UM OLHAR APRECIADOR NÃO SE GANHA DE PRESENTE

 

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES DE AZEVEDO



Todas as vezes em que viajo pelo interior ou ando de metrô, trem ou qualquer outra condução que proporcione através de suas janelas um olhar à ocupação humana ao longo das estradas e vias de tantos brasis, escapa sempre desse meu olhar curioso e atrevido o desejo de captar a arquitetura das casas, o jeito de vestir das pessoas, rasgos de cenas e sons que compõem um filme interior nunca acabado, porque é vivo e surpreendente, se transformando sempre. Essa vivacidade advém da capacidade humana de organizar quase do nada formas de inventar e reinventar o cotidiano, a própria vida a despeito de tanta adversidade.

Nesse sentido, é incrível perceber barro e palha transformados em casa: na arquitetura própria dos que não sabem que possuem uma forma peculiar de organizar sua moradia ou o jeito de casa que lhes cabe economicamente e esteticamente, esse mesmo pensar, sentir, toma conta de mim, quando esse olhar curioso passeia pela organização alegre de uma feira, com suas barraquinhas de frutas de variadas cores, cereais expostos em sacos, roupas, móveis, utensílios, tudo organizado segundo uma estética.

Quando ao olhar é permitido maior tempo de curiosidade, percebemos as plantas dos jardins, as flores dispostas para enfeitar as imagens dos Santos, cortinas de chita com suas estampas, fotografias registrando cenas familiares, poucos móveis dispostos com uma organização própria, utensílios esculpidos do barro. Tudo inventado para dar sentido a vida em busca da construção da dignidade de viver, para dar uma qualidade de vida.

Também é com esse mesmo olhar atrevido e comovido, que busco entender as estética dos templos de tantas religiões - brancas negras, indígenas e amarelas, com todas as suas misturas: altares e pejis ornamentados, simbolizando a celebração da espiritualidade, a possibilidade de transcendência.

Nessas horas, o meu olhar curioso é tomado de compaixão. Não uma compaixão burguesa que se confunde com pena, ou com exaltação da pobreza, mas compaixão no sentido mais fiel da palavra de com-paixão, de ter paixão de identificar-se de algum modo com o outro, por um segundo que seja, se colocar no lugar do outro, viver em frações de segundos (profundos) outras vidas, em outros mundos.

A capacidade de se colocar no lugar do outro com paixão - na história do outro - se traduz no reconhecimento de que há uma estética, uma ética e um sentido artístico - uma história - em cada uma das marcas ostensivamente exuberantes de humanidade que vemos através de nossas janelas. É a história ética, estética e artística de homens e mulheres que talvez nunca tenham ido a um museu, a um cinema ou a um teatro, mas esses homens e mulheres não são desprovidos da capacidade humana de organizar e aprender a reorganizar seu jeito de ser, arrumar sua casa, escolher sua roupa, celebrar a vida/morte - ritualizar.

Por isso mesmo, não podemos desprezar ou menosprezar a dimensão estética e artística pousante nas flores, que podem ser até de plástico, que ornamentam os altares, os mortos ou a celebração da vida na festa. Assim, os canteiros improvisados, as casas construídas quase do nada, a imagem de santo ou uma estampa do coração de Jesus, que ornamenta a vida dos que vivem na contramão da estética baseada nos códigos europeus ou norte americanos brancos, jamais poderiam ser desconsideradas por um projeto de educação escolar em Arte. Isso porque, da mesma maneira que os códigos europeus e norte americanos brancos se constituem, na sua generalidade, de formas visuais, cênicas e sonoras. assim também, pousam entre os grupos que não participam da estética e da Arte instituída pelos grupos hegemônicos, visualidades , cenas e sonoridades, que são também a tradução de sentimentos e pensamentos acerca de questões vitais para o ser humano.

Até agora, tentei colocar neste texto o meu jeito de olhar que não foi me dado de presente, mas, ao contrário, foi construído em uma aprendizagem de deconstrução de estereótipos. Cabe, portanto, dizer que este texto foi inspirado (pós-modernamente) nas pesquisas da professora Ana Mae Barbosa, quando ela afirma em sua obra, A Imagem no Ensino da Arte, que:

"(...) ao viajarmos pelo interior do Brasil, nos deparamos às vezes com casa muito pobres, de taipa e cobertas de palha de coqueiro, mas ao redor alguém plantou um jardim organizando as cores das flores de maneira a lhe dar um prazer que vai trazer um pouco de qualidade de vida à miséria. Dentro de uma destas casas podemos até encontrar um jarro de flores de plástico, que foi posto ali também para dar prazer ou qualidade de vida. A flor de plástico pode não ser prazer estético para mim e para meu padrão de valor cultural, mas o é para os donos daquela casa que também podem ter uma reprodução da Santa Ceia de Leonardo da Vinci na parede." (1991:33/34)

Cada um dos detalhes expostos para justificar a curiosidade do olhar que tudo quer compreender e captar ressalta que as dimensões estética e artística vêm dar uma qualidade de vida, humanizar o cotidiano. Além disso, devemos compreender que existe uma diversidade e complexidade de estéticas e Artes e não apenas uma - a hegemônica.

Precisamos também compreender e difundir no sistema educacional o respeito às diversas formas de organização estética e artística à medida que, na sociedade, interagem culturas e, do embate entre essas, provavelmente surgirão novas sínteses.

Novamente citamos Ana Mae para realçar a perspectiva de ensino de arte que buscamos:

"O intercruzamento de padrões estéticos e o discernimento de valores devia ser o princípio dialético a presidir os conteúdos dos currículos na escola, através da magia do fazer, da leitura deste fazer e dois fazeres de artistas populares e eruditos, e da contextualização destes artistas no seu tempo e no seu espaço." (1991:34)

A Arte não apenas proporciona qualidade de vida, mas também através de seu ensino e de sua aprendizagem as novas gerações terão a possibilidade de construir junto com os outros saberes da educação escolar a consciência de identidade cultural.

Após essa reflexão inicial, retomamos o título/tema deste trabalho.

O título deste trabalho Um olhar apreciador não se ganha de presente, pretende enfatizar a grande importância social que possui o ensino de arte que articula entre a contextualização histórica , a apreciação e o fazer artístico. Este trabalho tem , pois , suas bases no ensino de arte de tendência pós-modernista - na abordagem triangular -, que concebe a arte como produção cultural possível de ser decodificada. Pode-se afirmar, assim, que a tendência pós-modernista no ensino de arte propõe uma relação entre a obra de arte e o apreciador para além da catarse emocional, como consideravam os modernistas , à medida que cada obra constitui-se em um desafio para a emoção e também para a inteligência dentro de um complexo formado entre o sentir, o pensar e o contextualizar. Ernest Fischer, na obra A necessidade da Arte, nos oferece uma contribuição esclarecedora que reforça nossas colocações. Vejamos o que Fischer afirma sobre o trabalho do artista:

"(...) o trabalho para um artista é um processo altamente consciente e racional, um processo ao fim do qual resulta a obra de arte como realidade denominada, e não - de modo algum - um estado de inspiração embriagadora. (...) é necessário dominar , controlar e transformar a experiência em memória, a memória em expressão , a matéria em forma . A emoção para um artista não é tudo; ele precisa também saber tratá-la, precisa conhecer todas as regras , técnicas , recursos, formas e convenções com que a natureza - esta provocadora - pode ser dominada e sujeitada à concentração da arte. A paixão que consome o dilema serve ao verdadeiro artista; o artista não é possuído pela besta-fera, mas doma-a." (1987:14).

Na verdade, da acepção de artista como um ser dotado de qualidades misteriosas, decorre a acepção de apreciador, também possuidor de tais qualidades. Sendo essa percepção ainda amplamente difundida na sociedade, é tarefa primordial do ensino de arte pós-modernista, em primeiro lugar, afirmar o artista não como alguém que trabalha ao acaso da inspiração e, em segundo, tornar o exercício de apreciar acessível a todos através de um processo educativo. Apreciar, nessa perspectiva , é algo que se constrói a partir de uma atitude de admiração ou de encantamento , mas requerendo refinamento constante através do contato com a arte, portanto é uma aprendizagem que envolve pensar, refletir , elaborar hipóteses, criar novas sínteses.

Após essas colocações, queremos enfatizar dois princípios que norteiam este trabalho: o primeiro, diz respeito a concepção de arte sobre a qual estamos nos apoiando, como sendo uma narrativa - discurso aberto na linguagem de Umberto Eco. Para complementar essa textura de pensamento, recorremos ao próprio Umberto Eco em seu ensaio sobre O problema da obra aberta, ele fala sobre a noção de obra de arte considerando que existem, geralmente , implícitos à obra, dois aspectos. O primeiro diz respeito ao autor que realiza um objeto de arte acabado e bem definido, a partir de uma intencionalidade precisa, pensando que o fruidor - leitor ou apreciador - reinterpreta tal obra como ele a concebeu.

O segundo aspecto, e que nos interessa neste trabalho, vem complementar nossa fundamentação. Vejamos o que ressalta Umberto Eco :

"O objeto é fruído por uma pluralidade de fruidores, cada um dos quais sofrerá a acção, no acto de fruição, das próprias características psicológicas e filosóficas, da própria formação ambiental e cultural, das especificações da sensibilidade que as contingências imediatas e a situação histórica implicam; portanto por mais honesto e total que seja o empenho de fidelidade a obra que se frui cada fruição será inevitavelmente pessoal e verá a obra num dos seus aspectos possíveis. O autor não ignora geralmente esta condição da situacionalidade de cada fruição ; mas produz a obra como "abertura" a estas possibilidades, abertura que, no entanto , oriente tais possibilidades , no sentido de as provocar como respostas diferentes mas conformes a um estímulo definido em si". (1972:154).

A narrativa ou o discurso artístico é um ponto de vista, um recorte, um olhar angular do artista que tanto pode ser sonoro, plástico , visual, cênico ou utilizando-se de novas tecnologias.

Dessa forma, admitimos que o artista , através de sua obra, constrói uma narrativa que quer dizer algo, comunicar , refletir, discutir, discordar, indignar ou até mesmo afirmar os valores vigentes da sociedade em que vive. Por isso, seria ingênuo afirmar que toda obra de arte é de boa qualidade ou que toda obra de arte provoca no leitor novas sínteses, ou ainda que ela propõe sempre um novo olhar acerca do nosso entorno, pois a arte é produção humana passível de ecoar através dos tempos - quando de qualidade - ou perder-se na mera banalização - quando medíocre.

Sobre o segundo princípio, devemos dizer que o artista pode até vislumbrar o futuro através de sua obra, mas sua produção será com a tecnologia que dispõe sua época. Um bom exemplo do que estamos afirmando é o filme Metrópoles (1926) de Fritz Lang. Ele cria, em sua ficção, uma cidade , por volta do ano 2.000, na qual a divisão de classes seria cruel - submetendo o ser humano à máquina - e a ciência , por ser ideologicamente burguesa, estará a serviço dos poderes econômicos e políticos das elites, não voltada para o bem da humanidade. Lang , através de sua narrativa, põe-se à frente de seu tempo, antevendo a difusão do Fascismo, no entanto o filme é mudo - refletindo a tecnologia cinematográfica da época e esteticamente refletindo os princípios do expressionismo - importante movimento artístico na Alemanha de seu tempo, que influenciou o mundo inteiro.

Reforçando o que chamamos de princípios norteadores desse trabalho, fomos buscar em Benedito Nunes , na obra Introdução à Filosofia da Arte, uma espécie de síntese do que representa para nós o artista e seu trabalho em nossa sociedade:

"A criação perdeu a sua impulsividade, o seu primitivo ímpeto emocional. O artista, tornado-se um tipo reflexivo, como previa Hegel, interroga-se a si mesmo sobre o sentido e o destino de suas próprias criações. Sente-se responsável pelo destino da Arte e assume este destino, como risco de sua condição no mundo em que vive. Essa consciência de responsabilidade, que se associa com o sentimento de risco, manifesta-se positiva ou negativamente, transformando-se para uns em tarefa social ou encargo político, e para outros em gesto de revolta e atitude de protesto. Estamos muito distantes do artista romântico, senhor de si e da Natureza, para quem a Arte era uma certeza incontestável. O artista do nosso tempo põe em discussão a própria Arte. Seu modo de produzir é polêmico: cria interrogando-se e interrogando a Arte, a qual deixou de ser para ele uma certeza evidente guiando as suas relações com o mundo. Agora a Arte é uma dúvida que o agita, uma interrogação que angustia, um resultado a alcançar, algo problemático, que ele está empenhado em possuir e conquistar e não mais um objetivo conquistado e possuído." (1989:107/108)

O caráter problemático que possui a obra de arte destacado por Benedito Nunes é o cerne da questão do ensino de arte de tendência pós-modernista, sendo um dos grandes desafios do professor de arte trabalhar em seu cotidiano escolar com a vertente denominada de apreciação da obra de arte ou leitura da obra de arte, como queiram.

O apreciar (o ler) é um problema sério porque nosso ensino de arte visando ao acesso da maioria da população ao compreender, elaborar e reelaborar a arte historicamente, é muito recente, chegando mesmo a constituir-se em uma meta a alcançar.

Essa atitude de forte cunho ideológico reforçada pela divisão de bens e muitas vezes reproduzida na Escola através da divisão desigual dos bens artísticos e culturais. Mesmo neste momento aparentemente privilegiado no qual o ensino de arte é referendado na nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (lei n.º 9394/96) e proposto pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN),encontramos na Escola, ainda, o professor não habilitado em Arte. Na prática pedagógica, persiste uma preocupação apenas em vivenciar técnicas fragmentadas (herança da postura tecnicista) ou voltada para uma prática de livre-expressão (herdada da postura escolanovista). Infelizmente, a maioria de nós professores (mesmo os habilitados em Ensino de Arte), advindos de uma formação pouco eficaz, trazemos a marca de uma visão de Arte bastante idealizada ou empobrecida. Como idealizada, temos o romântico da livre expressividade, como empobrecida, temos os métodos baseados na mídia comercial. Tudo isso acontecendo dialeticamente com a luta por uma melhor qualidade de nosso ensino de arte. A busca desse ensino parte de uma compreensão da mesma, como um discurso problematizador no sentido enfatizado por Benedito Nunes, em trecho anterior deste trabalho. Acrescentamos, ao que diz Benedito Nunes, o que afirma Ana Mae em seu projeto não publicado Integração do Currículo com as Artes Visuais:

            "O principal objetivo da Arte na escola é levar os indivíduos a se confrontarem com símbolos de realidade e experiências compartilhadas o que é fundamental para a compreensão social e cultural do mundo em que vivem. Expressão pessoal e Interpretação pessoal não são construtos espontâneos mas resultado da ativa negociação entre o indivíduo e a sociedade, capacidade e necessidade, liberdade e legalidade, particularidade e universidade."(1997:05)

Diante de tais fatos, muitos estudiosos do ensino da arte elaboraram formas de compreender a arte. Entre eles, podemos destacar os estrangeiros Edmund Feldman, Robert Willian Ott, Michael J. Parsons .

No Brasil, surgiu nos anos 80 a Metodologia Triangular, trabalho que pretende oferecer ao professor a oportunidade de compreender e ensinara arte de uma forma mais eficaz. Esse "método" surgiu sob a liderança da Dr.ª Ana Mae Barbosa e um grupo de professores do Museu de Arte Contemporânea de São Paulo (MAC-USP; 87/93). Como qualquer trabalho de cunho científico, essa metodologia sofreu críticas, e a própria Ana Mae resolveu mais tarde denominá-la de proposta ou abordagem por considerar que o termo metodologia é muito pedagogizante ao contrário dos outros dois, que possuem um sentido mais abrangente. Nada melhor para compreender a proposta triangular do que citar a própria Dr.ª Ana Mae em seu texto Arte-Educação Pós-Colonialista no Brasil: Aprendizagem Triangular, no livro O Ensino da Arte em Foco.

"O cubano Roberto Retamar, na década de 70, atualizou o conceito de antropofagia de Oswald de Andrade, canibalizando-o- e tornando-o- pós-colonial na teoria e conta-discursivo na prática. Como profetizou Oswald de Andrade, hoje podemos definir o pós-colonialismo cultural no Brasil como antropofágico e canibalesco. Deglute, deconstrói e reorganiza as influências da Europa e dos Estados Unidos. Nem mais a dependência cultural, nem mais a busca incansável da originalidade modernista, mas adequação e elaboração em diálogo com os países centrais.

Foi assim que surgiu a abordagem que ficou conhecida no Brasil como Metodologia Triangular, uma designação infeliz mas uma ação reconstrutora do ensino de arte (...) a Triangulação Pós-Colonialista do Ensino da Arte no Brasil foi apelidada de metodologia pelos professores. Culpo-me por ter aceitado o apelido. Hoje recuso a idéia de metodologia por ser particularizadora, prescritiva e pedagogizante, mas subscrevo a designação triangular." (1994:17)

Isso nos obriga a tentar compreender as diversas abordagens da obra de arte, aquelas reconhecidas historicamente e aquela produzida por grupos minoritários da sociedade que denominamos de emergente. Fomos buscar em Argan, na obra Guia de História da Arte, algumas pistas que podem nos ajudar nessa compreensão:

" (...) o método formalista estuda a formação da obra de arte na consciência do artista, e o método sociológico a sua gênese e a sua existência na realidade social, o método iconológico, instaurado por A Warburg e desenvolvido principalmente por E. Panofsky para as artes figurativas , e por R. Wittkower para a arquitectura, parte da premissa de que a actividade artística tem impulsos mais profundos, ao nível do inconsciente individual e colectivo." (1992:37)

O método estruturalista também é citado por Argan na obra mencionada anteriormente, porém fomos encontrar, no Dicionário de Filosofia de José Ferrater Mora, uma boa conceituação de tal método. Diz Mora sobre o método estruturalista:

"É comum ver-se o estruturalismo insistir em que se trate de uma método de compreensão da realidade - e, de um modo específico, das realidades humanas socialmente construídas - mas é freqüente a ocorrência para além dos programas metodológicos, de pressupostos de natureza antológica, de acordo com as quais as realidades em questão são formadas estruturalmente". (1996:237)

 

Mora chama a atenção que a princípio o estruturalismo não nega que existam causas a relações causais, nem que haja transformações principalmente aquelas de caráter histórico.

Tentamos traçar, desse modo, um panorama das possibilidades de fundamentação para a construção de um olhar apreciador, mesmo que ainda sejam um tanto quanto superficiais. Nosso interesse foi apenas oferecer um acréscimo à pesquisa, relacionando um pequeno leque de opções que temos na abordagem da obra de arte.

Tanto a citação das "abordagens" de professores estrangeiros quanto a incursão à Filosofia - ocorreram na perspectiva de delinear contornos das várias abordagens possíveis que fundamentam a apreciação da obra de arte - formando uma textura de pensamento que, no caso, possibilita a nossa abordagem da imagem fixa e da imagem em movimento. Partimos, portanto, do entendimento de que a abordagem triangular é a que melhor sintetiza a textura de pensamento aqui apresentado, indo; inclusive, mais além, pois oferece ao professor a chance de organizar as vertentes da triangulação de acordo com suas próprias possibilidades; ora enfatizando a leitura da obra de arte, ora a história, ora o fazer.

Por todas essas razões, recomendamos a abordagem triangular como suporte teórico e prático para a leitura da imagem.

Para reforçar as colocações anteriores, citamos o que coloca a Professora Dr.ª Regina Machado, no texto Ensino e Aprendizagem: Apreciação:

"A proposta triangular define o objetivo da área ponto de partida estrutural para a conseqüente enunciação de objetivos, conteúdos e procedimentos metodológicos a serem articulados pelo professor, tendo em vista - e isto é importante - as condições particulares em que se inscreve sua ação: características sócio culturais da sua escola, faixa etária e nível de desenvolvimento dos seus alunos. Com base na proposta triangular, o professor de arte pode compreender que existem conteúdos a serem trabalhados: no sentido de propiciar a seus alunos um conhecimento de Arte, advindo não apenas de sua atividade criadora, ou seja, realizando formas artísticas, mas também de sua aprendizagem estética. Esta última, desenvolvida através da apreciação da obra de arte, vista dentro da história da cultura, da história das formas artísticas e da história pessoal dos artistas, bem como a da leitura das mais diversas imagens do cotidiano." (1996:134)

Diante dessas considerações, retomamos a questão central deste trabalho, que pode se resumir da seguinte forma: olhar apreciador é um modo de ver, de observar nossa ambiência cotidiana estética e artística de uma maneira crítica. Esse olhar não se ganha de presente, porque ele é um processo de aprendizagem em constante transformação (é vivo). Ele requer observação detalhada, pesquisa, criação de referências, comparação e, acima de tudo, uma atitude permanente de atenção para as coisas que se nos apresentam, assim como a paisagem visual, cênica e sonora que ressaltamos no início deste texto. A construção desse olhar é resultado de um processo educativo. Vejamos a seguir o que dizem alguns autores sobre o olhar.

Segundo Fusari e Ferraz na obra Arte na Educação Escolar "(...) uma educação do ver, do observar, significa desvelar as nuances e as características do próprio cotidiano." (1992:74). Complementando a reflexão sobre o olhar, citaremos a seguir Alfredo Bosi, em seu texto Fenomenologia do Olhar. Diz Bosi:

"Os psicólogos da percepção são unânimes em afirmar que a maioria absoluta das informações que o homem moderno recebe lhe vem das imagens. O homem de hoje é predominantemente visual. Alguns chegam a exatidão do número: oitenta por cento dos estímulos seriam visuais. Sabe-se que a relação do olho com o cérebro é intima, estrutural. Sistema nervoso central e órgãos visuais externos, estão ligados pelos nervos óticos de tal sorte que a estrutura celular da retina nada mais é que uma expansão diferenciada da estrutura celular do cérebro."(1989:23)

Em um crescente, nossa reflexão sobre a aprendizagem de um olhar apreciador exige o que afirma Ana Mae na obra A Imagem no Ensino da Arte:

"A produção de arte faz a criança pensar inteligentemente acerca da criação de imagens visuais, mas somente a produção não é suficiente para a leitura e o julgamento de qualidade das imagens produzidas por artistas ou do mundo cotidiano que nos cerca. Este mundo está cada vez mais sendo dominado pela imagem. Há uma pesquisa na França mostrando que 82% da nossa aprendizagem informal se faz através da imagem e 55% desta aprendizagem é feita inconscientemente."(1991:34)

Ao tentarmos aprofundar o que diz Ana Mae, encontramos a conecção necessária entre o ensino de arte de tendência pós- modernista com a leitura da imagem como decorrente desta, dar-se a construção de olhar apreciador.

Diante da textura de pensamento que tentamos formar, concluímos que o olhar apreciador não se ganha de presente, porque exige esforço no processo de desvelamento da obra de arte. Desvelar é tentar reconstruir o caminho do artista por estradas, vias, avenidas, ruelas e trilhas nunca antes imaginadas. É uma incursão às vezes solitária, buscando significados próprios na redescoberta da visão de mundo do artista.

Convém, nesse sentido, ressaltar que a obra de arte é composta por complexas interfaces e, por isso, desvelar é uma tentativa de redescobrir e ressignificar a obra no tempo e no espaço sempre de um ponto de vista próprio, pessoal. Todo esse esforço é também uma forma de recriação inventiva e, portanto, é uma reinvenção artística que carece de critérios. No ensino de arte, esses critérios devem ser flexíveis e criados segundo a relação ensino-aprendizagem que se traduz na relação professor-aluno sempre de forma aberta, democrática, tentando a maior clareza possível quanto à elaboração dos mesmos.

Os autores que citamos ao longo deste texto ajudam o professor a reinventar seus próprios caminhos no contato com a obra de arte, mas o esforço é solitário, pois é um ponto de vista, é pessoal.

Destacamos, para finalizar, que o ensino de arte de tendência pós-modernista, através da abordagem triangular, pode eficazmente contribuir para o processo de construção do olhar apreciador.

 

Referências Bibliográficas:

ARGAN, Giulio Carlo. Guia da História da Arte. Lisboa: Editorial Stampa, 1994.

BARBOSA, Ana Mae. A Imagem no Ensino da Arte. São Paulo: Perspectiva, 1991.

___________________. Arte-Educação Pós-Colonialista no Brasil: Aprendizagem Triangular. In: O Ensino de Arte em Foco. Florianópolis: UFSC, 1994.

BOSI, Alfredo. O Olhar (org.). São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

ECO, Humberto. A Definição da Arte. Lisboa: Martins Fontes, 1992.

FERRAZ, M. H. & FUSARI, M. F. Arte na Educação Escolar. São Paulo: Cortez, 1992.

MORA, José Ferrater. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

NUNES, Benedito. Introdução à Filosofia da Arte. São Paulo: Ática, 1989.



Nota: As fotografias contidas neste texto são de autoria de Sebastião Salgado retiradas de sua obra Terra, publicada em 1997 pela Companhia das Letras.

 

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