Crônicas de um sobrevivente
[Capítulo 11] O Treinamento
O sentido da vida esta em vivenciá-la com todas as suas forças...
Mas quem quer viver num lugar onde a ordem é se esconder, fugir, sobreviver?
Quem quer viver onde os seres dominantes não são mais nos,
os humanos, e sim criaturas feitas para matar, devorar, apenas fazendo isso,
sem pensar, sem “gostar”, sem estar VIVO? Quem no mundo seria
capaz de cometer uma loucura dessas? Sim, porque viver num país apocalíptico,
dominado por zumbis, onde o numero de humanos vivos descresse a cada dia
e quem ainda esta vivo tem diversos problemas mentais, paranóia, pânico.
Mas o mais cruel no sentido da vida é que não sabemos se continuaremos
vivos. Droga, pensando bem, eu não tenho mais um sentido na vida,
então porque continuar vivo? E pior, eu odeio filosofia...
--Henrique?
Cheguei me assustar com a voz que havia me chamado, acabando com aqueles
pensamentos idiotas. Era o sensei Leonardo. Me virei em direção
a sua voz, ele estava sentado no chão, sentado, me examinando atentamente.
Parecia estar tentando me radiografar.
--Hã, sim? Respondi sem saber o que dizer.
A sala que estávamos era abafada, retangular, dum lado havia algumas
estantes abarrotadas de livros, e do outro lado uma serie de equipamentos úteis
como bastões para treinamento, kimonos, alguns tipos de laminas afiadas
que se chamavam segundo o sensei de kunais, sacos de areia, luvas e ate mesmo
alguns tipos de shurikens. Enfim, era uma sala de treinamento particular
e que me fazia pensar o quanto o sensei havia sido rico antes de tudo isso.
O fato de ela ter permanecido trancada ate esses dias me surpreendeu, pois
ninguém sabia de sua existência. Mas havia também mais
alguma coisa que me deixava surpreso, e era o fato do sensei ter me aprovado
após eu ter provado à ele que poderia utilizar uma espada.
Bem, não havia sido a melhor maneira de fazê-lo, matando seu
agressor, o Cabo Vicente, um tipo de pessoa que mesmo eu não conhecendo
sabia muito bem o que era um idiota viciado. E isso não era apenas
eu quem dizia, mas todos os outros moradores do abrigo, inclusive seus colegas
antes da epidemia, como Dante havia dito, ele nuca bateu bem da cabeça.
--Henrique? Você esta bem? Eu já te repeti duas vezes a mesma
frase e você não deu nem ao menos um sinal de vida. Será que
você quer mesmo aprender a arte de manejar uma espada?
--Ah, desculpe sensei, eu estava somente... Pensando... Respondi rapidamente,
o melhor a fazer era se desculpar, por que eu dependia dele para aprender
Kendo, e isso dependia muito da vontade dele em me ensinar.
Ele apertou os olhos, e eu tinha uma sinistra impressão de que ele
estava se esforçando ao maximo para ler minha mente, algo impossível.
--Henrique, eu vou deixar bem claro, eu aceitei em ensinar e treiná-lo
devido a sua tolice, sim, sua tolice em persistir ate o final. Mas não
confunda tolice com deslize, pois eu não o aceitarei.
Cruzei os braços, de mau humor, típico, primeiro demoro a encontrar
um professor adequado, e quando encontro, descubro que ele é o cara
mais perfeccionista da face da Terra.
--Isso é muito relativo sensei, talvez ontem não ter simplesmente
impedido o Vicente de causar um estrago ao invés de matá-lo daquela
maneira como matei, não sei se aquilo foi certo.
Ele levantou as sombracelhas, num sinal de desdém, simplesmente, se
levantou e puxou um livro da estante, e jogou com força. Eu não
estava prestando atenção e acabei recebendo o livro na testa.
--Humph... Fique mais atento, ou antes, que possa tirar a espada já estará morto
lembre-se disso, atenção a tudo que ocorre a sua volte. Se conseguir
isso, será um bom espadachim, bem teoricamente.
--Parece complicado, como posso estar prestando atenção a tudo
ao mesmo tempo se tenho somente dois olhos, e só posso olhar em uma
direção a cada vez?
Ele apenas apontou para a cabeça:
--Use o cérebro, eu não posso te ensinar tudo, há algumas
coisas que você precisa aprender por si só.
Palavras difíceis, por que ele sempre fala dessa maneira? Não
pode simplesmente passar uma informação de maneira normal, comum?
--Leia esse, vai lhe fazer bem.
Olhei para o livro, ele era pequeno, parecido com as bíblias convencionais,
mas tinha um problema, não dava para eu ler esse livro, por que ele
era...
--Japonês? Espera que eu leia um livro em japonês?
--Exato. Disse ele. –O que seria um verdadeiro samurai ou ninja se não
souber o básico da língua pela qual o conhecimento de suas técnicas
foi passada através dos séculos? Disse ele, sorrindo.
--Mas, eu não sei ler em japonês. Disse, insistindo contra aquela
loucura, aquilo era praticamente impossível, eu folheei o livro de cabo
a rabo, e tudo que encontrei foram símbolos que eu nem mesmo conhecia
ou tinha visto alguma vez.
--Pense um pouco! Você não esta aqui somente para desembainhar
uma espada e sair cortando tudo o que encontrar pela frente, esse não é objetivo
da aula.
Disse ele, se sentando numa cadeira ao fundo da sala, enquanto procurava alguns
papeis na mesa ao lado.
--Então qual seria? Não me importa o que alguns velhos decadentes
escreviam, agora não. Depois que tudo que aconteceu, eu não tenho
que ficar estudando isso, olhe pela janela, em algum lugar dessa cidade, pode
haver mais alguém vivo, uma família, e você me pede para
ler um livro que não esta nem escrito em minha língua? Por quê?
Disse mal humorado.
--Sabe, um samurai não é apenas físico, ele e sua alma
formam o ciclo perfeito, e isso pode apenas ser alcançado após
muita meditação e equilíbrio da mente. Não há forma
melhor do que leitura para isso. Em resumo, o samurai não é um
simples brutamontes com uma espada, e sim um filosofo que vê na espada
uma maneira de equilibrar a mente e o corpo, para conseguir o equilíbrio. É isso
que você precisa alcançar, equilíbrio.
--Esta bem, eu vou tentar decifrar isso aqui, mas você deve saber que
eu não sou um super gênio ou uma maquina de tradução,
precisaria de horas para conseguir alguma informação que me ajudasse
já que meu próprio sensei não me ajuda.
Disse olhando para o pequeno livro, eu estava sendo otimista, provavelmente
levaria dias para eu conseguir decifrar o primeiro símbolo.
--Ora, mas eu já estou ajudando-o, mas enquanto você não
deixar de ser teimoso e imprudente com as palavras, terá de descobrir
o equilíbrio por si mesmo... Por isso providenciei tudo.
Disse ele sorrindo.
--Como assim “tudo”?
--Simples, eu já conversei com Ramon e ele me deu permissão para
transferir seus pertences para essa sala...
Ergui as sombracelhas, com que direito Ramon deu permissão para isso?
Ele podia ser líder do abrigo, mas não tinha o direito de influenciar
em nossas vidas.
--Quem Ramon pensa que é? Disse nervoso, já não bastava
ter que ficar recebendo ordens e broncas a todo o momento por coisas simples,
e agora isso? Era incabível o que estava acontecendo.
--Cale-se agora idiota! Você não sabe nada sobre Ramon. Eu o conheço
há muito tempo, ele é a pessoa que mais se importa com todos!
Daria a vida para salvar qualquer um de nos, sempre pensando nos outros. Ele
salvou todos aqui, e através dele estamos vivos.
Eu me levantei e olhei para o sensei, meus olhos mostrando desprezo e simplesmente
disse:
--Pouco me importa quem ele salvou, ele não tinha o direito.
Ele não se moveu, apenas me observando, então simplesmente puxou
algo do bolso e jogou em minha direção, era uma kunai, e ela
passou bem perto de meu rosto indo bater na parede e caindo com um barulho
seco no chão.
--Esse edifício pertence a mim, e eu permito que Ramon seja o líder.
Aqui, quem faz as regras somos ele e eu, se você não gosta ou
discorda de alguma regra esta convidado a se retirar deste lugar.
Silencio.
--Muito bem, se você quer continuar aqui treinando comigo, deve aceitar
o que eu disser, essas são as regras, entendido? Eu acenei positivamente
a cabeça em silencio. –Ótimo, agora como eu ia dizendo,
você se mudara do seu quarto para cá, e pesquisara se for necessário
o dia inteiro, e por hora esqueça sua namorada, acredite em mim será melhor
assim.
Fiquei um tanto espantado, ficar praticamente trancado o dia todo não
era muito agradável, mas eu quis isso, eu quis ser treinado por ele,
então agora teria de agüentar com as conseqüências.
--Sim sensei, me desculpe.
--Ótimo, disciplina, é uma das coisas que eu mais prezo. Disse
ele, seu olhas serio voltou a ficar sereno.
--Muito bem, você dormira num colchão ao chão, e todo o
dia só poderá sair algumas vezes, pois ficara quase o tempo todo
aqui, pesquisando, e treinando. Se você quer realmente aprender tudo
num espaço curto de tempo terá de ser assim. E mesmo assim ainda
demorara anos para você aprender realmente a usar uma espada de verdade,
por tanto eu o levarei direto a uma aula avançada. E por tanto preste
atenção nas aulas, pois eu só vou mostrar uma vez entendido?
--Sim.
Ele Fez sinal para que eu levantasse e então se dirigiu para o canto
esquerdo da sala onde havia uma espécie de caixa. Lá de dentro
ele tirou duas espadas, mas não era qualquer espada, eram duas espadas
de madeira, ou talvez bambu. Eu não sabia dizer. Instantes depois ele
me presenteou com uma, ficando com a outra e me disse:
--Ouça bem o que vou dizer agora. Existem alguns mandamentos que você deve
seguir para se tornar o verdadeiro sábio da espada. Primeiro, a espada
de um samurai é como um braço, aonde ele vai ela estará junta,
onde ele estiver ela estará. E assim por diante. Segundo, sendo a espada
como seu membro, você nunca deve dar ela a alguém, também
nunca deve deixar seu inimigo tomá-la de você, pois se isso acontecer
significará uma derrota declarada. Terceiro, ao pense, apenas faça.
O terceiro mandamento não ficou muito claro para mim, mas ainda sim
eu empunhei a espada de bambu.
--Vamos lutar? Mas eu nem aprendi...
Ele Fez um sinal de silencio e disse:
--O que eu quero que você faça é tocar uma parte do meu
corpo com o Bokuto, a espada que você esta segurando.
--Simples assim?
--Simples, então após essa luta eu mostrarei o que você vai
aprender.
Depois disso ouve silencio, eu olhava nos olhos dele e vice versa, dois oponentes,
um observando o outro, um analisando o outro. O sensei apertou as duas mãos
na espada e se preparou para atacar, mas eu investi primeiro. Tentei um ataque
na diagonal e...
--Acabou, você perdeu. Disse ele.
Eu olhei e o Bokuto dele estava encostado no meu abdômen. Mas como? Eu
tinha certeza de não ter visto levantar a espada para atacar, então
como ele havia conseguido isso?
--Não mostre seus pontos vulneráveis no começo da luta,
tenha mias cuidado da próxima vez. Vamos lá, de novo!
Mais uma vez nos posicionamos, dessa vez eu me fechei mais, e tentei não
dar um golpe direto, mas um combo, batendo em cima e em baixo.
--Ahhh!!! Gritei, partindo para o ataque, como o planejado eu tentei golpeá-lo
primeiro por cima, e logo em seguida por baixo. Ele, com um movimento rápido
defendeu em cima e em baixo girando ficando atrás de mim, quando eu
tentei virar senti uma batida no ombro.
--Ai.
--Não, nunca vire de costas para o adversário e não deixe
seus movimentos tão óbvios, para alguém mais experiente
fica fácil antecipá-los.
Esse cara, pensei, como ele pode ser ao mesmo tempo tão rápido
e tão preciso?
--Sei o que você deve estar pensando, e mais, acho melhor primeiro ensinar
você como segurar uma espada e posição de pernas.
--Acho que sim. Disse sem prestar muita atenção.
--Antes de tudo você tem que saber que se não quiser realmente
me matar, me atacando, nunca vai conseguir me tocar, você esta se auto
reprimindo, esta com medo de me machucar? Disse ele zombando.
--Lógico que estou sim, eu estou dando meu maximo!
--Não parece, você está nervoso e apreensivo, não
está concentrado como deveria e fica tentando efetuar golpes que não
sabe. Eu disse para você, não pense, apenas faça.
--Ok, eu vou tentar mais uma vez.
--Não, por hora, você vai aprender um pouco mais sobre o básico
para podermos lutar.
1 Hora depois
--Então é isso, devo afastar as pernas num ângulo proporcional
a meus ombros? Parece fácil.
Disse depois de uma hora de explicações e alguns exercícios.
--Será mesmo? Então vamos lá, mais uma vez, tente me
acertar, e desta vez, use tudo o que tiver entendido?
--Sim.
--Preparar, já! Disse ele, começando a se movimentar em minha
direção dentro de um circulo que havia desenhado no chão
para ter como referencia a distancia e a área onde se devia lutar,
chamado de circulo do mestre.
Fiquei em posição de guarda e tentei me concentrar o maximo
que pude. Parti para o ataque golpeando-o com golpes simples, como ele havia
dito para eu fazer.
—
Esta muito de vagar, acelere! Disse ele apenas se defendendo de um golpe
direto na altura dos ombros.
Tentei aumentar a velocidade dos golpes, e ele continuou apenas defendendo,
me avaliando.
“
Droga, não consigo chegar perto o suficiente para encostar nele.”
--Esta pensando demais, deixe que a espada te leve.
O suor pingava todo o momento no chão, quando levei um forte golpe
no estomago.
--Hugh... Gemia, enquanto saliva escorria da minha boca e ia parar no chão,
eu estava ajoelhado, a dor lancinante no estomago me fez ficar sem ar, uma
coisa estava ficando bem clara em minha mente, ele estava atacando agora
para matar, e o teria feito se estivesse usando uma katana de verdade. O
melhor que eu tinha a fazer era fazer como ele havia dito antes, usar a raiva
em meu favor era a melhor opção naquele momento.
--Vamos parar por hoje. Pode ir, tem a tarde inteira de folga, porem esteja
aqui por volta das 8 horas. Disse ele, se virando e indo em direção
a porta da sala.
--Mas sensei, senhor não me ensinou quase nada! Como eu irei aprender
algo assim? Disse para ele, me levantando do chão, ainda sem ar.
Ele parou no meio do caminho, antes de abrir a porta.
--Não posso lhe ensinar tudo, apenas posso lhe mostra o caminho, mas
quem ira fazê-lo é você. E mas uma coisa, não tente
burlar as regras, eu saberei se você não estiver aqui às
oito horas. Disse saindo e fechando a porta
--Droga, pro que ele não pode simplesmente ensinar como uma pessoa
normal, mostrando truques, regras, golpes? Ele só quer que eu lute,
mas lutar sem saber nada não tem sentido.
Mas pensando bem, eu não sabia com quem estava lutando quando a epidemia
começou, mas ainda sim lutei, e ate hoje ainda estou lutando.
Olho para minha própria mão, a cada dia, a cada hora, a cada
momento tudo ficava mais confuso, as apesar disso eu me sentia confortável
naquele lugar, sentia paz, e aquilo era tudo que eu desejava, paz.
--Será que eu consigo? Disse enquanto ainda olhava para minha palma
da mão, de repente a fechei, dizendo para mim mesmo que conseguiria.
Por hora decidi sair do meu novo aposento, e ir ver como estava às
pessoas daquele lugar, ao cômodo onde eu dormiria daqui para frente
ficava no quarto andar, na arte sul do prédio, do outro lado das escadas,
andei devagar, pensando na reação das pessoas, aquilo não
havia sido muito agradável. Eu ainda me lembrava de cada momento.
Ainda na mesma madrugada... Lá estava eu dizendo para o sensei que a
partir daquele momento ele teria que me treinar, e as ultimas palavras dele
antes de tudo foram.
--É melhor se preparar.
Boom. A porta se abriu com tudo, lá fora, do escuro corredor, surgiam
os guardas, policiais, civis, muitos deles ainda estavam de roupa para dormir,
e outros armados ate os dentes. Eles começaram a entrar, todos espantados
mesmo com a pouca luminosidade do lugar com a cena. Eu sentado, ainda de espada
em punho ao lado de um cadáver, o cadáver de Vicente, enquanto
Leonardo estava lá, parado em pé, seu rosto estava suado, mas
apesar disso não aparentava sequer preocupação ou desespero,
que havia mostrado há poucos minutos. Algumas mulheres que estavam no
meio das pessoas que ainda entravam, escondiam seus rostos nos ombros de seus
maridos ou simplesmente me olhavam com desprezo nos olhos, assim como a maioria
das pessoas armadas.
--O que você fez!... Bradou Dante, alto e forte, olhando para mim, com
raiva nos olhos.
--Henrique, você o... Matou? Disse também Paulo, que por mais
que seu rosto estivesse com expressões apavorantes, seu tom de voz foi
um pouco irônico.
Após isso dois policiais vieram para cima de mim, armas em punho, erguidas,
um deles com nome de Marcos, pediu para que eu soltasse a espada imediatamente,
enquanto o outro, Túlio, tirava um par de algemas do bolso.
--Saiam da frente... Bradou uma voz atrás das pessoas, parecia que todos
estavam ali, pelo menos quase todos.
--Afastem-se para que eu possa passar, por favor... Parem vocês dois.
Silencio, os murmúrios pararam na mesma hora, era Ramon, líder
do abrigo, ele olhava a cena com seriedade e ao mesmo tempo, confuso, perguntou
diretamente para Leonardo e eu:
--Quem de vocês dois o matou?
Leonardo o olhou, analisando a situação e finalmente disse:
--Eu causei sua morte.
Ramon ergueu as sombracelhas:
--Você? Mas então por que ele esta com a katana em mãos?
--Sim, ele esta com a katana em mãos, e é verdade que ele matou
o Cabo Vicente com essa katana que esta em suas mãos.
Os murmúrios aumentaram, eu ouvia algumas pessoas falarem de vez em
quando “então ele matou uma pessoa a sangue frio?” ou “covarde”.
--Silencio! Disse Ramon, voltando se para mim, dessa vez.
--Você confirma que com todos os indícios e a palavra deste homem
que você matou o Cabo Vicente?
Eu demorei a responder, pensando se eu poderia sair dessa enrascada desta vez.
Tudo estava contra mim, e nada do que eu dissesse faria diferença, então
melhor dizer a verdade.
--Sim, eu o matei... Exclamações e alguns xingamentos percorreram
a sala lotada agora –Sim, e com esta espada que estou segurando agora.
Ramon veio em minha direção junto com Túlio e Dante, e
mandou-me deixar a espada no chão. E no mesmo momento Túlio me
algemou e me levou em direção a saída, rapidamente eu
olhei para Leonardo, que continuava lá parado, Ramon estava indo em
direção a ele enquanto outros policiais se aproximavam e analisavam
o corpo inerte de Vicente.
“
Estou perdido”. Por um momento pensei em Bianca e em Robson que haviam
chego comigo ao abrigo, será que se eu fosse expulso eles também
seriam...
--Henrique, o que esta acontecendo, eu escutei tiros, oh não.
Era Bianca, ela estava parada perto de Ana e Robson que olhavam sem conseguir
acreditar, que eu estava algemado, sendo conduzido por dois policiais a algum
lugar.
--Desculpe. Murmurei para ela, e continuei andando, agora parecia que o tempo
não passava, eu queria sair logo dali, esconder minha vergonha por ter
decepcionado ela.
Sem nenhuma palavra os policiais me levaram para uma pequena sala, uma espécie
de antigo deposito, ela era pequena, e fedia a urina, mas mesmo assim, eu não
reclamei, logo que entrei, eles fecharam a porta, e conversaram entre si, eu
não podia ouvir o som muito bem, mas deu para ouvir partes da conversa:
--Eu nunca achei que ele fosse um assassino... Disse o primeiro.
--Mas era meio obvio, sobreviver esse tempo e daquele jeito como o encontramos,
era necessária muita frieza... Respondeu o outro.
--E quanto aos amigos dele? Continuou o primeiro
--Não sabemos direito, não podemos culpá-los pelo que
ouve se nem sequer estavam na cena do crime. Respondeu novamente o outro em
tom defensivo.
--Mesmo assim, acho que devemos ficar de olho neles, nunca se sabe. Terminou.
“
Droga!!” O que eu menos queria estava acontecendo, Robson e Bianca estavam
levando a culpa pelo que estava acontecendo comigo, agora a situação
estava se complicando de verdade, como se já não bastasse eu
estar preso, eles também poderiam pagar por algo que não fizeram.
Mergulhei num profundo estupor, pensando, prevendo, querendo que coisas ocorressem.
Enquanto o tempo não passava pra mim, la fora deve ter passado, pois
algum tempo depois de eu estar preso, em torno de uma hora, apareceu um vulto
lá fora, e pela fresta entre a porta e o chão, eu podia vê-lo,
mas não escutá-lo. Provavelmente ele estava falando algo baixo
para alguém que guardava a porta. Alguns segundos depois a porta se
abriu e por ela entrava Paulo e o guarda que estava guardando a porta, Dante.
--Opa, você me assustou Henrique, cheguei a pensar que teria de me jogar
do quinto andar por sua causa, garoto. Disse Paulo, brincando, obviamente pelo
que e já havia visto, esse humor um tanto negro e ao mesmo tempo bobo
era comum a sua personalidade, inclusive o fazia um pouco desastrado, derrubando
ate mesmo sua arma ou tropeçando nos próprios pés.
--O que quer dizer? Perguntei, erguendo as sombracelhas.
--Ele quer dizer que seu julgamento já aconteceu, vamos dizer, e você foi
declarado inocente de todas as acusações, assim como seu professor.
Disse Dante.
Me ergui no mesmo momento, não acreditando no que eu acabara de ouvir:
--Então... Eu estou... Livre? Perguntei, mostrando as algemas para ele
que na mesma hora tirou um molho de chaves do bolso e soltou as algemas.
Assim que ele as retirou eu esfreguei automaticamente os punhos que estavam
doloridos, então estiquei os braços e disse:
--Por quê? Como?
Paulo sorriu, e coçou a cabeça fazendo uma careta tentando retirar
a informação de algum lugar do cérebro:
--Hã, bem acho é devido às informações encontradas
pelo Capitão Ramon com o senhor Leonardo.
Fiz cara de desentendido, e Dante esclareceu:
--Ora, Paulo, você não se lembra do que me disse agora? Droga
cara, você tem que ver um medico. Mas enfim Henrique, Leonardo nos forneceu
uma prova importante que você matou Vicente em legitima defesa.
--Que prova? Perguntei.
--Uma carta escrita a punho, falando sobre a chantagem de Vicente para com
Leonardo. E também ouvimos Leonardo, ele nos deu um depoimento bem útil.
Respondeu Dante.
--Bem, acho então que já podemos ir não é mesmo.
Disse Paulo com sono.
Dante e Paulo saíram da pequena e imunda sala junto comigo. Quando chegamos
lá fora, Dante olhou para mim e disse sorrindo:
--Bem, acho que te devo desculpas, você estava apenas no lugar errado,
mas na hora certa, tanto que salvou uma vida... Mas agora acho que você terá de
tomar mais cuidado com seus atos, pois nem todos irão entender como
entendemos o que você fez. Completou ele serio.
--Ok, entendo, bem se é assim eu vou para meu quarto, boa noite Dante,
Paulo.
--Boa noite! Disse Paulo bocejando, mas ainda entusiasmado. –Ah, e para
que voe não fique com algum tipo de trauma depois disso, Ramon concedeu
a Leonardo com a aprovação de todos, sua tutela.
--Minha tutela? Perguntei incrédulo com aquela afirmação.
--Sim, bem, você ainda é menor de idade, lembra-se? Então
enquanto for Leonardo terá responsabilidade de cuidar de você e
responder por seus atos. Disse Dante.
--Isso é... Serio? Perguntei mais incrédulo ainda, aquela com
certeza era uma situação constrangedora, acho que eu com quinze
anos já poderia me virar muito bem sozinho.
Os dois afirmaram com sinais de cabeça, e Paulo acrescentou:
--Bem, de qualquer forma, eu ainda estou contente por Henrique ser inocentado,
por um momento achei que teria que dar algumas lições de moral
para ele. Disse ele estufando o peito, mas parando na mesma hora que Dante
deu um tapa forte na cabeça de Paulo, esse gemeu de dor e saiu andando
junto com Dante na direção oposta das escadas, que era para onde
eu iria.
Ainda no caminho escutei Paulo falando alto em tom bem humorado:
--Bem sabe sobre aquela idéia do medico? Bem eu ate iria lá,
fica há uma quadra daqui, mas não sei por que, mas tenho sérios
pressentimentos que ele não poderá me atender.
--Droga, cale-se seu retardado! Respondeu Dante, que de certo havia dado outro
golpe em Paulo.
O silencio veio e então eu fui para meu quarto e cai literalmente no
sono, sendo esse interrompido algumas horas depois pelo sensei Leonardo que
me acordava a base da técnica do “balde de água”.
--Henrique? Cara, aonde você vai?
Rapidamente levante i rosto e olhei para a pessoa que havia falado comigo,
era Robson, que me despertou da lembrança daquela madrugada.
--Ah, sim, bem eu... Vou falar com a Bianca, acho que ela merece uma explicação.
--Hun, certo, bem ela estava no quarto da Ana da ultima vez que a vi. Bem,
o caso é que eu te acompanharia, mas agora, to ocupado, Ramon me pediu
para ajudar ele no metrô.
--Metro? Perguntei erguendo as sombracelhas.
--Cara, você não se lembra que eu já fiz um curso de
eletrônica uma vez? Pois bem, enquanto você era preso, o técnico
em eletrônica falou comigo e disse se eu mesmo com os conhecimentos
básicos não podia ajudá-lo no trabalho em retirar equipamentos úteis
e outras coisas do metro, enquanto eles fazem a limpeza da Sé.
Isso era bom por parte dele, mas no meio de tudo isso havia uma incógnita,
por que limpar o metrô? Em direção a Zona Sul e não à Zona
Norte da cidade?
--Robson, você sabe o por quê...
--Não, e nem me pergunte, não faço a mínima idéia
do que eles pretendem limpando o Metrô, eu também pensei nisso,
mas não faço a mínima idéia. Interrompeu ele.
--Bem, de qualquer maneira isso não interessa muito agora.
--É, concordo, mas não se preocupe com relação à Bianca,
ela me pareceu bem calma até. Disse ele já andando indo em
direção as escadas.
--Boa tarde pra você também. Disse de mau humor com a brincadeira.
Olhei para o auto por um momento, as luzes do corredor estavam apagadas,
e uma sombra emergia da janela ao final dele devido à posição
do Sol naquela hora do dia. Depois de alguns segundos pensando numa desculpa
decente para dar a Bianca pelo susto na madrugada, comecei a andar vagarosamente
ate chegar ao suposto quarto de Ana.
Bati na porta apenas duas vezes, e ela se abriu, era Ana, estava usando uma
saia jeans e uma blusa moletom, seu cabelo ruivo estava amarrado e ao me
ver ela se assustou:
--Ah, Henrique, você... Esta... Bem?
Enquanto ela falava olhei por cima de seu ombro tentando ver o que havia
no quarto. Ele era, assim como os outros pintado com tinta branca, num canto
uma cama com lençóis rosa estava desarrumada e no outro canto
havia um pequeno armário de mogno, mas em nenhum lugar eu via Bianca.
--Sim, estou, sabe ontem, foi somente um engano. Respondi vago.
--Então você não matou aquele homem?
Suspirei, sem saber o que exatamente responder, por fim resolvi dizer a verdade.
--Sim, eu matei aquele homem, porem por legítima defesa. Respondi,
quando eu disse sim, seus olhos quase saltaram de seu rosto.
--Ah, bem então você esta livre... Não é?
Apenas confirmei com o rosto e insisti na pergunta:
--Você sabe onde a Bianca esta?
--Sim. Respondeu ela –Ela saiu já faz algum tempo daqui, disse
que iria refrescar a cabeça.
Eu olhei para o chão, pensativo, então sorri para Ana e disse:
--Certo de qualquer jeito obrigado. E fui em direção às
escadas novamente, eu já sabia onde ela estava.
Subi as escadas ate a cobertura do edifício. De um lado vi o enorme
gerador de energia, trabalhando sem parar, desde que havia chego ao abrigo,
sempre me perguntei como haviam conseguido erguer aquele gigantesco gerador
até ali. Andei um pouco e vi onde ela estava, sentada em cima do que
parecia uma caixa d’água feita de concreto. O vento batia em
seus cabelos e ela fungava, parecia que havia chorado há pouco tempo.
Devagar subi as escadas de metal e cheguei ao topo da caixa d’água.
Ela não percebeu que eu estava ali, então eu disse:
--Um belo dia não é mesmo?
Ela se assustou e virou se rapidamente, assustada, quando me viu seus olhos
brilharam e uma lagrima escorreu por seu belo rosto. Sem dizer nada ela se
levantou, vestia uma camisa branca e uma calça esportiva, veio ate
mim e me abraço forte chorando e quase me derrubando.
--... Seu bobo... Por um momento... Achei que iria te perder para sempre.
Disse ela em meio de soluços, seus olhos antes azuis estavam vermelhos
devido ao choro, porem, eu limpei a lagrima que escorria por seu rosto. Olhei
então em seus olhos e disse:
--Você nunca ira me perder, aonde você for, eu estarei contigo.
Não chore, ou você ira me deixar todo encharcado. Brinquei.
Ela deu dois passos para trás, e esfregou os olhos e então
olhou para o chão, triste, dizendo:
--Você... Eu te amo, e eu não quero mais ver ninguém
que eu amo...
Então dessa vez eu tomei a iniciativa e a abracei a beijando em seguida,
com um olhar sereno disse:
--Eu nunca vou te abandonar e onde você estiver eu sempre estarei lá,
te protegendo.
Ela continuou chorando então eu levantei o seu rosto com as mãos
e disse algo que nunca havia dito para nenhuma garota antes, nenhuma de que
eu tenha gostado verdadeiramente como essa:
--Bianca, eu também te amo.
Depois disso a beijei novamente e fiquei com ela ali sentado em cima da caixa
d’água contando o que havia acontecido.
Alguns minutos depois ela disse:
--Por que não me contou tudo, por que simplesmente escondeu de mim.
--Fiquei com medo. Respondi. –Medo de te alguma forma te envolver em
tudo isso. Entenda, eu só fiz isso para protegê-la.
Bianca olhou para o chão e então disse:
--E agora, você esta livre, foi inocentado, mas o que vai acontecer
agora?
Pensei por um instante e então disse:
--Eles concederam minha tutela para Leonardo.
Ela arregalou os olhos.
--Como assim tutela, eles estão querendo que você...
--Exato, estão querendo que ele tome conta de mim, acham que eu possa
ter no futuro problemas devido aquele homem que matei. Digo olhando para
minhas mãos.
Bianca olha novamente para a cidade, daquele ponto do prédio dava
para ver boa parte da cidade, deserta, uma nuvem meio cinzenta estava no
ar e a antiga população de pombos havia sido substituída
por alguns corvos que sem alimento ficavam apenas parados em cantos diferentes
da cidade.
--Sabe, eu tenho que confessar uma coisa também, no começo,
quando eu o conheci também achei estranha essa sua frieza.
Uma leve brisa fazia os corvos começarem a voar.
--Eu só sou... Diferente, só isso. Digo deprimido, sabia por
que daquela desconfiança, eu sempre fui um pouco frio, mas depois
da epidemia, eu estava não só mais frio como também
mais forte e mais serio o que fazia de mim uma pessoa suspeita. Olhei para
ela e então disse sorrindo, mudando de assunto:
--Não se preocupe, eu ainda não virei um zumbi. Acho que agora
vou poder ficar mais seguro, pois estou treinando Kendo com o sensei Leonardo.
--Então isso quer dizer que teremos menos tempo para ficar juntos.
Disse ela olhando para mim.
Eu balancei a cabeça negativamente, e disse a ela:
--Não, eu já disse não vou te abandonar, não
importa o que aconteça eu sempre estarei ao seu lado. E alem disso
hoje tenho a tarde inteira para ficar aqui com você.
Ela sorriu e me beijou. O resto da tarde ficamos lá conversando e
jogando conversa para o ar. Então finalmente quando o Sol já começava
a se por. Fomos ate o refeitório jantar, quando chegamos lá,
já havia muitas pessoas jantando. E muitas delas começaram
a alar alto, e eu sabia de quem elas falavam. Mas continuei calmo e me sentei
junto de Bianca ao lado de Robson e Ana que já estavam ali, num canto
do enorme cômodo.
--E ai cara, parece que sua popularidade aumentou signitivamente. Disse Robson
apertando minha mão.
--Devo dizer que não era exatamente esse tipo de popularidade que
eu buscava. Respondi.
Um barulho de cadeira sendo arrastada me fez olhar para tas, foi quando eu
vi, havia um homem de aproximadamente quarenta anos, loiro, usava calça
jeans e uma camisa pólo, ele e sua mulher estavam sentados a duas
mesas de distancia, os dois se levantaram e ele disse em voz alta para que
todos escutassem:
--Eu me recuso a sentar ao lado de um assassino! Bradou ele e outras pessoas
também acenaram positivamente com a cabeça, mais ou menos metade
das pessoas ali me olhava com desprezo, ainda sim continuei calmo, me virei
e comecei a comer a sopa enlatada que havia sido servida há pouco.
--Ele se acha no direito de matar as pessoas quando bem entende! Eu não
sou o brigado a continuar a comer aqui nesse lugar com esse moleque metido
a assassino. Se ele não sair agora mesmo eu irei tirá-lo de á força.
Algumas outras pessoas se levantaram também e vieram em minha direção,
eu ouvia os passos delas, mas não me importei Bianca ao meu lado estava
um pouco assustada assim como Ana, já Robson estava nervoso a ponto
de se levantar, e quando ele iria fazê-lo, eu segurei seu pulso e disse
baixo:
--Não. Se eles querem nos tirar daqui terão que lidar com Ramon,
nos não fizemos nada de errado então sente-se ai e fique quieto.
--Mas Henrique, se eles...
--Se tentarmos algo daremos uma razão real para que nos tirem daqui,
então não faremos nada.
Ele suspirou e se conteve, enquanto eu belisquei mais um pouco da sopa.
Os passos continuaram vindo ate que dois rapazes apareceram ao meu lado,
mas lá na porta do refeitório Leonardo apareceu e bradou:
--Os dois, se tocarem nele vão ser expulsos desse abrigo!
Todos se viraram para Leonardo, que com sua voz calma, mas forte disse:
--Vocês, tentam a todo custo parecerem úteis quando Ramon esta
por aqui, mas por suas costas tentam defrontá-lo, não é mesmo?
Mas se esquecem que eu sou o dono deste lugar e por tanto também tenho
poder de dar ordens aqui.
Algumas pessoas começaram a murmurar e então Ramon também
apareceu por trás de Leonardo junto de alguns policiais, eles estavam
suados e sujos de sangue e o cheiro forte de podridão começou
a surgir no ar.
--Isso mesmo, vocês acham que podem tocar nele sem sofrer conseqüências?
Eu já disse pela manhã que ele foi inocentado de todas as acusações
e que quem não gostasse disso poderia sair por essa porta e ir embora.
--Mas Sr. Ramon, ele matou aquele cara e temos o direito de não querer
sua companhia. Disse o homem loiro que a pouco havia se levantado da cadeira.
--Eu já disse antes e volto a repetir, quem não quiser a companhia
de outro aqui pode se retirar, ou então sente-se e coma como todos
os outros, estou farto desse tipo de coisa, a partir de hoje estarei escolhendo
um conselho para me ajudar nas decisões aqui.
Todos ficaram em silencio, e Ramon continuou falando:
--Por tanto eu escolherei as pessoas que irão participar do conselho,
e algumas delas são Leonardo, Dante, Igor e Marcos.
Leonardo, meu sensei foi escolhido, alem de Dante, um policial experiente,
Igor era policial e técnico em informática, já Marcos
era um civil comum, tinha em torno de trinta e cinco anos, mas era formado
em engenharia civil e era bem inteligente, eu não tinha contato com
eles, mas sabia que eles eram os mais capacitados para um conselho.
Depois disso ninguém mais reclamou comigo, então comemos tranquilamente.
Logo depois de terminarmos, me despedi de Bianca no quarto dela e fui para
meu novo quarto, a sala de treinamento.
Chegando lá, não encontrei ninguém e fiquei surpreso
por Leonardo não estar lá. Ainda sim, decidi obedecer às
ordens dele e procurei por um livro que me ajudasse no treinamento. Depois
de alguns minutos achei um. Era um livro surrado, capa vermelha e dentro
dele havia instruções para melhorar seu rendimento no Kendo
alem de alguns golpes ilustrados. Logo estava treinando, me exercitando e
imaginando um jeito de cumprir o que o sensei queria. Se eu fosse pensar
bem, na teoria tudo era fácil. Eu tinha que apenas tocar o sensei
com uma parte da espada de bambu, o Bokuto. Porem acabei descobrindo que
aquilo não era tão fácil quanto eu imaginava, o sensei
era rápido e forte, um adversário difícil de encarar,
mas apesar disso eu continuava acreditando que poderia alcançá-lo
um dia.
Depois de algumas horas treinando eu fui dormir confiante que durante àquelas
horas de treino, minha habilidade com espada havia aumentado pelo menos um
pouco.
No dia seguinte, fui acordado com uma pancada na cabeça, era o sensei,
que bateu com o Bokuto na cabeça, e disse para eu me levantar e treinar.
--Já é de dia, vamos, levante-se, hoje eu não irei pegar
tão leve como ontem. Disse ele.
--Que horas são agora. Perguntei bocejando.
--Seis e meia da manhã, vamos preguiçoso, não tenho
o dia todo.
Mal humorado me levantei fui ao banheiro ao lado da sala e escovei os dentes,
então voltei para a sala. No chão havia um enorme circulo desenhado
com giz.
Aquele circulo seria nossa área de treinamento.
--Espero que tenha treinado ontem Henrique.
--Sim. Disse confiante.
--Muito bem, hoje eu irei ensinar a você alguns golpes e depois lutaremos
novamente, com o mesmo objetivo da luta anterior.
Ele me ensinou alguns golpes e eu fiquei praticando ate umas dez horas da
manhã. Às vezes ele parava meu treinamento e me dava dicas
de como agir em alguma situação. E eu o obedecia, aquilo era
tudo que eu queria, estava aprendendo algo muito útil no futuro.
Então, por volta de meio dia fizemos uma pausa para almoço,
o sensei trouxe comida para mim dizendo que naquele dia ficaríamos
o dia todo treinando, para eu me aperfeiçoar.
De volta ao treino, ele me ensinou algumas coisas úteis para alguém
que queria lidar com uma espada. Basicamente conceitos filosóficos,
como: honra, dignidade, simplicidade, e frieza.
Então lá pelo meio da tarde, começamos a luta, como
no dia anterior porem com uma modificação:
--Eu atacarei para machucar e acredite, sem proteção o Bokuto
pode machucar muito, então lute com seu maximo. Disse ele se preparando
para a luta.
Eu concordei co ma cabeça e pensei comigo mesmo as dicas que ele havia
me passado antes e como eu deveria agir.
“
Instinto”, pensei. Eu não tinha que pensar e fazer os movimentos
eu teria que apenas fazer, por instinto, ou meus golpes ficariam previsíveis.
Foi o que fiz, porem dois segundos após o inicio da luta havia sangue
no chão e era meu.
--Dro... Droga. Disse olhando para meu próprio sangue no chão,
eu estava de joelhos, e minha boca sangrava devido a um golpe direto em meu
rosto.
--Eu disse que atacaria para valer, você parece não prestou
atenção ao meu aviso. Disse o sensei frio.
--Não, estou dando meu maximo, só que isto é muito avançado
pro nível do meu treinamento.
O sensei suspirou e disse:
--Isso é seu treinamento, se não é capaz de agüentá-lo
desista, ou fique aqui e tente outra vez.
Eu sorri para ele e disse:
--Não vou desistir nunca!
Ele ergueu as sombracelhas e então me levantei e me preparei para
atacar, desta vez consegui defender alguns golpes dele, porem numa investida,
acabei levando outro forte golpe no estomago, o que me Fez ficar sem ar,
e cair no chão, ofegante.
--Eu vou repetir, mas uma vez, seus sentidos, a visão, a audição,
o olfato, podem ser enganados, você precisa usar seu instinto e saber
antecipar o que seu adversário irá fazer antes que ele faça,
ou perdera para qualquer um que lutar.
--Sim, sensei.
Levantei-me, devagar e o ataquei novamente levando um forte golpe no braço
que me fez gemer de dor.
O sensei olhou para mim, e então disse:
--É só isso que você tem? Então acho que podemos
encerrar por hoje. Amanhã, não te ensinarei nada, e assim por
diante enquanto não conseguir cumprir seu primeiro objetivo. Disse
e saiu.
Naquela noite eu sofri um pouco, devido às dores que eu tinha no braço
direito, onde ele havia acertado mais cedo.
“
Não vou desistir!”, pensei então me lembrando de quando
era pequeno, tinha sete anos e numa tarde, estávamos num sitio, somente
eu e meu pai. Ele havia dito a mesma coisa enquanto eu não era capaz
de acertar um alvo com uma espingarda, meu pai me falava algo que eu nunca
havia esquecido.
--Tolo! Dizia ele.
Eu estava no chão, como o ombro dolorido e com o estomago roncando
devido à fome. Há pelo menos 10 horas eu não comia nada,
a não ser ficava ali, deitado no cão tentando atirar com uma
arma que eu nem mesmo sabia o nome e como funcionava.
--Mas pai, eu estou com fome, não agüento mais. Disse, o cansaço
parecia evidente e qualquer um que me olhasse, manos para meu pai, ele sempre
havia sido rígido e queria que eu me esforçasse o maximo, ultrapassando
meus limites.
--Mariquinha. Disse ele –Se não pode nem mesmo atirar com uma
espingarda, como poderá algum dia ir para o exercito?
Eu tinha sete anos, não fazia idéia de como era o exercito
nem como eles treinavam, só sabia que não agüentaria por
muito mais tempo ali naquela posição, meus braços já estavam
dormentes.
--Se você quer realmente virar um homem algum dia, terá de aprender
o mais cedo o possível a usar uma dessas.
--Mas eu não consigo nem mesmo segurar ela... Repliquei ml humorado
quase chorando devido à dor na coluna e os braços dormentes,
os cotovelos estavam começando a sangrar devido ao atrito com o chão.
--Então nunca poderá proteger alguém que ama! Bradou
ele.
Eu comecei então a chorar, de dor e por não conseguir fazer
aquilo que me foi pedido.
--Pare de chorar e continue tentando, carregue a arma.
Assim o fiz, e atirei novamente errando por pouco o alvo.
--Desista. Disse ele –Você é fraco demais para proteger
os outros e a si mesmo. Então ele foi embora, e eu fiquei ali, tentando
me levantar, então quando finalmente consegui fui para a casa que
ficava a um quilometro dali. Quando cheguei em casa não havia nenhuma
comida pronta e eu com os braços dormentes tive que comer o que conseguia
pegar com as mãos.
Durante aquela noite chorei muito, por não conseguir fazer aquilo,
por que não era capaz de atirar num alvo como aquele? Então
enquanto o Sol nascia me levantei, todo dolorido, e fui ate onde a espingarda
estava, peguei munição e fui para o lugar onde estava o alvo.
Me deitei no chão e mesmo com dor continuei treinando, até que.
--Consegui! Gritei, um pequeno buraco no meio do alvo havia surgido logo
após o ultimo tiro.
A dor havia sumido, tudo que eu sentia agora era orgulho de mim mesmo, e
alegria por ter acertado o alvo.
--Assim espero de meu filho.
Disse alguém que surgiu do meio das sombras das arvores em volta.
Era meu pai, ele estava sorrindo , chegou ate mim e me levantou dando um
abraço, então me falou que tudo aquilo Havaí sido uma
prova para saber realmente se eu tinha o fogo e a vontade que minha família
tinha, a vontade de lutar e sobreviver. A partir daquele dia, eu aprendi
o que era não desistir e continuar mesmo que não houvesse esperança.
--É isso. Pensei, voltando a realidade. –Pai, você tinha
razão, eu era apenas uma maricas que não tinha coragem de enfrentar
as barreiras que apareciam pela frente. Agora entendo o que você queria
dizer o tempo todo.
Me levantei da cama então e fui procurar um Bokuto. Achando-o comecei
a treinar, pela noite inteira foi assim, treinando, ate que ele chegou.
Leonardo entrou na sala com o Bokuto na mão, mas parou de repente
quando me viu de pé, todo suado, treinando.
--Ora já esta acordado? Disse ele.
--Há muito tempo. Disse sorrindo, ofegante.
--Ora isso é bom, então? Preparado para a luta de hoje? Como
eu disse antes não vou ensinar mais nada a você enquanto não
conseguir cumprir com seu objetivo.
--O que esta esperando, já estou com o Bokuto na mão.
Então fui para cima dele, dessa vez eu estava mais preparado, e mesmo
que cansado estava me defendendo bem dele ate que um golpe forte no meu pescoço
me fez desmaiar.
Alguns momentos depois acordei, Leonardo estava olhando minha mão,
que estava calejada por tanto treinar com o Bokuto aquela noite.
--Você se esforçou. Merece reconhecimento por isso, mas só esforço
não basta, vamos levante-se, e vamos tentar de novo.
Então o dia todo irando o intervalo para almoçar, passei na
sala lutando com o sensei. Naquele dia desmaiei por mais duas vezes, de cansaço,
mais ainda sim não desisti.
--Desista, descanse por hoje, amanhã tentaremos novamente.
--Não, eu vou continuar. Disse me levantando, cambaleando de cansaço.
--Não, amanhã. Disse ele e saiu da sala.
Eu me deitei, não iria desistir tão fácil, então
decidi por hora dormir um pouco e depois continuar treinando.
E assim por três dias tentei tocar o sensei com o Bokuto, mas sem sucesso,
eu estava com hematomas por todo o corpo, mas ainda sim não desistiria.
--Vamos. Disse no quarto dia, quando mais uma vez ele havia me nocauteado.
-Não, você já esta no quarto dia, e esta machucado. Melhor
parar por alguns dias. Disse ele.
--Eu disse não! Disse ofegante.
Então me levantei e parti para cima dele, se aquela seria o ultimo
round, teria de fazer o que era para eu fazer agora. Ataquei por baixo, mas
ele defendeu, por cima, diagonalmente, ele defendeu, me atacou frontalmente,
mas consegui conte-lo então.
--Muito bem. Disse ele ofegante olhando para seu próprio estomago.
Eu, que estava com muitas dores não consegui enxergar direito, mas
quando olhei para onde a espada estava, senti uma alta dose de adrenalina
seguida por uma sensação de missão cumprida, porem tudo
isso durou pouco. Meu corpo já estava muito cansado e debilitado,
uma onda de fraqueza invadiu meu corpo, então eu simplesmente cai
no chão, inconsciente.
Quando voltei a ficar consciente, vi que alguém acariciava meu cabelo.
Tentei abrir os olhos, mas meu corpo inteiro doía, então fiquei
lá mais um tempo quieto, com os olhos fechados. E assim permaneci
por dois minutos até que decidi abrir os olhos e vi algo que não
poderia me deixar mais feliz. Era Bianca, ela estava lá, enquanto
acariciava meu cabelo, e me olhava com um sorriso no rosto, dizendo:
--Oi, você esta sempre por aqui?
Sorri também e disse:
--É, eu sempre estou pro aqui.
Então olhei para os dos lados, nada do sensei, mas outra coisa que
vi me deixou um pouco perturbado.
Eu estava nu. E por todo meu corpo haviam hematomas, estes que ela estava
passando uma espécie de pomada. Fiquei um pouco encabulado, então
tentei me levantar, sem sucesso. Meu corpo estava rígido e nada que
eu fizesse adiantava, mas Bianca deve ter percebido isso, então disse:
--Não se envergonhe, pro favor. Eu estava vindo para cá te
visitar, pois estava preocupada, mas quando cheguei aqui encontrei aquele
seu professor, dizendo que você havia ficado inconsciente então
me disse se eu poderia cuidar de você por alguns minutos enquanto ele
iria buscar alguns panos e água. Então me deu essa pomada.
--Não estou envergonhado... Somente cansado.
Ela então me ajudou a me vestir. Fiquei por um tempo sentado, quando
o sensei Leonardo adentrou na sala.
Ele estava com algumas ataduras e uma vasilha com água fervente.
--Ora, vejo que cuidou dele, ótimo. Obrigado, mas agora você terá de
me ajudar a colocar ataduras nele.
Tentei me esquivar dizendo:
--Não preciso ficar enfaixado, eu sei me cuidar, ai. Uma pontada no
braço direito adormecido me fez ficar parado tempo o suficiente para
eles enrolarem com as ataduras.
--Você é teimoso, já te disse para ficar quieto. Disse
ele serio, mas logo depois sorriu. –Estou realmente orgulhoso, desculpe
por eu ter forçado você a se machucar, mas era necessário
essa prova.
Eu estava muito cansado, mas ainda sim consegui dizer uma frase inteira:
--Acho então que eu mereço um descanso, droga, meu corpo esta
todo amortecido.
--Isso é normal. Disse Leonardo. –Na verdade por três
dias você poderá descansar, pois segundo Ramon, a limpeza na
estação de metrô Sé foi completada ontem.
Bianca ergueu as sombracelhas e eu fiquei paralisado com a noticia:
--Quer dizer que então...
--Sim, exato, Ramon esta livre para treiná-lo também agora.
Eu sorri, aquela era uma ótima noticia, porem pro hora a única
coisa que eu poderia fazer era descansar para o treinamento em Kombato.
*Naquele momento há alguns quilômetros dali*
Um homem entra numa sala branca, toda decorada com quadros e obras de arte,
a sala era larga e tinha um formato arredondado, num canto onde a luz da
sala era mais fraca, um homem adulto fumando um charuto posava-se sentado
na cadeira de coro junto à mesa de carvalho. O homem parecia aguardar
uma ligação, e olhava continuamente para o telefone em cima
da mesa. Assim como ele esperava seu mestre não atrasaria, ontem ele
havia dito que ligaria nesse horário. “Ele nunca se atrasa”,
pensou, mas também não havia como se atrasar, pois sendo o
homem muito rico e poderoso como era, podia bem entender escolher o horário
que mais o agradava. E assim como esperava, logo o telefone ligou, rapidamente
o homem o atendeu, dizendo com sua voz suave e fria:
--Alô?
Silencio enquanto o homem do outro lado da linha falava, quando ele falou
novamente sua voz estava mais satisfeita do que nunca:
--Sim, como eu esperava. Meus homens já iniciaram a operação,
em breve o senhor terá em suas mãos a arma mais poderosa já feita
aqui.
Disse e desligou o telefone, um sorriso surgiu em seu rosto a partir de agora,
todos aqueles que haviam sobrevivido naquela metrópole estavam condenados
a morte, e ele era o responsável por isso.
Ligou o interfone e chamou por seus homens retransmitindo as ordens recebidas
por ele. Faltava pouco para a operação começar, e agora
era uma questão de tempo para que todos aqueles que permaneciam em
abrigos ou refugiados morressem.
"
C.R.A.Z.: Centro de Resistência Anti-Zumbi.
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