Crônicas de um sobrevivente

 

 

[Capítulo 13] A Descoberta
Capitulo 13 – A descoberta

O cantar de um pequeno pássaro na janela do quarto de Bianca me fez acordar. Ainda era cedo, o Sol ainda estava perto do horizonte. Olhei para a cama e lá estava Bianca, dormindo calmamente.
Fui ate o parapeito da janela e olhei para fora. Como de costume vários zumbis lá em baixo gemiam e olhavam para todos os lados, esfomeados, procurando algo para comer.
Suspirei e me virei, analisando o quarto. Procurando por minhas roupas. Depois de alguns minutos me lembrei que elas estavam debaixo da cama. Vesti a calça Jeans, a camisa azul de algodão e uma jaqueta de moletom que havia encontrado ontem na “mercearia”.
Estava querendo esperar Bianca acordar para descer, porem ela parecia estar sonhando e eu não queria ter o desprazer de acordá-la, alem disso eu precisava me informar sobre o paradeiro de Ramon e sua equipe.
Desci as escadas praticamente correndo, no caminho encontrei com algumas pessoas que me perguntaram sobre o paradeiro de Ramon. Respondi vagamente, dizendo que estava com pressa. Cheguei ao refeitório, na ala principal do edifício. Havia bastantes pessoas por lá comendo, conversando e rindo entre si. Meus olhos rodaram todos os cantos a procura de algum policial ou guarda que estivesse ali. Porem não havia ninguém.
Decidi sair do prédio, talvez eles estivessem lá fora. Abri a porta e sai numa espécie de recepção, onde geralmente havia um guarda. Hoje ele não estava lá. Parei e pensei aonde iria. Eu não havia procurado pelo prédio todo ainda. Talvez eles estivessem lá em cima, em reunião.
Virei-me e fui em direção as escadas. Subi rapidamente os degraus ate alcançar o quarto andar. Suando, sem fôlego por ter subido a escada correndo. Olhei para os dois lados.
Pensando bem agora, eu não sabia onde ficava a sala em que o conselho se reunia. Decidi ir para o lado sul. Em vão, alguns minutos depois voltei para perto da escada. Em cada andar havia três corredores. A escada ficava a leste do prédio que era retangular. Se eu virasse para direita iria para o lado norte do prédio pelo corredor principal. À esquerda o sul e seguindo reto iria para o lado Oeste do prédio. “Bom, o sul já foi, faltam dois agora” pensei. Robson havia citado que o a sala de reunião ficava no quarto andar, porem não disse onde.
Finalmente decidi ir para o norte, andei pelo corredor clareado por algumas luzes brancas. Havia vários quartos naquele andar. Alem de algumas salas de reunião. Algumas estavam trancadas, outras vazias. Porem nenhuma parecia estar sendo usada. Quando já estava pensando em dar meia volta e procurar por um outro corredor ouvi algumas vozes. Vinha da sala à esquerda, a porta estava pintada de vermelha e parecia recente. Bati na porta, e entrei. Lá dentro havia três homens. Um deles eu conhecia bem, Leonardo. Ele estava sentado numa cadeira próximo a um outro conhecido, Paulo. Este parecia ter contado uma piada sem graça, pois todos da sala estavam forçando um sorriso. E, por fim, o ultimo homem eu não conhecia pessoalmente. Era loiro, alto e aparentava ter uns trinta e cinco anos. Ele estava mexendo em algo que parecia um radio. Os três me olharam quando eu entrei e me perguntaram se havia acontecido algo.
--Não, estou bem. Só queria saber informações sobre o helicóptero... Calei-me no mesmo momento, ontem Ramon havia pedido segredo sobre esse assunto e agora eu havia quebrado essa promessa.
--Não se preocupe. Disse Leonardo. –Os dois já sabem sobre o caso do helicóptero ontem. Eu os coloquei a par de tudo.
Paulo e o outro concordaram ao mesmo tempo em que Leonardo me dizia:
--Henrique, soube que Ramon antes de sair começou a te treinar. Como foi?
--Ah, bom, foi legal. Respondi sem saber o que dizer.
Leonardo coçou o queixo e respondeu serio:
--Bom, só espero que você esteja bem para que possamos continuar com o treinamento daqui a pouco.
--Sim senhor. Mas e quanto ao Ramon, alguma noticia?
Desta vez quem falou foi o homem loiro que estava utilizando o radio:
--Bom o que sabemos ate agora é que eles estão no meio do caminho. Segundo eles há uma grande quantidade de zumbis naquela área, tornando difícil o acesso deles.
Tentei imaginar por que tipo de situação eles estariam passando agora. Com certeza não era das melhores.
--Bem, a conversa esta boa, mas preciso ir. Disse Leonardo se levantando.
Todos se levantaram, o homem loiro disse que também precisava descansar um pouco e iria pedir a uma outra pessoa para que ficasse aguardando no radio. Paulo piscou pra mim dizendo:
--Desse jeito você se tornara um mestre em artes marciais rapidinho.
Levantei uma sobrancelha sem compreender direito o sentido da piada.
Leonardo abriu a porta e o homem loiro saiu logo em seguida eu e por ultimo Paulo que ao sair derrubou uma prateleira inteira ao lado do radio com alguns materiais de limpeza e outras utilidades.
--Opa. Disse ele olhando para o estrago que havia causado.
Leonardo suspirou e disse:
--Parece que você tem um trabalho a fazer Paulo. Por favor, não demore.
--Pode deixar. Disse Paulo.
Então ele começou a se ajoelhar e limpar a bagunça. Enquanto isso andávamos pelo corredor.
Chegando a escada, o homem loiro se despediu e virou para esquerda, enquanto Leonardo e eu descíamos pela escada ate o refeitório. Iríamos comer algo antes do treinamento.
Havia bastante gente no refeitório. Sentamos nua mesa afastada. Eu não consegui ver Bianca, o que me levou a crer que ela ainda estava dormindo. Robson estava no outro canto junto de Ana, com a qual ele se agarrava e a beijava.
Olhei para o sensei, ele estava fora da realidade. Reparei que ele estava usando um colar de prata. Eu já havia o visto usando-o outras vezes, então decidi puxar assunto:
--Esse anel, onde o senhor conseguiu?
--Ãh? O sim, esse colar... É um velho presente de um amigo. Disse ele mostrando o colar que estava em seu peito.
Alguns minutos de silencio, então me veio uma pergunta e eu a fiz:
--Sensei, eu não acompanhei nenhum tipo de noticiário desde o começo da infecção. Então não sei quase nada sobre o que causa essa transformação de pessoas em zumbis.
Ele me olhou intensamente, como se quisesse me radiografar, por fim então respondeu:
--Hum... Eu também não acompanhava muito os noticiários, porem eu ouvi algumas coisas a respeito desse vírus.
--Então é um vírus mesmo? Interrompi.
Ele balançou a cabeça, confirmando e disse:
--Sim, é um vírus de alta disseminação e muito contagioso. Ele é transmitido por fluidos ou mesmo pelo ar.
Fiquei espantado. Não sabia que o vírus poderia ser transmitido pelo ar.
--Pelo ar? Mas então como nos estamos aqui e não estamos contaminados?
Ele suspirou, parecendo pensar na melhor resposta então disse:
--O vírus possui um alto grau de contagio, porem ele não age por muitos dias pelo ar. No máximo três dias.
Por um instante eu percebi que ele parecia estar se lembrando de algo então, perguntei:
--E... Existe alguma cura?
Ele suspirou novamente e disse:
--Não. Esse vírus é muito complexo. Dois dias depois da infecção, quando boa parte do país já estava contaminada os jornais anunciavam que o vírus estava sendo estudado por vários virologistas de o mundo todo porem que ate agora não havia feito nenhuma descoberta com relação a isso. E eles preveniram que uma cura demoraria a ser fabricada pela complexibilidade do vírus.
--Espero que alguém em algum lugar consiga essa cura...
--Henrique. Há algo que poucas pessoas aqui sabem. Mas eu queria lhe falar. Se surgir alguma cura para esse mal, somente poderá ser usada antes da transformação.
Uma idéia havia surgido em minha cabeça, porem ela foi apagada no mesmo momento em que ele disse isso.
--Então esses zumbis... Eles...
--Sim, todos eles já são um caso perdido, não há volta. A partir do momento em que o corpo deles entrou em óbito, e foi parcialmente revivido por esse vírus, não há como os trazer de volta. Principalmente por que São Paulo é o marco zero da infecção.
De repente algo me fez ficar observando-o mais atentamente. Ele havia dito que não acompanhava muito os noticiários, então como sabia de tudo isso? Decidi então perguntar outra coisa, algo que me incomodava muito. Algo que eu já havia pensado em diversas teorias, a origem do vírus.
--E qual a origem desse vírus? Algum laboratório ou empresa?
--Chega de perguntas. Melhor iniciarmos logo o treinamento. Há muita coisa ser aprendida alem do mais...
Ele se levantou e foi em direção à porta de saída.
“ Ele ficou desconfiado, tenho certeza”.
Pela segunda vez eu sentia que o sensei Leonardo sabia de alguma coisa que outros não sabiam. Algum segredo.
“ Se ele sabe que o marco zero da infecção foi São Paulo, certamente ele sabe algo mais sobre a origem do vírus.”
Eu o segui porem sempre o observando. Pela primeira vez eu tive noção de o porquê de Vicente o ter chantageado.
Chegamos à sala de treinamento. Leonardo me ensinou alguns golpes e praticou algumas vezes comigo. Eu passei o treino inteiro tentando arrancar mais alguma informação dele. Porem toda vez que eu perguntava algo. Ele me dizia para continuar com o treino.
Já eram quase uma hora da tarde quando ele decidiu que já era hora de almoçar. Porem antes ele me disse:
--Até agora nos apenas praticamos com o Bokuto. Nada de anormal ate ai... Essa decisão foi difícil, porem sensata. Quero que você passe a utilizar uma katana de verdade toda vez que for sair de dentro do abrigo.
Meu coração quase parou, uma sensação de euforia percorreu meu corpo e eu me perguntei o porquê daquilo.
--Bom, eu sei o que esta pensando. E a resposta para isso é bem simples. Eu já disse varias vezes que a espada de um samurai é como seu braço, onde ele for ela estará. E é isso que eu quero. Porem há uma única condição. Você só deve usar a espada em ultimo caso, em caso de vida ou morte.
--Entendido...
Eu estava atônito, sem saber o que responder. Leonardo se virou e saiu da sala. Alguns minutos depois ele havia retornado, com uma espada nas mãos. Ela repousava dentro da bainha preta. Ele pediu para que eu me aproximasse. Então se ajoelhou e esticou os braços com a espada, para que eu a pegasse.
Em sinal de respeito, também me ajoelhei, peguei a espada e curvei a cabeça. Ele fez o mesmo.
Por um instante ouve o silencio, interrompido pelo sensei, que começou a tossir. A crise de tosse durou alguns segundos. O suficiente para eu perceber que algo não estava certo.
Ao final da crise ele colocou a mão na boca e quando a tirou, ela estava suja com algo vermelho, sangue.
--Sensei... O senhor esta bem? Perguntei, me aproximando dele. Ele respirou devagar, então percebeu minha aproximação, com a outra mão apontou para a porta e disse:
--Saia.
--Mas o senhor...
--Sai agora! Interrompeu em voz alta, então tossiu mais algumas vezes.
Eu virei à costa e sai da sala ainda com a espada em mãos e pensando no que havia acontecido com o sensei. Seria uma doença? Mas se fosse que tipo de doença?
Não sabia o que fazer com a espada. Não podia ficar andando com aquilo pelo edifício, ou os outros moradores iriam ficar com receio. “Acho melhor levar isso para algum lugar antes que...”.
--Hei moleque, o que é isso que você esta carregando?
Era só o que me faltava, algum encrenqueiro querendo me interrogar. Virei para saber quem era, e o dono da voz não me surpreendeu. Era o mesmo que havia implicado comigo há alguns dias atrás.
--Perdão? Perguntei, como se não tivesse entendido a pergunta.
Ele me olhou com desprezo e voltou a perguntar:
--Eu perguntei o que você esta carregando. Disse ele olhando para a espada dentro da bainha.
Não ousei tirar os olhos dos dele, e sem alterar minha voz e mantendo a expressão neutra respondi:
--Isso, não é nada que seja de sua conta.
Ele pareceu ter ficado surpreso com a resposta, talvez achasse que falando alto e de maneira grosseira, me deixaria amedrontado e acuado, muito pelo contrario. Eu era clamo, e não demonstrava facilmente emoções. Simplesmente dei as costas para ele e continuei andando normalmente, o que não deve telo agradado muito, porque instantes depois eu senti um empurrão que me fez ir ao cão.
Rapidamente me levantei e olhei para quem havia me derrubado dessa vez havia sido outro homem. Um mais baixo, porem na ode humor diferente.
--Moleque, ele te fez uma pergunta, responda!
Estreitei os olhos e respondi:
--Não devo satisfação a ninguém. Se tiverem alguma duvida sobre as regras desse abrigo, falem com Ramon.
Os dois riram, o baixinho então disse abrindo os braços:
--Mas ele não esta aqui para te defender. Escute aqui, eu não gosto de você e sua turma, comendo da nossa comida, bebendo da nossa água...
--Não preciso de ninguém para me defender, porem não quero confusão, então, por favor, me deixem em paz. Disse me virando e começando a andar.
Porem outro cara apareceu na minha frente, saindo do final do corredor. Ele era alto e carregava uma chave inglesa em sua mão, rindo ironicamente.
Eu parei no mesmo instante, estava encurralado. Aquilo era uma armadilha, eles queriam realmente me machucar. Eu estava sem escolha, então tentei dialogar.
--Rapazes, eu não quero brigar, e vocês também não vão querer brigar comigo então se me derem licença.
Então me virei para tentar passar pelos outros dois, porem o baixinho se aproximou e colocou seu dedo indicador em meu peito dizendo baixinho.
--Você não tem escapatória dessa vez.
Eu olhei para o dedo dele em meu peito, meus olhos se estreitaram mais ainda, suspirei pensando se havia outra escolha. Mas não havia.
Em um segundo eu estava lá acuado por três caras, e no outro eu metia um murro na cara do baixinho, enquanto o cara da chave ficou sem ação e o outro veio para cima de mim.
--Eu vou acabar com a sua raça!!! Berrou ele vindo em minha direção.
Eu havia treinado somente um dia Kombato, mas não precisava de treinamento para saber que o ponto fraco do homem ficava entre as duas pernas.
Quando ele chegou perto o bastante, flexionei os joelhos, em guarda, como havia aprendido há muito tempo quando ainda treinava Karate. Ele tentou me acertar com seus punhos, eu apenas me abaixei e dei um forte pontapé que o acertou em cheio na virilha. Ele caiu sem força para gritar e lá ficou. O baixinho estava se levantando enquanto o cara da chave corria em minha direção. Ele desferiu um forte golpe, que teria feito meu crânio em pedaços se eu não me jogasse para o lado batendo dolorosamente o ombro na parede. Mas isso havia me deixado entre os dois agressores. O cara da chave veio desferindo golpes para todos os lados, e eu ia recuando para desviar deles. O baixinho gritou que iria me segurar. Foi um erro. Prevendo seu movimento avancei contra o cara da chave e quando este desferiu mais um golpe, me abaixei. Um barulho seco me indicou que o cara da chave havia acertado o outro em cheio.
Contente comigo mesmo sorri, o que fez o homem da chave enlouquecer de fúria. Ele começou a desferir muitos golpes, eu tinha certeza eu não iria conseguir desviar de todos.
Só havia uma escolha, um leve barulho de metal no ar informou que a espada estava fora da bainha. Um segundo depois outro barulho, eu olhei para o cara que estava com o rosto branco de medo. Minha espada havia quebrado a chave dele.
Não recuei e o encurralei na parede, a katana transpirava poder e eu estava com vontade de usá-la. Vagarosamente encostei a espada em seu pescoço, preparado para matá-lo. A mão dele estava suada, ele tremia e seu rosto estava pálido.
--Por que vocês não me deixaram em paz? Era tão simples... Disse devagar.
Não havia sentimento, não havia perdão, não havia pena. Eu era o que as pessoas chamavam de “frio”. Nem mesmo havia suor, minha mão estava totalmente imóvel esperando pelo momento certo, talvez reconsideração?
Um gemido, o homem que estava caído no chão com uma forte dor na virilha se levantou, ainda bufando, ele fez menção de vir para cima de mim, porem foi interrompido por um forte brado, brado esse que eu conhecia. “Dante...”
--O que significa isso? Henrique onde você arranjou...
Ele estava pasmo, ao seu lado estava Paulo. Este parecia estar num transe.
Os dois se aproximaram, Dante tocou em meu ombro dizendo:
--Henrique, por favor, abaixe isso.
Olhei para ele e depois para o outro, então depois de um longo suspiro abaixei a espada.
O homem que agora pouco estivera sobre a mira de uma katana estava agora tremendo, ele rapidamente se afastou e junto com o outro ajudou a levantar o terceiro, desmaiado e sumiram num quarto mais a frente.
Dante ainda estava com a mão em meu braço. Entendi o recado e num movimento rápido guardei a espada em sua bainha preta.
Paulo estivera olhando tudo, quieto e estarrecido, de repente se curvou num gesto de espanto e exclamou:
--Uau! Cara, o que você fez agora. Disse ele socando o ar. –Você viu, não viu Dante? Ele botou os três para correr, hahaha.
Dante olhava para a espada e para mim, dizendo:
--É eu vi Paulo. Henrique, não me diga que ele...
--Sim, mas a culpa foi minha. Eles me provocaram e me ameaçaram...
--Eu entendo. Mas vamos ter que falar com seu tutor.
Olhei para Dante sem entender, então surgiu em minha cabeça à imagem de Leonardo.
Suspirei e os segui em direção ao quarto do mesmo.
Chegando lá, eu pude sentir que levaria a maior bronca de minha vida.
Assim que Dante bateu na porta e ela se abriu vi que o sensei estava sentado numa cadeira atrás de uma mesa, pensativo. Em um canto havia alguns papeis com marcas estranhas. Pareciam símbolos de alguma empresa.
--Senhor Leonardo, desculpe interrompê-lo, mas é sobre seu aprendiz e tutelado.
Leonardo parecia estar pensando em outra coisa, então de repente se assustou e perguntou novamente o que havia acontecido.
Dante repetiu o que tinha visto então Leonardo pediu explicações.
Contei tudo o que tinha acontecido então por fim disse:
--Eles me ameaçaram, e me provocaram, não tive escolha.
Ele me olhou por um momento então disse:
--E só por isso você utilizou uma arma que foi dada a você para ajudar outras pessoas?
--Eu disse que não tinha escolha, eu...
Ele me interrompeu com um gesto de mão e continuou falando:
--Eles feriram o seu ego e você achou que era sensato puni-los é isso?
--Não.
--Cale-se! Disse ele e então continuou. –Acho que você não entendeu Henrique, que eles não fariam nada para te machucar, por que eles sabem o que pode acontecer a eles caso o façam.
--Mas eles...
--Não! Eles te provocaram e você aceitou essa provocação, assim dando a eles o que queriam.
Vendo que tanto eu, como Dante e Paulo estavam com ares de indagação, Leonardo disse:
--Eles queriam um motivo para protestar contra você numa reunião. Era isso que eles queriam o tempo todo, provocar você para que desse um motivo apropriado para eles justificarem um protesto contra sua estadia aqui, e você deu a eles exatamente o que queriam.
Eu fiquei sem reação, Dante também parecia não acreditar no que Leonardo havia acabado de falar.
--É esse o preço que se paga por querer ser um tolo convencido em habilidades. Se você acha que é habilidoso, vou testá-lo de uma maneira mais difícil.
Essa frase ficou orbitando minha cabeça por horas naquele dia.
Logo depois desse sermão fui liberado. Dante teve de cumprir algumas obrigações, e Paulo disse de modo estranho que precisava fazer algo. Então tão logo já estava sozinho, andando pelos corredores novamente. Sem ter o que fazer fui para o refeitório. Àquela hora do dia estava vazio, a maioria das pessoas estavam fazendo ginástica na cobertura do prédio (algo que há pouco tempo havia se tornado comum entre os moradores).
Fiquei naquele lugar por uma ou duas horas, sentado, pensando em diversas coisas, desde inúteis como um disco de alguma banda ate formulas matemáticas que havia aprendido antes do começo da epidemia.
Por duas vezes vi Paulo entrando e saindo pela porta que dava na saída do prédio. Estranhamente ele murmurava palavras e de vez em quando sorria o que em fez rir, já que a causa daquilo seria provavelmente uma lembrança de alguma piada que ele costumava contar.
Mas isso não foi o mais estranho, e si ma passagem de Leonardo pelo refeitório em direção a saída. Ele que geralmente não saia muito de seu quarto passou rapidamente sem reparar em minha presença. Passados mais ou menos cinco minutos ele passou novamente em direção as escadas. Esquisito ou não, seu comportamento ultimamente estava diferente do normal. Alem das crises de tosse que se tornaram mais freqüentes, ele parecia preocupado com alguma coisa e todas as vezes que eu tentava puxar assunto com ele, recebia como resposta o silencio. Alem disso havia ainda um fato importante a se constatar, ele possuía um conhecimento acima da media quando o assunto era o vírus causador da Epidemia.
Depois de mais alguns minutos decidi ir para o porão da mercearia que estava sendo usado como local de treinamento, Ramon havia dito que eu poderia ir ate ela quando achasse necessário. Bom agora era necessário, pelo menos eu poderia fuçar um pouco melhor o lugar. A única coisa desagradável seria passar pelo mar de zumbis que eram separados apenas por uma barricada de concreto.
Levantei-me e segui ate a saída, assim que atravessei a porta de entrada me deparei com um segurança. Musculoso, alto e com uma barba preta, ele causava logo de inicio uma impressão de respeito em qualquer pessoa. Seus olhinhos minúsculos me focaram e ele se levantou da cadeira que ocupava diariamente. Com suas roupas largas e seu bafo quente de café ele veio para cima de mim e perguntou onde eu pensava que estava indo. Educadamente o respondi. E essa resposta não o agradou muito, já que ele fez uma espécie de careta, dizendo:
--Hum, não sei, Ramon disse que você poderia, mas o Leonardo...
--Então Leonardo esteve aqui... Ele me proibiu?
--Não exatamente, apenas disse para eu não deixa-lo fazer tudo que quisesse.
Claro, depois de dar uma broca e dizer o que ele disse, eu não estava surpreso, mas talvez decepcionado. Queria muito esfriar a cabeça, mas do jeito que as coisas estavam indo, eu estava bem mais perto de conseguir uma dor de cabeça ao invés de esfriá-la.
--Muito bem, eu não deveria, mas vou deixar você ir ate lá.
--Obrigado. Agradeci.
--Com uma condição, eu vou te acompanhar ate a entrada do lugar.
--Tudo bem. Respondi apenas o fato de estar indo lá já me deixava mais alegre.
Descemos para o térreo em direção a saída que ficava perto do corredor que dava em direção a garagem, que estava trancada por conter alguns zumbis.
--Que cheiro é esse? Perguntou o segurança.
Um cheiro familiar surgiu no ar, era cheiro de podridão e decomposição, um cheiro que causava arrepios em muitas pessoas.
Aproximamos-nos da saída, quando nos deparamos com o corredor que dava na garagem. O cheiro estava mais forte ali. O guarda pediu para eu esperar ali, puxou a arma da cintura, uma 38 e foi em direção à porta, estava escuro, ele chegou perto de onde estava a porta e acendeu a luz, instantaneamente vários zumbis apareceram diante dele, a porta estava aberta e dois deles estavam ali parados, um quando viu o guarda perto se jogou sobre esse, o barulho de um tiro ecoou pelo corredor. Eu me assustei, vendo a cena, o guarda atirou no zumbi que tentou avança-lo, depois no segundo, porem não foi rápido o bastante para atirar num terceiro que sem possuir nenhuma das pernas se arrastava. Ele cravou seus dentes no guarda que urrou de dor.
Vendo aquilo, imediatamente entrei em ação, corri em sua direção e chutei o zumbi para o lado. Com o impacto seu pescoço quebrou e o zumbi ficou imóvel no chão. Porem aquele ato fez outros zumbis que estavam mais ao longe da garagem –que era gigantesca– voltassem suas cabeças para onde estávamos. Isso me deixou extremamente preocupado, parei um momento para contar quantos zumbis havia ali dentro e me espantei com o numero.
--Vinte e sete.
Vire para o guarda que ainda estava no chão, sua perna estava vermelha de sangue e ele gemia de dor tentando ficar de pé.
--Você esta bem? Perguntei e ele.
--Sim, acho que sim... Droga isso não é nada bom. Disse ele de repente assustado.
--Sim sua perna esta sangrando bastante.
--Não! Olhe para aquilo. Disse ele apontando para a porta.
Sem entender olhei e me coração disparou, também fiquei assustado, a porta estava arrombada de um jeito que não dava para fechá-la. Sua tranca fora completamente arrancada e como era abria em direção ao corredor, qualquer zumbi que encostasse nela iria ultrapassá-la.
Pelo que eu sabia zumbis não conseguiam subir escadas adequadamente, eram poucos que eram capazes desse feito, porem numa escada curta como aquela, alguns deles com certeza chegariam ate o abrigo.
--São muitos, temos que fazer algo. Disse ele atirando algumas vezes em alguns zumbis. Porem era inútil. Mais quatro zumbis haviam aparecido ao fundo contabilizando no total trinta e um zumbis, a situação era critica. Se não fizéssemos nada eles iriam chegar ate as escadas e nos sitiar. E como a maioria dos policiais havia ido junto de Ramon para uma missão, seriamos alvos fáceis.
--Droga, acabaram as balas. Disse ele depois de mais alguns tiros. –E agora, estou sem meu radio.
Olhei subitamente para ele dizendo:
--Onde ele esta?
--Lá em cima.
Olhei novamente para os zumbis e depois para o guarda, ele estava muito ferido, não agüentaria muito tempo ali. De repente eu me lembrei de Sergio, como ele havia morrido e do que havia acontecido no Abrigo do Barro Branco. Depois de suspirar tentando pensar em todas as alternativas possíveis, sorri.
--Por que você... Perguntou ele.
--Não percebe? Disse olhando para ele. –Não há outro jeito.
Ele estremeceu e balanço a cabeça negativamente.
--Não, eu não vou deixar.
--Cale-se, não se preocupe comigo. Eu já perdi muitos amigos, e não quero perder mais ninguém. Eu não vou deixar!
Ele se espantou com as palavras, então sorriu e disse:
--Então eu também vou ficar aqui e te ajudar.
--Não seja tolo. Nessas condições você apenas ira atrapalhar. Consegue chegar ate onde esta eu radio?
Ele pensou por um instante e afirmou com a cabeça.
--Então vá rápido!Eu os distraio.
Ele me puxou então para se levantar e então bateu continência e foi em direção à porta encostando-a. Agora eu estava sozinho, e tinha que fazer algo para distrai-los.
--Muito bem Henrique, se quer bancar o herói, essa é a hora. Disse para mim mesmo.
Então puxei a katana de dentro da bainha preparado para lutar e talvez morrer.
Eu suava frio, fui em direção aos três primeiros zumbi decepando de cara um deles. Os outros dois tentaram me pegar, mas eu me esquivei e comecei a rodar em volta deles. Confundindo-os, consegui matar os dois. Porem havia tantos outros, e eu não podia me distrair sequer por um segundo ou iria morrer. E eu não queria isso pelo menos por enquanto.
Comecei a chamar a atenção deles, com a garagem era larga com vários carros bolei um plano. Iria chamar a atenção deles para longe da porta e dar tempo de chegar algum reforço. Gritando e xingando os zumbis fui contornando a grande maça. Eles como animais famintos pararam de ir à porta e vieram todos gemendo, arrastando suas pernas em minha direção.
--Ótimo você já conseguiu chamar a atenção deles, agora precisa fazer algo ou ira morrer devorado.
A garagem era escura, havia pouca luz e por isso quase fui mordido quando não me dei conta da presença de um zumbi a minha esquerda. Ele me derrubou no chão eu estava com minhas mãos no pescoço dele. A espada estava fora de alcance, algo que era impressionante era sua força, derivada provavelmente de sua força aplicada em seus músculos não ser controlada pelo cérebro ou não haver fadiga.
--Aaarrrggghhh... Gemia ele, sua saliva pingava em meu cabelo, e eu sabia o quanto fatal era sua saliva caso ela caísse em meus olhos, iria me infectar.
Eu lutava contra ele tentando sair de baixo dele, enquanto isso outros zumbis se aproximavam, estavam talvez a quinze metros de onde eu estava, se não fizesse algo iria morrer. Decidindo arriscar coloquei minhas duas mãos na cabeça dele. Seus braços me apertavam, e sua boca fétida tentava de todos os jeitos me abocanhar, porem eu não iria me deixar morrer tão fácil, com um enorme esforço posicionei minhas duas mãos de modo que pudesse quebrar seu pescoço. Então girei as mãos forçando seu pescoço, que estalou então sua cabeça caiu e seus movimentos cessaram. Empurrei-o para o lado, logo busquei a espada e me levantei, tomando um susto. Os zumbis estavam muito próximos, fui recuando ate encostar-se à lateral de um carro. Subi em cima deste e firmei as duas mãos na Katana.
--Arghh! Gemiam eles. Cada vez mais próximos.
Ao contrario do que normalmente aconteceria com as pessoas eu não estava suando frio, ou mesmo nervoso. Estava calmo, analisando tudo atentamente. Seria resultado do treinamento? Ou eu talvez sempre fora daquele jeito e nunca havia notado isso antes?
De qualquer jeito se ninguém aparecesse logo ali eu teria sérios problemas. Eu não tinha nenhuma arma que pudesse ser usada a distancia, só poderia contar com minha katana que por ser uma arma de curto alcance me colocava numa situação de risco.
Cada vez mais próximos, eu precisava pensar em algo antes que fosse tarde. Olhei para cima e vi alguns canos que seguiam pela garagem, isso me deu uma idéia.
--Isso vai me dar mais tempo. Falei para mim mesmo.
Um zumbi encostou-se ao carro e imediatamente tentou puxar minha perna. Um segundo depois ele estava caído no chão, sua cabeça decepada pela espada. Mas havia outros agora, todos tentavam ao máximo esticar seus braços nojentos e em decomposição numa tentativa de me puxar para o chão. Mas eu não iria desistir tão facilmente. Com a espada decepava todos os braços que chegassem perto de meu corpo. Mas eu não estava sendo rápido o suficiente. Senti uma mão fria me agarrar com força e me puxar. E como era forte. Mesmo para alguém morto o zumbi parecia ter mais força e “vigor” que um vivo. Com sua força ele me derrubou ainda em cima do carro. Com o impacto o alarme deste disparou. Mas isso não era muito importante, de fato neste momento, minha vida era mais importante que o barulho irritante de um carro. Havia zumbis cercando o carro de todos os lados. E aquela mão nodosa que tentava me puxar para o chão estava quase rasgando minha pele. Eu me segurava o máximo que podia e tentava me livrar da mão distribuindo chutes aos agressores. Porem isso não era suficiente, quando senti mais uma mão me puxando senti que aquele seria meu fim, com um ultimo movimento virei para trás com a espada em punho desferindo um golpe certeiro nas mãos que me puxavam. Então, rapidamente me pus de pé. Agora pelas minhas contas todos os zumbis do local estavam ali. O carro balançava loucamente com a força que eles faziam. Seus gemidos ecoavam em meu cérebro, e nesse momento eu percebi por que naquela circunstancia não era tão rui morrer para zumbis. Afinal eu estava com isso ajudando pessoas, e esse era o objetivo maior. Depois desse breve momento filosófico pulei e consegui por pouco agarrar um dos tubos. Fazendo certa força consegui me mover um pouco. Uma das poucas coisas que eu aprendi nas aulas de educação física foi isso. Se movimentar segurando apenas pela mão numa barra. O segredo era de certa forma simples, bastava apenas você dar impulso com uma das pernas como se estivesse chutando algo, então se movia o braço do mesmo lado da perna que você dava o impulso. Porem, como meu professor dizia, teoria é diferente de pratica. Eu não imaginava quão força você usava para aquilo. Depois de percorrer quatro metros, eu já suava muito e sentia meus braços pesados. Olhei então para frente e senti um calafrio. O tubo em que eu estava pendurado acabava ali, pois ele entrava no concreto acima, no teto. Agora eu estava preso a alguns metros do chão com dezenas de zumbis lá em baixo loucos para me devorarem.
--Era de se esperar, achar que seria tudo tão fácil. Murmurei.
Então notei que para a minha esquerda havia outro tubo. Só que este estava a um metro de distancia e mais baixo do que o que eu estava. Meus braços estavam escorregando e cansados. Eu tinha que me mover rápido ou não sairia dali vivo. Porem como chegar ate lá? Eu não conseguiria ficar segurando com um braço só o tubo. Então optei pelo mais difícil. Fiquei ao lado do outro tubo e comecei a balançar de forma a conseguir alcançar com minhas pernas o outro tubo. Alguns pequenos pedaços de concreto caíram em meu rosto, isso só podia querer dizer uma coisa. Se eu não saísse dali logo, tudo iria despencar. Amaldiçoando encanadores por colocarem um tubo “longe” do outro fiz uma tentativa. Dei um impulso com minhas pernas e elas foram para o alto ate que alcançaram o tubo ficando lá, seguras.
Agora só faltava soltar os braços e eu ficaria de cabeça para baixo sobre alguns zumbis com alguma fome.
Fechei os olhos e assim que abri vi meu corpo fazendo o movimento de queda, porem sem que esta acontecesse. Lá estava eu, pendurado apenas pelas pernas sobre dezenas de zumbis. Agora era a parte mais difícil. Se erguer ate alcançar com as mãos os tubos.
Respirei fundo e tentei me levantar conseguindo alcançar o tubo com as mãos.
Então comecei a rir, a cada dia eu estava me metendo numa encrenca maior.
Barulho de metal entortando.
--Ah não... Droga!!!
O tubo se rompeu de um lado me fazendo descer com tudo ainda preso nele ate cair no chão.
Agora eu sentia todos os meus ossos, a sensação não era nada agradável, tanto que por causa da dor esqueci os zumbis e lentamente me levantei, e me virei para dar de cara com trinta zumbis famintos.
--Opa... Acho que isso não é nada bom. Disse para mim mesmo.
Não só havia zumbis na minha frente, como também dos lados e atrás. Eu estava cercado.
A katana estava dentro da bainha presa em minhas costas, que por acaso doíam muito.
Os zumbis foram se aproximando, mas alguém nos fundo gritou:
--Henrique se abaixa!
Era Dante com o reforço. Os poucos policiais estavam todos ali, e alem deles Leonardo.
Esse estava com a espada numa mão e na outra uma arma também atirando nos zumbis.
Essa era minha chance. Puxei a espada da bainha sentindo um pouco de dor ao fazê-lo, mas isso não importava, eu estava tão empolgado com o reforço que nem me importei com a dor. Aproveitando a distração me abaixei. A espada na mão direita pronta para deferir um golpe. Um golpe na horizontal na altura dos joelhos dos zumbis fez muitos caírem no chão e outros a se desequilibrarem. Em meio ao fogo rolei por cima das costas de um zumbi inclinado puxando a espada comigo, cortando parte de sua cabeça. Então acotovelei com o braço esquerdo um que estava prestes a me morder e com o outro braço decapitei outro zumbi. Então saltei para frente, fora do circulo deles. Ofegante, e sem força fiquei ali sentado por mais alguns minutos. Os atiradores também terminaram seu trabalho e vieram em meu encontro, me perguntando se eu estava bem. Respondi que sim, e então perguntei pelo guarda que estava ferido. Ninguém quis responder de imediato, apenas me disseram para ficar calmo e não me preocupar com isso, já que se não fosse por mim, talvez eles não estivessem ali.
--Não precisa agradecer Dante. Eu sei que qualquer um também faria à mesma coisa nessa situação. Respondi pela quarta vez.
--Ora Henrique, mas mesmo assim foi um grande ato e não eram todos teriam a coragem de fazer isso. Disse ele me levantando e me ajudando a andar.
--Bom de qualquer jeito, por que demoraram tanto? Perguntei.
--O radio não estava funcionando. Respondeu ele serio.
--O que? Como assim não estava? Hoje de manhã não parecia haver nada de errado com ele.
--Pois é eu também não entendo, mas suspeito que tenha sido causado propositalmente. Murmurou ele serio.
Meus olhos se arregalaram. No mesmo momento surgiu a imagem de Leonardo em minha cabeça.
--Por que você diz isso? Perguntei, enquanto pensava no assunto.
--Não havia ninguém na sala. Quando soube do que estava acontecendo aqui, imediatamente fui à sala de radio saber o porquê de Marcos não conseguir nos avisar. Encontrei a sala vazia e quando entrei lá dentro vi que alguns cabos estavam cortados na sala, mas não foi somente isso que eu vi lá.
Agora já estávamos bem perto da escada, eu ainda me apoiava em Dante para andar. Olhei para ele com ar de indagação, pela sua aparência parecia ser algo grave.
--Não sei se você o conhece... Era um policial que costumava ficar na sala de radio.
--Conheço sim. Hoje pela manhã fui buscar informação sobre a equipe de Ramon e o vi lá dentro.
--Pois bem, alem dos cabos cortados havia seu corpo.
--O que? Perguntei imaginando a cena, se fosse o que eu estava pensando, haveria sérios problemas.
Dante suspirou e disse:
--Quando entrei na sala vi o corpo dele encostado a uma parede, com os pulsos cortados e encostado sua mão esquerda uma faca.
Agora eu estava assustado, primeiro uma porta arrombada que dava acesso a um lugar repleto de zumbis. E agora um rádio com cabos cortados e um cadáver, a situação era mais complicada do que eu imaginava. Parece que alguém havia esperado o momento certo quando Ramon e boa parte dos policiais estivessem fora para espalhar terror.
--Ele foi assassinado... Murmurei em voz baixa e Dante discordou com a cabeça.
--Não acho, ao seu lado havia um bilhete... Na verdade uma carta de despedida, ou seja...
--Ele cometeu suicídio. Completei.
Finalmente chegamos ao topo da escada, a porta que dava ao refeitório estava aberta, lá dentro podia ser visto um numero enorme de pessoas. Quase todas armadas com facões ou algum tipo de barra de ferro. Quando nos viram as pessoas começaram a falar. Alguns estavam assustados, outros pareciam querer briga. Dante e eu íamos mais a frente, ele me ajudou a sentar num assento próximo a porta, enquanto dois outros policiais explicavam a situação para as pessoas.
Após alguns segundos mais alguns policiais apareceram e fizeram uma espécie de cordão de contenção. Evitando que as pessoas descessem. Muitos deles empurravam as pessoas em direção às portas que davam acesso a escada dizendo que tudo estava sobre controle e que tudo que acontecera era que uns três zumbis tinham tentado “pular” a barricada, mas foram impedidos.
Particularmente eu achava errado o jeito que eles conduziam situações como essa, mentindo para os abrigados. Porem havia uma razão para isso: todos estavam cansados e desestimulados pela demora de um possível resgate. E coisas como suicídio e traição só às fariam perder o pouco da paciência e a esperança que ainda tinham. Isso as desestabilizaria e algo pior poderia acontecer.
A multidão estava saindo aos poucos do refeitório, no meio delas era possível ver Bianca, Robson e Ana, todos pareciam confusos e assustados, principalmente Bianca que ficou desesperada quando me viu entrando com Dante.

--Pronto. Todos subiram, provavelmente essa noite ninguém dormira muito bem. Disse Paulo alguns minutos depois, quando ele junto de outro policial estava fazendo um curativo em meu ombro.
Paulo estivera cuidando do corpo do policial suicida.
--Onde esta o corpo? Perguntei.
--No mesmo lugar. Ainda não podemos removê-lo, não com toda essa gente andando pelos corredores. O radio esta sendo concertado nesse instante.
--Provavelmente será assim pela noite toda. Respondeu o outro policial terminado de enfaixar meu ombro.
--E quanto ao guarda, ele foi ferido... Disse.
Os dois se olharam então Paulo respondeu:
--Bom, o Renê sabe de suas condições e já nos pediu para ficar exilado ate a hora.
--Mas a ferida foi feia e ele esta perdendo muito sangue, não vai demorar muito para que... O policial engoliu em seco.
Eu sabia o que ele estava sentindo. Perder um companheiro daquela maneira não era nada fácil, às vezes eu ainda me lembrava de quando fui obrigado a matar meu próprio amigo.
Estávamos em meu quarto, eu estava sentado na cama sem camisa enquanto eles faziam os curativos.
--Terminado. Não se preocupe, não é nada grave, mas você vai ter que se controlar um pouco por uns dois dias. Disse o policial.
--Ok, obrigado. Disse vagamente.
Os dois saíram do quarto fechando a porta logo em seguida. Enquanto isso eu tentava achar um jeito de provar minhas suspeitas. Para mim parecia certo que o sensei Leonardo era o culpado pelo arrombamento da porta da garagem, e eu também suspeitava que o rádio não houvesse sido sabotado a toa. E que o suicídio do policial não havia sido por acaso. Na verdade eu nem mesmo acreditava que havia sido suicídio. Parecia muito obvio que era assassinato. E eu tinha quase certeza do culpado.
A porta se abriu e eu virei rapidamente para ver quem era.
--Me desculpe por entrar assim. Disse com sua voz feminina, era Bianca.
Levantei a mão para interrompê-la:
--Sem problemas, você não precisa pedir autorização para entrar.
Ela olhou para meu ombro enfaixado e perguntou:
--Você esta bem? Disse ela, reparei que olhava para meu ombro.
--Ah, isso não foi nada. Respondi sorrindo.
Levantei-me e fui para perto dela, quando estava bem em sua frente ela levantou a mão e me deu um tapa no rosto.
Olhei então para o chão e disse:
--Me desculpe, eu não queria ter que fazer passa-la por isso.
Olhei para ela, e fiquei surpreso ao vê-la sorrindo.
--Não precisa se desculpar. Eu sei que você salvou a todos nos.
Fiquei sem saber o que dizer. Como ela sabia?
--Paulo. Ele espalhou a noticia.
Sorri ainda sem saber o que dizer:
--Aquele idiota. Disse rindo.
--A propósito, eles chegaram. Disse ela ainda sorrindo.
--Você ta querendo dizer Ramon e os outros?
--Sim, eles estão numa reunião de emergência com o conselho, eles não paravam de dizer algo sobre uma tal de Biotech. Respondeu ela.
No instante seguinte corri em direção a porta dizendo:
--Mais tarde vamos conversar.
Antes precisava tratar de um assunto de extrema importância.
Mesmo com o corpo dolorido, corri pelos corredores ate chegar às escadas. Pensei por um instante então subi os degraus rapidamente, em direção contraria a sala que Ramon e os outros estariam no momento.
Dois minutos depois eu estava de frente para o quarto de Leonardo. Com cuidado toquei a maçaneta. A porta se abriu.
Entrei e fui para perto da escrivaninha. Lá vi que algumas das gavetas estavam abertas enquanto outras trancadas com cadeado.
--Como vou abrir isso?
Olhei para os lados procurando algo então vi que havia uma estante ali com alguns artefatos e uma espécie de bastão de madeira ali. Eu o peguei e comecei a bater com ele no cadeado então depois de alguns segundo ele quebrou.
“ Tem que estar aqui.”
Procurei entre os papeis aquilo que há alguns dias havia visto.
--Achei!
Era uma pasta preta com o nome de Leonardo. Havia um grande símbolo nela com o nome “Biotech” gravados em prata. Abri a pasta e olhei para ver se havia algo útil. Porem tudo que havia lá eram informações de experiências.
Li uma delas. No começo da pagina estava escrito um numero. Deveria ser o numero de serie da experiência. Em baixo havia os dizeres:
“ A experiência foi um sucesso, porem a cobaia se comportou de modo agressivo quando exposta à outros animais não-infectados...”.
Em baixo disso havia escrito “Cobaia utilizada: Ser Humano”
Havia uma foto grampeada ali. Parecia uma imagem familiar. Era um homem, sua roupa estava suja de sangue, seus braços estavam estendidos como se tentasse pegar algo, sua pele estava suja de sangue e estava clara. Seus olhos vidrados eram um misto de vermelho e leitoso.
A cada vez que eu olhava aquela imagem, mais chocado eu ficava, aquilo era um zumbi. Eu tinha certeza.
“ Preciso mostrar isso!!”

Enquanto isso na reunião do conselho, Ramon perguntava aos presentes:
--Isso não pode ser possível. Se o abrigo foi sabotado, quem seria capaz de fazer isso?
Num estrondo a porta se abre. Era Henrique, sua expressão era seria, ele chega perto da mesa onde todos estão sentados. Joga uma pasta preta na mesa, algumas fotos de zumbis se soltam da pasta, ele olha para todos em volta e então diz:
--Por que o senhor não pergunta para o Leonardo?


Continua...

“C.R.A.Z.: Centro de Resistência Anti Zumbi”
“ O mistério esta preste a ser desvendado. Próximo capitulo: Biotech”


 

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