A Educação brasileira, de um modo geral, passa por um processo de transição de paradigmas. Um deles pode ser traduzido da seguinte maneira: não podemos mais falar de aluno ou pessoa especial, mas de aluno ou pessoa diferente. O conceito de diferente é mais abrangente do que o conceito de especial, pois nele não se incluem apenas os portadores de deficiência, mas todas as minorias que vêm lutando por afirmar suas diferenças. Por isso, devemos compreender o conhecimento como construção a partir de condições sócio-culturais que buscam integrar o todo.
Neste sentido, a discussão
sobre a multiculturalidade se faz necessária no espaço da educação escolar,
porque essa impõe permutas, inter-relações entre diversas culturas e seus
variados saberes, compreendendo o palco da vida e o palco da escola como
instâncias não neutras e carregadas de complexidade, portanto campo de lutas.
Assim, a interculturalidade
como aprofundamento de uma postura multicultural, propõe a construção do
conhecimento como interação de saberes entre culturas diferentes. Para discutir
o conceito de pessoa diferente, que implica em uma visão multicultural de
sociedade, propomos a seguinte reflexão: a vida é complexa e diversa, enquanto
o processo educativo conservador tem sistematicamente fingindo esquecer tal
fato, pois vivemos em uma sociedade onde a maioria das crianças, jovens e
adultos sequer têm o direito à alfabetização das letras e números, sendo ousado
aos conservados, propor o acesso aos códigos da Arte para os considerados
diferentes.
No entanto, devemos considerar
que lidar com a diversidade é compreender que o portador de necessidades
educativas especiais cria e recria sua própria cultura de maneira sincrética,
ora produzindo a cultura hegemônica, ora criticando a dominação a partir de suas
peculiaridades.
Cabe, ainda, acrescentar a essa
reflexão uma discussão sobre o conceito de normalidade: em primeiro lugar,
porque o modelo imposto por nossa sociedade de "normal", desqualifica
o diferente para tal padrão, ou seja, o senso comum preestabelece um modelo de
"ser humano normal" e as instituições - Família, Escola, Igreja,
Mídia e Estado - trabalham (quando muito) no sentido de apenas prestar
assistência aos diferentes com suas culturas minoritárias; em segundo lugar,
porque trabalhar a partir de circunstâncias físicas, metais e existenciais
diferentes, requer das Escolas, não apenas uma especialização, mas um respeito,
um voto de credibilidade na capacidade de quebrar limites, tão próprio do ser
humano. Tal capacidade é a própria cultura, sendo necessário compreendermos que
uma pessoa é tomada como diferente através de padrões estabelecidos fora dela,
pela média, pelo senso comum, portanto um ideal que nos leva a uma contradição
- a média não pode ser o ideal, porque ela não evidencia as diferenças sociais,
psicológicas, econômicas, existenciais, culturais e políticas. A média,
portanto, desconhece ideologicamente as diferenças entre culturas.
Por outro lado, ser destacado
da média, ser diferente, ter uma situação existencial fora do contexto comum,
pode se tornar uma possibilidade crítica da média, de busca de uma concepção do
SER, de MUNDO, que lança olhares críticos e novos sobre a realidade, e aí é que
reside o valor de se trabalhar com uma abordagem multicultural em Educação.
Abordagem multicultural em
Educação, busca articular pela via da interculturalidade, saberes/conhecimentos
que estão fragmentados e dispersos entre várias culturas majoritárias e
minoritárias.
Surge uma outra faceta neste
debate, bastante polêmica, que é a questão da Inclusão, pois é claro que
gostaríamos de viver em uma sociedade que respeitasse as diferenças e que todos
tivessem os mesmos direitos sem prejuízo da especificidade da educação
"especial" e suas variadas possibilidades de atendimento, no entanto,
isso ainda é um sonho.
Nossa proposta não é um
currículo especial, diferente, segregador, nem uma escola especial para os
diferentes. O que queremos é o respeito à diversidade, ao jeito de ser de cada
sujeito cultural; respeito ao cidadão que tem direito a uma vida de
participação e interferência na organização da nossa sociedade.
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