Todas as vezes em que viajo pelo interior ou ando de metrô, trem ou
qualquer outra condução que proporcione através de suas janelas um olhar à
ocupação humana ao longo das estradas e vias de tantos brasis, escapa sempre
desse meu olhar curioso e atrevido o desejo de captar a arquitetura das casas,
o jeito de vestir das pessoas, rasgos de cenas e sons que compõem um filme
interior nunca acabado, porque é vivo e surpreendente, se transformando sempre.
Essa vivacidade advém da capacidade humana de organizar quase do nada formas de
inventar e reinventar o cotidiano, a própria vida a despeito de tanta
adversidade.
Nesse sentido, é incrível perceber barro e palha
transformados em casa: na arquitetura própria dos que não sabem que possuem uma
forma peculiar de organizar sua moradia ou o jeito de casa que lhes cabe
economicamente e esteticamente, esse mesmo pensar, sentir, toma conta de mim,
quando esse olhar curioso passeia pela organização alegre de uma feira, com
suas barraquinhas de frutas de variadas cores, cereais expostos em sacos,
roupas, móveis, utensílios, tudo organizado segundo uma estética.
Quando ao olhar é permitido maior tempo de curiosidade,
percebemos as plantas dos jardins, as flores dispostas para enfeitar as imagens
dos Santos, cortinas de chita com suas estampas, fotografias registrando cenas
familiares, poucos móveis dispostos com uma organização própria, utensílios
esculpidos do barro. Tudo inventado para dar sentido a vida em busca da
construção da dignidade de viver, para dar uma qualidade de vida.
Também é com esse mesmo olhar atrevido e comovido,
que busco entender as estética dos templos de tantas religiões - brancas
negras, indígenas e amarelas, com todas as suas misturas: altares e pejis
ornamentados, simbolizando a celebração da espiritualidade, a possibilidade de
transcendência.
Nessas horas, o meu olhar curioso é tomado de
compaixão. Não uma compaixão burguesa que se confunde com pena, ou com
exaltação da pobreza, mas compaixão no sentido mais fiel da palavra de
com-paixão, de ter paixão de identificar-se de algum modo com o outro, por um
segundo que seja, se colocar no lugar do outro, viver em frações de segundos
(profundos) outras vidas, em outros mundos.
A capacidade de se colocar no lugar do outro com
paixão - na história do outro - se traduz no reconhecimento de que há uma
estética, uma ética e um sentido artístico - uma história - em cada uma das
marcas ostensivamente exuberantes de humanidade que vemos através de nossas
janelas. É a história ética, estética e artística de homens e mulheres que
talvez nunca tenham ido a um museu, a um cinema ou a um teatro, mas esses
homens e mulheres não são desprovidos da capacidade humana de organizar e
aprender a reorganizar seu jeito de ser, arrumar sua casa, escolher sua roupa,
celebrar a vida/morte - ritualizar.
Por isso mesmo, não podemos desprezar ou menosprezar
a dimensão estética e artística pousante nas flores, que podem ser até de
plástico, que ornamentam os altares, os mortos ou a celebração da vida na
festa. Assim, os canteiros improvisados, as casas construídas quase do nada, a
imagem de santo ou uma estampa do coração de Jesus, que ornamenta a vida dos
que vivem na contramão da estética baseada nos códigos europeus ou norte
americanos brancos, jamais poderiam ser desconsideradas por um projeto de
educação escolar em Arte. Isso porque, da mesma maneira que os códigos europeus
e norte americanos brancos se constituem, na sua generalidade, de formas
visuais, cênicas e sonoras. assim também, pousam entre os grupos que não
participam da estética e da Arte instituída pelos grupos hegemônicos,
visualidades , cenas e sonoridades, que são também a tradução de sentimentos e
pensamentos acerca de questões vitais para o ser humano.
Até agora, tentei colocar neste texto o meu jeito de
olhar que não foi me dado de presente, mas, ao contrário, foi construído em uma
aprendizagem de deconstrução de estereótipos. Cabe, portanto, dizer que este
texto foi inspirado (pós-modernamente) nas pesquisas da professora Ana Mae
Barbosa, quando ela afirma em sua obra, A Imagem no Ensino da Arte, que:
"(...) ao viajarmos pelo
interior do Brasil, nos deparamos às vezes com casa muito pobres, de taipa e
cobertas de palha de coqueiro, mas ao redor alguém plantou um jardim
organizando as cores das flores de maneira a lhe dar um prazer que vai trazer um
pouco de qualidade de vida à miséria. Dentro de uma destas casas podemos até
encontrar um jarro de flores de plástico, que foi posto ali também para dar
prazer ou qualidade de vida. A flor de plástico pode não ser prazer estético
para mim e para meu padrão de valor cultural, mas o é para os donos daquela
casa que também podem ter uma reprodução da Santa Ceia de Leonardo da Vinci na
parede." (1991:33/34)
Cada um dos detalhes expostos para justificar a
curiosidade do olhar que tudo quer compreender e captar ressalta que as
dimensões estética e artística vêm dar uma qualidade de vida, humanizar o
cotidiano. Além disso, devemos compreender que existe uma diversidade e
complexidade de estéticas e Artes e não apenas uma - a hegemônica.
Precisamos também compreender e difundir no sistema
educacional o respeito às diversas formas de organização estética e artística à
medida que, na sociedade, interagem culturas e, do embate entre essas,
provavelmente surgirão novas sínteses.
Novamente citamos Ana Mae para realçar a perspectiva
de ensino de arte que buscamos:
"O intercruzamento de padrões
estéticos e o discernimento de valores devia ser o princípio dialético a
presidir os conteúdos dos currículos na escola, através da magia do fazer, da
leitura deste fazer e dois fazeres de artistas populares e eruditos, e da
contextualização destes artistas no seu tempo e no seu espaço." (1991:34)
A Arte não apenas proporciona qualidade de vida, mas
também através de seu ensino e de sua aprendizagem as novas gerações terão a
possibilidade de construir junto com os outros saberes da educação escolar a
consciência de identidade cultural.
Após essa reflexão inicial, retomamos o título/tema
deste trabalho.
O título deste trabalho Um olhar apreciador não se
ganha de presente, pretende enfatizar a grande importância social que
possui o ensino de arte que articula entre a contextualização histórica , a
apreciação e o fazer artístico. Este trabalho tem , pois , suas bases no ensino
de arte de tendência pós-modernista - na abordagem triangular -, que concebe a
arte como produção cultural possível de ser decodificada. Pode-se afirmar,
assim, que a tendência pós-modernista no ensino de arte propõe uma relação
entre a obra de arte e o apreciador para além da catarse emocional, como
consideravam os modernistas , à medida que cada obra constitui-se em um desafio
para a emoção e também para a inteligência dentro de um complexo formado entre
o sentir, o pensar e o contextualizar. Ernest Fischer, na obra A necessidade
da Arte, nos oferece uma contribuição esclarecedora que reforça nossas
colocações. Vejamos o que Fischer afirma sobre o trabalho do artista:
"(...) o trabalho para um
artista é um processo altamente consciente e racional, um processo ao fim do
qual resulta a obra de arte como realidade denominada, e não - de modo algum -
um estado de inspiração embriagadora. (...) é necessário dominar , controlar e
transformar a experiência em memória, a memória em expressão , a matéria em
forma . A emoção para um artista não é tudo; ele precisa também saber tratá-la,
precisa conhecer todas as regras , técnicas , recursos, formas e convenções com
que a natureza - esta provocadora - pode ser dominada e sujeitada à
concentração da arte. A paixão que consome o dilema serve ao verdadeiro
artista; o artista não é possuído pela besta-fera, mas doma-a." (1987:14).
Na verdade, da acepção de artista como um ser dotado
de qualidades misteriosas, decorre a acepção de apreciador, também possuidor de
tais qualidades. Sendo essa percepção ainda amplamente difundida na sociedade, é
tarefa primordial do ensino de arte pós-modernista, em primeiro lugar, afirmar
o artista não como alguém que trabalha ao acaso da inspiração e, em segundo,
tornar o exercício de apreciar acessível a todos através de um processo
educativo. Apreciar, nessa perspectiva , é algo que se constrói a partir de uma
atitude de admiração ou de encantamento , mas requerendo refinamento constante
através do contato com a arte, portanto é uma aprendizagem que envolve pensar,
refletir , elaborar hipóteses, criar novas sínteses.
Após essas colocações, queremos enfatizar dois
princípios que norteiam este trabalho: o primeiro, diz respeito a concepção de
arte sobre a qual estamos nos apoiando, como sendo uma narrativa - discurso
aberto na linguagem de Umberto Eco. Para complementar essa textura de
pensamento, recorremos ao próprio Umberto Eco em seu ensaio sobre O problema
da obra aberta, ele fala sobre a noção de obra de arte considerando que
existem, geralmente , implícitos à obra, dois aspectos. O primeiro diz respeito
ao autor que realiza um objeto de arte acabado e bem definido, a partir de uma
intencionalidade precisa, pensando que o fruidor - leitor ou apreciador -
reinterpreta tal obra como ele a concebeu.
O segundo aspecto, e que nos interessa neste trabalho,
vem complementar nossa fundamentação. Vejamos o que ressalta Umberto Eco :
"O objeto é fruído por uma
pluralidade de fruidores, cada um dos quais sofrerá a acção, no acto de
fruição, das próprias características psicológicas e filosóficas, da própria
formação ambiental e cultural, das especificações da sensibilidade que as
contingências imediatas e a situação histórica implicam; portanto por mais
honesto e total que seja o empenho de fidelidade a obra que se frui cada
fruição será inevitavelmente pessoal e verá a obra num dos seus aspectos
possíveis. O autor não ignora geralmente esta condição da situacionalidade de
cada fruição ; mas produz a obra como "abertura" a estas
possibilidades, abertura que, no entanto , oriente tais possibilidades , no
sentido de as provocar como respostas diferentes mas conformes a um estímulo
definido em si". (1972:154).
A narrativa ou o discurso artístico é um ponto de
vista, um recorte, um olhar angular do artista que tanto pode ser sonoro,
plástico , visual, cênico ou utilizando-se de novas tecnologias.
Dessa forma, admitimos que o artista , através de sua
obra, constrói uma narrativa que quer dizer algo, comunicar , refletir,
discutir, discordar, indignar ou até mesmo afirmar os valores vigentes da
sociedade em que vive. Por isso, seria ingênuo afirmar que toda obra de arte é
de boa qualidade ou que toda obra de arte provoca no leitor novas sínteses, ou
ainda que ela propõe sempre um novo olhar acerca do nosso entorno, pois a arte
é produção humana passível de ecoar através dos tempos - quando de qualidade -
ou perder-se na mera banalização - quando medíocre.
Sobre o segundo princípio, devemos dizer que o
artista pode até vislumbrar o futuro através de sua obra, mas sua produção será
com a tecnologia que dispõe sua época. Um bom exemplo do que estamos afirmando
é o filme Metrópoles (1926) de Fritz Lang. Ele cria, em sua ficção, uma
cidade , por volta do ano 2.000, na qual a divisão de classes seria cruel -
submetendo o ser humano à máquina - e a ciência , por ser ideologicamente
burguesa, estará a serviço dos poderes econômicos e políticos das elites, não
voltada para o bem da humanidade. Lang , através de sua narrativa, põe-se à
frente de seu tempo, antevendo a difusão do Fascismo, no entanto o filme é mudo
- refletindo a tecnologia cinematográfica da época e esteticamente refletindo
os princípios do expressionismo - importante movimento artístico na Alemanha de
seu tempo, que influenciou o mundo inteiro.
Reforçando o que chamamos de princípios norteadores
desse trabalho, fomos buscar em Benedito Nunes , na obra Introdução à
Filosofia da Arte, uma espécie de síntese do que representa para nós o
artista e seu trabalho em nossa sociedade:
"A criação perdeu a sua
impulsividade, o seu primitivo ímpeto emocional. O artista, tornado-se um tipo
reflexivo, como previa Hegel, interroga-se a si mesmo sobre o sentido e o
destino de suas próprias criações. Sente-se responsável pelo destino da Arte e
assume este destino, como risco de sua condição no mundo em que vive. Essa
consciência de responsabilidade, que se associa com o sentimento de risco,
manifesta-se positiva ou negativamente, transformando-se para uns em tarefa
social ou encargo político, e para outros em gesto de revolta e atitude de
protesto. Estamos muito distantes do artista romântico, senhor de si e da
Natureza, para quem a Arte era uma certeza incontestável. O artista do nosso
tempo põe em discussão a própria Arte. Seu modo de produzir é polêmico: cria
interrogando-se e interrogando a Arte, a qual deixou de ser para ele uma certeza
evidente guiando as suas relações com o mundo. Agora a Arte é uma dúvida que o
agita, uma interrogação que angustia, um resultado a alcançar, algo
problemático, que ele está empenhado em possuir e conquistar e não mais um
objetivo conquistado e possuído." (1989:107/108)
O caráter problemático que possui a obra de arte
destacado por Benedito Nunes é o cerne da questão do ensino de arte de
tendência pós-modernista, sendo um dos grandes desafios do professor de arte
trabalhar em seu cotidiano escolar com a vertente denominada de apreciação da
obra de arte ou leitura da obra de arte, como queiram.
O apreciar (o ler) é um problema sério porque nosso
ensino de arte visando ao acesso da maioria da população ao compreender,
elaborar e reelaborar a arte historicamente, é muito recente, chegando mesmo a
constituir-se em uma meta a alcançar.
Essa
atitude de forte cunho ideológico reforçada pela divisão de bens e muitas vezes
reproduzida na Escola através da divisão desigual dos bens artísticos e
culturais. Mesmo neste momento aparentemente privilegiado no qual o ensino de
arte é referendado na nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (lei
n.º 9394/96) e proposto pelos Parâmetros Curriculares Nacionais
(PCN),encontramos na Escola, ainda, o professor não habilitado em Arte. Na
prática pedagógica, persiste uma preocupação apenas em vivenciar técnicas
fragmentadas (herança da postura tecnicista) ou voltada para uma prática de
livre-expressão (herdada da postura escolanovista). Infelizmente, a maioria de nós
professores (mesmo os habilitados em Ensino de Arte), advindos de uma formação
pouco eficaz, trazemos a marca de uma visão de Arte bastante idealizada ou
empobrecida. Como idealizada, temos o romântico da livre expressividade, como
empobrecida, temos os métodos baseados na mídia comercial. Tudo isso
acontecendo dialeticamente com a luta por uma melhor qualidade de nosso ensino
de arte. A busca desse ensino parte de uma compreensão da mesma, como um
discurso problematizador no sentido enfatizado por Benedito Nunes, em trecho
anterior deste trabalho. Acrescentamos, ao que diz Benedito Nunes, o que afirma
Ana Mae em seu projeto não publicado Integração do Currículo com as Artes
Visuais:
"O
principal objetivo da Arte na escola é levar os indivíduos a se confrontarem
com símbolos de realidade e experiências compartilhadas o que é fundamental
para a compreensão social e cultural do mundo em que vivem. Expressão pessoal e
Interpretação pessoal não são construtos espontâneos mas resultado da ativa
negociação entre o indivíduo e a sociedade, capacidade e necessidade, liberdade
e legalidade, particularidade e universidade."(1997:05)
Diante de tais fatos, muitos estudiosos do ensino da
arte elaboraram formas de compreender a arte. Entre eles, podemos destacar os
estrangeiros Edmund Feldman, Robert Willian Ott, Michael J. Parsons .
No Brasil, surgiu nos anos 80 a Metodologia
Triangular, trabalho que pretende oferecer ao professor a oportunidade de
compreender e ensinara arte de uma forma mais eficaz. Esse "método"
surgiu sob a liderança da Dr.ª Ana Mae Barbosa e um grupo de professores do
Museu de Arte Contemporânea de São Paulo (MAC-USP; 87/93). Como qualquer
trabalho de cunho científico, essa metodologia sofreu críticas, e a própria Ana
Mae resolveu mais tarde denominá-la de proposta ou abordagem por considerar que
o termo metodologia é muito pedagogizante ao contrário dos outros dois, que
possuem um sentido mais abrangente. Nada melhor para compreender a proposta
triangular do que citar a própria Dr.ª Ana Mae em seu texto Arte-Educação
Pós-Colonialista no Brasil: Aprendizagem Triangular, no livro O Ensino
da Arte em Foco.
"O cubano Roberto Retamar, na
década de 70, atualizou o conceito de antropofagia de Oswald de Andrade,
canibalizando-o- e tornando-o- pós-colonial na teoria e conta-discursivo na
prática. Como profetizou Oswald de Andrade, hoje podemos definir o
pós-colonialismo cultural no Brasil como antropofágico e canibalesco. Deglute,
deconstrói e reorganiza as influências da Europa e dos Estados Unidos. Nem mais
a dependência cultural, nem mais a busca incansável da originalidade
modernista, mas adequação e elaboração em diálogo com os países centrais.
Foi assim que surgiu a abordagem que
ficou conhecida no Brasil como Metodologia Triangular, uma designação infeliz mas
uma ação reconstrutora do ensino de arte (...) a Triangulação Pós-Colonialista
do Ensino da Arte no Brasil foi apelidada de metodologia pelos professores.
Culpo-me por ter aceitado o apelido. Hoje recuso a idéia de metodologia por ser
particularizadora, prescritiva e pedagogizante, mas subscrevo a designação
triangular." (1994:17)
Isso nos obriga a tentar compreender as diversas
abordagens da obra de arte, aquelas reconhecidas historicamente e aquela
produzida por grupos minoritários da sociedade que denominamos de emergente.
Fomos buscar em Argan, na obra Guia de História da Arte, algumas pistas
que podem nos ajudar nessa compreensão:
" (...) o método formalista
estuda a formação da obra de arte na consciência do artista, e o método
sociológico a sua gênese e a sua existência na realidade social, o método
iconológico, instaurado por A Warburg e desenvolvido principalmente por E.
Panofsky para as artes figurativas , e por R. Wittkower para a arquitectura,
parte da premissa de que a actividade artística tem impulsos mais profundos, ao
nível do inconsciente individual e colectivo." (1992:37)
O método estruturalista também é citado por Argan na
obra mencionada anteriormente, porém fomos encontrar, no Dicionário de
Filosofia de José Ferrater Mora, uma boa conceituação de tal método. Diz
Mora sobre o método estruturalista:
"É comum ver-se o
estruturalismo insistir em que se trate de uma método de compreensão da
realidade - e, de um modo específico, das realidades humanas socialmente
construídas - mas é freqüente a ocorrência para além dos programas
metodológicos, de pressupostos de natureza antológica, de acordo com as quais
as realidades em questão são formadas estruturalmente". (1996:237)
Mora chama a atenção que a princípio o estruturalismo
não nega que existam causas a relações causais, nem que haja transformações
principalmente aquelas de caráter histórico.
Tentamos traçar, desse modo, um panorama das
possibilidades de fundamentação para a construção de um olhar apreciador, mesmo
que ainda sejam um tanto quanto superficiais. Nosso interesse foi apenas
oferecer um acréscimo à pesquisa, relacionando um pequeno leque de opções que
temos na abordagem da obra de arte.
Tanto a citação das "abordagens" de
professores estrangeiros quanto a incursão à Filosofia - ocorreram na
perspectiva de delinear contornos das várias abordagens possíveis que
fundamentam a apreciação da obra de arte - formando uma textura de pensamento
que, no caso, possibilita a nossa abordagem da imagem fixa e da imagem em
movimento. Partimos, portanto, do entendimento de que a abordagem triangular é
a que melhor sintetiza a textura de pensamento aqui apresentado, indo;
inclusive, mais além, pois oferece ao professor a chance de organizar as
vertentes da triangulação de acordo com suas próprias possibilidades; ora
enfatizando a leitura da obra de arte, ora a história, ora o fazer.
Por todas essas razões, recomendamos a abordagem
triangular como suporte teórico e prático para a leitura da imagem.
Para reforçar as colocações anteriores, citamos o que
coloca a Professora Dr.ª Regina Machado, no texto Ensino e Aprendizagem:
Apreciação:
"A proposta triangular define o
objetivo da área ponto de partida estrutural para a conseqüente enunciação de
objetivos, conteúdos e procedimentos metodológicos a serem articulados pelo
professor, tendo em vista - e isto é importante - as condições particulares em
que se inscreve sua ação: características sócio culturais da sua escola, faixa
etária e nível de desenvolvimento dos seus alunos. Com base na proposta
triangular, o professor de arte pode compreender que existem conteúdos a serem
trabalhados: no sentido de propiciar a seus alunos um conhecimento de Arte,
advindo não apenas de sua atividade criadora, ou seja, realizando formas
artísticas, mas também de sua aprendizagem estética. Esta última, desenvolvida
através da apreciação da obra de arte, vista dentro da história da cultura, da
história das formas artísticas e da história pessoal dos artistas, bem como a
da leitura das mais diversas imagens do cotidiano." (1996:134)
Diante dessas considerações, retomamos a questão
central deste trabalho, que pode se resumir da seguinte forma: olhar apreciador
é um modo de ver, de observar nossa ambiência cotidiana estética e artística de
uma maneira crítica. Esse olhar não se ganha de presente, porque ele é um
processo de aprendizagem em constante transformação (é vivo). Ele requer
observação detalhada, pesquisa, criação de referências, comparação e, acima de
tudo, uma atitude permanente de atenção para as coisas que se nos apresentam,
assim como a paisagem visual, cênica e sonora que ressaltamos no início deste
texto. A construção desse olhar é resultado de um processo educativo. Vejamos a
seguir o que dizem alguns autores sobre o olhar.
Segundo Fusari e Ferraz na obra Arte na Educação
Escolar "(...) uma educação do ver, do observar, significa desvelar as
nuances e as características do próprio cotidiano." (1992:74).
Complementando a reflexão sobre o olhar, citaremos a seguir Alfredo Bosi, em
seu texto Fenomenologia do Olhar. Diz Bosi:
"Os psicólogos da percepção são
unânimes em afirmar que a maioria absoluta das informações que o homem moderno
recebe lhe vem das imagens. O homem de hoje é predominantemente visual. Alguns
chegam a exatidão do número: oitenta por cento dos estímulos seriam visuais.
Sabe-se que a relação do olho com o cérebro é intima, estrutural. Sistema
nervoso central e órgãos visuais externos, estão ligados pelos nervos óticos de
tal sorte que a estrutura celular da retina nada mais é que uma expansão
diferenciada da estrutura celular do cérebro."(1989:23)
Em um crescente, nossa reflexão sobre a aprendizagem
de um olhar apreciador exige o que afirma Ana Mae na obra A Imagem no Ensino
da Arte:
"A produção de arte faz a
criança pensar inteligentemente acerca da criação de imagens visuais, mas
somente a produção não é suficiente para a leitura e o julgamento de qualidade
das imagens produzidas por artistas ou do mundo cotidiano que nos cerca. Este
mundo está cada vez mais sendo dominado pela imagem. Há uma pesquisa na França
mostrando que 82% da nossa aprendizagem informal se faz através da imagem e 55%
desta aprendizagem é feita inconscientemente."(1991:34)
Ao tentarmos aprofundar o que diz Ana Mae,
encontramos a conecção necessária entre o ensino de arte de tendência pós- modernista
com a leitura da imagem como decorrente desta, dar-se a construção de olhar
apreciador.
Diante da textura de pensamento que tentamos formar,
concluímos que o olhar apreciador não se ganha de presente, porque exige
esforço no processo de desvelamento da obra de arte. Desvelar é tentar
reconstruir o caminho do artista por estradas, vias, avenidas, ruelas e trilhas
nunca antes imaginadas. É uma incursão às vezes solitária, buscando
significados próprios na redescoberta da visão de mundo do artista.
Convém, nesse sentido, ressaltar que a obra de arte é
composta por complexas interfaces e, por isso, desvelar é uma tentativa de
redescobrir e ressignificar a obra no tempo e no espaço sempre de um ponto de
vista próprio, pessoal. Todo esse esforço é também uma forma de recriação
inventiva e, portanto, é uma reinvenção artística que carece de critérios. No
ensino de arte, esses critérios devem ser flexíveis e criados segundo a relação
ensino-aprendizagem que se traduz na relação professor-aluno sempre de forma
aberta, democrática, tentando a maior clareza possível quanto à elaboração dos
mesmos.
Os autores que citamos ao longo deste texto ajudam o
professor a reinventar seus próprios caminhos no contato com a obra de arte,
mas o esforço é solitário, pois é um ponto de vista, é pessoal.
Destacamos, para finalizar, que o ensino de arte de
tendência pós-modernista, através da abordagem triangular, pode eficazmente
contribuir para o processo de construção do olhar apreciador.
ARGAN, Giulio Carlo. Guia da História da Arte. Lisboa: Editorial
Stampa, 1994.
BARBOSA, Ana Mae. A Imagem no Ensino da Arte. São Paulo:
Perspectiva, 1991.
___________________. Arte-Educação Pós-Colonialista no Brasil:
Aprendizagem Triangular. In: O Ensino de Arte em Foco. Florianópolis: UFSC,
1994.
BOSI, Alfredo. O Olhar (org.). São Paulo: Companhia das Letras,
1989.
ECO, Humberto. A Definição da Arte. Lisboa: Martins Fontes, 1992.
FERRAZ, M. H. & FUSARI, M. F. Arte na Educação Escolar. São
Paulo: Cortez, 1992.
MORA, José Ferrater. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins
Fontes, 1996.
NUNES, Benedito. Introdução à Filosofia da Arte. São Paulo:
Ática, 1989.
Nota: As fotografias contidas neste texto são de autoria de Sebastião
Salgado retiradas de sua obra Terra, publicada em 1997 pela Companhia
das Letras.
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