Fragmentos da Entrevista com D. Noemia Varela (anexo)



Sobre a importância do Teatro na Educação, mais precisamente a proposta de Educação Através do Teatro e da Dança, ocorrida a partir do MEA, D. Noemia Varela concede o seguinte depoimento:

"Gostaria, antes de mais nada, fazer algumas considerações sobre o MEA. Inicialmente, procurarei caracterizar o MEA baseada no texto que escrevi em 1988 para o jornal Fazendo Artes n.º 13, publicação da FUNARTE (MEC). No artigo em questão, Movimento Escolinhas de Arte: Imagens e Idéias, vocês encontrarão uma das minhas visões sobre esse Movimento. Na minha ótica atual, por exemplo, o MEA faz parte de um movimento muito mais amplo que desde os fins do século XIX começou a se esboçar e se expandir, surgindo em alguns países europeus e também na América, numa expectativa de transformações no campo da arte-educação, principalmente na Europa e nas Américas.

Os grandes nomes desse movimento maior não desprezaram os princípios gerais de uma Educação Criadora. Souberam criar e indicar caminhos próprios, conquistar seguidores e conviver com seus opositores. Lembro-me de alguns destes nomes: Franz Cizek (Áustria), Marion Richardson, Herbert Read, L. Arnold Reid, Seonaid Robertson, Tom Hudson(Inglaterra), Sam Black (Canadá), Victor M. Reyes (México), Brecht (Alemanha), Martha Graham, Elliot Eisner (EUA), Célestin Freinet (França), Irena Woynar (Polônia), Maria Fux (Argentina), Anísio Teixeira, Augusto Rodrigues, Paulo Freire, Cecília Conde, Augusto Boal e Ana Mae Barbosa (Brasil) entre outros, são exemplos de pessoas que pensaram e pensam, fizeram e fazem a educação criadora do século XX. Eles foram capazes de assimilar o significado de uma educação dinâmica e libertadora, onde a arte tem sentido primordial. Enriqueceram a História da arte-educação de modo dialético, (friso muito a importância da História), do Modernismo ao Pós-Modernismo, apontado caminhos metodológicos diversificados, abertos à polêmica e à renovação.

No Fluxo desse movimento, muito mais amplo, o MEA tem o seu lugar, modesto, pioneiro, vivo desde 1948, devendo ser reconhecido e melhor estudado pela sua atuação no Brasil e na América do Sul.

O teatro, desde o início da EAB foi vivenciado.

Lembro-me que em 1949, visitando pela primeira vez a Sociedade Pestalozzi do Brasil, no Leme (Rio de Janeiro-RJ), observei que o teatro já estava presente na educação de crianças, adolescentes, adultos e deficientes mentais que freqüentavam essa sociedade, fundada sob a orientação de Helena Antipoff. Tanto Maria Clara Machado, como Virgínia Vale (ou Virgínia do Vale, não me recordo direito) e Yolanda Rebelo (arquiteta), faziam teatro: de fantoches, sombra, dramatizações improvisadas, autos populares, entre outras formas teatrais, animando o velho casarão do Leme, sede da Sociedade Pestalozzi do Brasil. Creio que essa experiência influenciou, desde cedo, a programação integradora de linguagens artísticas, característica dos cursos de atividades criadoras para crianças da EAB.

Convém lembrar que, Augusto Rodrigues não esquecia suas raízes nordestinas (ele tinha uma coleção de bonecos típicos do mamulengo, destacando-se os fantoches de Cheiroso, um dos mestres do mamulengo pernambucano por quem Augusto sentia grande admiração. Lembro-me, também, de suas referências à experiências feitas pelo professor Stone, na Inglaterra, criando uma escola onde dominava a Educação Através do Teatro, muito embora em sua experiência educativa, também estivessem presentes outras linguagens artísticas. Comecei, em 1959, a estagiar na EAB, quando ainda funcionava na Av. Marechal Câmara (Centro). E a partir da década de 60 a abril de 1982, nela trabalhei integrada ao seu corpo docente e administrativo. Fui, durante todo esse longo período, testemunha de seu crescimento e de suas fases de grande limitação. Posso afirmar, portanto, que durante todo esse tempo, foram organizados e realizados inúmeros cursos de teatro e espetáculos teatrais para crianças e adultos.

O Curso Intensivo de Arte na Educação, iniciado em 1961, oferecia sempre a seus participantes procedentes do Brasil e de outros países - sobretudo da América do Sul e Central - área de estudos sobre a linguagem teatral, a cargo de professores de teatro e atores como Hilton Carlos de Araújo, Ilo Krugli, Pedro Domingues, Luiz de Lima, Oscar Fessler (Argentina), Klaus Viana, Cecília Conde, Rubens Rocha Filho, Amir Haddad, Marilda Kobachuck, Yan Michalsky, Helena Sanches Barcelos e Silvia Aderne.

Os professores do Curso de Atividades Artísticas para Crianças e Adolescentes da EAB, também integravam na dinâmica de suas classes a expressão corporal, levando seus alunos a fazer teatro de bonecos, teatro de sombras e outras experiências dramáticas. Silvia Aderne, Laís Aderne, Tereza Ventura, entre outros professores, souberam muito bem integrar a ação dramática na dinâmica de outras linguagens artísticas desenvolvidas em suas turmas de crianças e jovens.

Experimentalmente, Ilo Krugli fez oficina lúdica através do teatro, muito interessante na Escolinha de Arte do Brasil, para crianças de 4 a 6 anos (década de 70), trabalhando, dias alternados, com crianças maiores e pré-adolescentes.

Sugiro-lhe pesquisar nos diversos números do jornal arte & educação, publicado pela EAB, inicialmente, e depois com o apoio da Sociedade Brasileira de Educação Através da Arte - SOBREART, o que escreveram, ou disseram, os participantes do Movimento Escolinha de Arte que educaram através da linguagem do teatro.

Quanto à Escolinha de Arte do Recife, lembro que tivemos, desde o seu início, de certo modo, o apoio de Hermilo Borba Filho (morava, nos anos 50, na rua do Cupim, quase defronte ao chalé-sede dessa Escolinha, que foi alugado por sua indicação).Claro que também fizemos cursos de teatro para adultos e crianças: nossos alunos "brincavam de fazer teatro"- fantoches, dramatizações, improvisações.

A partir de um curso para adultos, sobre teatro de bonecos, fizemos uma exposição muito rica, nos anos 50, apresentando fantoches e bonecos de diversas região do Brasil, da Argentina e do Paraguai, bem como textos e fotos sobre o teatro de bonecos na Inglaterra, Alemanha e no Brasil.

Para esse curso, colaboraram Joel Pontes e Ariano Suassuna fazendo palestras - curso encerrado com um espetáculo a cargo de famoso mamulengueiro, que já usava certos recursos tecnológicos para ampliação do som, fundo musical e iluminação.

Reeleita sempre como diretora técnica da Escolinha de Arte do Recife, tive a oportunidade de enviar a essa Escolinha professores de teatro do Rio de Janeiro, para ministrarem cursos de teatro, sucessivamente, nas décadas de 60 e 70, contamos com os professores Hilton Carlos de Araújo, Pedro Domingues, Ilo Krugli, Cecília Conde, Fernando Lébeis e Sílvia Aderne, que colaboravam com a Escolinha de Arte do Brasil. Desenvolveram programas muito ricos e criativos mostrando a importância do teatro, da música, das danças populares e dos folguedos do folclore. Até hoje, o teatro é tão fundamental na EAR, quanto outras linguagens artísticas, que fazem partem do currículo de seus cursos, muito embora ainda haja a necessidade de melhor dinamizar a presença do teatro nessa escola.

Sugiro-lhe que entreviste Heidi e demais professores desta Escolinha sobre o que vêm fazendo, atualmente, na área do teatro. Você mesmo, poderá fazer referências a sua participação como professor de teatro em cursos, ciclos de estudo e outros eventos realizados a partir de 1993 a 1996, na Escolinha de Arte do Recife, quando tivemos também a colaboração de professores da USP e UFPE e do grupo teatral pernambucano Totem.

Lembro-me que, quando cheguei ao Rio de Janeiro em junho de 1959, conversando com Augusto Rodrigues, ele me falava muito da experiência de Stone citado por Herbert Read (consulte o Livro de Read "Redenção do Robô"), dando referências desse professor que fundou, na Inglaterra, uma escola que começou tendo por base o teatro na Educação. Enfoco esse aspecto porque no Brasil a EAB surgiu da experiência de três artistas plásticos: Augusto Rodrigues, Lúcia Alencastro e Margaret Spence. Artistas plásticos que naturalmente dominaram essa experiência, não a abandonaram de forma alguma, mas não deixaram de se integrar no campo da educação, na linha da proposta de uma Educação Através da Arte e com as demais linguagens artísticas: dança, pintura, desenho, música, teatro, poesia, tudo vivia bem. A criação de um jornalzinho da EAB, permitiu-me ler muitas poesias feitas por crianças da Escolinha, quer dizer, experiências que, ora estiveram mais presentes, ora menos presentes, mas nunca deixaram de existir ao longo da continuidade do MEA.

A música era muito dominante na Escolinha de Arte da Bahia. Também me lembro de um aspecto importante que influenciou o teatro de fantoche na EAB. Augusto Rodrigues tinha bonecos do "Mamulengo" criado por Cheiroso, um vendedor de perfumes ambulante, que fazia um teatro de fantoche, um mamulengo extraordinário nas ruas de Olinda e Recife. Era maravilhoso. Cheiroso e sua mulher eram famosos. Eu vi espetáculos de Cheiroso, ele vendia cheiros, mas isso para sobreviver, mas o gosto de viver, o prazer de trabalhar, estava com o teatro dele, um teatro maravilhoso. Os seus bonecos eram lindíssimos, foram levados para o Rio de Janeiro e expostos na Escolinha de Arte do Brasil e em exposições, trabalhos e iniciativas de Augusto Rodrigues visando divulgar a arte do Nordeste, como aconteceu quando levou Vitalino para o Sul.

Sobre Stone ele (Augusto) falou e trouxe da Inglaterra um livro muito interessante que conta a história da experiência de uma escola singular. Foi escrito por Stone e publicado na Inglaterra, um panfleto.

Em 1949, ele (Stone) a partir do teatro ensinava não somente a ler e escrever, mas também as demais atividades artísticas e as integrava em sua proposta educacional. É uma experiência que Herbert Read enfoca em seu livro A Redenção do Robô, fazendo críticas e também mostrando aspectos altamente positivos. Sugiro que você leia esse livro, depois que a gente puder dar algumas idéias do teatro no MEA. Você mesmo poderá citar sua participação na EAR, por exemplo, a participação na área do teatro, muito mais recente, nestes últimos anos. Você participou de cursos, de círculos de estudos e de oficinas onde mostrou a importância da linguagem do teatro para professores e alunos.

A EAB nunca deixou de focalizar o teatro quando se organizava cursos para professores ou de atividades artísticas e recreativas, ou mesmo o famoso curso intensivo de arte-educação que teve início em 1961 e, seguidamente sob minha orientação e coordenação até abril de 1982. Foi quando deixei a EAB, depois de ter trabalhado nessa escola de 1959 a 1982.

O teatro sempre esteve na programação integradora das linguagens artísticas dos cursos de atividades de crianças, adolescentes e adultos da EAB. Vou detalhar melhor. Comecei a estagiar em 1959, na EAB, quando funcionava na Avenida Marechal Câmara, onde esteve durante 20 anos e passou por período de grande expansão. Posso e devo reafirmar que, sobretudo nessa época, foram feitos inúmeros cursos de teatro nessa escolinha. Silvia Aderne além de participar de cursos como professora de teatro, trabalhou também com crianças, não somente através do teatro, mas também integrando-o a diferentes linguagens artísticas.

Esta foi sempre a linha de ação metodológica da EAB e a EAR. Em ambas dominava aquela idéia, aquele princípio, repetindo Platão: arte é a base da educação. Arte considerada fundamental à educação. E a palavra arte era usada como equivalente à expressão artística do homem e por isso as linguagens artísticas estavam presentes tanto na EAB, quanto no MEA. Assim, era a palavra arte compreendida no sentido do fazer artístico do homem, de forma integradora e não de forma polivalente. Não pensávamos nessa linha de polivalência e sim na interdisciplinar. Aliás, você pode ver no artigo de Victor Reyes, muito bem escrito, seu conceito sobre a educação pela arte, nos anais do 1o. Encontro Latino-Americano de Educação Através da Arte, evento que tive a satisfação de coordenar e dele participar vivamente, com seus organizadores, em 1977.

Lembro ainda uma experiência muito significativa decorrente do curso que Pedro Domingues e Cecília Conde fizeram na Escolinha de Arte do Brasil, nos anos sessenta. Levaram 19 professores a fazer teatro, a partir de um texto criado por eles - A História de Pedrinho - que gerou um grande espetáculo apresentado pelo grupo, integrando danças, folguedos populares, mitos e tipos diversificados do teatro de bonecos.

Os professores da Escolinha de Arte do Recife podem, também, fornecer outros dados muito mais recentes para sua pesquisa. Estão trabalhando, diariamente, integrando a criação de estórias, folclore, vivências cotidianas e a partir da própria brincadeira inventada pela criança, revelando e valorizando as possibilidades de uma educação marcada pela ação dramática.

Outros professores que poderão também ajudar nessa sua pesquisa: Laïs Aderne, por exemplo, na década de 60, quando regressou da Europa, deu, mais uma vez, uma boa contribuição à Escolinha de Arte do Brasil, fazendo curso de gravura em madeira, trabalhando com um grupo de adolescentes e adultos e incentivando experiências teatrais. Rubem Rocha foi por ela levado à EAB, contribuindo, nessa época, de modo ativo e inteligente, no campo do teatro - enfoques teóricos. Dei apenas alguns enfoques sobre a presença do teatro no MEA. Há muito mais, por pesquisar e desenterrar da memória dos que fizeram e fazem o teatro nesse Movimento.

 

fotos de D. Noemia

Foto de D. Noemia Varela



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