Multiculturalidade, Arte/Educação, Educação Especial e Inclusão ?

 

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES DE AZEVEDO

 

A Educação brasileira, de um modo geral, passa por um processo de transição de paradigmas. Um deles pode ser traduzido da seguinte maneira: não podemos mais falar de aluno ou pessoa especial, mas de aluno ou pessoa diferente. O conceito de diferente é mais abrangente do que o conceito de especial, pois nele não se incluem apenas os portadores de deficiência, mas todas as minorias que vêm lutando por afirmar suas diferenças. Por isso, devemos compreender o conhecimento como construção a partir de condições sócio-culturais que buscam integrar o todo.

Neste sentido, a discussão sobre a multiculturalidade se faz necessária no espaço da educação escolar, porque essa impõe permutas, inter-relações entre diversas culturas e seus variados saberes, compreendendo o palco da vida e o palco da escola como instâncias não neutras e carregadas de complexidade, portanto campo de lutas.

Assim, a interculturalidade como aprofundamento de uma postura multicultural, propõe a construção do conhecimento como interação de saberes entre culturas diferentes. Para discutir o conceito de pessoa diferente, que implica em uma visão multicultural de sociedade, propomos a seguinte reflexão: a vida é complexa e diversa, enquanto o processo educativo conservador tem sistematicamente fingindo esquecer tal fato, pois vivemos em uma sociedade onde a maioria das crianças, jovens e adultos sequer têm o direito à alfabetização das letras e números, sendo ousado aos conservados, propor o acesso aos códigos da Arte para os considerados diferentes.

No entanto, devemos considerar que lidar com a diversidade é compreender que o portador de necessidades educativas especiais cria e recria sua própria cultura de maneira sincrética, ora produzindo a cultura hegemônica, ora criticando a dominação a partir de suas peculiaridades.

Cabe, ainda, acrescentar a essa reflexão uma discussão sobre o conceito de normalidade: em primeiro lugar, porque o modelo imposto por nossa sociedade de "normal", desqualifica o diferente para tal padrão, ou seja, o senso comum preestabelece um modelo de "ser humano normal" e as instituições - Família, Escola, Igreja, Mídia e Estado - trabalham (quando muito) no sentido de apenas prestar assistência aos diferentes com suas culturas minoritárias; em segundo lugar, porque trabalhar a partir de circunstâncias físicas, metais e existenciais diferentes, requer das Escolas, não apenas uma especialização, mas um respeito, um voto de credibilidade na capacidade de quebrar limites, tão próprio do ser humano. Tal capacidade é a própria cultura, sendo necessário compreendermos que uma pessoa é tomada como diferente através de padrões estabelecidos fora dela, pela média, pelo senso comum, portanto um ideal que nos leva a uma contradição - a média não pode ser o ideal, porque ela não evidencia as diferenças sociais, psicológicas, econômicas, existenciais, culturais e políticas. A média, portanto, desconhece ideologicamente as diferenças entre culturas.

Por outro lado, ser destacado da média, ser diferente, ter uma situação existencial fora do contexto comum, pode se tornar uma possibilidade crítica da média, de busca de uma concepção do SER, de MUNDO, que lança olhares críticos e novos sobre a realidade, e aí é que reside o valor de se trabalhar com uma abordagem multicultural em Educação.

Abordagem multicultural em Educação, busca articular pela via da interculturalidade, saberes/conhecimentos que estão fragmentados e dispersos entre várias culturas majoritárias e minoritárias.

Surge uma outra faceta neste debate, bastante polêmica, que é a questão da Inclusão, pois é claro que gostaríamos de viver em uma sociedade que respeitasse as diferenças e que todos tivessem os mesmos direitos sem prejuízo da especificidade da educação "especial" e suas variadas possibilidades de atendimento, no entanto, isso ainda é um sonho.

Nossa proposta não é um currículo especial, diferente, segregador, nem uma escola especial para os diferentes. O que queremos é o respeito à diversidade, ao jeito de ser de cada sujeito cultural; respeito ao cidadão que tem direito a uma vida de participação e interferência na organização da nossa sociedade.

 

Este texto faz parte do Boletim de Arte do Programa “Um Salto Para o Futuro” realizado entre os dias 10 a 14 de abril/2000 (Arte na Escola) veiculado para todo Brasil pela TV Educativa - RJ e TV Escola.

 

Página Anterior Textos do Autor Próxima Página
Hosted by www.Geocities.ws

1