Crônicas de um sobrevivente

 

 

[Capítulo 12] Kombato
Três dias haviam se passado desde o exame no treinamento de Kendo e ainda sim meu corpo ainda sentia dor de vez em quando, por exemplo, num movimento brusco. Mesmo assim continuei treinando Kendo, num ritmo mais fraco. Mesmo porque não havia motivo para se esforçar e eu precisava estar inteiro para quando Ramon iniciasse o treinamento. O treino leve no Kendo me ajudou a “amaciar” a musculatura e diminuir a dor. A mesma coisa não acontecia com minha ansiedade. A cada hora que passava eu ficava mais ansioso, e não por menos, segundo Ramon, o treinamento em Kombato que ele iria começar a me dar, seria de grande ajuda para o futuro. Porem eu não tinha idéia do que fosse Kombato e nem como eu teria de me vestir para o mesmo.
Já eram duas horas da tarde e nada de Ramon ou do sensei Leonardo. Este que por sua vez estava no conselho do abrigo, nesses últimos três dias quase não me cobrou nada, por estar muito ocupado em reuniões que decidiriam o futuro do abrigo. Já que pelo visto um resgate não chegaria tão cedo (e eu me perguntava se algum dia chegaria), todos os membros do conselho precisavam decidir onde buscar mais suprimentos, já que a atual reserva utilizada –uma mercearia próxima e dentro dos limites da barricada- estava praticamente vazia, e precisava-se urgentemente enviar uma equipe de algumas pessoas para encontrar e trazer mais suprimentos.
Mais cedo, Robson havia me dito que essa equipe seria composta por sete pessoas, todos policiais. Porem, eu me perguntava como seria possível atravessar um contingente de zumbis daquele tamanho. Parecia praticamente impossível, e teríamos que torcer para que houvesse um mercado perto o suficiente para uma rápida viagem. Viagem esta que eu não sabia como seria feita, já que para trazer uma quantidade razoável de suprimentos seria necessário algum tipo de veiculo que pudesse carregar certo volume. A pergunta era: Onde conseguir isso? Não pude pensar por muito tempo, já que a porta da sala de treinamento, ‘meu quarto’, se abriu levemente. Lá fora, um homem, vestido com um uniforme policial, com uma arma na cintura entrou no quarto, era alto, forte e seu rosto possuía linhas expressivas ao mesmo tempo serenas e com um toque serio.
Era Dante. Ele se aproximou e falou com a voz suave mais firme:
--O local do treinamento foi modificado.
Ergui as sobrancelhas, em sinal de espanto:
--Como assim, ele foi modificado?
Dante coçou a cabeça e disse um pouco confuso:
--Não sei direito, Ramon apenas quer que você venha comigo a um outro local.
Ainda sem entender direito aquilo, o segui pelo corredor ate chegar às escadas, então desci com ele ate a saída do abrigo. Os gemidos começaram a ecoar lá fora, como se aqueles zumbis soubessem que logo comida fresca estaria passando por dentre eles, eu ainda tinha duvidas de o quão forte era o olfato daquelas criaturas.
--Odeio passar por aqui. Disse finalmente.
--É melhor se acostumar, logo terá de passar constantemente por aqui. Disse ele em tom zombeteiro.
--O que você quer dizer... Ia dizendo, mas ele me interrompeu e disse para continuarmos andando. Seguimos pelo meio daqueles zumbis, somente uma parede de blocos de concreto separando nós deles.
Continuamos andando ate chegar a um velho e pequeno prédio um pouco antes da Estação São Bento do Metrô. Eu não havia reparado da primeira vez que havia passado por ali, mas aquele era o único prédio que se era possível entrar sem ter que passar por zumbis. Entramos. Era antigo, parecia uma mercearia, havia varias estantes vazias. Passamos por todas elas. Estava escuro ali dentro, mas continuamos andando, ate encontrar uma escada que descia e dava em um corredor escuro. Passamos por ele, não pude ver muitos detalhes devido à escuridão. Ate que finalmente paramos em frente a uma porta velha de madeira, comida por traças. Lá dentro, alguém gritou para que entrássemos. Dante abriu caminho dizendo que teria de voltar para o brigo, me empurrando para dentro do cômodo.
Quando vi o que havia dentro da sala, meus olhos se esbugalharam de terror. Aquilo não podia ser verdade, será que ele teria tanta coragem para isso?
O local estava parcialmente iluminado, havia duas mesas de madeira encostadas no canto mais longínquo do cômodo, as duas estavam cheia de equipamentos e alguns distintivos. O cômodo era quadrado e só havia duas pessoas ali, Ramon e eu. Já que não se podiam classificar os oito zumbis que ali dentro estavam como pessoas, não mais.
--O que significa isso? Perguntei incrédulo a ele, com os olhos ainda nos zumbis, havia dois deles em cada parede, pareciam famintos, suas bocas estavam amarradas por uma espécie de pano e seus membros superiores estavam amarrados, separadamente por cordas presas a um gancho no teto, assim eles ao podiam dar sequer um passo sem desequilibrar e caírem, mas parecia que nenhum deles o estava tentando.
--Essa pergunta agora... Achei que você, inteligente como é soubesse o que esta acontecendo. Disse ele serio.
Claro que eu sabia, há alguns dias havia passado por uma experiência parecida com Leonardo. E agora era provável que ocorresse a mesma coisa. Mas por que me fazer treinar ali naquele local? O que Leonardo e ele tinham contra um treinamento convencional?
--Primeiramente, antes de começarmos com o treinamento quero dizer que ele não se concentrará somente em Kombato, mas sim em um treinamento militar avançado, onde eu te ensinarei desde abrir uma simples fechadura até matar uma pessoa com um simples clipes de papel. Disse ele friamente, pela primeira vez eu senti o porquê de ele ter sido comandante da policia militar de São Paulo.
--E quanto aos zumbis? Por que eles estão aqui. Perguntei.
Ele sorriu e disse:
--Bom, achei que isso facilitaria caso precisasse ensinar alguma técnica que fosse melhor não praticar num ser humano normal. Na verdade, eles são todos ex policiais, que morreram para salvar nossas vidas. São todos ex colegas meus, que faziam parte da minha equipe responsável por essa área. Esses foram heróis, e infelizmente acabaram morrendo.
Ergui as sobrancelhas e disse a ele:
--Bom, espero que eles me sejam úteis.
Ele se espantou com a minha fala dizendo baixinho que eu era mais frio do que aparentava ser.
--Bom, pulando essa arte acredito que você saiba usar uma pistola 9 mm, já que encontrei uma com você quando encontramos você e seus amigos.
--Sim, eu aprendi a usar essa arma no ultimo abrigo em que fiquei.
--Barro Branco? Perguntou ele pegando algumas armas e destravando-as.
--Sim, e devo dizer que não foi muito agradável. Perdi amigos lá. Disse olhando para o chão.
Ramon parou de mexer na arma e olhou para mim. Então suspirou e disse:
--Não se preocupe, aqui vai ser diferente. Não duvido da capacidade deles, mas aqui estamos mais preparados e por termos menos sobreviventes, não estamos tão frágeis quanto eles estavam, certo?
--Sim. Respondi ainda olhando para o chão. A cena que eu vi no Abrigo do Barro Branco ate hoje ainda de certa maneira me impressiona. Daquela vez estive tão perto da morte, mas ainda sim precisava me concentrar no treinamento agora.
Porem havia uma pergunta que desde que eu havia conseguido treinar com Leonardo eu queria fazer:
--Por que vocês estão me ajudando?
Ele me olhou, sem entender a pergunta:
--Como?
--Por que vocês estão me treinando? Por que não outra pessoa? Existem tantos...
Por um momento ele ficou pensativo e ouve um silencio na sala, só interrompido pelos gemidos dos zumbis lá fora e dos movimentos daqueles acorrentados ali dentro.
--Bom, há dois motivos. Não há ninguém interessado no que eu ou o Leonardo possamos estar ensinando. Segundo por que talvez... Ele suspirou. –Talvez você seja a pessoa com o maior potencial aqui no abrigo.
Posso dizer que naquela hora eu não pensei em nada, por um momento sai realidade indo parar a alguns anos atrás, quando ainda treinava Karate. Certo dia, o sensei me disse algo que eu nunca mais esqueceria, ele disse:
--Você tem um grande potencial, porem não tem capacidade suficiente para aproveitá-lo.
Depois disso, eu parei de treinar karate, porem sempre remoendo dentro de mim aquela frase. Agora eu entendia muito bem, e não iria desperdiçar a chance e iria dar o máximo de mim.
--Bom o que estamos esperando então para começar o treino?
Ele sorriu e me deu um par de luvas dizendo:
--A primeira parte do treino se baseia em combate corporal. Você deve saber que um combate contra alguém com algum tipo de arma é difícil e arriscado. Porem eu irei te ensinar a contornar essa situação e deixa-la ao seu favor...
E assim, seguiu por toda à tarde. Ele me ensinando golpes, tanto de defesa quanto de ataques, e fazendo-me dar alguns socos em um dos zumbis ali amarrados.

Enquanto isso há 10 km dali três helicópteros sobrevoavam a região do Jabaquara, Zona Sul de São Paulo.
Eram helicópteros militares, de cor verde com o símbolo da Força Aérea Americana. Dentro de cada helicóptero havia 6 pessoas, todos do Batalhão 108 vindos dos Estados Unidos da América. Eles estavam assim como nos últimos três dias, procurando sobreviventes em meio à devastação causada por aqueles denominados zumbis.
E durante esses três dias, eles não haviam encontrado nenhuma pista de que alguém tivesse sobrevivido àquela catástrofe. Mesmo assim, eles tinham que continuar tentando. Um desses soldados, Herick Clampton havia lutado no Iraque por cinco meses. Três desses meses, ele havia passado junto de um outro colega isolado do mundo. Tudo devido a um ataque surpresa numa madrugada. Fora tudo muito rápido, e logo Herick se viu junto de seu colega, sozinho no meio de dezenas de outros soldados de uma organização que brigava pelo controle da região. Eles fugiram. E durante três meses ficaram rodando um oásis no meio de um deserto, comendo escorpiões e outros pequenos animais, à noite, quando esses saiam para caçar ou beber água. Por causa disso, depois quando ele e seu colega foram resgatados. Tiveram de passar um mês por um centro de recuperação e readaptação. Herick saiu ileso, apenas com algumas cicatrizes, já seu colega não resistiu a uma infecção adquirida algum tempo antes quando ainda estavam perdidos e morreu. Herick desde então soube o que é a dor de ver um compatriota perder a vida na sua frente, e como era ruim esperar que algum resgate chegasse.
E agora, dois anos depois daquela experiência um incidente num país que Herick nem mesmo conhecia direito, o Brasil, causou muito reboliço na comunidade internacional.
As bolsas de valores do mundo todo entraram em crise, a economia estava quase em recessão devido à contaminação da América do Sul e um pedaço da América Central. Pessoas morreram ou perderam seus parentes e ate agora, pelo que ele sabia apenas mil e duzentas pessoas haviam sido resgatadas por todo o Brasil, contando com políticos e figuras que possuíam seus jatinhos particulares e puderam sair ilesas, e ainda por cima utilizar essa tragédia como proveito para vender a imagem de si mesmo. Não era nada bonito, pensou ele. Chegava ate a ser nojento, mas agora não havia mais o que fazer a não ser sitiar os paises contaminados e mandar equipes de resgate procurarem sobreviventes. O problema era que procurar sobreviventes numa cidade gigantesca como São Paulo era como achar uma agulha no palheiro. Ainda mais quando não era possível estabelecer comunicação com ninguém ali.
--Alguma coisa, John? Perguntou Herick.
O co-piloto que estava tentando restabelecer comunicação com alguém via radio acenou negativamente a cabeça.
Herick suspirou não acreditando no que via. Uma das maiores cidades do mundo havia sido reduzida a cinzas. Mais de 250 milhões de pessoas já haviam morrido e outros milhões estavam desaparecidos.
Foi possível ouvir John respondendo aos outros helicópteros que eles iriam se separar para cobrir uma área maior. O helicóptero onde Herick estava virou para Oeste, já os outros dois iriam para o Sul e para Leste.
Mesmo assim, passados alguns minutos, nenhum sinal de vida, exceto pelos zumbis lá em baixo que do helicóptero pareciam pessoas normais, somente tontas. Foi nessa hora quando, John ouviu algo que o fez ficar branco. Desesperado ele gritou no radio assim como o piloto. De repente eles ficam mudos e John olha para traz onde estão outros soldados inclusive Herick, todos assustados, e diz:
--Vamos voltar. Alguém abateu o helicóptero 0-67.
Herick sentiu todos os soldados ficarem brancos, assim como ele também, o helicóptero 0-67 era o que havia ido à direção sul. Porem não havia lógica nenhuma nele ter sido abatido.
--Você tem certeza John? Não foi nenhum problema hidráulico ou coisa parecida?
John balançou a cabeça, suando, todos estavam começando a ficar nervosos. Como alguém poderia ter abatido um helicóptero? Nenhum sobrevivente seria louco.
--Eles foram abatidos, a ultima coisa que ouvi foram tiros, depois alguns gritos e o piloto começou a gritar por socorro.
Herick engoliu em seco, quem teria abatido aquele helicóptero? Uma sensação ruim de ter que descer do helicóptero, onde estavam seguros e procurar por eles.
--Onde estão?
--Exatamente sobre o zoológico.
--SHIT! Okay, diga ao outro helicóptero que não demoraremos a chegar, e diga... Diga para eles também não descerem ate nos chegarmos.
John de repente ficou muito pálido, percebendo rapidamente porque daquela ordem. Há algum tempo os comandantes e cientistas começaram a afirmar que a doença que transformava pessoas em zumbis poderia ser passada para animais também. John viu alguns vídeos de pessoas sendo devoradas por esses animais. Era terrível, não sobrava nada dos devorados. Ate mesmo animais herbívoros atacavam outros animais e principalmente humanos. Eles não haviam pensado na possibilidade de ter de pousar sobre um zoológico infestado de animais zumbis que comeriam qualquer coisa que vissem pela frente.
Eles deram meia volta e foram o mais depressa que puderam em direção ao zoológico. Porem alguma coisa fez John se assustar.
--Shit... Eles estão pousando. Droga, eu estou tentando me comunicar com eles, porem o radio não responde.
--Alguém ai? Não desçam, repito, não desçam sobre risco de morte. Cambio? Disse o piloto ao lado, porem nenhuma resposta.
Herick rangeu os dentes e começou a se preparar para o pouso, verificando se o fuzil ou a pistola 9 mm estava carregada.
--Lá estão eles. Disse Herick ao ver ao longe a fumaça que subia de um dos helicópteros. Rapidamente pensou numa maneira segura de pousar então chamou a atenção dos outros e disse. –Muito bem, o plano é o seguinte...
[...]
Eu já estava exausto. O treino era pesado e não era somente físico, também houve uma parte teórica onde Ramon explicou alguns dos pontos vitais de um ser humano, e como infringir danos a esses pontos de forma a paralisar ou matar um oponente.
--Essas regras valem apenas para seres humanos, lembre-se. Para zumbis sempre infrinja um forte dano a cabeça de maneira a afetar seu cérebro. Bom mas isso você já sabe.
Acenei com a cabeça num sinal positivo. Olhei para os zumbis que estavam ali, como cachorros esfomeados, esperando por um mínimo pedaço de carne.
Mas eu nem ligava mais para eles, já estava acostumado a suas presenças. E enquanto eles continuassem amarrados... Eu não iria ter problemas.
Um barulho na porta e ela se abriu. Era Dante, ele parecia ter corrido ate ali por que sua face estava vermelha, e ele sem fôlego tentava dizer algo, que nos não conseguíamos entender.
--Acalme-se homem. Respire e diga-nos o que esta acontecendo.
Ele respirou ofegante e então disse:
--Nos... Avistamos... Um... Helicóptero...
Ramon se espantou ao ouvir a noticia, e de repente sorriu, dizendo logo:
--O que estamos esperando? Vamos fazer sinal para eles!
--Não se anime muito... Eles... Ouvimos um pedido de socorro em inglês...
O sorriso de Ramon ficou amarelo e sumiu.
--Como assim?
--Vimos através de um binóculo um helicóptero. Ligamos o radio e ouvimos apenas uma frase em português.
--Que frase? Perguntei também interessado.
--Alguém nos ajude.
--Droga. Disse Ramon. Ele saiu correndo e foi em direção à rua. Dante atrás dele.
Eu não ia fica para trás e também fui.
Corremos o mais rápido que podíamos ate chegar ao abrigo. Onde mais policiais estavam a nossa espera.
--Preparem-se, vamos atrás daquele helicóptero. Não quero nenhuma palavra a ninguém a não ser ao Leonardo. Henrique, o mesmo vale para você.
--Entendido. Responderam em coro eles.
--Senhor, e quanto à busca por suprimentos?
--Se não acharmos nenhum sobrevivente veremos isso. Porem por hora, apenas pegue seu fuzil e venha.
Em menos de 10 minutos, todos já estavam ali, equipados com armas, e mochilas.
--Muito bem. Já fizemos isso antes. Só que desta vez iremos mais alem do que jamais fomos antes. Iremos utilizar as viaturas abandonadas mais a frente, entendido?
--Sim senhor. Responderam em coro.
--Henrique, preciso que você mantenha segredo disso e continue praticando o que eu lhe mostrei hoje ok? Somente três policiais ficarão aqui. O resto vira comigo. E se algo acontecer quero que ajude-s a proteger todos aqui, entendido?
--Sim... Senhor pode deixar.
Ele sorriu e partiu com os outros a caminho da estação São Bento. E eu entrei para o abrigo.
Quando cheguei ao salão principal, algumas pessoas começaram a perguntar o que ouve. Eu deixei essa tarefa para os outros policiais, entre eles Paulo.
--Bom, prestem atenção nos meus olhos... Luke eu sou seu pai!
Ouve gritos e xingamentos a Paulo.
--Ok, bom eles foram buscar suprimentos...
Nem prestei atenção ao resto da conversa. Subi direto para onde havia um banheiro onde eu poderia tomar um bom banho.
Feito isso fui direto para o quarto de Bianca. Bati na porta e ela me abriu sorrindo e me perguntou:
--Como você esta? Eles não estão forçando demais você não é?
Eu fiz uma careta de dor e disse:
--Bom, eu apenas estou com o braço fraturado, mas... E beijei-a. Depois que nos desgrudamos ela disse:
--Seu bobo.
--Hahaha, bom isso eu confesso sempre fui por você.
Ela ficou vermelha e então disse:
--Ouvi uma correria, o que esta acontecendo lá?
Eu suspirei e disse:
--Também gostaria de saber.

Enquanto isso, no zoológico.

O helicóptero 0-67 havia caído numa área de floresta densa, onde o helicóptero onde estava Herick não poderia pousar. Eles decidiram então sobrevoar a área ate encontrar um lugar onde eles pudessem pelo menos descer por cordas. A mais ou menos um quilometro dali, numa pequena clareira, o outro helicóptero estava pousado. Não havia sinal de radio ou nada que indicasse alguém ali. Isso assustou os soldados dentro do helicóptero.
Eles decidiram que o melhor a fazer seriam eles descerem por cordas e irem atrás dos outros. E assim o fizeram. Um por um os soldados desciam. Somente o co-piloto e o piloto ficaram no helicóptero. Eles iriam sobrevoar a área e cobrir os soldados em terra.
Pelo radio, John falou com os soldados, orientando-os.
Em terra, Herick estava comandando a equipe. Eles primeiro iriam atrás do helicóptero que havia descido. Depois iriam para o abatido. Pois naquelas circunstancias se separar não era uma opção.
Com um sinal Herick os fez seguir em frente, com precaução. Os fuzis M-16 apontados para qualquer coisa que se mexesse. Eles seguiram por uma trilha, uma leve brisa batia em seus rostos, fazendo a mata ao redor deles se mexer. Isso os deixava tensos, já que a qualquer momento poderia surgir alguma “coisa” indesejável. Eles alcançaram o helicóptero sem nenhum tipo de interferência. Ao avistarem o helicóptero, Herick fez sinal para que eles cercassem o mesmo, se aproximando devagar.
A cada passo dado em direção ao helicóptero, à tensão dos soldados aumentava. Seus corações batiam em ritmo acelerado e eles suavam frio. Quando estavam praticamente grudados no helicóptero, Herick contou nos dedos ate três, e depois abriu a porta do mesmo. Nada. O helicóptero estava intacto, e ainda havia alguns equipamentos ali dentro.
--Comandante! Exclamou um soldado a direita da cabine.
Herick foi a sua direção e o que ele viu confirmou suas suspeitas. Há alguns metros do helicóptero havia marcas de pegadas no chão, em sua maioria eram humanas, mas havia uma outra, aparentemente desconhecida, era pequena e parecia ser de um macaco. Mas isso não foi à única constatação. Mais a frente havia alguns pingos de sangue. Muito recentes. Que seguiam por mata adentro em direção ao outro helicóptero.
Herick contatou o helicóptero que sobrevoava sua cabeça para que verificassem o caminho mais a frente.
Enquanto Herick e os outros soldados iriam seguir por terra. E assim o fizeram, a mata não era tão fechada, mas eles notaram estar passando por uma cerca aberta, e esburacada. Como se algum animal a tivessem mordido e forçado ate abrir os buracos. Eles entraram pelo maior e logo começaram a sentir um cheiro desagradável, de podridão e decomposição. Os soldados estavam nervosos, as imagens que eles haviam visto antes de partir em missão os deixaram amedrontados. Algo natural, já que enfrentar o desconhecido era sempre um desafio. Uma mensagem veio pelo radio, parecia haver algum tipo de movimentação perto do helicóptero incendiado.
Um barulho fez os soldados apontarem os rifles para todos os cantos porem nada foi visto.
Sendo assim continuaram andando. Outro barulho fez Herick e seus soldados pararem. Um deles sentiu algo caindo sem seu rosto. Instintivamente ele passou a mão no rosto e viu que era sangue. Apavorado ele olhou para o alto e viu nos galhos das arvores dezenas de macacos. Todos pareciam estar sem pelo e eram avermelhados. Estavam comendo algo, então, de repente todos saíram de cima da presa. Era um corpo de um soldado e este caiu no chão, ao lado deles. Todos olharam surpresos e aterrorizados viram os macacos olhando em suas direções. Então com um grito eles começaram a avançar agilmente de galho em galho em direção aos soldados. Sem ter muito que fazer Herick deu ordem para atirarem.
Alguns macacos caíram, outros começaram a se separara do grupo principal. Mesmo com as rajadas de balas acertando-os eles não paravam. Foi então que Herick lembrou da principal instrução que recebeu antes da missão: em qualquer hipótese atirar na cabeça. Ele gritou isso para os companheiros. Porem os macacos estavam perto demais. E eles começaram a correr, fugindo dos animais. Um dos soldados tropeçou e caiu. Herick parou de correr para tentar ajuda-lo. Porem era tarde. Os macacos o cercaram e ao mesmo tempo o atacaram. O barulho de carne sendo rasgada e gritos de dor do soldado ecoaram pelo lugar. Porem não havia tempo para lamentos. Outros macacos que não conseguiram alcançar a primeira presa continuaram atrás deles.
Os soldados corriam apavorados. Herick na frente. Eles chegaram ate um cercado de concreto. E pularam por esse indo parar numa espécie de campo. O capim estava alto e mal cuidado. Não havia sinais de animais ali. Eles continuaram a correr ate que viram um soldado há uns vinte metros de distancia. Ele fez sinal para que parasse. Parecia estar apavorado e um pouco machucado. Do helicóptero o co-piloto e o piloto viram a mesma imagem aterrorizante.
O soldado estava acenando quando de repente um enorme animal pula nele e o derruba. Um estalo informou que o pescoço do soldado havia sido quebrado. O animal começou a devorar as entranhas do soldado. Herick nunca havia visto aquele animal de perto antes mais já o tinha visto através de fotografias. Era uma onça. A famosa Onça Pintada, que costumava viver por aquela região. O enorme felino tinha os olhos vermelhos e alguns músculos a mostra bem como parte de sua pata traseira que estava na carne viva.
Eles olharam para traz e viram que os macacos não haviam seguido-os. Porem uma outra coisa pior havia aparecido. Outra onça zumbi. O animal ficou encarando-os por algum tempo então com um alto rosnado correu em direção deles. Apavorados cada um dos soldados correu em uma direção diferente.
Nesse momento uma luz no céu chamou a atenção de Herick. A luz foi rapidamente em direção ao helicóptero. “Eu sei o que é essa luz” pensou Herick. Era um míssil. Mas já era tarde para se fazer algo. O helicóptero já estava caindo em chamas. Herick agora não podia fazer nada a não ser correr para se salvar. Ele escalou um enorme muro e conseguiu escapar da onça que passou a perseguir seus companheiros. Ele ainda ouviu mais algumas rajadas de tiros, porem ao longo de dez minutos todas cessaram. Desesperado, Herick via sua vida chegando ao fim. Arrependido de ter largado seu lar, seguro e sem essas bestas a solta. Ele começou a correr pela rua que ia em direção a uma lanchonete quando outro barulho o fez suar frio.
Zumbis humanos, que gemiam e andavam em sua direção do outro lado da lanchonete. Querendo evitar o confronto direto com no mínimo cem zumbis, ele decidiu seguir na direção oposta. Alguns zumbis humanos estavam pelo caminho e Herick descarregou toda munição de seu M16 neles. Puxou a pistola. 45 e continuou correndo. Então uma espécie de cachorro apareceu. Ele não queria voltar e não havia outro caminho a não ser aquele. O cachorro veio correndo em sua direção e Herick atirou nele. Descarregou um pente. Dois pentes. E somente no terceiro conseguiu derrubar o cachorro. Continuou correndo, mas não mais de trinta segundos. Parando para ver algo que o fez ficar imóvel e apavorado. Do nada surgiram dezenas de macacos. Todos pequenos, cercando-o. Uma lagrima escorreu em seu rosto, quando ele se lembrou de toda sua infância. Depois de tudo pelo que ele passou não iria morrer para aquelas bestas. Ao invés disso ele preferia se matar.
Levantou dentão sua pistola a altura da cabeça, preparando para se suicidar. Os macacos começaram a correr em sua direção, estavam cada vez mais perto. A menos de quatro metros, quando ele puxou o gatilho. Tick, tick...
A pistola estava sem balas, o desespero tomou conta de Herick. Porem não havia mais nada que ele pudesse fazer. Antes que percebesse já estava no chão sendo devorado vivo.
[...]
Já estava quase escurecendo, uma luz vermelha entrava no quarto de Bianca indicando que o Sol estava se pondo. Nos dois estávamos deitados na cama dela. Vestíamos apenas roupas intimas. Ela repousava sua cabeça em meu peito, enquanto eu acariciava seu cabelo.
--Sabe, eu estava pensando agora. Como tenho saudades de coisas que antes eu não me importava muito.
Eu estava pensativo e demorei a responder.
--É, eu também. Mas o que aconteceu não pode ser mudado. Temos que pensar daqui para frente, não no passado.
--Não é tão fácil assim. E às vezes quando penso nisso, meu coração dói. Disse ela se levantando, surgiram lagrimas em seus olhos.
Eu também me levantei dizendo:
--Nunca é fácil. Em algum outro lugar, existem pessoas morrendo. Porem se você pensar nisso a todo o momento vai ficar louco.
--É você tem razão. Disse ela me abraçando de repente.
--Por favor, me diga que nunca ira me abandonar.
Eu me espantei com o que ela disse, e respondi:
--Não se preocupe, eu prometo que nunca irei te deixar. Mas lá no fundo eu pensava se eu realmente era capaz de cumprir aquela promessa.


“ C.R.A.Z.: Centro de resistência Anti Zumbi.
Próximo Capítulo: A Descoberta”


 

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