Outro dia, ouvi no noticiário "faltam quatro anos para o terceiro
milênio", que susto!
Com o susto, veio a reflexão sobre minha profissão,
sobre o ato de educar o olhar, o gesto, o sentir e o pensar pelos caminhos da
arte. Como em um filme de rotação alterada, passou diante dos meus olhos um
trabalho com professores dos Círculos de Cultura na cidade de Palmares -
interior de Pernambuco.
Essas cenas eram permeadas de uma sensação de alegria
e frases cheias de admiração e encantamento, do grupo em questão, sobre a obra
cinematográfica O Carteiro e o Poeta, a que eles tinham acabado de
assistir para uma discussão sobre o olhar sensível pensante - para repensar sua
práxis pedagógica.
E eis que algo muito interessante aconteceu: em sua
grande maioria, tocados pela poesia , pela beleza sofisticadamente simples,
esses professores resignificaram com suas palavras de entendimento - na
redescoberta do poético - a misteriosa intensa e bela relação
ensino/aprendizagem. Esses professores, de diferentes modos, afirmavam o quanto
a obra estudada é um alerta para o importante significado que as dimensões
estética e artística representam para o ato de educar. Aprender (diziam eles)
envolve estética, arte, paixão, desejo, vontade de desvelar aquilo que ainda
não conhecemos. Conhecer, nessa perspectiva, é um árduo e apaixonante garimpo
no terreno do provisório que envolve dúvidas, medos, incertezas e
pequenas/grandes alegrias quando da reconstrução/apropriação de um novo
conceito. No filme, o carteiro aprende a metáfora, na relação de
capacitando/capacitador aprendemos, mais profundamente, sobre o quanto ensinar
arte é vital e transformador para uma sociedade perversamente classista e às vésperas
do terceiro milênio .- vivendo os impasses da terceira revolução industrial.
Por isso um projeto de educação que visa a transformação qualitativa do ser
humano não pode deixar de considerar as enormes parcelas da sociedade que são
excluídas. O que significa dizer que o ensino deve ser projetado para favorecer
o acesso de "todos" aos bens científicos, filosóficos, estéticos e
artísticos.
Desse contexto, surge a questão: que sentido tem a
vida? O espírito do ser humano, atualmente, tem um traço de assustado, medroso
e nele é incutido a partir da perversão ética dos sistemas filosóficos e
ideológicos e dos sistemas econômicos, sociais e políticos, o poder que a
ciência tecnológica adquiriu de transformar o real de uma forma tal que excede
a escala humana, atingindo os limites de uma escala planetária e permanente - o
medo da grande catástrofe nuclear. O que significa que criamos, enquanto
humanidade, um poder de destruição planetária, mas não soubemos criar, ainda,
uma consciência estética, ética e planetária.
Assim, surge, na reelaboração dessa experiência a
imaginação do artista (obra de arte) e a imaginação artística e poética
(processo criador) enquanto potencialidade humana que articulada à ação
educativa, ajuda a inaugurar um olhar novo, mais sensível e inteligente sobre o
real. Olhar que não aceita o estabelecido, o cristalizado e o repetitivo. Esse
olhar mais aguçado está conectado, historicamente, no plano do pessoal e no
plano do coletivo. Este olhar novo é o de quem aprende como o carteiro do filme:
ao se apropriar da poesia, da construção da metáfora, torna-se capaz de
perceber melhor seu meio e criticá-lo e quando, no final do filme, compõe sua
mais bela poesia-presente para o amigo poeta - revela novos significados da sua
pequena ilha natal. E é nesse momento do filme que o carteiro/poeta compreende
que na composição das interfaces de sua aprendizagem, suas idéias traduzidas em
poesia são também uma versão política de suas relações sociais e, portanto, uma
forma própria, original e legítima de luta e emancipação.
O carteiro/poeta, em seu rito de passagem ,
construído na materialidade de sua vida afetiva - na paixão pela moça bonita de
sua aldeia - descobre-se sujeito ativo e autônomo em um território que não é
neutro mas, ao contrário, gravitam nele as forças mais contraditórias de sua
organização social, política, estética e artística. Nesse território da
existência o carteiro/poeta pode ser pensado como metáfora de uma atitude
profissional coerente de professor/poeta. Tal atitude exige do professor a
busca de um processo de desvelamento de sua materialidade histórica - atuação
plena no real - apropriação e reconstrução de saberes humanos em uma sociedade
que cria a própria educação pública com a lógica da privatização, como espaço
de reprodução de todo padrão burguês, linear, excludente, convergente e
antidemocrático. Nesse sentido Arroyo chama atenção:
"A organização do tempo do trabalho do nosso
sistema escolar é gradeado, é disciplinado - um desastre! Com esse sistema não
conseguiremos construir uma categoria consciente, séria, unificada. Nós somos
vítimas - nós todos, profissionais e alunos - desta escola gradeada."
(1995, p.46)
Fugindo do paradigma clássico - idealista liberal -
de arte pela arte, dos consagrados slogans tais como: arte como deleite da
alma, liberação emocional, dom natural ou divino, insurge-se uma nova concepção
de estética e ensino de arte que quer autonomia no espaço da educação escolar,
não uma simples concessão eletiva como está explicitada na "atual"
Lei de Diretrizes e Bases que ora tramita na Câmara Nacional mas, ao contrário,
esse novo paradigma exige cumplicidade corajosa entre professores e alunos na
derrubada das grades que embotam a liberdade de inventar e reinventar as cenas
e os scripts no palco da vida e da escola. Assim, esse novo paradigma requer a
coragem de romper com padrões estéticos e artísticos impostos e pelo ato de
conhecer, selecionar, apropriar-se, criticar historicamente, refazer com arte
nossa existência emancipatória cotidiana. O paradigma novo requer de
professores e alunos, a luta por uma reorganização do tempo e do espaço escolar
para além das grades e este pode ser traduzido nas palavras da professora Ivete
M. Keil aqui retiradas do ensaio Dramática: uma perspectiva ética, estética
no trabalho escolar.
"(...) paradigma que busca na escola um rigor
ético e político, exigindo que o professor trabalhe como um 'pensador' na
construção do saber, pois abandonando o lugar de sujeito individualizado, o
professor pode criar novas possibilidades que dêem conta das diferenças, das
multiplicidades, das singularidades dos alunos, que na verdade nada mais são do
que instâncias potencializadoras da capacidade de afirmação da
vida."(1996, p.92)
Uma pedagogia da arte implica uma dinâmica
diferenciada da escola, uma nova organização de tempo e de espaço que não sejam
eminentemente linear e que respeite as diferenças e as singularidades culturais
de cada aluno. Nesse sentido o fenômeno multicultural, ou seja, as diversas
produções culturais minoritárias, emergentes e instituídas historicamente devem
ser consideradas no espaço da escola - palco de negociações - em uma relação
permanentemente dialética. E já que estou falando de palco de negociações,
trago à tona o pensamento de Vygotsky, aqui re-significado através dos estudos
de Marta Kohl de Oliveira. Acerca de cultura, ela enfatiza:
"(...) a cultura não é pensada (...) como um
sistema estático ao qual o indivíduo se submete, mas como uma espécie de 'palco
de negociações' em que seus membros estão em constante processo de recriação e
reinterpretação de informações, conceitos e significados. Ao tomar posse do
material cultural, o indivíduo o torna seu, passando a utilizá-lo como
instrumento pessoal de pensamento e ação no mundo. Neste sentido, o processo de
internalização, que corresponde (...) à própria formação da consciência, é
também um processo de constituição da subjetividade a partir de situações de
intersubjetividade. A passagem do nível interpsicológico para o nível
intrapsicológico envolve, assim, relações interpessoais densas, mediadas
simbolicamente e não trocas mecânicas limitadas a um patamar meramente
intelectual. Envolve também a construção de sujeitos absolutamente únicos, com
trajetórias pessoais singulares e experiências particulares em sua relação com
o mundo e, fundamentalmente, com as outras pessoas." (1992, p.80)
Vygotsky oferece através deste fragmento do seu
pensamento a fundamentação necessária à nossa proposta de ensino de arte, à
medida em que este trabalho pretende contribuir para a reflexão e a atuação do
professor a partir do texto artístico articulado com a proposta Triangular.
Toda a luta empreendida a partir do movimento de arte
- educação ( anos 80 ) , em busca da reorganização política dos professores de
arte, encontrou na fragilidade conceitual da articulação entre ensino e arte o
seu maior desafio: por um lado, os professores não-habilitados formalmente em
arte e, por outro, a formação polivalente e de forte caráter tecnicista que
predominava nas universidades foi um impasse que teve que ser enfrentado e
ainda não totalmente revolvido, considerando a perspectiva de melhoria da
qualidade da arte na educação escolar.
. A produção de um pensamento sistemático e critico
começava, então, a ser divulgado com maior intensidade a partir das associações
de arte educadores o que levou em 1987, à criação da Federação de
Arte-Educadores com o intuito, entre outros, de promover a troca de
experiências, a fomentação de novas idéias, a reorganização política e
conceitualmente a critica ao método da livre expressão empobrecida que
apresentava-se como modelo metodológico mais utilizado na escola pública.
Nesse sentido, ressalto, o Movimento Escolinhas de
Arte (1948) para compreender a diferença entre a livre expressão forjada
naquele momento histórico e a proposta empobrecida que marcou o ensino da Arte
como (atividade) na educação escolar dos anos 70 - referendada pela Lei de
Diretrizes e Bases 5692/71.
O movimento Escolinha de Arte foi inaugurado no
Brasil, em pleno modernismo pós-guerra e trazia com a tendência Expressionista
a possibilidade de ruptura com o Academismo que insistia em dominar o ensino
das escolas de Belas Artes que por sua vez se traduzia como modelo estético
socialmente hegemônico. Para a educação, esse movimento representou, também,
uma forte conecção com um outro denominado Escola Nova. Por isso, pode-se dizer
que ambos tinham nos estudos de Piaget pontos em comum. O movimento Escolinha
de Arte ou Educação Através da Arte, liderado pelo poeta e artista plástico
pernambucano Augusto Rodrigues, instalou um nova organização de escola que se
opunha à proposta pela tendência tradicional - nela a criança não era pensada
como miniatura de adulto mas deveria ser valorizada e respeitada no seu próprio
contexto, com sua forma peculiar de agir no mundo, ser que possuía uma
expressão original através de seu gesto/traço.
Um outro aspecto que diferencia a livre expressão (do
MEA) com a dos anos 70, é o fato de que no primeiro caso havia uma
fundamentação, estudo e pesquisa baseada nas idéias de Herbert Read (filosofo
Inglês da educação) e em Lowemfeld e Brittain (Desenvolvimento da Capacidade
Criadora) e, no segundo, caso, a tendência tecnicista (fragmentação do
conhecimento) era a ênfase.
Das críticas à livre expressão enquanto método de
ensino de arte, fortemente enraizada na escola pública, nasce a necessidade de
afirmar a arte como conhecimento que possui uma epistemologia, uma história e,
por isso, é uma importante área de ensino e pesquisa para educação escolar.
Na vanguarda do movimento de Arte Educação a
professora Ana Mae Barbosa, liderando um grupo de Arte-Educadores do MAC/USP
(Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo), esboça um
sofisticado método de ensino de Arte que está embasado na concepção de arte
como produção humana que pode ser ensinada, aprendida, apreendida e
resignificada. Esta nova concepção dismitifica, retirando, da obra de arte, sua
aura de originalidade (ênfase do ensino de arte modernista) e estabelece uma
nova ênfase fundamentada no conceito de pós-modernidade. Assim, a obra A
Imagem no Ensino da Arte, chama atenção:
"Quando falo de conhecer arte falo de um
conhecimento que nas artes visuais se organiza inter-relacionando o fazer
artístico, a apreciação da arte e a história da arte. Nenhuma das três áreas
sozinhas correspondem à epistemologia da arte. (...) Arte-educação é uma certa
epistemologia da arte como pressuposto e como meio são os modos de
inter-relacionamento entre a arte e o apreciador." (1991, p.31/32)
Tentando retomar a questão proposta no início deste
subítem sobre o que exige o ensino de arte, atualmente, ouso afirmar,
fundamentado nos estudos desenvolvidos acerca da abordagem triangular, que ela
é uma possibilidade de ruptura com o ensino de arte modernista, pois esse: "privilegiava,
dentre as funções criadoras, a originalidade preservando o estudante do contato
com a obra de arte."(1991, p.89)
Pode-se dizer, portanto, que o que diferencia o
ensino de Arte modernista do pós-modernista é que o primeiro "apelava
para a emoção na abordagem da obra de arte."(1991,p.89) e o segundo
aponta para a:
"(...)cognição como predominante para a
compreensão estética e o fazer artístico introduzindo a crítica associada ao
fazer e ao ver. Enquanto a modernidade concebia a arte como expressão, a
pós-modernidade remete à construção do objeto e sua concepção inteligível, como
elementos definidores da arte." (1991, p.89/90).
Penso que é também interessante trazer à discussão o
que coloca Edward Smith em sua conferência no Terceiro Simpósio Internacional
Sobre o Ensino da Arte e sua História:
"Arte fora de um contexto histórico é arte sem
memória (...)Alguns mantenedores do modernismo ainda se opõe à história da arte
como parte do treinamento de artistas, principalmente porque acreditam que o
jovem artista perde mais do que ganha, na assimilação de tais informações. Isto
é, eles acham que há tanto uma perda de 'inocência' quanto de
originalidade." (1990, p. 13)
Essa noção de Arte desvinculada da História, que
pressupõe o artista como um ser que possui um manancial de obra em seu interior,
é uma das características do ensino de Arte modernista. Fundamenta-se em uma
visão da História da Filosofia na qual a idéia de inocência tem sua base em
Jean Jacques Rousseau e propõe uma certa aura para a obra de arte e o artista
era pensado como ser superior às contradições da sociedade. Dessa forma, afirmo
que, se a pós-modernidade propõe um tom diferente no discurso modernista, este
é o de buscar demonstrar que a História da Arte não é apenas fundamental, mas
extremamente vital para o ensino de Arte: eis um novo tom no discurso
teórico-prático modernista. E novamente Edward Smith esclarece sobre o sentido
dialético da história quando propõe uma visão de passado mutável: "Permanecemos
constantemente no ponto preciso onde o presente se torna passado." Sua
crítica à História da Arte factual (antidialética) é que essa visão da história
da Arte quer se tornar ciência em sua concepção mais burguesa de estabelecer
verdades fixas e imutáveis. Por isso nega a importância do contexto histórico,
do corte histórico na elaboração, na crítica e no ensino da arte.
Convém esclarecer que, no século XX, às vésperas do
terceiro milênio, uma nova geração de professores de Arte busca, em seu
cotidiano escolar, tornar acessível as obras de arte e suas histórias, tomando,
como ponto de partida, a crítica ao ensino de Arte Modernista (valorização da
livre expressão) e apontando a tendência pós-modernista do ensino de Arte
(valorização da cognição e elaboração) contra todas as formas de exclusão,
pensando o aluno em seu próprio contexto histórico (situação existencial),
possuindo seu próprio modo de pensar e agir no mundo e, portanto, com
capacidade (potencialidades) de interferir e transformar o real.
BARBOSA, Ana Mae. A Imagem no Ensino da Arte. São Paulo: Perspectiva,
1991.
KEIL, Ivete Manetzeder. Dramática: Uma Perspectiva Ética e Estética
no Trabalho Escolar. In Revista do GEEMPA - julho. Porto Alegre, 1996.
OLIVEIRA, Marta Kohl. O Problema da Afetividade em Vygotsky. In:
Piaget, Vygotsky, Wallon: Teorias Psicogenéticas em Discussão. São
Paulo:Summus,1992.
RODRIGUES, Augusto. Escolinha: 20 anos de Arte. In Revista Visão.
Rio de Janeiro, 1968
SMITH, Edward Lucie. Arte Moderna ,História da Arte e Crítica de Arte. In: Barbosa, Ana Mae ( org.). O Ensino de Arte e sua
História. São Paulo: MAC/USP,1990.
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