encontro,
porém há ainda mais descobertas por fazer. Como se chega ao encontro?
Cumprindo certas exigências.
Para
criar um encontro autêntico, um encontro – e não somente estar perto –,
devemos ser generosos. A generosidade é importante para abrirmo-nos ao
outro. Se sou egoísta, encerro-me em mim mesmo. Segundo, devemos ser
verazes, não mentir. Vejam, se me abro a você, mas minto, você não tem
confiança em mim, porque se conquista a confiança quando se vê que o outro
se abre totalmente. Mas se me abro em parte e, em parte, me escondo, você
dirá: Por que se esconde? Você verá que não há comunicação. Sempre que
alguém mente, destrói a possibilidade do encontro. A mentira destrói o
encontro. A veracidade, ser verdadeiro, ser sincero é condição para o
encontro. Quarta condição: a fidelidade. Fidelidade não é meramente
"agüentar". "Agüentar" agüentam as pernas das mesas, os muros, as colunas...
estão feitos para agüentar. Nós, seres humanos, não estamos feitos para
isto, minha vocação não é agüentar, nem tampouco a sua. Sabem qual é? Ser
fiel. No dia do casamento, uma pessoa promete a outra criar, com ela, um
lar. Este lar não está feito de uma vez por todas como está feita esta mesa.
Deve-se criá-lo a cada dia, cada hora. Ser fiel: que significa? Criá-lo.
Portanto, a fidelidade autêntica é criativa. Por isso o grande filósofo
francês Gabriel Marcel tem um livro que se chama Fidelidade Criadora. Muito
bem, não é um mero "agüentar", é fidelidade criadora. Não vale dizer: "Estás
cansado? Tens dificuldades? Agüenta." Não! "Tens dificuldades? Sê fiel." Do
mesmo modo, a paciência – a paciência não é mero "agüentar", é ajuste aos
ritmos naturais.
E há
muitas mais: por exemplo, a cordialidade. Eu sempre falo da cordialidade –
tema de que nem sempre se fala. Deve-se ser terno, cordial... isso é
fundamental para o encontro. Eu digo sempre aos rapazes: eu posso reprovar
um aluno ao final do curso e fazê-lo com cordialidade ou sem cordialidade.
Portanto, havendo encontro ou não havendo encontro. Lógico, eles me dizem:
"Aprove-me sem cordialidade!". Mas isto não vale, porque, se é sem
cordialidade, não há encontro. Mas, que significa, eles me perguntam,
reprovar com cordialidade? E respondo: bem, por exemplo, se vejo que um
aluno, apesar do interesse empreendido durante o ano etc., não sabe bem uma
parte da matéria – uma parte essencial que não sabe –, eu tenho que
reprová-lo, mas posso recebê-lo em meu escritório. Eu sempre recebo um por
um, depois de cada exame, para dizer a todos – tanto àquele que foi aprovado
com louvor ou ao que foi reprovado – porque o foram. E posso explicar-lhe:
"veja, você fez um trabalho, está bem feito; sabe esta parte da matéria, nem
se preocupe mais com ela, mas esta outra parte que você não sabe, estude-a
para o próximo exame". Este aluno vai para casa reprovado, mas criamos um
encontro. E isto é formativo, ele está orientado.
Às
vezes, vejo alguns professores que não agem assim e é terrível. Vi alunos
perderem todo um curso... Por exemplo, medicina. Sabem o que isto significa?
Uma curso de oito anos e, aos vinte e oito anos, vêem que não têm nada,
porque há primeira, segunda, terceira... chamadas, perdem-nas todas e era a
última matéria do curso, e perdem o curso. Tenho visto casos tremendos.
Mas
também ocorre o contrário: um rapaz em Madri ia fazer o último exame da
última matéria que lhe restava. Não tinha mais nenhum exame..., mas, se
reprovasse nesse, perdia todo o curso – arquitetura, um curso dificílimo –,
ele dizia: "eu, se for reprovado, perco o curso", estava angustiado. E eu
disse ao pai: "Mas fale você com o professor. Diga o que acontece com este
rapaz." "Não, não porque vou a..." E eu o convencia: "Fale com ele." Foi ver
o professor. Verificou o arquivo e disse: "Seu filho sabe mal a parte
prática; a parte teórica, sabe muito bem." E o pai do aluno disse ao
professor: "Mas ele pensa que é o contrário. Estuda, durante todo o dia, a
parte teórica e deixa a prática." Faltava um mês para o exame. E eu disse:
"Vá a tal lugar de Madri, há um militar que se chama tal, que dá muito bem
as aulas práticas. Vá durante um mês, tenha uma aula particular e verá que
não terá problema". Foi aprovado! Mas graças a essa conversa que tiveram.
Mas vocês podem acreditar que um professor vê que ao aluno só lhe resta uma
matéria de todo um longo curso, e não o chama para dizer-lhe: "Olhe, cuidado
com isto." Perder a carreira por não lhe dizer, cinco minutos que sejam, o
que estava acontecendo... isto não pode ser.
Já
descobrimos uma série de coisas: as exigências do encontro. Uma última,
muito importante: para encontrar-se deve-se compartilhar valores elevados.
Vejam, quando você e eu nos dirigimos rumo a algo valioso, unimo-nos entre
nós. Para unir-se o mais importante é fazer o bem em comum, compartilhar
algo. Dizia Saint-Exupéry, o autor d’O Pequeno Príncipe, em sua obra Terra
dos Homens: "amar-se não é olhar um para o outro; é olhar juntos na mesma
direção." E eu comento: amar-se não é tanto um olhar para o outro – pelo
prazer de olhar a pessoa amada – mas sim consagrar-se juntos a algo valioso.
Quando uma pessoa e outra realizam em comum algo valioso, isto as une
muitíssimo. E vocês podem vê-lo, por exemplo, em um coro, um coro que esteja
cantando o Oratório de Natal de Johann Sebastian Bach. Eu tenho um vídeo em
casa e o coloco aos alunos... uma maravilha: ver 150 crianças cantando,
muito unidas entre si, não se entreolham, mas vêem o regente que é quem
encarna a obra, mas criam uma harmonia fantástica entre eles. E eu digo a
meus alunos: Estão unidos? Muitíssimo, me respondem. E por que estão unidos?
Porque cada um está olhando em direção a algo muito valioso que é o Oratório
de Natal de Johann Sebastian Bach. Para encontrar-se é preciso olhar em
direção a algo valioso.
Bem,
sabem como se chamam estas exigências do encontro? Virtudes. Que são as
virtudes? Para os latinos, virtudes eram capacidades – virtus, capacidade.
Capacidades de quê? De criar encontros, de criar formas elevadas de vida.
Vejam que bonito é isto: se eu assumo o valor da generosidade, assumo o
valor da fidelidade como próprio, se eu estou realizando, na minha vida, o
valor da cordialidade, convertendo estes valores em virtudes, eu estou
desenvolvendo a minha maneira de ser, de uma maneira virtuosa. O que isso
quer dizer? Uma maneira que facilita o encontro. Eu me comporto em relação a
você de maneira generosa, fiel, cordial etc., e você comigo... é muito fácil
criar encontro.
Vejam,
essa segunda natureza, essa maneira de ser que vou criando ao me comportar
assim, denomina-se, em grego, éthos. Esta palavra foi traduzida ao latim
pela palavra mos e esta correspondia à palavra grega êthos, com acento
circunflexo – esta sim significava costume. Éthos significa a segunda
natureza, essa maneira de ser que se adquire através de certos atos e de
certos hábitos. Isto é o que a ética estuda. Mos, moris, em latim, significa
costume e daí vem a palavra moral – moral é o estudo dos costumes. Ética é o
estudo do éthos, ou seja, dessa segunda natureza.
Descobrimos – por dentro – o que são as virtudes, ah, mas também o que são
os vícios. Que são os vícios? O contrário: não a generosidade, mas sim o
egoísmo; não a cordialidade, mas a dureza; não a fidelidade, mas a
infidelidade. O que são os vícios? Maneiras de comportar-se que encarnam
anti-valores. Por que anti-valores? Porque não fomentam o encontro; o
destróem. Então, o que são os valores? Tudo aquilo que permite o encontro. E
as virtudes? As atitudes humanas que encarnam esses valores. Valores e
virtudes: muito parecidos, mas diferentes.
Agora
temos de descobrir o mais importante, que falei no princípio: o ideal.
Porque estão nos dizendo desde 1918 que o ideal deve ser mudado, mas se eu,
sozinho, digo isso aos jovens, sem que eles saibam o que é o ideal, eu não
estou educando esses jovens. O que lhes digo é verdadeiro: vocês têm que
mudar, eu tenho que mudar o ideal. Mas eles devem compreender o ideal por
dentro, não é mesmo?
Vamos
descobri-lo agora. Quando nós vivemos o encontro, vivemos os frutos do
encontro. Se você se encontra de verdade comigo ou com quem quer que seja,
você experimentará primeiro: energia. O encontro é fonte de energia.
Rubinstein, o grande pianista, conta, por exemplo, que um dia, à tarde,
acordou depois da sesta, cansado e disse à mulher: avise à sala de concertos
que eu não irei hoje dar o concerto. Ela o arrastou à sala de concertos:
como não há concerto? E ele disse: eu estava preocupado porque me sentia
muito cansado, mas quando chego à sala e vejo o piano com a tampa aberta,
vejo o teclado, já comecei a me inflamar. Quando coloquei os dedos no
teclado, me veio uma força e permaneci três horas tocando... Isso está dito
em suas memórias, mas ele não explica por quê. E eu me perguntei: por quê?
Pelo encontro. Ele se encontra com o público, se encontra com o piano, se
encontra com a partitura, se encontra com a obra, com o autor da obra... O
encontro fornece-lhe energia e isto ocorre constantemente – em um nível
muito pequeno, se vocês quiserem. Eu, às vezes, estou muito cansado nestas
viagens, mudanças de clima e, às vezes, chega a hora da conferência e digo:
Meu Deus, mal posso falar! Mas quando chego ali, me encontro com as pessoas
e começo a falar, depois não há quem me pare... (risos). Nós vemos isso na
vida: o encontro é fonte de energia. Há pessoas que vivem em uma família com
dificuldades, penúria econômica, doenças etc, mas se há encontro, há força,
há força para viver.
Segundo,
o encontro dá alegria. Porque a alegria surge quando se tem a consciência de
estar se desenvolvendo como pessoa. Há encontro, nos diz a biologia, quando
vivemos como pessoas, nos aperfeiçoamos, criando encontro. Então, quando
você se encontra, sente alegria. Claro! Pois vê que está se desenvolvendo.
Vocês, quando são aprovados em uma matéria, se alegram ou se entristecem?
Alegram-se. Por quê? Porque vocês querem crescer como pessoas, ter um
diploma, ser profissionais e ser aprovados em uma matéria é um passo para
isso. Então, se são aprovados, sentem alegria; se reprovados – coisa que eu
não desejo – sentem tristeza, não é?
Então, o
encontro dá energia, alegria e, ainda mais, entusiasmo. O entusiasmo é uma
maravilha, é uma palavra preciosa. Vem do grego, como vocês sabem, e
significa estar como que imerso, metido, submerso no divino. Mas o divino
para os gregos era o perfeito, a perfeição em bondade, justiça, beleza.
Então, se eu me encontro, por exemplo, com um coral de Bach, que é uma
perfeição absoluta, eu me entusiasmo e vocês também. O mesmo com uma pessoa
que tem força, que tem elevação espiritual... ao se encontrar com ela, você
se entusiasma.
O
encontro não dá somente entusiasmo mas também felicidade, pois dá plenitude.
Quando nos encontramos de verdade – sobretudo se aquilo com que nos
encontramos é muito elevado, muito valioso –, nos sentimos realizados,
plenos. E essa plenitude dá felicidade. E a felicidade se manifesta no quê?
Paz interior, repouso interior, amparo e júbilo festivo, alegria festiva.
Sempre que há encontro, há festa. Todas as festas vêm sempre de um encontro:
festas religiosas, festas profanas, festas individuais. Vejam, quando
vivemos os frutos do encontro, vemos que não há nada maior na vida, não há
maior valor, que o encontro. Vemos que o encontro é a chave... Então, quando
descobrimos o valor mais alto, dizemos: isso é tudo para mim na vida. Não há
nada como isso – essa é a minha meta, esse é o meu ideal.
Descobrimos o que é o ideal. Agora faz sentido dizer a uma pessoa: o ideal
deve ser mudado. O que quer dizer "mudar"? Bem, para mim, o máximo na vida
pode ser viver, como se diz, "numa boa", quanto mais sensações prazerosas,
melhor. Então, isso é um ideal; mas é, a meu modo de ver, um ideal falso.
Por quê? Porque o agradável é um valor, mas não é o maior. Por exemplo, a
saúde vale mais do que o prazer de um alimento? Vale mais ou não? É mais
importante? Creio que sim. Se um alimento de que gosto muito me faz mal à
saúde, a prejudica, serei um louco se o comer, pois a saúde está mais acima.
Mas a saúde não é tampouco o mais importante, o maior valor... porque, às
vezes, deve-se descuidar da saúde um pouquinho, deve-se deixá-la um pouco de
lado para, por exemplo, cuidar de um doente. Então, há uma escala de
valores. Descobrir essa escala de valores é fundamental na vida – é uma das
tarefas básicas da formação –, e a criança e o jovem devem ir descobrindo-a
– ajudados pelo adulto, mas devem ir descobrindo-a. Sabem vocês qual é,
hoje, uma das calamidades, das maiores desgraças do mundo atual, a meu modo
de ver? É que hoje se está subvertendo essa escala de valores, se está
invertendo, o que se convencionou chamar de subversão de valores:
considera-se o agradável como o valor mais alto e os valores mais altos, que
são servir aos outros, estão sendo considerados como os mais baixos. Isto é
terrível. Por isso eu escrevi uma obra, recentemente, que se chama A
revolução oculta. Por quê? Porque hoje se está alterando a escala, a
hierarquia de valores, mas de maneira oculta, através da manipulação da
linguagem. E é uma revolução que mina a sociedade – como esses insetos que
corróem a madeira e, quando se percebe, está toda oca. Então, a sociedade
atual pode ser carcomida por dentro, pode-se destruí-la, de tal maneira que
fique vazia graças a essa revolução que altera a escala de valores. Dizem a
muitas pessoas: por que você fez isso? E te respondem: porque eu "estava a
fim". Nenhuma razão. Que quer dizer? Que o agradável é, para eles, o valor
supremo. Imaginem as conseqüências disso para a ética. Hoje há muitos
divórcios, como vocês sabem, muitas separações. E há pessoas que dizem:
tinha toda razão, pois vive melhor com essa pessoa que com a mulher anterior
ou vice-versa. E dizem: tem direito de ser feliz. Digo: bem, vamos devagar.
Todos temos direito de ser felizes, mas vamos analisar: felicidade de "estar
numa boa" não é felicidade. Pode sê-lo, mas muitas vezes não. "Ah, mas posso
tentar viver bem pelo preço de fazer outra pessoa sofrer, por exemplo." Isso
é egoísmo; se há egoísmo, não há encontro. Se não há encontro, eu me
bloqueio como pessoa, não me desenvolvo. Como vêem, o assunto não é tão
simples. Então, isso deve ser estudado muito detidamente. Se a escala de
valores é alterada, estamos perdidos. A sociedade não pode ir adiante.
O grande
pedagogo, Josef Kentennich, um alemão, dizia em uma ocasião: "não conheço
nenhum problema sério de um jovem que não seja resolvido quando o jovem
descobre o autêntico ideal. Não conheço nenhum problema sério que não seja
resolvido quando se descobre o autêntico ideal". E isso é verdade.
Agora,
apliquemos isto à nova lei de educação. Vocês sabem que, na Espanha, foi
publicada uma nova lei da educação, agora também no Brasil, na Argentina
etc. O que a lei prevê? Que as crianças e os jovens sejam educados para ser
pessoas integrais; que cresçam como se deve crescer; que tenham o verdadeiro
ideal, que não se confundam; que saibam pensar por si mesmos, que não se
deixem enganar. Hoje há em todo o mundo uma terrível manipulação. A mim, que
viajo bastante, dizem os amigos de todas as partes: manipulam-se os meios de
comunicação e tudo... O que significa a manipulação? Tratar as pessoas como
se fossem objetos, dominá-las, e isso avilta, isso rebaixa. O que os
manipuladores querem é nos dominar para que façamos o que eles querem.
Então, uma criança, um jovem deve conhecer a manipulação para ser livre
interiormente, não se deixar manipular. Tudo isso que a lei diz é uma
maravilha... Agora, o meio para consegui-lo é que é o difícil. O que é que
nossa lei diz, e creio a de vocês também, a argentina também etc.? Que cada
professor deve ser um orientador, não somente informar, mas sim formar. Até
aí, tudo bem. Mas, agora, a lei diz: e como conseguir isto? E diz: bem, os
professores devem falar em classe – sobretudo no ensino médio –, devem
aproveitar alguns momentos da aula para falar de uma série de valores, por
exemplo, a saúde, o amor, a tolerância, a educação de trânsito etc. E falar
de vez em quando. Este caminho está causando muitas dificuldades. Por quê?
Porque é muito difícil encontrar um momento, por exemplo, em física, para se
pôr a falar de amor, de tolerância etc. Segundo, os professores se queixam e
dizem: "eu sou profissional, por exemplo, de música, não me faça falar de
axiologia, ou seja, de valores; isso não é comigo." Tem razão. Terceiro,
esta maneira é muito perigosa para a formação dos jovens, formação como
pessoas. Porque esta formação requer uma articulação muito boa, ou seja, não
se pode falar de uma coisa um dia; outro dia, de outra... Não! Você pode
acabar sabendo temas, mas sua mente, seu espírito não fica bem articulado e
aqui é necessário um trabalho de articulação. Então, vi que este caminho
empreendido não é autêntico e escrevi um livro sobre isso (Como conseguir
uma formação integral – N. do. Ed.), que agora se traduz ao português. Foi
difícil porque realmente deveria descobrir como levar isto a cabo. E
digo-lhes rapidamente o que consegui. Eu penso que os professores não devem
sair de sua matéria, pois cada um quer falar daquilo que sabe. Deve-se
descobrir como cada matéria pode contribuir para que o crescimento das
crianças e dos jovens seja perfeito. Então, pensei: em que consiste o
processo de crescimento? Um pouco o que disse antes, descobrindo o encontro,
o ideal, os valores... Que conceitos surgiram? Âmbito, experiência
reversível, encontro, valores, virtudes, ideal – eu não imponho todos estes
conceitos, como o ministério impõe nove valores chamados transversais; ele
impõe porque sabe do assunto, eu não imponho porque é o próprio processo de
crescimento que está, por assim dizer, como que estruturado por esses
conceitos. Mas esses conceitos que mencionei antes, condensam-se em um, que
são as inter-relações. O encontro é relação, os valores são relação, as
virtudes... tudo é relação. E o ideal, o mesmo. Então, a minha pergunta é
esta: como cada uma das matérias pode colaborar para que aquele aluno
descubra a importância das relações, fique admirado diante da importância
das relações e as ame, as deseje? Se fizer isto, se cada professor conseguir
isto, está colocando as bases firmes da formação dos alunos, formação
humana, sem falar nunca de valores, nem de virtudes. O que ensina um
matemático? Ensina a operar com estruturas, equações etc. As estruturas são
relações. O matemático não deve ensinar somente operações, mas ensinar a
descobrir o poder, a força que as relações têm, as estruturas matemáticas e
a beleza. Não há nada mais belo do que uma estrutura matemática, uma equação
com a qual Kepler, por exemplo, podia determinar o movimento dos astros.
Vejam que poder! Mas, ao mesmo tempo, que harmonia, que beleza. Alguém que
estude matemática desta maneira sai da aula dizendo: a relação é uma
maravilha! E vai para a física, sobretudo a microfísica, e vê o mesmo,
porque a última instância da matéria não são pequenos pedaços de matéria,
são energias estruturadas, ou seja, inter-relacionadas. E o aluno sai
dizendo: quem diria, esse "negócio" de relação está no último fundamento da
realidade. E vai às ciências naturais e vê, por exemplo, a polinização das
plantas, como as plantas necessitam umas das outras, há palmeiras macho,
palmeiras fêmea, e vem o vento e os insentos a fecundar... tudo é
inter-relação. E chega à música, a música é toda relação. Enquanto não se
colocam alguns sons em relação com outros, não há música. Uma tonalidade, o
que é? Relação entre tons, semitons etc. Tudo na música é harmonia. O
segredo é a harmonia. O Partenon é antigo, sim, porque é harmônico. O que
significa a harmonia? Proporção: certas partes estão em relação com outras.
A coluna dórica tem 16 vezes o raio da base, não 15 nem 16,5 – tudo em
proporção. E a Vênus de Milo está toda conforme, toda dividida em proporção
conforme... se estudou: a menor parte da Vênus de Milo está em relação com
todas as outras... daí vem a beleza, a elegância. E aí se aprende o que é a
relação. A criança e o jovem vão se surpreendendo, sempre percebendo a
relação, a inter-relação... é uma maravilha, em todo o universo. Bem, quando
chegar à aula de ética, que é decisiva, já poderá entender...
Quando
as normas são fecundas, não se opõem – como milhões de jovens o crêem –: se
complementam. Uma jovem dizia-me recentemente em Madri – assim,
maternalmente: "Professor, não se aborreça, mas não perca seu tempo com
esses assuntos! Veja, na vida, deve-se escolher: eu, ou sou livre ou aceito
normas. Como por lei de vida, tenho que ser livre, deixo as normas de lado".
E era uma moça muito fina, não creio que era uma revolucionária, louca...
não, não! Era uma moça muito fina, muito bem arrumadinha... Disse-me:
deve-se escolher.
Bem,
pois vejam vocês: esta pessoa, esta jovem acreditava que a relação, o
esquema liberdade-normas é um dilema: deve-se escolher. Quando um jovem
acredita nisso, não terá maturidade nunca... Eu não podia ter-me
desenvolvido como pessoa se tivesse acreditado que liberdade e normas estão
em oposição; que autonomia e heteronomia, aceitar leis alheias se opõem...?
Não se opõem – quando há criatividade. Por quê? Porque eu assumo como
própria a lei que me é dada, quando vejo que é uma lei que me aperfeiçoa e a
assumo como algo próprio. Ao princípio é externa, estranha, alheia e
distinta de mim. Depois a converto em íntima. Vejam, quando um jovem percebe
que uma realidade, por exemplo, uma norma, ao princípio é distinta dele,
distante, externa, estranha, alheia, mas que pode chegar a ser íntima sem
deixar de ser distinta, este jovem já tem um porvir; está formado. Vejam,
que importante é isto: algo distinto e, ao princípio, distante, externo,
estranho, se converte em íntimo.
Bem,
vocês conhecem a experiência que lhes vou contar: aprendam de memória um
poema ou uma canção – por menor que seja. E, depois, vocês, sozinhos, à
noite, com a luz apagada, quando ninguém os ouvir, vocês repitam o poema, de
maneira criativa. Não o façam mecanicamente, mas criativamente, procurando
viver o poema, voltar a criá-lo como se fosse a primeira vez que se criara.
Em menos de cinco minutos, vocês farão esta experiência que é maravilhosa. O
poema, quando vocês não o conheciam, era distinto, distante, externo,
estranho, alheio, depois, quando o aprendem e o repetem dessa maneira, o
poema deixa de ser distante, externo, estranho, alheio, e se converte em
íntimo a vocês, sem deixar de ser distinto. O mesmo ocorre com as normas.
Vejam, resolve-se o grande problema da ética. Ah, mas quando o professor
perguntar: "o que são as normas?". São princípios que regulam nossa vida, a
ordenam, a inter-relaciona. Por quê? Minha vida regula-se com relação aos
demais, com relação à natureza, às obras de arte etc. que a regulam,
estruturam a relação. Um aluno que tenha estudado matemática, física, arte
grega – vital como disse antes –, sabe o que responderá quando o professor
lhe perguntar sobre isto? "Claro, evidente! E como poderia ser de outra
forma?" Se todo o universo está inter-relacionado, se a relação é o
fundamento da vida (vida animal, vida vegetal, o fundamento da vida
inanimada), se é assim, como poderia ser diferente quando se trata da vida
humana? Ah, mas aí há uma diferença colossal: o homem deve viver a relação,
deve viver em relação, mas ele é quem cria essa relação – esse grande
privilégio que o animal e o vegetal não têm. Vejam, as flores vivem unidas
ecologicamente ao universo; o astro vive, ao percorrer sua órbita, unido a
todo o universo – mas não o sabem, nem o desejam. Quem sabe e deseja é o
homem. Por isso quando, por exemplo, duas pessoas se casam e a jovem leva
algumas flores na mão, por que leva essas flores tão bonitas? Porque são
bonitas, sim, mas há uma razão mais profunda: porque essas flores – vamos
dizer em termos da cultura ocidental bem conhecida –, essas flores,
poderíamos dizer, dão glória ao universo, mantendo-se em união com o
universo – ecológico – e o mesmo dirá o cristão: ao Criador. Mas não o
sabem: as flores dão glória a Deus, mas não sabem. Como o astro ao percorrer
a órbita... e os círios que estão ardendo no templo, por exemplo, na
cerimônia de casamento... é o mesmo. Portanto, a noiva que leva as flores e
o noivo que vai com ela, serão, ao criar a unidade do casamento, porta-vozes
do universo inteiro: dão voz a todas as coisas, voz às flores, voz aos
astros. E porque eles sabem que criar uma unidade é uma meta não somente do
homem, mas do universo inteiro. Por isso poderíamos dizer que o universo
vem, desde a criação, como que dando voltas, voltas que culminam na unidade.
Quando alguém cria unidade, poderíamos dizer que está na mesma orientação do
universo, está como que colaborando com o universo e sua perfeição. Quando
se rompe a unidade, poderíamos dizer que vai contra a direção do universo,
vai contra tudo do universo.
Então,
com isso, eu terminaria dizendo: o que conseguimos com este método?
Primeiro, que os professores se sentissem à vontade, porque estão explicando
o que sabem. Segundo, estão dignificando cada área, cada matéria, porque há
matemáticos que sabem muita matemática, como um catedrático da Universidade
de Madri, que me disse: "eu, como matemático, não posso fazer nada pela
formação pessoal dos alunos, somente ensinar-lhes matemática, que não tem
nada que ver com isso. Tudo que posso fazer é dar-lhes bom exemplo, chegar
pontualmente à aula, ser amável". Eu respondi: "Veja, você sabe muita
matemática, mas está enganado. A matemática em si pode contribuir muito para
a formação porque nos abre para o maravilhoso mundo das relações". Vocês
sabem o que significa, por exemplo, que um matemático elabore um
instrumento, aparentemente afastado do mundo, e elabore uma matemática e com
essa linguagem vocês acabam por poder aprofundar-se até os estratos últimos
da realidade. Vejam que relação mais enigmática há entre a mente do homem e
a realidade. É algo fantástico, que deve nos ajudar a compreender que o
mundo está bem feito, que o mundo está bem ordenado. Bem, o mesmo com a
física. Heisenberg dizia, uma vez em Madri, em uma mesa redonda: Kepler, que
tinha fé religiosa, apesar de sua vida muito dura, continuou pesquisando,
pesquisando o quê? As leis da natureza, porque sua fé religiosa lhe dizia: o
mundo foi criado por Álguem que o criou com ordem – portanto, bem feito – e
eu tenho, ainda que me custe muito, que continuar procurando essas leis. E
se não estivesse certo de que as leis existem, não iria passar a vida
procurando-as, sendo tão difícil. Bem, então, a matemática, a física... é
fantástico o que nos podem dizer. Max Planck, o fundador da física quântica,
que não era propriamente um cristão no sentido rigoroso, dizia: "se eu, como
físico e todos os físicos, não tivéssemos fé na existência de um Criador que
criou o mundo com ordem, teríamos paciência, força e energia para procurar
por toda a vida, equações, procurar a unidade do universo, procurar as
inter-relações...?" Não o fariam! Então, perceber isso te dá uma luz
fantástica sobre o universo.
O mesmo
ocorre com a música. Meus amigos músicos dizem: que pena, passamos quarenta
anos ensinando música e não tínhamos idéia de que a música tivesse tanto
poder formativo e me dizem que só em fazer música, ouvir música, já está
havendo formação – porque há vivência de um mundo de relações. Então, se se
percebe que na música as relações são tão grandiosas, o que não será na vida
social? Se eu conseguisse, na minha família, no meu ambiente, no meu
colégio, criar a mesma harmonia que Mozart, Brahms, Bach criavam na
música... isto seria um paraíso! Bem, pois isso é educação.
Muito
bem, queridos amigos, vocês poderão ver tudo isso, se quiserem, quando
tiverem o livro. Eu, lamentavelmente, sinto ter que ir para o aeroporto. Eu,
por mim, ficaria conversando mais com vocês, mas tenho que ir porque o
trânsito é tremendo. Somente quero desejar-lhes tudo de bom, não deixem que
se estrague a primavera com os exames, não se deixem matar pelos exames e
que Deus vos abençoe. Muito obrigado a todos.