A linha condutora que tenta interligar dialeticamente autores-estudiosos e
pensadores de ontem e de hoje - na busca de uma compreensão mais ampla e
aprofundada do MEA, caracteriza este trabalho de pesquisa.
Pensamos que seria inútil,
apenas, registrar o que aconteceu. Nosso desejo foi traçar uma trajetória não
linear, em que os avanços e retrocessos pudessem, antes de tudo, provocar no
arte-educador de nossos dias a possibilidade de criar novas sínteses a partir
de suas próprias referências, desfazendo preconceitos e voltando-se para uma
dimensão histórico do ensino de arte.
A necessidade de pesquisarmos o
MEA nasceu durante o I FLAAC (I Festival Latino Americano de Arte e Cultura -
1987 - Brasília). Uma das organizadoras deste festival foi a professora Laís
Aderne, arte-educadora, formada no seio do MEA e profundamente atuante, o que
possibilitou acontecer, simultaneamente ao festival, um encontro de
arte-educação. Nesse encontro houve a grande cena que determinou nossa busca de
pesquisar o MEA, procurando entender melhor o que significava o ensino de arte
modernista e o ensino de arte pós-modernista.
Sobre o palco, falava a
professora Ana Mae Barbosa, algo que nos marcou até hoje, mas que na hora não
entendemos a sua profundidade. Ela dizia que uma grande maioria de
arte-educadores brasileiros, em sua práxis pedagógica, ainda não haviam chegado
na modernidade, e ao longo de sua palestra ela foi mostrando obras que
denominava de pós-modernistas, por que as obras apresentadas faziam citação de
outras obras: em seu repertório havia Duchamp e Andy Warhol, por exemplo.
Em outro dado momento, Ana Mae
fez críticas ao ensino de arte baseado no método da livre expressão propagado
pelo MEA, o que provocou D. Noemia Varela a se levantar e defender de público o
MEA, por seu valor libertário e suas bases teóricas. Ana Mae, democraticamente,
aceitou as críticas, mas não abriu mão de sua postura e concluiu dizendo que
jamais faria uma crítica leviana ao MEA por ter participado ativamente dele e
não desconhecer seu valor histórico. Sua proposta era refletir sobre os
fundamentos e tendências do ensino de arte no Brasil e acrescentou que D.
Noemia para ela e para toda sua geração, era considerada a mãe da arte-educação
brasileira.
Este episódio ficou gravado
durante anos e em conversas de congressos voltava sempre à baila, por que foi a
primeira vez que assistimos a um debate intelectual permeado de uma afetividade
respeitosa. Foi a grande lição que muitos de nós, arte-educadores, ávidos de
uma compreensão mais crítica do ensino da arte, pudemos aprender daquele
encontro.
Mais tarde, fomos entendendo
que sem história, não podemos construir referências e o que nós havíamos
assistido não era uma simples discussão, e sim, o grande impasse teórico que o
ensino de arte brasileiro necessitava enfrentar, para que pudesse surgir novas
sínteses, que provavelmente se traduziriam em teorias e práticas mais bem
articuladas - fugindo do paradigma idealista-liberal de "arte pela
arte", dos consagrados slogans de arte como deleite da alma, de
ensino de arte como catarse emocional.
Após toda a luta empreendida
desde os anos 80, em favor da arte no currículo como área de conhecimento, a
nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional n.º 9394/96 foi aprovada.
Mas a busca por uma autonomia da arte na escola não acabou.
Em relação ao Teatro-Educação,
predomina ainda uma concepção modernista empobrecida na qual o teatro serve
apenas para festejar ou adornar, demonstrando o atraso que permanece nas
mentalidades que constituem, de alguma forma, nosso sistema educacional.
É certo que temos alguns
avanços, como é o caso do estudo empreendido pelo MEC, a cerca dos Parâmetros
Curriculares Nacionais que contemplam o ensino do teatro como importante área
de conhecimento e cujos autores reputamos como extremamente comprometidos com
as questões do ensino de arte brasileiro.
Novamente somos levados a
buscar um olhar histórico sobre as questões pertinentes ao Teatro-Educação: em
nosso país não há uma tradição de ensino de teatro apesar de nossa colonização
jesuítica ter se utilizado desta linguagem para incutir sua ideologia.
Há na realidade, uma espécie de
consenso que estabelece o teatro escolar como mera carnavalização catártica
(herança do ensino de arte modernista empobrecido), que foi aos poucos
adquirindo e valorizando modelos impostos pela mídia sem nenhuma crítica.
Cabe dizer que, ao contrário
desta concepção, o ensino de teatro proposto pelo MEA obedecia a uma
fundamentação, datada historicamente, não era apenas um "deixar
fazer" que nos anos 70 foi se transformando o teatro na educação segundo o
ideário da Lei 5692/71. No MEA era amplamente discutida a questão do teatro na
educação, buscando uma fundamentação o que possibilitou a construção de sua
própria história, estabelecendo avanços, ainda que comprometidos com o método
de livre expressão. Talvez por isso o pensamento de Slade seja tão marcante na
Educação Através do Teatro e seu livro O Jogo Dramático Infantil foi,
para o ensino do teatro, tão importante quanto foi Lowenfeld & Brittain com
o seu livro Desenvolvimento da Capacidade Criadora, para o ensino das
artes visuais.
Para tornar mais evidente o
compromisso do MEA com o ensino do Teatro citaremos trecho do Estatuto da
Escolinha de Arte do Recife (fundada em 06 de março de 1953), diz o estatuto no
seu capítulo II, art. 3º:
"Para a realização
de seus objetivos, a ESCOLINHA manterá e promoverá atividades destinadas às
crianças, adolescentes e adultos e à experimentação, demonstração e aplicação
de métodos e novas tecnologias para integração da arte no processo educativo,
através de: Cursos de arte; desenho, pintura, modelagem, cerâmica, escultura,
artes gráficas, teatro, música, dança, cinema, televisão, literatura;
(...)" (1953:4)
O ensino do teatro que emerge
em nossos dias, não pode desprezar a história do MEA e seus personagens com suas
contribuições. Nossa intenção em trazer à discussão o passado (tendência
modernista de ensino de arte) e o presente (tendência pós-modernista do ensino
de arte), foi buscar dialeticamente a oportunidade da reflexão crítica,
considerando que sem história não avançaremos.
O binômio Teatro-Educação exige
do educador um voltar-se para a história do próprio teatro, articulando o
exercício crítico do ler e do apreciar com o fazer. Concluindo, citamos o
professor Arão Paranaguá em seu texto Dimensões Pedagógicas do Teatro na
Educação: Metodologia de Ensino e Outras Questões17
:
"Apesar de toda uma
história própria, é necessário ter certas cautelas quanto à discussão das
questões de metodologias do ensino escolar de teatro. Vale lembrar que, sem
articulação de todos os componentes curriculares - objetivos, conteúdos,
métodos de ensino/aprendizagem e avaliação -, qualquer ação didática pode se
tornar inócua. Para tanto, a par do conhecimento específico da linguagem
cênica, torna-se imprescindível ao professor observar quais são os
procedimentos adequados para o planejamento das suas atividades."