Por quê a organização dos arte-educadores? Por quê a revisão histórica e
crítica do surgimento das associações? Por quê o debate sobre a ANARTE no
cotidiano do professor de arte? Por quê é importante participar do movimento
associativo? Que História do Ensino da Arte fomos capazes de construir?
São muitas as questões que rondam, permeiam, indignam
os arte-educadores, em sua trajetória de afirmação da Arte na educação escolar.
Apesar destas e de outras importantes e desafiadoras questões cruciais,
enfrentadas pelos arte-educadores, atualmente a classe, na busca de
aprofundamento de suas teorias e práticas, não precisa mais ser um inventor
solitário, sempre a cata de novidades, como acreditavam os modernistas,
imbuídos do ideal de originalidade, nem tão pouco precisam se lamentar das
poucas referências teóricas para fundamentar suas práticas, isso não quer dizer
que a situação do Ensino da Arte no Brasil seja uma maravilha. A verdade, é que
hoje os professores de Arte podem discutir com seus pares do Brasil inteiro e
podem também ter acesso ao que acontece com seus colegas de outros países.
Hoje, a classe sabe mais do que nunca, que é
necessário exercer com consciência o papel de professor de arte na perspectiva
da construção da História do Ensino de Arte, que somos capazes de reinventar
todos os dias. Também hoje, sabemos que nossa história pessoal/profissional,
está inteiramente relacionada com a própria História do Ensino de Arte - cada
uma de nós é personagem vivo, concreto e atuante, à medida que colaboramos na
formação das mentalidades das novas gerações.
Convém esclarecer, que quando falamos em História, me
refiro a construção diária, lenta, permanente, de uma textura de pensamentos e
ações que considera cada um de nós, professores de arte, como um narrador
plausível de nossa própria cultura e tradição, de uma maneira crítica e
reinventiva.
Cabe, neste sentido, um alerta; cada professor de
arte e cada aluno não pode ser desconsiderado em seus saberes. Da consciência
de sermos sujeitos históricos é que surge a urgência de se organizar em favor
de um ideal, de uma classe de trabalhadores, principalmente quando essa classe
é tida historicamente como minoria, como é o caso dos professores de arte que
lutam contra a corrente hegemônica que privilegia o ler, escrever e o contar,
no âmbito da educação escolar.
Neste sentido, lembra George Yudice, pensador do
pós-modernismo, sobre a luta das minorias:
"A luta política pelos direitos das minorias não
se trava apenas na militância partidária, mas também e sobretudo, na lenta
transformação do cotidiano e das mentalidades."(1988:47)
Por isso é importante que o movimento associativo
contemple a diversidade de posturas de professores enfrentando as contradições,
as muitas histórias pessoais/profissionais, cabendo às lideranças do movimento,
trabalhar respeitando tais diferenças em busca de novas sínteses. No caso
específico das associações de arte-educadores, elas tentam cumprir o difícil
papel de organizar e reorganizar conceitualmente e politicamente a classe, em
função de um projeto maior de educação, que pode ser traduzido da seguinte
maneira: a não sonegação das dimensões estética e artística na construção dos
conhecimentos de "todos". O compreender arte, tanto quanto o fazer
arte, atualmente é a tarefa primordial da Escola.
Estabelecida esta perspectiva, é ponto pacífico na
diversidade das mentalidades dos arte-educadores brasileiros, a compreensão de
que a imagem, a cena e as sonoridades, produzidas pela indústria cultural e
aquelas historicamente reconhecidas, devem e podem ser decodificadas, colocadas
ao avesso, criticadas no âmbito da Escola pela via do Ensino de Arte. A
abordagem a que me refiro, é claramente de tendência pós-modernista, conhecida
como proposta triangular , não podendo ser dispensada em nome do deleite e da
liberação emocional, pois o Ensino da Arte em nossos dias, considera a Arte
como expressão e também como cultura, esclarece Ana Mae Barbosa:
"A Arte passou a ser concebida nos projetos de
ensino (...) nos anos 80 como cognição, uma cognição que inclui a emoção e não
unicamente como expressão emocional; a arte passou (...) a priorizar a elaboração e não apenas a originalidade." (1997:11) (grifo nosso)
Esta introdução se faz necessária, por trazer para o
espaço da discussão, as transformações ocorridas com o Ensino da Arte em nosso
país - portanto, um olhar à História. Porém, o texto que devo escrever, é sobre
a História da ANARTE (encomendado pela atual diretoria do núcleo de
Pernambuco).
Pois bem! A história da ANARTE está inserida neste
contexto mais amplo, à medida que esta associação nasceu no momento em que
criticava-se a proposta oficial denominada - Educação Artística. Na década de
80, começou a se perceber com clareza, que os professores de arte precisavam de
uma melhor formação e que a Arte não era uma mera atividade na escola. Naquela
época, se encontrava atuando como professora da Universidade Federal da
Paraíba, Laís Aderne, que entre outros itens de seu currículo, foi aluna, estagiária
e professora da Escolinha de Arte do Brasil, conhecendo bem o Movimento
Escolinhas de Arte.
A exemplo do que vinha ocorrendo em São Paulo, os
professores de arte do nordeste, começaram a se unir em favor da melhoria das
condições de trabalho, de respeito para com a Arte na escola, e assim,
começaram a buscar uma formação mais aprofundada.
Neste clima, Laís Aderne, juntamente com outros
professores, criou na Paraíba (UFPB), um curso de especialização em
Arte-Educação, que participaram dele professores de várias cidades nordestinas,
e estes, indignados, diante do absurdo que era o Ensino da Arte, considerada
apenas como uma mera atividade, resolveram criar uma associação para defender
os interesses da classe.
Assim, surge a ANARTE, em 1984. Ela nasceu primeiro,
como setor regional que propunha a partir deste, a criação de núcleos
estaduais. Participaram deste encontro, no Teatro Lima Penante, em João Pessoa,
no dia 27 de fevereiro do ano de 1984 como representantes dos estados
nordestinos, os seguintes professores, só para citar alguns: a professora Ana
Maria Porto (Ceará); Carlos Alberto Sá (Maranhão); Antônio de Souza Filho
(Piauí); Vera Rocha ( Rio Grande do Norte); Tereza Carmem Diniz (Pernambuco);
Vera Lúcia Machado Sampaio (Alagoas); Maria Dolores Cony Campos (Bahia).
A figura carismática de D. Noemia Varela, foi
indicada pela representante do Ceará, para ser a presidente de honra da
entidade e tal indicação foi logo acolhida por todos os presentes ao encontro.
É interessante dizer que fizeram parte do corpo
docente deste curso, D. Noemia Varela, Cecília Conde, Ana Mae Barbosa, Ingrid
Koudela, entre outros - professoras que estavam, de alguma forma, ligadas ao
Movimento Escolinhas de Arte e que militavam pelo Ensino de Arte.
A ANARTE, como não poderia deixar de ser, surgiu do
desejo de melhorara a qualidade de formação conceitual e política do professor
de arte, que percebia a necessidade de se organizar para interferir com
competência junto às Secretarias de Educação, as Universidades e ao próprio
Ministério da Educação.
A primeira diretoria da ANARTE foi formada pelos
seguintes professores: Laís Aderne (presidente); Ronaldo Lima
(vice-presidente); David Campos (1º secretário); Bárbara Simonetti (2º secretário);
Leonardo Nóbrega (1º tesoureiro); Sebastião Gomes Pedrosa (2º tesoureiro).
Uma característica inovadora da ANARTE em relação às
outras associações já existentes, é que ela estabeleceu um setor regional, ou
seja, uma diretoria regional que deveria ser itinerante, e cujo intuito maior,
era organizar a região nordeste na luta qualitativa pela democratização do
Ensino de Arte. Esta diretoria regional, ao longo de sua história, passou pelos
seguintes estados: nasceu na Paraíba, em 1984 e depois foi para Pernambuco,
depois voltou para a Paraíba novamente, indo depois para o Rio Grande do Norte
e novamente volta mais uma vez para Pernambuco. Talvez, a função mais
significativa da ANARTE, tenha sido fomentar o debate entre a classe através de
encontros, seminários e congressos. O setor regional, atualmente com sede em
Recife/PE, logo no início da gestão em 1993, assumiu o desafio de tornar
concreto para o Brasil inteiro o 6º Congresso Nacional da Federação dos
Arte-Educadores do Brasil (CONFAEB) , com o tema Alfabetização Estética: da
criação à percepção.
Este evento pedagógico, em muito ajudou a mudar as
concepções de Ensino de Arte na educação escolar pernambucana. Quase ao final
de três décadas de oficialização do Ensino de Arte, temos alguns ganhos para
comemorar: a LDB 9394/96 e o documento Parâmetros Curriculares Nacionais
(PCN's), que legitimam a Arte como importante área do conhecimento.
Estes ganhos de âmbito nacional, se somam ao fato de
Pernambuco ser apontado como um estado, referência em ensino de arte, pela
professora Ana Mae Barbosa, reconhecida como uma das mais importantes
arte-educadoras do mundo.
* Fernando
Antônio Gonçalves de Azevedo é Presidente da ANARTE regional e membro da Equipe
de Ensino da Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco.
BARBOSA, Ana Mae (org.). Arte Educação: leitura no subsolo. São Paulo: Cortez,
1997.
YUDICE, George. O Pós-Moderno em Debate. In: Revista Ciência Hoje. São
Paulo:1990.
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