Crônicas de um sobrevivente
[Capítulo 5] A Decisão
[5]
[17h22mim Alguns dias apos o Dia Z]
Um garoto de quinze anos aparece do nada na janela, ele a pula. Seu cabelo
liso esta molhado devido à chuva que assola a capital, São
Paulo. Ele está muito abatido, e anda batendo nas coisas, seu rosto
esta manchado pelo ódio e pelo sofrimento, sua cabeça girava,
e ele relembrava os últimos momentos. Uma porta se abre, de dentro
dela saem duas pessoas, uma delas, uma garota bonita da mesma idade que ele
e olhos azuis fala, num tom de tristeza:
--Vo... Você esta bem, Henrique?
O garoto de cabelos lisos e olhos castanhos olha para ela ofegante, e faz
um sinal afirmativo. Ele começa a correr em direção
ao banheiro, entrando, contudo e batendo a porta.
--Por... Que... Isso... Tinha de acontecer... POR QUE!!! Ele grita agora
tudo o que conseguia ver eram as ultimas horas antes do acontecimento, antes
daquilo.
[Alguns dias antes]
--E agora, para onde vamos? Perguntava Sergio vendo que a rua a frente deles
estava infestada de zumbis.
Robson olhou para todos os lados e falou calmamente:
--Acho que teremos que dar a volta nesse quarterão aqui, o que você acha
Henrique?
"
O que eu achava? Parecia mais do que obvio que aquela seria a única
alternativa para nos."
--Pra mim tudo bem, vamos.
Voltamos por onde havíamos caminhado a pouco até a pequena
rua escura e deserta, com o nome "Rua Vinhedo". Continuamos seguindo
rapidamente, porem com o peso de nossas mochilas, nossa velocidade era reduzida.
Um barulho logo depois na virada para a próxima rua me fez puxar rapidamente
a pistola 9 mm. Com um gesto quieto eu os mandei esperarem ali enquanto eu
iria verificar. Calmamente eu fui andando, cauteloso, empunhando a pistola.
Parei próximo a virada, com um suspiro decidido eu virei apontando
a arma para a coisa que estava na minha frente.
A coisa virou os olhos brancos para mim, era um zumbi, estava sentado no
chão numa posição estranha, e estava comendo algo, parecia
um...
--Cachorro!! Murmurei, ele estava comendo um cachorro, o bicho estava morto
e fedia, o lugar onde deveria estar à cabeça estava apenas
um crânio manchado pelo sangue. O Zumbi porem a me ver se levantou
devagar e estendeu os braços para alcançar mais comida.
Eu puxei a espada da bainha e com um golpe certeiro cortei sua cabeça,
separando-a de seu corpo, ela caiu do lado do corpo inerte que permaneceu
em pé por mais dois segundos antes de despencar. O motivo por eu ter
preferido matar o zumbi com a espada e não com a arma foi para que
o barulho desta não chamasse a atenção de mais zumbis.
Quando eu voltei Sergio e Robson já estavam correndo em minha direção,
uma pontada de preocupação preenchia seus rostos.
--Aqueles zumbis estão subindo a rua, estão vindo para cá.
E o que era aquele barulho?
--Apenas um zumbi que eu matei com a espada. --Eu olhei serio para eles e
então disse. --Se forem poucos zumbis matem com as espadas, não
queremos chamar atenção daqueles indivíduos ali. Apontei
para o começo da rua, onde zumbis apareciam aos poucos, quando seus
olhos nos encontraram, gemidos ecoaram pela rua deserta, e cada vez aparecia
mais.
--Vamos! Armas em punho!
Corremos o mais rápido o possível com aquelas mochilas ate
chegarmos à rua por onde contornaríamos a massa de zumbis,
seguimos por ela, e saímos numa avenida que aparentava ser movimentada,
porem agora havia somente carros batidos, alguns continham zumbis dentro
deles ainda, fora isso a rua parecia normal, de lá era possível
ver ao longe as centenas de prédios altos e imponentes. Uma coisa
me chamou a atenção, havia prédios que continham fumaça,
parecia que em alguns o fogo era mais forte, mas eu não dei bola pra
eles, e continuei o caminho, pulando carros e desviando dos poucos zumbis
que continuavam em pé apos o que parecia um confronto com a polícia.
Eu coloquei o capacete que eu carregava numa mão, não queria
ser pego de surpresa.
--Essa é a rua? Perguntou Robson.
--Parece que sim.
A rua estava lotada de corpos, o cheiro era insuportável, todos os
lugares estavam infetados por aquele cheiro de podridão e de carne
estragada, aquilo dava enjôo a qualquer um. Um zumbi caminhava arrastando
uma perna do outro lado da rua, na calçada, ele pareceria um bêbado
qualquer se não fosse pela mancha escura praticamente marrom de sangue "é uma
pena que não possamos parar e dar um oi para aquele ali", mais
a frente era possível ver um ônibus tombado, onde há alguns
dias eu estava, dentro dele, sem ter de me preocupar com mortos-vivos querendo
me devorar.
--É aqui. Disse.
--Não estava cheio de zumbis por aqui? Perguntou Sergio, e estava,
mas parecia que os zumbis haviam se dispersado.
--parece que eles se dispersaram.
Eu acenei para eles ficarem espertos com qualquer zumbi que se aproximassem,
alguns zumbis notaram nossa presença porem pelo que parecia estavam
confusos a nosso respeito, talvez fosse por causa da chuva e o nosso cheiro, "depois
de tantas horas perto deles pegamos seu cheiro". Devagar eu fui ate
a porta, a pistola na mão direita, coberta pela luva de couro e com
a outra eu tentava abrir a porta. Nada, como pensei estava tudo trancado,
isso era bom porem teríamos que fazer algo para entrar, e não
podíamos gritar ou ai sim atrairíamos centenas de zumbis em
questão de segundos.
--Venham, vamos subir por aquele muro ali. Disse apontando para o muro de
uma outra casa que era grudado com a parede desta, alem do mais ficava bem
perto da janela que estava aberta.
--Eu subo primeiro para chamar ela, vocês fiquem aqui, qualquer coisa
gritem para mim. O visor do capacete estava atrapalhando minha visão,
eu o puxei para cima. Subi o muro com certa dificuldade, deixando a mochila
junto dos outros.
"
E agora Henrique, depois dessa grande idéia o que ira fazer" eu
pensava, mesmo em cima do muro não era o suficiente para alcançar
a janela do andar superior, só tinha uma escolha, pular.
--Ta doido! Exclamou Robson.
Eu havia conseguido agarrar o parapeito da janela, porem eu estava pendurado,
com um enorme esforço consegui subir e entrar na casa. Tudo estava
do mesmo jeito que da ultima vez em que eu havia entrado ali. Fui andando
e com cuidado abri a porta, um doce cheiro de perfume de rosas veio a mim,
era ela, mas seu rosto não estava contente, em suas mão estava
o que parecia um taco de basebol, "ah não, esqueci de tirar o
capacete" ela veio para cima de mim.
--Calma, sou eu.
Eu tirei o capacete bem na hora quando vi algo vindo em minha direção,
era o taco, senti uma forte dor e depois não senti mais nada.
--Hei, Henrique, acorda cara.
Um rosto fora de foco estava olhando para mim, derrepente tudo ficou visível
e eu vi quem de quem era aquele rosto.
--Ah, o que aconteceu? Perguntei ao Robson, que estava do meu lado, o capacete
dele estava largado no chão.
--Bem, acho que ela o nocauteou. Disse rindo. --Algum tempo depois de você ter
subido ela apareceu na janela e abriu a porta para nos, mas tivemos um probleminha,
um monte de zumbis esta ali em baixo agora.
--O que? Disse, já me levantando e procurando a arma que estava no
chão.
--Não se preocupe, ta tudo bem, eles estão trancados la fora é lógico.
Suspirei, aquele dia já havia causado muitos problemas. Me levantei
com dificuldade, agora, depois de um tempo parado o cansaço tomava
conta de meu corpo, eu sentia cãibras nos braços -talvez por
ter usado armas com as quais eu nunca havia atirado por muito tempo porem
precisava ve-la, abraçá-la, sentir que ela estava realmente
viva no meio de tudo aquilo que acontecera, Robson sabia disso e ficou no
quarto olhando o céu azul lá fora.
caminhei pelo largo corredor, olhando por cada cômodo que passava,
aquela casa era bem grande, porem parecia solitária e vazia. Desci
por uma escada ate chegar a uma ala de jantar, a esquerda havia uma porta
de vidro que dava para a cozinha e a minha frente uma outra porta que provavelmente
dava para os fundos da casa, um vento gélido entrava por ela, continuei
caminhado, podendo ate mesmo dizer mancando, minhas pernas queimavam e a
cada passo que dava elas pediam mais por descanso. Quando passei pelo portal
vi uma enorme jardim aos fundos, gotas de orvalho pingavam das folhas da
sebe aos fundos, alguns bancos de madeira rústica ficavam encostados
na parede, na parte coberta do jardim, formando uma agradável área
para descanso. Tudo aquilo parecia pertencer a um outro mundo, e lá estava
ela em pé, vestia uma calça jeans escura e estava de jaqueta
verde, eu andei em direção a ela, me postei ao seu lado também
olhando para o céu.
--Tudo isso não combina com o que esta acontecendo lá fora.
Ela não olhou para mim, continuou com os olhos fixos no céu,
sua beleza era estonteante, sua respiração leve, e seu olhar
calmo, então derrepente ela falou:
--Não, não combina. Eu sempre acreditei que você voltaria,
não perdi a esperança, mas por um momento... eu...
Eu olhei para ela que retribuiu o olhar, de seus olhos incrivelmente azuis
saiam lagrimas, eu as limpei com minha mão e disse:
--Não precisa falar mais nada, eu sei como se sente. Eu também
senti isso nesses últimos dias, sem saber se você estava bem,
mas agora vejo que estava enganado.
Ela levantou as sobrancelhas:
--Enganado?
Confirmei com a cabeça.
--No começo eu achei que você era uma garota frágil,
mas gora vejo que você é forte, corajosa, e tem muitas das qualidades
que eu admiro numa garota.
Ela corou, e virou rapidamente o rosto tentando esconder isso de mim. Eu
a abracei e nos beijamos por um tempo que pareceu uma eternidade, todos os
pensamentos sobre zumbis, morte extermínio foram temporariamente apagados
de minha mente. Quando nos desgrudamos, eu sorri e disse rapidamente para
ela:
--Alem disso, você é bem forte.--Toquei o lugar que ainda estava
dolorido decorrente da "tacada" que eu havia levado dela.
--Ta doendo? Desculpe, é que eu não sabia, eu vi outros caras
com essa mesma roupa passarem por aqui atirando ate mesmo em pessoas vivas.
Me espantei, esse grupo seria o mesmo que havia nos ajudado mais cedo, tentei
tirar esse pensamento da cabeça, o que eu mais precisava agora era
descansar um pouco.
--Ainda há água aqui?
--Sim, respondeu ela, ainda temos o fornecimento de água, mas eu só a
uso para tomar banho, para o consumo estou usando a água de 2 galões
que ainda tenho.
Banho, era disso que eu precisava, entrei na casa e encontrei Sergio sentado
numa cadeira comendo o que parecia ser um enorme pão de queijo. "Comeria
ate mesmo um boi agora." dissera ela quando passei por ele em direção
a escada. Eu não sabia onde estava o Robson, continuei andando ate
encontrar o banheiro, numa das gavetas do armário encontrei uma toalha
branca macia, e roupas que pareciam ser do pai de Bianca, já que ficavam
um tanto largas quando após o banho eu as vesti. porém não
foi tão fácil tomar banho, minha desconfiança era enorme,
e quando liguei o chuveiro e a água começou a correr eu peguei
um pouco com a mão e cheirei e fiz uma espécie de gargarejo
com ela cuspindo depois. Tudo parecia normal, e como só tinha aquela água,
o melhor a se fazer seria usá-la pelo menos por enquanto.
Quando sai do banheiro encontrei Robson encostado na parede, esperando a
sua vez de tomar banho.
--Henrique, quero falar com você. Disse ele em voz baixa. --Quando
passamos por aquela rua em que era possível ver boa parte do centro
da cidade eu notei uma coisa estranha.
--Se esta falando dos prédios onde havia fogo, sim, eu também
notei, parece estranho não depois de toda aquela chuva, não
deveria ter nada ali.
--Acha que devemos investigar, tentar contato ou algo assim?
--Eu acho que por enquanto não, e também tem uma outra questão,
estou preocupado com a comida, será que ainda tem bastante para nos,
e por quanto tempo ela ira durar?
--Essas são questões bem serias, porém creio que iremos
deixar essa discussão para depois, primeiro vou tomar um banho, esse
cheiro de podridão não sai de jeito nenhum dessas roupas. Concordei
com ele, a minha roupa estava junto do capacete lá me baixo no sol,
eu não poderia lavar aquilo sem saber se iríamos ou não
usar aquilo a qualquer hora.
No meio do caminho para a cozinha encontrei Sergio, que pelo que parecia
já havia tomado banho e estava com uma camisa rosa com inscrições
românticas.
--Foi a sua namorada que me deu essa, mas pense pelo lado bom, pelo menos
estou limpo e vestindo roupas limpas. Ah, e tem mais, por termos energia
elétrica a TV ta pegando.
Uma pontada de excitação fluiu em minha barriga apesar de eu
achar que isso estava ocorrendo devido a intensa fome que eu passava.
--E tem algo passando lá?
Ele afirmou com a cabeça.
--As noticias não são nada boas, venha comigo.
Fomos ate a sala de estar, onde havia uma TV de 29 polegadas ligada.
--... O exercito continua fazendo mutirões de busca por sobreviventes
da epidemia que segundo cientistas já contaminou oitenta e oito por
cento da população do país e sessenta e cinco por cento
de toda America latina. Temos noticias de que os Estados Unidos fecharam
todas as fronteiras com o México e as cidades mais próximas
estão sendo evacuadas...
O sinal foi interrompido por um momento e depois de alguns segundos voltou
com a repórter falando rapidamente, era possível ouvir no fundo
vozes alarmadas.
--Teremos que interromper a transmissão por alguns dias, nosso edifício
acaba de ser invadido pelas criaturas, todos agora estão sendo evacuados.
Não ha mais nada que possamos fazer para evitar essa epidemia, só posso
dizer que Deus nos ajude.
Fim da transmissão, me levantei e comecei a andar pela sala, então
não era somente o estado de São Paulo ou o Brasil, era a America,
isso era péssimo, quanto tempo demoraria para alcançar outros
continentes? Era uma questão de tempo, todos estávamos tentando
lutar, evitar o inevitável. Será que a raça humana conseguiria
superar sua própria extinção? Porém havia a esperança
de que em um mês ou um pouco mais todos os zumbis apodrecessem e finalmente
um humano poderia andar livremente sem ter medo de ser morto por algo que
um dia foi como ele. Mas a raça humana conseguiria resistir todo esse
tempo escondida em galpões ou em casa, passando fome? Não havia
nada o que eu pudesse fazer.
Naquela noite jantamos uma lata de sardinha cada e algumas torradas velhas
que não estavam estragadas.
--Amanhã teremos que fazer algo, a comida esta acabando, dará para
no maximo dois dias. Disse Robson, seu rosto quase não era visível
por entre as luzes das velas acesas -não havia mais energia elétrica
desde o inicio da noite.- e agora andávamos pelo escuro esbarrando
nas coisas.
--Tem uma casa depois do muro, talvez tenha algo lá que possa ser útil
a nos. Respondeu Bianca
--Parece ser o único jeito, amanhã dois de nos irão
lá verificar a casa. Disse Sergio.
--Vamos pular o muro? Olha o tamanho daquele muro, eu olhei por toda casa
e não achei nada que possa nos ajudar a subir por aquele muro. Respondi,
seria bem difícil pular aquele muro sozinho.
--Que tal explorarmos então a casa do lado? Sugeriu o Sergio.
--Você esta dizendo isso por que...
--Sim, isso mesmo, a janela do quarto de visitas é praticamente grudada
na cobertura da garagem da outra casa, seria bem fácil alguém
passar por ali e depois voltar.
--Certo, então faremos isso, Robson e você Sergio, irão
até la de manhã explorar a casa.
Eles concordaram, me levantei dizendo que já era tarde e que deveríamos
revezar na vigilância, combinamos que Robson começaria, depois
eu e depois seria a vez do Sergio. Bianca não concordou dizendo que
nos deveríamos dormir e descansar depois de uma batalha sangrenta
como aquela que ocorrera no Abrigo do Barro Branco, mas como era somente
uma contra três ganhamos e decidimos fazer como o combinado. Robson
Sergio e eu dormiríamos no quarto de visitas e Bianca dormiria no
quarto dela, enquanto o quarto dos pais dela ficariam vazios.
No outro dia acordamos e tomamos nosso café que se resumiu basicamente
em bolacha com pouco de água que ainda restava nos galões.
Logo depois Robson e Sergio vestiram os uniformes e pularam da janela para
a cobertura da garagem, por um momento pensei que a estrutura não
resistiria ao peso e duas pessoas, mas ela agüentou bem, os zumbis que
continuavam na frente da casa nem repararam neles, por enquanto o plano ia
bem, agora faltava checar a casa para ver se havia algo que não deveria
estar lá. Eu, precavido como sou vesti também meu uniforme,
caso fosse necessário uma intervenção.
O tempo passava e eles não voltavam eu já estava preocupado
quando Robson aparece subindo através de uma escada na cobertura da
garagem.
--Tudo ok, nenhum individuo que não deveria estar lá.
POW, POW, barulhos de tiro, rapidamente eu pulei da janela para a cobertura,
devido a pressa acabei sendo descuidado e no lugar aonde cai quebrasse e
me jogasse de costas no chão frio e úmido, a dor era tanta
que nem pude gritar, eu sentia a costela rachar, la de cima Robson gritou
alarmado:
--Ta tudo bem ai?
--Ta, vai atrás do Sergio. Respondi.
Derrepente uma pessoa pula de cima da cobertura ao meu lado, é Bianca,
fiquei impressionado com a agilidade dela.
--A gente faz o que pode. Respondeu ela instantes depois quando tentava me
levantar, lá nos fundos Robson apareceu e logo atrás dele Sergio.
Foi quando ouvi barulhos atrás de mim, eram dois zumbis, um de tamanho
médio, parecia ser adolescente e vestia uma camiseta do Linkin Park,
juto dele estava o que parecia ser sua mãe, loira, provavelmente fora
muito bonita quando viva, mas isso fora no passado, agora sua aparência
estava lastimável, um de seus olhos estavam saltados, os dois vieram
para cima de nos, eu tentei pegar a arma no coldre, mas minha cordenação
motora não estava das melhores, foi quando ela puxou a arma, apontou
para os dois e atirou duas vezes. O impacto a fez andar um pouco para traz,
era natural que isso ocorresse com quem nunca havia atirado antes. Robson
apareceu rapidamente empunhando a arma apontando para todos os lados.
--Vocês estão bem?
--É, acho que estamos. Disse olhando para os dois zumbis caídos
no chão, por incrível que pareça Bianca havia matado
os dois zumbis, um de seus tiros acertou a mulher no olho fazendo seus miolos
saltarem fora, o adolescente havia sido atingido no pescoço, e estava
imóvel agora.
--Cadê o Sergio? Perguntei rispidamente ao Robson, enquanto me levantava
do chão com dificuldade, parecia que estava tudo ok comigo.
--Ele ta meio em estado de choque. Respondeu ele. --Parece que quase foi
pego de surpresa pelo pai dessa família.
Suspirei aliviado, o portão de madeira tremia agora devido ao bando
de zumbis que tentavam invadir loucamente a garagem. "Natural" pensei,
depois de toda aquele barulho, os zumbis estariam certamente sabendo que
havia comida ali.
--Que merda foi essa! Droga, você deveria saber que poderia haver zumbis
lá! Gritei para Sergio, que estava sentado no chão num canto,
sua expressão estava escondida pelo capacete que ele ainda usava.
--Devíamos ter tomado mais cuidado, mas não é assim
que as coisas irão se resolver, Henrique. Respondeu Robson ao eco
da minha voz.
--Não é assim? Então como será? Olhei para o
visor do capacete do Sérgio --Já perdemos gente demais, quantos
já morreram pela gente? Você poderia estar morto agora!
--Cara, já sabemos, mas isso ainda não é motivo... Ia
dizendo Robson quando Sergio o interrompeu.
--Não, ele esta certo, e se eu tivesse morrido? Eu vou ficar um pouco
por aqui se não se importam.
Olhei para ele, a raiva me possuía, e com razão, já não
bastava ter morrido milhões de pessoas, e ele ainda não havia
aprendido o que era ter cuidado por onde andava? Dessa vez seria diferente.
--Robson, vamos voltar.
Ele se espantou, levantando do sofá e vindo em minha direção,
nervoso:
--Você perdeu a noção do perigo? É uma questão
de tempo ate que aqueles zumbis invadam a casa, e você quer voltar?
--Essa é nossa única opção, aproveitar enquanto
eles ainda não invadiram e retirar o necessário.
Robson pensou por um instante e depois concordou. Assim, Robson e eu trouxemos
tudo que poderia ser útil para nos, agora o estoque estava um pouco
maior e dessa vez nosso cardápio ficou mais diversificado.
Na manhã do dia seguinte notei algo esquisito no Sergio. Quando ele
foi levantar uma cadeira para se sentar, uma coisa comum, ele simplesmente
caiu no chão, eu permaneci quieto, fingindo que não havia visto
nada "isso já esta muito estranho, não conseguir levantar
uma cadeira?".
Mais tarde quando fui a sala ler um pequeno livro de geografia - que continha
alguns mapas do estado de São Paulo - vi Sergio colocando a mão
sobre a parte inferior do pescoço, parecia preocupado. O mais estranho
nisso era que seus hábitos haviam mudado, agora ele ficava quase sempre
no quarto saindo somente para comer, vigiar ou ir ao banheiro.
Robson achou tudo isso muito normal e insistiu comigo que os atos do Sergio
estava eram puramente normais.
--Não se preocupe com isso, é absolutamente normal. Respondeu
quando contei a ele sobre as coisas estranhas que Sergio estava fazendo.
--Não acho que seja nem um pouco normal.
--Olha Henrique, todos estamos agindo fora dos padrões, devido a toda
essa merda que esta ocorrendo no mundo. O Sergio perdeu os familiares dele,
e ontem quase foi morto por um desses zumbis, o que esperava dele?
--Controle.
Robson balançou a cabeça e saiu para fora. Bianca tentava me
acalmar mas nada do que ela dizia parecia fazer efeito.
--Henrique, você esta se preocupando demais, esqueça tudo isso
por um momento, por favor. Disse ela após uma longa discussão
sobre o que estaria acontecendo nesse momento em todo o Brasil.
--Não consigo Bia, em pensar que tudo o que eu queria era que essa hora
chegasse, e quando ela finalmente chega, eu percebo que estou despreparado,
que tudo o que fiz foi em vão.
--Não diga isso! Se não fosse por você eles estariam mortos.
Disse referindo-se ao Robson e Sergio.
Balancei a cabeça negativamente.
--E quanto aqueles que deixei morrer, quantas pessoas morreram por minha causa.
--Você esta falando do Abrigo do Barro Branco? Não foi sua culpa,
como você poderia impedir mais de vinte barreiras cheias de zumbis de
entrarem no abrigo?
--Eu poderia ter tentado pelo menos.
--Esquece disso, e me beija.
Ela veio em minha direção, quando íamos nos beijar, eu
virei a cara.
--Não da, eu não consigo Bia.
Me virei e sai pela porta e fui para o quarto de casal que ficava no primeiro
andar e dava de frente para a rua, onde algumas dezenas de zumbis continuavam
parados gemendo.
--Que gemido mais irritante, sera que essas coisas não desistem nunca.
Cochichei para mim mesmo, como eles sabiam que estávamos lá?
Não fizemos barulho o dia todo.
Estava escurecendo, e decidimos jantar mais cedo para economizar as velas que
ainda possuíamos. Sergio como esperado por mim só apareceu nessa
hora, Bianca passou por mim sem me olhar, o beijo que eu recebia dela antes
de toda refeição não aconteceu. Ao meu lado Sergio tossiu,
eu mantive os olhos em meu prato, porém estava atento a qualquer movimento
de Sergio.
--Então... quem vai vigiar primeiro hoje? Perguntou ele com a voz cansada.
--Eu vigio. Respondi ainda sem tirar os olhos da pequena refeição.
Depois disso todos ficaram em silencio, o único barulho era da tosse
do Sergio. Ainda mais por que Robson discordava completamente de mim e não
admitia ver que Sergio estava agindo estranhamente e parecia fraco e com enormes
olheiras, alem disso a teimosia de Sergio era enorme, e toda vez que perguntava
a ele sobre sua fraqueza ele desconversava. Assim no final do jantar eu peguei
minha pistola e minha espada e segui para o Hall de entrada no térreo
onde por traz de um monte de moveis estava uma porta trancada, se um zumbi
entrasse na casa, aquela seria a sua porta de entrada. O silencio da noite
fazia bem a minha mente, eu ainda tinha pesadelos a noite que envolviam zumbis,
pessoas dilaceradas e uma enorme fabrica. Por mais que eu tentasse tirar isso
da minha cabeça, uma hora ou outra esse pesadelo voltava a me atormentar.
Eu também escutava vozes e gritos desesperados, depois tudo cessava
e um enorme zumbi aparecia na minha frente gemendo, pronto para me morder,
e eu me sentia preso, olhava para baixo e via correntes em volta das minhas
mãos e pés, o zumbi então se preparava então para
me morder, quando seus dentes iriam encostar em mim, eu acordava, suando frio.
--Henrique?
Levei um susto, me levantei rapidamente apontando a arma para o escuro.
--Calma, sou eu, disse o individuo saindo da parte mais escura do Hall. --Sou
eu, o Sergio.
Suspirei aliviado, o que Sergio estaria fazendo ali naquela hora?
--O que esta fazendo aqui agora?
--Já esta na minha vez de vigiar, acho que você cochilou.
--Ah, é, deve ter sido isso. mas pode voltar para cama, eu vou continuar
vigiando pela noite toda.
Ele se espantou, apesar de parecer estar acordado a horas, seus olhos estavam
esbugalhados e vermelhos, sua pele estava mais clara do que o costume.
--Mas por quê?
--Não estou com sono.
--Mas você estava cochilando agora pouco. Disse ele com a voz rouca.
--Eu vou continuar vigiando! Não discuta comigo. Respondi rispidamente.
Ele suspirou e voltou mancando para a escada, mas antes que ele pudesse fazer
isso eu o parei.
--Espere, Sergio. Volte aqui.
Ele voltou devagar e olhou para mim com aqueles estranhos olhos.
--O que foi?
--Sergio, eu preciso lhe perguntar, por que isso é muito importante.
sabe que não pode haver segredos entre os moradores dessa casa, nos.
--Sim. Concordou ele.
--Então preciso lhe perguntar, se não ha algo que você queira
me contar, algo que esteja fora dos lugares, algo anormal.
Ele pensou por um momento e então respondeu calmo:
--Bem, não, por quê?
Fechei a cara, aquela era a mentira mais descarada que eu já havia ouvido.
--Não se faça de idiota, sei que tem algo de errado com você,
só não sei o que é, mas vou descobrir, de um meio ou de
outro!
Ele pareceu reconsiderar sua decisão:
--Bem, acho que peguei uma gripe, foi só, talvez por causa da chuva
que pegamos.
Cheguei tão perto dele que nossos olhos quase se encostavam, apertei
os olhos e disse num tom que mesclava ameaça com descrença:
--Tem certeza de que é somente isso?
--Sim, olhe, não encha meu saco as três da madrugada, ok? Disse
ele virando as costas e indo em direção as escadas.
Eu não respondi, me sentei na poltrona e fiquei girando nos dedos uma
velha moeda de cinco centavos. Apesar de toda aquela encenação,
aquilo não havia sido a toa, pelo contrario, como eu havia pensado ele
sabia de alguma coisa que eu não sabia, alguma coisa o afligira, e eu
tinha seria suspeitas sobre isso.
Do nada me veio uma idéia, me levantei e peguei uma lanterna, vesti
meu uniforme e fui ate o quarto de visitas onde Robson e Sergio estavam dormindo,
entrei no quarto, os dois dormiam em camas diferentes. Com cuidado passei por
eles e peguei meu capacete, o coloquei e com cuidado abri a janela e pulei
para a cobertura da garagem. O barulho foi um pouco alto, porem nem zumbis
nem os dois haviam escutado.
Continuei andando por cima da cobertura, destravei a pistola e desci pela escada
que havia sido colocada por nos a um dia atrás.
Caminhei por uma típica casa de classe media, havia uma bela escultura
pequena e bronze na entrada dos fundos da casa. Ignorei o aviso posto por Robson
dizendo "Cadáveres", e sai na cozinha, grande com vários
armários brancos e um enorme freezer num canto desligado, continuei
andando ate chegar a sala que deveria ter funcionado como escritório
a algum tempo. Abri a porta e um cheiro de podridão veio às minhas
narinas, era o cheiro de cadáveres, puxei a lanterna do bolso e a acendi,
num canto estavam três corpos deitados no chão, dois deles eu
logo reconheci, a mãe que tentou me morder e seu filho adolescente.
O outro deveria ser o pai da família, cheguei mais perto deste. Depois
de termos levado tudo de útil para a casa, Robson e eu carregamos os
corpos ate aquela sala porem Sergio havia sido atacado ali mesmo, e por isso
não pude ver direito o corpo do pai. Com a lanterna procurei vestígios
de sangue na boca do homem, mas não achei nada. Continuei procurando
pelo carpete ate que achei, quatro pequenas gotas de sangue, que, apesar de
pequenas pareciam ter saído aos montes, elas estavam um pouco úmidas
ainda, passei a ponta do dedo indicador no sangue e o cheirei. Ate agora todos
os mortos vivos que eu havia encontrado fediam a podridão, seu sangue
era bem escuro e tinha um cheiro horrível, que não era natural
de qualquer sangue comum. E assim que o cheirei percebi, aquilo não
era sangue de zumbi, era zangue humanos comum.
Vôlei para a casa, quando entrei no quarto fui direto na cama e Sergio
e o puxei contudo para o chão, ele acordou assustado, puxei a pistola
e a apontei para sua cabeça.
--O que é isso, cara?
--Cala a boca! Por que escondeu isso de mim?
Robson também acordou e veio correndo ver o que estava acontecendo.
--Henrique, o que você ta fazendo?
--O que eu estou fazendo? Diga a eles Sergio, diga a eles o que eu estou fazendo,
diga como machucou a mão!
Sergio olhou para sua mão assustado, ele havia sido descuidado e estava
dormindo sem as luvas, sendo assim era possível ver um curativo improvisado
na palma de sua mão.
--Eu...eu não... sei... o que... --Engasgou ele.
--Não sabe o que dizer é? Diga a verdade!!
--O que esta acontecendo aqui? Disse Bianca que acabara de entrar no quarto
se deparando com a situação.
--Henrique o que você... Por que?
--Por que? Respondi zangado. --Por que ele escondeu uma ferida causada por
uma mordida de zumbi ontem, quando foi atacado.
Todos se calaram, eu ainda mantinha a arma apontada para a cabeça dele,
talvez meu medo de que ele se transformasse fosse maior do que a raiva que
eu sentia por ele.
--Vamos, conte-nos como essa ferida apareceu ai, ande!
Sergio estremeceu, com um gemido ele nos contou tudo, como havia sido mordido,
e como sua saúde estava cada vez mais debilitada.
--Então foi assim, desde então só vem piorando, agora
coça muito, todo meu corpo.
--Por que, Sergio, por que não nos contou? Perguntou Robson.
--por que não queria que me mantessem preso ou me jogassem lá fora
junto daquelas coisas.
--Nunca faríamos isso, você sabe disso. Respondi. --Porem agora
não tenho escolha, terei de mante lo trancado essa noite no quarto de
casal.
Lentamente escoltei Sergio ate o quarto e tranquei a porta.
--Quer que eu vigie a partir de agora? Perguntou Robson olhando para mim preocupado.
--Não, deixa comigo, não estou com sono, vocês que precisam
dormir.
--Certo. Respondeu ele e voltou para o quarto.
Bianca ficou parada ali me olhando por alguns instantes, então se virou
e foi para seu quarto, eu pensei em chamá-la de volta, mas não
consegui.
--Até amanhã. Disse baixinho, fui ate a cozinha e trouxe uma
cadeira, que coloquei do lado da porta do quarto para casal, onde Sergio estava.
Não poderia correr o risco dele se transformar e conseguir sair de lá.
Já era de manhã quando ouvi um barulho na cozinha, uma leve chuva
caia la fora, desci para conferir, mas era apenas Bianca, sentada numa cadeira,
vestindo uma camisa vermelha e uma calça moletom preta.
--Você foi severo demais com ele. Disse ela.
--Eu fiz o certo, não quero ver nenhum zumbi matando você enquanto
eu sabia que poderia intervir, mas não o fiz por falta de iniciativa.
Ela suspirou e perguntou:
--Quanto tempo ele tem?
--Não sei, nunca vi a transformação, mas pode ter certeza
pelo estado dele que não vai durar mais do que um dia.
--E você vai mante-lo trancado lá, todo o tempo?
--Não, mas vou ficar na cola dele.
BUM, BUM, uma barulho veio do quarto onde Sergio estava trancado.
--Espere aqui!
Disse, logo em seguida corri pelas escadas ate chegar ao primeiro andar, corri
ate a porta onde Sergio estava, ouvi uma voz sair la de dentro:
--Hei, alguém! Preciso comer alguma coisa ou vou morrer antes do esperado
de fome!
Lentamente destranquei a porta e a abri, Sergio estava parado a minha frente,
sua mão ferida estava coberta por uma luva, porem era possível
ver hematomas venosos sair pelo seu braço ate o ombro, sua aparência
estava mais pálida do que nunca.
--Como você esta?
Perguntei mantendo os olhos nele, aquilo estava muito ruim, a que ponto cheguei?
Fui capaz de quase matar um grande amigo. Acho que tudo o que estava acontecendo
lá fora estava causando alguma coisa em minha cabeça e isso não
era nada bom.
--Não muito bem depois de ter passado a noite inteira trancado, com
febre, dores por todo o corpo. Isso esta sendo pior do que imaginei.
--Posso imaginar. Eu não iria desgrudar os olhos dele, mas mesmo assim
parecia cruel demais para um humano.
Nos fomos à cozinha, Robson ainda estava dormindo, e eu não quis
incomodá-lo.
--Eu... não sei, mas acho que minha fome não cessa. --Disse ele
enquanto devorava a quinta lata de sardinha, aquele poderia ser seu ultimo
dia, e seria bem merecido ter uma refeição decente antes do final.
O final, era isso que mais me preocupava, o que faríamos com ele? O
deixaríamos na casa ao lado preso quando se transformasse ou o jogaríamos
na rua o esperaríamos, ate que finalmente acontecesse? "Isso não é justo!" pensei,
mais um outro lado da minha cabeça me dizia que não havia lugar
para justiça naquele momento. Sergio pareceu notar meu olhar preocupado
e se levantou de prontidão, batendo em meu ombro:
--Não se preocupe cara... eu tenho a solução para tudo
isso, só estou esperando o Robson levantar para eu fazer uma espécie
de pronunciamento a vocês.
Eu dei um sorriso amarelo, para demonstrar confiança, a qual eu não
tinha, olhei para Bianca que estava sentada do outro lado da mesa, em nenhum
instante ela levantou os olhos nem sequer quando eu quase derrubei um pacote
de bolacha nela, de propósito, estava interessado em saber sua reação:
--Me desculpe.
--Tudo bem. Disse ela sem mesmo levantar o rosto para mim, como era difícil
entender as garotas.
O silencio predominou a cozinha, pelo menos foi o que eu achei que aconteceria,
ate Robson aparecer na escada, sua aparência estava péssima, ele
me olhou friamente e eu respondi com o mesmo olhar.
--Bom dia a todos. Disse Robson.
Ninguém respondeu, ele se sentou e começou a fazer a refeição
matinal. Nesse momento Sergio se levanta, fraco e pálido, e começa
a falar:
--Eu sei que todos vocês devem estar preocupados comigo, e com razão,
portanto acho que devo uma explicação razoável pela razão
de eu ter escondido essa ferida de todos. Quando sua voz sumiu, eu olhei aquela
mão, que estava mais uma vez coberta por uma luva.
--Pule a explicação, isso eu já sei. Vá direto
para a parte que interessa. Disse a ele em voz alta e firme.
--Ta, é... você tem razão Henrique. Bem, então como
todos sabem eu não vou durar muito, eu sinto isso. Mas se for para morrer
e virar uma daquelas criaturas, matando pessoas, as quais um dia me ajudaram,
então prefiro morrer entes de me transformar nisso.
Todos os presentes se espantaram com essa declaração.
--Você esta querendo dizer que se... mataria? Disse Bianca.
--Sim, é isso mesmo, acho que não há outra escolha. --Ele
suspirou e olhou para Robson que se assustou.
--O que foi? Por que você esta olhando para mim assim?
Sergio se sentou novamente, sua agilidade parecia a de um idoso.
--Eu não poderia me matar, não teria coragem. Mas você sim,
Robson. Você é meu melhor amigo desde antes de tudo isso, antes
mesmo ate do Henrique vir estudar conosco. E acredito eu, seria uma honra deixar
essa tarefa em suas mãos.
"
Que coragem admirável, realmente o Sergio merece os méritos por
essa atitude."
--Nunca! Eu não posso fazer isso Sergio, por que tem que ser assim?
Por que simplesmente não pode esperar a hora final? --Respondeu Robson
se levantando imediatamente da cadeira e dando um soco na mesa.
--Por que eu não quero virar um assassino! Não quero virar um
monstro sem alma! --Disse Sergio, havia um vigor nele que eu não via
muito tempo. --Se for para eu morrer quero morrer como um humano.
--Não dá, Sergio, eu não... posso fazer isso.
Robson abaixou a cabeça, sua respiração estava ofegante,
ele deu mais um soco na mesa e sibilou em voz baixa:
--Eu não posso...
Sergio ficou decepcionado, mas derrepente surgiu um brilho em seu rosto pálido,
ele olhou mim e apontou o dedo indicador da mão boa para mim.
--Você, Henrique, eu sei que você será capaz disso, por
favor!
Não! Eu não queria essa responsabilidade, mas ele implorava por
isso, como se fosse a ultima coisa importante para ele nessa vida.
--Henrique, por favor, eu não quero ter que morrer e virar um deles
como minha família. Deixe-me ir para junto das almas deles, mas como
um humano, por favor!
Eu o encarei, aqueles olhos pareciam se importar agora somente com isso, minha
expressão se fechou, aceita ou não aceitar? Qual seria a melhor
opção?
--Deixe me... pensar... um pouco, enquanto isso você pode fazer o que
quiser.
Sergio tirou a pistola, os pentes e deixou tudo em cima da mesa e se encaminhou
para o primeiro andar.
--Vou esperar na casa vizinha, e Henrique.
Eu me virei para ele.
--Sim?
--Obrigado.
Eu balancei a cabeça afirmativamente e me sentei na cadeira que Sergio
esteve agora pouco. Minha mão tremia e suava frio. Era a primeira vez
que eu tinha aquela sensação a muito tempo, Uma sensação
do inevitável, se houvesse uma cura, algum modo de impedir aquilo de
acontecer, mas era inútil, quem poderia pesquisar uma cura agora? De
certo nem sabiam a causa da doença.
--Eu vou para o quarto, por favor não me incomodem a não ser
que seja algo realmente importante.
Me levantei e fui para o quarto. Quando fechei a porta atrás de mim,
me deitei na cama, olhando para teto.
--Por que... por que você fez isso?! Era necessário?!
Eu nunca fui religioso, e nunca acreditei em nenhum deus, e sempre quando pude
coloquei a prova sua existência, mas agora eu sentia uma outra coisa,
um outro sentimento por algum deus, era raiva, raiva do mundo, raiva daqueles
zumbis, raiva por tudo aquilo que tinha acontecido.
Não sabia quanto tempo havia se passado desde que eu havia entrado naquele
quarto, talvez houvesse se passado horas, ou talvez simples minutos, eu não
sabia, mas mesmo depois de eu pedir para que ninguém me incomodasse,
havia alguém batendo na porta, depois de muito pensar decidi abrir.
Era Robson.
--O que quer?
Ele olhou para o quarto procurando algo que não estivesse no lugar,
e encontrou.
--Bem, nada em particular, eu só vim perguntar se você pegou a
arma do Sergio, que estava em cima da mesa quando ele... --Robson engoliu em
seco.
--Sim, esta ali, por que? Apontei para a arma que estava desmontada em cima
da cama, eu a estava limpando para passar o tempo.
--Ah, bem nada. É que... olha, você não precisa fazer aquilo
se não quiser. O Sergio as vezes exagera um pouco.
--Ele não estava exagerando, ele estava certo, eu faria o mesmo no lugar
dele. Respondi olhando para o chão.
--Então você tomou sua decisão? Disse ele, seus olhos não
piscaram, sua expressão estava vazia.
--Sim. Disse decidido.
--Então?
--Sim, eu o farei.
Ele ficou decepcionado.
--Quero que saiba que essa decisão é minha Robson, ele me deu
o poder da escolha.
--Claro.
--Onde ele esta. perguntei.
--La na casa, esta na suíte principal. Eu falei com ele agora pouco.
Eu não queria saber o que foi dito naquela conversa, então fui
direto ao ponto
--Eu vou apenas arrumar o equipamento.
Ele concordou com a cabeça, se virou e ia saindo do quarto quando eu
o chamei:
--Espere Robson.
--O que é?
--Tem um relógio ai?
--Sim. --Disse ele tirando do bolso um velho relógio.
--Pode me emprestar?
Ele por um momento não entendeu a idéia, mas depois respondeu
calmamente.
--Sim.
Ele me passou o relógio e saiu. Mirei o relógio, eram cinco horas.
Peguei a arma, a carreguei e a destravei, era agora ou nunca.
Quando me preparava para pular a janela do quarto de visitas para ir a outra
casa, Bianca me agarrou e me beijou por um longo tempo.
--Henrique, eu sinto muito que isso tenha acontecido.
--Não é sua culpa, aconselho você a não ficar no
quarto.
Ela concordou e saiu do quarto no instante em que eu já estava na chuva,
carregando a espada de Sergio num das mãos, a chuva caia lentamente,
mas ainda sim era possível ver aquele estranho fogo em cima de um prédio
ao longe no centro. As gotas de água batiam em mim como se fossem mãos
me dando força para o que eu iria fazer. Aquilo seria como cortar meu
próprio braço. Sergio fora um grande amigo.
Entrei na casa, andei em direção a suíte, e quando cheguei,
vi a porta fechada. Eu a abri, ao fundo, uma voz soou fraca e rouca.
--Robson, será que você não desiste, eu já disse
que... --Ele parou de falar quando me viu. Um sorriso em seu rosto se formou,
e com a voz baixa ele recitou meu nome:
--Henrique!
Eu cheguei perto dele, Sergio estava deitado em cima da cama que um dia fora
dos donos daquela casa. Esses que estavam mortos, e seus corpos decompostos
estavam no escritório. Eu tirei a arma do coldre, se ele fosse um simples
humano que não estivesse infectado, eu poderia atirar em seu peito e
poupar seu rosto, mas não podia correr esse risco.
--Você esta preparado? Perguntei a ele, que com um gesto da cabeça
afirmou.
Ele se ergueu um pouco e soltou um gemido de dor, se encostou na cabeceira
da cama, sentado, e eu apontei a arma para seu rosto, meus olhos já começavam
a aguar.
--Henrique, disse ele em voz baixa, obrigado.
--Não ha de nada. Respondi, fechei os olhos e então apertei o
gatilho.
Um barulho seco me informou que a arma havia disparado um tiro certeiro. Eu
abri os olhos, e a visão de seu rosto pálido com um buraco no
meio da testa fez lagrimas saírem de meu rosto, com um ultimo esforço,
levei seu corpo ate o quintal, e com uma velha pá que estava ali, fiz
uma cova e o enterrei. Depois finquei sua espada ali. Não havia mais
nada para se fazer ali, com um ultimo olhar fui embora. Fui por cima da cobertura,
um bando de zumbis gemiam e tentavam entrar pelo portão, eu não
liguei para eles, passei pela janela e andei desesperadamente, Robson e Bianca
estavam ali e falaram comigo mas eu não estava me importando com eles,
entrei no banheiro e tranquei a porta, fui ao espelho perto da pia, e olhei
para o rosto da pessoa que matar o próprio amigo, aquele rosto era meu,
e a partir daquele momento nada mais importava.
“
C.R.A.Z.: Centro de Resistência Anti Zumbi
A guerra as vezes nos força a tomar medidas difíceis”