Recorte Histórico: Metodologia da Livre Expressão, não tão livre assim.

 

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES DE AZEVEDO



Toda a luta empreendida a partir do movimento de arte-educação (anos 80), em busca da reorganização política dos professores de arte, encontrou na fragilidade conceitual da articulação entre ensino e arte o seu maior desafio: por um lado os professores não habilitados formalmente em arte e por outro a formação polivalente e de forte caráter tecnicista que predominava nas universidades foi um impasse que teve que ser enfrentado e ainda não totalmente resolvido considerando a perspectiva de melhoria da qualidade da arte na educação escolar.

A produção de um pensamento sistemático e crítico começava, então, a ser divulgado com maior intensidade a partir das associações de arte-educadores o que levou em 1987 à criação da Federação de Arte-Educadores do Brasil com o intuito, entre outros, de promover a troca de experiências, a crítica ao método da livre expressão empobrecida que apresentava-se como modelo metodológico mais utilizado na escola pública. Neste sentido, ressaltamos o Movimento Escolinhas de Arte (MEA 1948) que deve ser retomado para compreendermos a diferença entre a livre expressão forjada naquele momento histórico e a proposta empobrecida que marcou o ensino da arte (atividade) na educação escolar dos anos 70 - referenciada pela Lei de Diretrizes e Bases 5692/71.

O MEA foi inaugurado no Brasil em pleno modernismo pós-guerra e trazia com a tendência Expressionista a possibilidade de ruptura com o Academicismo que insistia em dominar o ensino das Escolas de Belas Artes que traduzia-se como modelo estético socialmente hegemônico. Para a educação este movimento representou também uma forte conecção com o outro denominado Escola Nova. Por isso pode-se dizer que ambos tinham nos estudos de Piaget pontos em comum.

O MEA ou Educação através da Arte, liderado pelo poeta e artista pernambucano Augusto Rodrigues, instalou uma nova organização de escola que se opunha à proposta pela tendência tradicional - nela a criança não era pensada como miniatura de adulto mas deveria ser valorizada e respeitada no seu próprio contexto, com sua forma peculiar de agir no mundo, como ser que possui uma expressão original através de seu gesto/traço, teatralidade e sonoridade.

Um outro Aspecto que diferencia a livre expressão do MEA com a dos anos 70 é o fato de que no primeiro caso havia uma fundamentação, estudo e pesquisa baseada nas idéias de Herbert Read (filosofo Inglês da Educação) e em Lowemfeld e Brittain (Desenvolvimento da Capacidade Criadora) e no segundo caso a fundamentação tinha como base a tendência tecnicista (fragmentação do conhecimento). Das críticas à livre expressão enquanto método de ensino de arte, fortemente enraizada na escola pública, nasce a necessidade de afirmar a arte como conhecimento que possui uma epistemologia, uma história e por isso é uma importante área de ensino e pesquisa para educação escolar.

Na vanguarda do movimento de Arte-Educação a professora Ana Mae Barbosa liderando um grupo de arte-educadores do MAC/USP (Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo) esboça um sofisticado método de ensino de arte que está embasado na concepção de arte como resignificada. Esta nova concepção procura dismitificar o fazer e o pensar artístico, retirando da obra de arte sua ênfase de originalidade (herança do ensino de arte modernista) e estabelecendo uma nova ênfase fundamentada na tendência pós-modernista. Assim, a obra A Imagem no Ensino da Arte, chama atenção:

"Quando falo de conhecer arte falo de um conhecimento que nas artes visuais se organiza inter-relacionando o fazer artístico, a apreciação da arte e a história da arte. Nenhuma das três áreas sozinhas correspondem à epistemologia da arte como pressuposto e como meio os são modos de inter-relacionamento entre a arte e o apreciador." (1991, p.31/32)

Tentando retomar a questão proposta no início, sobre o que exige o ensino de arte atualmente, ousamos afirmar, fundamentado nos estudos desenvolvidos acerca da abordagem triangular que ela é uma possibilidade de ruptura com o ensino de arte modernista, pois este: "privilegia, dentre as funções criadoras, a originalidade preservando o estudante do contato com a obra de arte." (1991, p.89)

Neste sentido, o que diferencia o ensino de arte modernista do pós-modernista é que o primeiro "apelava para a emoção na abordagem da obra de arte." (1991, p.89) e o segundo aponta para: "a cognição como predominante para a compreensão estética e o fazer artístico introduzindo a crítica associada ao fazer e ao ver. Enquanto a modernidade concebia a arte como expressão, a pós-modernidade remete à construção do objeto e sua concepção inteligível, como elementos definidores da arte."(1991, p. 89/90)

Pensamos que é também interessante trazer à discussão o que coloca Edward Smith em sua conferência no Terceiro Simpósio Internacional Sobre o Ensino da Arte e sua História:

"Arte fora de um contexto histórico é arte sem memória(...) Alguns mantenedores do modernismo ainda se opõe à história da arte como parte do treinamento de artistas, principalmente porque acreditam que o jovem artista perde mais do que ganha, na assimilação de tais informações. Isto é, eles acham que há tanto uma perda de 'inocência' quanto de originalidade." (1990, p.13)

Esta noção de arte desvinculada da história, que pressupõe o artista como um ser que possui um manancial de obras em seu interior, é uma das características do ensino de arte modernista. Fundamenta-se em uma visão da História da Filosofia na qual a idéia de inocência tem sua base em Jean Jacques Rousseau e parece recolocar a aura da obra de arte e pensar o artista como ser superior as contradições da sociedade.

Desta forma afirmamos que, se a pós-modernidade propõe um tom diferente no discurso modernista, é o de buscar demonstrar que a história da arte não é apenas fundamental mas extremamente vital para o ensino de arte: eis um novo tom no discurso teórico prático modernista. E novamente Edward Smith esclarece sobre o sentido dialético da história quando propõe uma visão de passado mutável: "Permanecemos constantemente no ponto preciso onde o presente se torna passado." (1990, p.15).

Sua crítica a história da arte factual (antidialética) é que esta visão da história da arte quer se tornar ciência em sua concepção mais burguesa de estabelecer verdades fixas e imutáveis por isso nega a importância do contexto histórico, do recorte na elaboração, na crítica e no ensino da arte. Convém esclarecer que no século XX, às vésperas do terceiro milênio, uma nova geração de professores de arte busca, em seu cotidiano escolar, tornar acessível às obras de arte e sua história, tomando como um dos pontos de partida a crítica a modernidade (método da livre expressão), tentando inaugurar a pós-modernidade no ensino da arte (abordagem triangular).

 

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