Crônicas de um sobrevivente

 

 

[Capítulo 10] Dois mestres, um aprendiz
[10]

"Eu morri? Será que estou no paraíso ou algo parecido? Está tudo tão calmo, nenhum barulho, acho que tudo que passei foi um sonho, talvez eu ainda esteja em casa, deitado em minha cama, e minha família... Todos vivos, e esperando para me dar o “bom dia” de toda manhã... Mas será mesmo um sonho, tudo que vivi nesses últimos dias? Por que meu braço dói? Eu não deveria sentir dor, não, deve ser somente psicológico, mas por que continuo sentir cheiro de sangue, sangue podre, SANGUE MORTO..."

Já é de manhã, e a falsa esperança de que tudo não passasse de um sonho não durou menos de um minuto, o tempo necessário para minha visão voltar ao normal e minha cabeça pender para o lado e ver um enorme hematoma no braço esquerdo.
--Droga, é real... Resmunguei.
Hoje à noite, eu havia tido o mesmo pesadelo, que havia me deixado sem sono muitas vezes. Eu estava dormindo, e quando acordava, via minha casa cercada de zumbis, eles começavam a entrar aos montes e eu nada podia fazer, e sempre quando os zumbis me cercavam, eu acordava, dessa vez não havia sido diferente.
--Saco.
Disse após uma tentativa frustrada de me levantar. A dor em meu braço era lancinante. Depois de me esforçar um pouco mais, consegui ficar sentado em cima da cama. Olhei para o chão, tentando me lembrar das ultimas cosas que haviam acontecido ontem.
Branco... Nada, eu não conseguia me lembrar de nada, só de ter tomado um banho, e de ter jantado decentemente, depois Bianca veio ao meu quarto, e... Uma gota de sangue escorreu da minha cabeça e caiu no chão. Minha mão voou para minha testa, onde um enorme curativo estava molhado pelo sangue que vazava, provavelmente por que eu não deveria estar me mexendo. Uma leve batida na porta me fez voltar à realidade.
--Henrique? Você esta acordado?
--Ah, estou sim, pode entrar. Respondi.
A porta se abre, e Robson apareceu nela, ele também estava com alguns curativos pelo corpo, e seu braço direito estava enfaixado, suspenso por uma tipóia, imediatamente lhe perguntei:
--Ei, você não quebrou o braço, não é?
--Não, apenas uma luxação, em breve estarei de volta à ativa. Respondeu ele.
--Pelo menos você não tem um enorme corte em sua cabeça. Respondi sorrindo, satirizando a situação.
--Obviamente não, só espero que isso não o torne mais idiota do que já é? Respondeu ele também sorrindo.
Por um instante ouve o silencio, essa era o tipo de coisa que o Sergio costumava dizer.
--Não se preocupe, estamos salvo, é isso que importa.
Disse Robson, baixando a cabeça num sinal de tristeza.
--É eu sei, mas pensar que tudo isso poderia ser evitado se nos estivéssemos mais preparados.
Respondi, olhando para o alto, aquilo era pura verdade, eu sempre fui fã de historias que retratavam o planeta cheio de zumbis, mas, porém mesmo assim eu nunca acreditei fielmente que isso pudesse acontecer.
--Isso seria impossível, nos não sabíamos que isso aconteceria e mesmo que soubéssemos quem acreditaria em nos?
--É eu sei, do mesmo jeito, pessoas morreriam, mas ainda sim...
--Não se preocupe, eu sei como se senti, eu também perdi muitas pessoas queridas naquele dia, mas acredito que elas não iriam querer que nos desistíssemos agora.
Concordei com a cabeça, apesar de eu não ter visto minha família morrer, eu sabia pelo quão rui meles devem ter passado, sofrimento, a morte, a dor...
--A gente vai sair dessa. Disse Robson batendo em meu ombro bom com a mão.
--Sim, claro.
Ouvimos um barulho, que segundo Robson indicava que era hora do café da manhã. Saímos do quarto e seguimos pelo corredor do lado direito que ia dar nas escadas, que agora eram usadas constantemente, já que o elevador estava quebrado, mas não por falta de energia. Coisa alias que não faltava no prédio inteiro, e, segundo Ramon, devia se a um grande gerador que havia no ultimo andar, movido a diesel. Por isso a fumaça que víamos da casa de Bianca. Quando chegamos ao segundo andar, encontramos uma boa parte das pessoas tomando café, provavelmente nem todos haviam acordado ainda. Quando passávamos por eles, alguns nos cumprimentaram, outros permaneceram calados nos olhando, e alguns cochichavam. Provavelmente não havíamos conquistado a confiança de todos, algo normal, eu pensava, já que para eles nos éramos estranhos.
Quando chegamos a uma mesa vazia, e nos sentamos, uma senhora um pouco gorda, morena e de aproximadamente quarenta anos se aproximou e perguntou pelo que queríamos comer.
--Hum, o que temos Sra. Martha? Perguntou Robson.
Robson pelo jeito já havia conversado algumas vezes com a senhora, e não somente com ela, Robson já conhecia muitas pessoas, todos que trabalhavam nas cozinhas, dois policiais que ficavam na guarita improvisada perto da saída, e também já conhecia alguns outros moradores.
--Oh sim, bem, estamos com os suprimentos baixos, com Deus, espero que o Ramon não demore a abrir caminho pelo metrô, caso contrario em uma semana, não teremos mais nada para comer. Mas como eu dizia, hoje temos bolo de fubá, alguns biscoitos, somente.
--Ótimo, para mim esta bom, comparado ao que eu estava comendo ultimamente, isso parece mais com um manjar dos deuses. Diz Robson
--Ora, filho, não diga isso, que eu fico sem graça, vou buscar uma bandeja bem grande pra vocês, que parecem que não comem há dias.
Alguém nos fundos, na cozinha chama por Martha:
--O Dona Martha, preciso da senhora aqui.
--Já estou indo, Iago.
Com um esforço, me levanto, e tomo a frente de Martha, dizendo:
--Não se preocupe, eu mesmo faço isso.
--Não, moço, deixe comigo.
--Por favor... Deixe me fazer isso. Digo, sem olhar para ela, que desiste afinal indo para a cozinha e me deixando, atrás Robson fica sem reação, mas percebo que no fundo ele sorri, e isso a principio me incomoda um pouco, mas mesmo assim continuo indo até a mesa onde esta a refeição matinal.
Alguns segundos depois eu volto, me sentando novamente no lugar onde a pouco estivera.
--Esta bondoso hoje, Henrique, não faz seu tipo. Diz Robson, mordendo um pedaço de bolo de fubá.
--Má educação também não faz meu tipo. Retruco.
Robson engasga com o pedaço de bolo, eu começo a rir por achar que ele havia se engasgado pela resposta, mas logo vejo que ele esta prestando atenção em outra coisa. Virei o rosto a ponto de ver duas garotas entrando pela porta a esquerda, que dava as escadas, por estarmos no final do refeitório, onde não havia ninguém sentado, podíamos ver bem elas. Uma tinha cabelos castanhos escuros, era alta, tinha olhos azuis, e vestia o que parecia um uniforme escolar, com calça e camiseta esportiva, Bianca, pensei. Já a outra tinha olhos cor de mel, e vestia uma calça jeans e usava uma jaqueta, possua uma pele tão clara quanto Bianca, mas o que chamava a atenção nela era seu cabelo, ruivo forte, o que a fazia ainda mais branca e pálida do que era porem não dava pra negar que ela era bonita e charmosa.
--Ah, então era isso. Disse num tom arrastado, me virando para Robson, que ainda parecia meio paralisado, e quando a ruiva olhou para a nossa mesa, ele rapidamente desviou o olhar e terminou de comer o pedaço de bolo, tirando com alguns petelecos os farelos de sua roupa.
As meninas se aproximaram e eu senti Robson cada vez mais nervoso, mas ao mesmo tempo ele parecia feliz, por encontrar alguém interessante.
--Parece que não há mais ninguém aqui, garanhão, ela é toda sua. Disse baixinho para ele.
--Assim espero Henrique, assim espero.
De repente elas aparecem do nosso lado, as duas estão conversando, parecia que já haviam se tornadas amigas, algo que em minha opinião havia faltado a Bianca nos últimos dias.
--Ola meninos, podemos nos sentar nesses lugares aqui.
--À vontade. Disse Robson, levantando-se e puxando uma cadeira para a ruiva com seu braço bom, algo difícil para alguém com um braço enfaixado, que agradeceu e se sentou.
Bianca me beija, e depois chega perto do meu ouvido e fala baixinho;
--Sobre ontem eu...
Eu puxo a cabeça dela par junto da minha e falo:
--Eu sei, foi maravilhoso.
Ela parece ficar contente, me beija mais uma vez e puxa uma cadeira para perto de mim e se senta, mas não se apoiando em mim, já que aquele braço, ela sabia, estava machucado.
--Então, essa é minha amiga, a Ana, eu conheci ela ontem. Começa a falar Bianca, ela solta um tímido oi correspondido por Robson e eu.
--Então, Ana, quando você chegou aqui? Perguntou Robson puxando assunto.
--Ah, bem semana passada, sabe, quando todo mundo estava correndo pro ai tentando se salvar, eu também estava assim, foi quando apareceu a policia, eles diziam para a gente seguir eles para algum abrigo, foi ai que eu vim para aqui.
--Bem, você teve sorte, diferente de nos. Disse apontando para Robson e para Bianca.
--Nossa, é a Bianca me falou, vocês passaram por maus bocados, ela me contou como vocês vieram para cá. Incrível como vocês conseguiram passar por uma estação de metrô cheia de zumbis. Disse Ana.
--Pois é, acho que também demos sorte, apesar de que você viu como estamos hoje. Disse Bianca levantando o braço esquerdo, onde no punho havia uma atadura. Analisando bem, ela não havia sofrido muitos machucados, não havia quase marcas de corte em seu rosto.
--Claro, eu imagino, nossa três pessoas, em pensa que vocês mataram zumbis com espadas, e com aqueles uniformes.
--Sabres, utilizados pela policia militar em ocasiões especiais. Corrigi.
Todos ficaram em silencio. Este, rompido momentos depois quando eu disse:
--Todos perdemos nossos familiares há poucas semanas, eu gostaria de saber onde esta toda aquela conversa deque ias forças armadas iriam deter esses zumbis.
--Ei, você deu nome de zumbis a eles, nossa eu não tinha pensado nisso. Mas, sim, eu ainda guardo uma foto do meu pai junto com minha carteira, a única coisa que consegui salvar.
--É eu entendo, tudo isso, essas coisas, minhas esperanças de que eles consigam reverter essa situação e acabar com esses monstros não existe mais. Tudo que podemos fazer é esperar que eles nos resgatem. Disse Robson.
--Nossa me esqueci que vocês chegaram aqui somente ontem. Disse Ana, tocando a testa com as mãos como se aquilo fosse uma coisa que dificilmente alguém esqueceria.
--O que foi? Perguntou Bianca.
--Bem, vocês devem saber que agora nosso radio esta mudo, mas as ultimas transmissões que conseguimos pegar foi de uma outra resistência no Rio de Janeiro, eles diziam que reforços dos Estados Unidos estavam vindos para cá de imediato. E que futuramente, outras nações iriam enviar reforços, mas que o objetivo deles não é eliminar os zumbis, pelo menos ágora, e sim resgatar os sobreviventes.
--Que são poucos provavelmente, talvez sejam somente 5% dos brasileiros. Chutei.
--Exato, como acertou? Perguntou Ana.
--Chutei. Respondi.
Mais pessoas agora começaram a chegar, e eu me perguntava que horas seriam agora, mas não importava mais, aquele lugar estava muito cheio e eu queria dar uma boa olhada no prédio.
--Bem, eu já terminei meu café, e quer dar uma volta Bianca?
--Claro. Respondeu ela, prontamente.
--Mais tarde nos vemos aqui, no almoço? Perguntou Robson.
--Claro, mas por enquanto há um trabalho a fazer. Disse sorrindo para Bianca, que retornou entendendo a mensagem.
Robson também parece entender e começou a conversar novamente com Ana.
--Para onde vamos? Perguntou Bianca enquanto tomávamos rumo às escadas.
--Não sei, o que tem lá em baixo?
--Bem, vai dar na garagem, mas ela esta traçada, segundo Ana, há alguns zumbis lá.
--Humph, vamos subir então.
Subimos as escadas conversando, abraçados, quando de repente encontramos uma varanda num quarto vazio, quando entramos e fomos ate a varanda, sentimos um cheiro horrível e familiar de podridão. Lá em baixo, a cinco andares, zumbis se espremiam e gemiam, com as mãos para frente, tentando encontrar algo, e assim continuava pela rua inteira, milhares de zumbis, dali era possível ver alguns prédios ao longe, onde havia ainda alguma fumaça. Num deles, cheguei a ficar em duvida se o vulto era um zumbi ou um humano, mas logo minha duvida se esclareceu quando o vulto caiu do prédio sumindo de vista. Era incrível, aquela pareia agora a Metrópole dos mortos, não mais São Paulo. E a poluição apesar de constante diminuíra, mas juntando ela, os zumbis e os corvos que rodavam toda a cidade, parecia que aquela cidade estava morta, e nunca mais seria a mesma. Mesmo se todos aqueles seres morressem.
--Vamos sair daqui antes que eu vomite. Disse a Bianca, que sorriu e apontou para um zumbi de cabelos compridos e de rosto magro, não havia muitas feridas nele e seu corpo parecia em menor estagio de decomposição que a maioria dos zumbis.
--Aquele ali é bonitinho até. Disse ela
--Ah é? Bonitinho? Então calma ai. Disse, em tom de deboche.
Olhei em volta e vi um vaso sem flores ali. Com um movimento rápido peguei e joguei o vaso, acertando em cheio o zumbi, que caiu, afundando no mar de mortos-vivos. Outros zumbis nem perceberam sua queda e continuaram sua canção, gemendo, a canção da morte.
Olhei então para Bianca e disse sorrindo:
--Desculpe, mas eu não aceito concorrência.
--Bobo. Disse ela e se aproximou para me beijar, mas na hora alguém aparece na porta, exclamando de entusiasmo.
--Ah, ai estão os dois pombinhos, espero que não tenha se esquecido de sua promessa Henrique, sabe você prometeu.
Droga tinha que ser ele para estragar esse momento, não é mesmo Paulo?
Promessa, por um momento eu não me toquei, mas depois eu percebi que ele estava falando de ontem quando eu havia prometido contar como eu havia chego ao abrigo.
--Bem, Paulo sabe, eu não...
--Não se preocupe Henrique. Disse Bianca suspirando–Eu te encontro mais tarde. Concluiu.
Ela me deu um beijo no rosto e saiu de cara amarrada.
--Certo, Paulo, sente ai que eu conto.
Meia hora depois
--... então Ramon nos trouxe para cá, e o resto você já sabe. Terminei, aquela historia havia demorado mais do que eu pensava, e também eu não contei tudo, certa hora, quando eu falei sobre Sergio, contei como se a morte dele tivesse ocorrido acidentalmente e que ele havia morrido infectado, e somente depois eu havia atirado nele.
Ele estava pasmado com tudo, e finalmente ele exclamou:
--Uau!!! Cara, você é dos meus! Nossa, eu nem consigo acreditar que você ficou uma noite inteira e lutou pela resistência no Barro Branco e que depois atravessou metade da cidade pelo metrô, e que enfrento zumbis utilizando apenas um sabre e poucas balas. Cara como eu queria estar lá com você.
--Não diga besteiras! Você não sabe como é se ver cercado por dezenas de zumbis, e você ficar sem balas e sem apoio. Disse, começando a ficar nervoso, aquilo era realmente irritante, ele não sabia nada da minha vida e parecia achar tudo engraçado, impressionante, e na minha opinião matar um de seus melhores amigos não era uma coisa paras e orgulhar.
--Calma mano, eu só queria dizer que vocês foram incríveis conseguindo escapar de tudo. Disse ele se desculpando.
--Tudo bem, alias, onde há um banheiro aqui?
--Sobe as escadas ate o próximo andar, primeira porta no a direita. Disse ele se esforçando para raciocinar.
--Ok, obrigado Paulo.
--De nada, e agradeço por me contar a historia.
Eu não ouvia mais nada, já estava a meio caminho das escadas, por que eu estava assim, ver sangue ou pessoas morrendo nunca havia sido um grande problema, pelo contrario, eu nunca senti remorso, ou medo da morte, ou mesmo arrependimento, dor não estava no meu vocabulário, mas agora, esses pesadelos, tudo isso, estava acontecendo comigo, taxado sempre como frio, calmo, por quê? Por que acontecia isso? Qual era o sentido daquilo tudo?
Eu já adentrava no banheiro masculino, e me postava na frente do espelho em forma de paralelepípedo. Eu via meu próprio reflexo no espelho, suando, com olheiras, mas de repente ele começa a sorrir maliciosamente..
--Por quê? Pergunto-me.
--“Por que você é um fraco, tolo! Mate-os Henrique, Mate todos agora, você sabe que pode, abra as portas deixe que os zumbis façam o trabalho.”
--Não, eu não vou fazer isso.
--“Meu caro tolo, você vai ter que fazer isso de uma maneira ou de outra! Por que não acabar com tudo isso, salve seus amigos, mate o resto, eles não são importante.
--Não!! Não me diga mais nada, você é apenas um pedaço sombrio da minha mente, não tenho que obedecer você!
--VOCÊ NÃO TEM ESCOLHA, E VOCE SABE DISSO, HAHAHAHA, TODA SUA VIDA VOCE ESPEROU POR ISOSO! POR QUE NÃO FAZER AGORA? MATE TODOS, DEIXE APENAS AQUELES QUE VOCE ACAH QUE DEVEM FICAR VIVOS, E SEJA O HEROI!
--NÃO!!! NÃO ME DE ORDENS, EU NÃO VOU MATA NINGUEM, EU NÃO SOU CULPAD PELA MORTE DO SERGIO!
--Ah, é sim, você é fraco por isso o perdeu, e você ira perder Bianca e Robson se não fizer nada! Ou seja, melhor que isso, se mate, puxe o gatilho, é tão fácil, Paulo esta logo ali, ele o vangloria, peça apenas para olhara arma dele!
O reflexo mostra uma arma e coloca na própria boca, se preparando para apertar o gatilho e...
--NÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOO!!!
--Henrique!! Era Paulo, ele entra, contudo no banheiro apontando a arma para todos os lados. Então vê que somente eu estou no banheiro.
-Ta tudo bem...
Ele olha para mim, tão apavorado quanto.
--Certo... Certo, mas você esta. Ele engole em seco. –Com as calças molhadas?Eu olho para
--Onde há... Toalha... Roupas? Pergunto também impressionado com o que eu vira.
--E... Eu vou buscar algumas perfeitas pra você. Eu já volto.
Ele se prepara para sair, mas antes:
--Paulo.
Ele olha para mim.
--Isso... Esse assunto fica só entre a gente correto? Não conte para ninguém sobe isso.
Ele engole seco, mas concorda, e sai do banheiro correndo.
Mais ao fundo há dois chuveiros antigos, eu me tranco numa das separações e abro o chuveiro, não posso demorar muito, por que a reserva de água é limitada.
Algum tempo depois Paulo volta com roupas. Eu me visto e saio do banheiro, começando a andar novamente, meu tênis apesar de sujo é um bom companheiro, o único...
Eu subo mais dois andares e chego ao ultimo andar, andando pelo corredor, eu vejo que naquele andar não há nada, esta tudo vazio, exceto por um barulho, uma voz que entoa um canto, parece em outra língua. Quando chego a ultima porta, eu a encontro aberta. Olho para dentro, e há um homem lá. Ele parece rezar em outra língua para uma estatua, a estatua de Buda. Ele manipula algo que parece uma espada, uma katana!
O quarto é grande, a direita há uma pequena cama e uma estante, a esquerda alguns pertences que parecem ser do homem. E no meio do quarto ele se posta, a estatua de Buda é enorme, como ele conseguiu trazê-la ate ali?
Eu entro no quarto, com certo receio, minha mente ainda esta turva, mas eu consigo ver claramente, ele reza junto da espada. Olho para baixo e vejo que há uma espada ali também, outra katana, dentro da bainha, negra com algumas inscrições. Olho rapidamente para o homem que agora reza em voz baixa, ele esta distraído, eu aproveito para toca a espada.
--Por favor, não toque a espada. Diz o homem, em tom sereno, mas inspira respeito.
--Me desculpe. Digo, sinceramente.
O homem suspira, pousa a espada no chão dentro da bainha, e se vira para mim, seus olhos são negros, ele tem uma certa barba, mas isso não me impede de ver um sorriso em seu rosto.
--Desculpas não bastam, garoto. Chegue mais perto, vamos.
Eu faço o que ele pede, obedientemente.
--Sente-se. Convida ele.
Eu o faço, sentando se ao seu lado, o homem inspira fundo e olha para mim, dizendo:
--Ouvi dizer que você já manuseou uma espada, é verdade?
--Sim, senhor, um sabre.
--Ah, sim um sabre. Interessante, fale-me sobre essa espada, como ela é?
Fico confuso com a pergunta.
--Bem, ela é prateada, afiada, e bem ágil.
Ele ergue a mão, e eu paro de falar.
--Não foi exatamente isso que eu perguntei. Eu perguntei como você acha que sua espada é, por dentro, o que ela representa para você?
--Hum, bem eu nunca pensei nisso.
Ele ri baixinho, é uma risada calma, mas mesmo assim ele ainda inspira respeito.
--Muitas pessoas nunca pensaram nisso.
--Ah... Se o senhor diz, mas qual o seu nome?
--Sabe, eu vejo minha espada como parte de meu corpo, algo inseparável, insubstituível, ela é parte de mim e eu sou parte dela. Ela faz parte de minha alma.
--Isso tem algo a ver com samurais?
Ele ergueu o dedo, parecendo mais animado.
--Ah, sim, sim. Você chegou ao ponto. Sabe, cada espada é diferente, cada espada tem uma alma. E essa alma pode se tornar parte da sua, se você aceita-la, ou pode se tornar sua perdição.
--Como Yin e yang?
--Sim, meu filho, sim, a pouco, eu escutei sua alma, atormentada, quer ajuda?
--Não, ao preciso, obrigado.
--Bem, se é assim, foi bom conversar com você.
Ele se levantou, e abaixou a cabeça como forma de comprimento, eu também abaixei.
--Uma alma sempre precisa de ajuda lembre-se disso.
Então me conduziu ate a porta, quando eu sai, me virando para perguntar por seu nome, o homem fechou a porta, quanta educação.
Mesmo assim segui para o almoço. O resto do dia foi sem graça, conheci um pouco mais do prédio, e seus moradores, mas nada muito interessante. Porem eu não vi aquele homem da espada em nenhum momento quando era hora da refeição.
Cheguei a perguntar para Martha, e ela disse que ele vinha, mas em outras horas.
Interessante, decidi que iria ver o homem novamente pela manhã do outro dia, dessa vez bem cedo.

No outro dia, como eu havia prometido a mim mesmo acordei cedo, comi alguns biscoitos e fui para o andar do homem, no caminho encontrei Ramon, ele estava com uma espécie de kimono, e estava indo em direção a seu quarto no terceiro andar.
--Bom dia. Disse ele.
--Bom dia Ramon. Disse passando por ele, mas parando de repente.
--Ramon, preciso te contar uma coisa.
Nos dos fomos ate o refeitório que ainda estava vazio aquela hora da manhã, e eu contei a ele sobre o que aconteceu com Sergio e no Barro Branco.
--Bem, é uma grande historia, por que contou a mim?
--Por que somente você, Robson e Bianca sabem disso agora, e se acontecer algo não quero que me culpem.
Ele suspirou e disse:
--Bem, talvez eu possa te ajudar a se defender.
--Como? Perguntei cético.
--Eu quando mais novo já fui do exercito, e já aprendi algumas artes marciais, como Karatê por exemplo.
--Serio? E você me ensinaria?
Ele sorriu:
--Bem Karatê é útil, mas sabemos que talvez precisemos enfrentar algum ladrão, ou mercenário, então estava pensando em treinar você em algo um pouco mais urgente e mais útil contra uma arma.
Que tipo de arte seria?
--Já ouviu falar em Kombato?
--Bem, não exatamente mas sobre o que se trata?
Ramon abriu a boca para falar quando alguns policiais entraram no refeitório e chamaram pelo capitão Ramon.
--Já vou! Bem, Henrique, acho que isso fica pra outra hora. Estou muito ocupado abrindo passagem no Metrô, talvez leve mais uma semana para limpar a Sé. Mas quando conseguirmos, irei ver o que posso fazer por você, enquanto isso sugiro que você ajude nos afazeres aqui no abrigo.
Apenas concordei com a cabeça, excitado pela chance de aprender o tal Kombato.
Assim que Ramon saiu do refeitório, eu me levantei e fui direto para o quinto andar, O quarto de Bianca ficava no quarto, na parte sul do prédio. As escadas ficavam no norte então eu não precisaria passar por lá.
Subi as escadas para o quinto andar e entrei no corredor que iria dar na morada do espadachim. Quando vire no corredor vi que o quarto estava aberto, e que alguém falava em voz alta, pareciam estar discutindo, duas pessoas. Eu parei e tentei escutar:
--... Você quem sabe, mas não venha exigir coisas de nos. Se você não vai nos ajudar, também não pode ficar reclamando do que fazemos ou deixamos de fazer!
--Não vou me curvar a alguém corrupto como você. Respondeu com a mesma voz serena de sempre.
--Olhe aqui! Eu sei o que você faz com essas folhas, e sua tecnologia, se você abrir o bico eu conto sobre suas experiências, e sua posição. Tem sorte de o capitão gostar de você e o ver como um conselheiro, mas é se você contar algo sobre mim, eu mesmo acabo com você. Disse ele em tom de ameaça.
Passos fortes começaram a vir em direção da porta, e eu encurralado, entrei na primeira porta que vi, e depois me arrependi, era uma sala vazia, cheia de trapos, lixo, e fedia tanto quanto um zumbi.
Os passos passaram por mim e continuaram ate desaparecer. O homem resmungava algo como “Ele acha que pode vencer minha pistola com aquela espada enferrujada”.
Quando sai da porta, estava com um mau pressentimento, fui ate a porta que estava fechada. Me perguntei se deveria voltar outra hora, mas provavelmente não haveria outra hora. Com cuidado girei a maçaneta, e abri a porta, o homem estava de costas, em pé, com um movimento rápido, se virou e jogou algo em minha direção. A coisa passou a centímetros de meu rosto, indo parar na porta. Quando olhei para o lado vi que aquilo que quase havia me acertado era uma faca, e parecia não ter cabo, uma faca estranha. Olhei para o homem que vinha em minha direção e disse:
--Acho que vim e má hora.
O homem chegou bem perto de mim, ficando ao meu lado, sem olhar para mim ele tirou a faca da porta, guardando numa espécie de bolso na larga calça que vestia, alem da camisa, bem aberta no peito, e larga, parecia um uniforme.
--Me desculpe. Disse ele ainda sem olhar para mim. –Achei que fosse outra pessoa.
Eu não sabia se respondia a pergunta, saia correndo ou o xingava, na melhor das ocasiões a primeira alternativa era a mais viável.
--Tudo bem, eu que me desculpo por ter invadido sua privacidade, senpai.
O homem arregalou os olhos, não dava para dizer se ele esta surpreso pela forma que respondi ou pelo tratamento “senpai” no final da frase. Esse utilizado no Japão como forma de tratamento para com os mais velhos ou mais experientes. Os dois casos se encaixavam perfeitamente com o homem.
--Ora, ora. Sim, sim não há problema, não há problema, entre.
Quando entrei, o homem deu uma olhada no corredor, antes de fechar a porta. Enquanto isso olhei em volta, o quarto estava da mesma maneira que da ultima vez em que eu havia estado ali. Exceto por uma pasta surrada no canto, perto da estante, onde alguns papeis estavam espalhados. Quando o homem viu que meu olhar estava recaído sobre os papeis, rapidamente se pôs a junta-los e guardá-los.
--Eu... Estava passando aqui, e encontrei com um dos guardas... E ele estava um tanto invocado...
Disse, como se não estivesse escutando a conversa entre os dois. O velho homem, porem não mostrou qualquer alteração em suas expressões, me fazendo crer que talvez ele estivesse pensando numa resposta convincente, mas alguns segundos depois ele me respondeu, calmo como sempre:
--Bem, eu e o Cabo Vicente temos alguns pontos de vista diferentes, nada mais.
Disse ele, mas sua resposta havia sido um tanto vago, assim como havia sido ontem.
Assim como também, no dia anterior, me sentei perto da estatua de Buda, analisando todos seus detalhes. Aquilo me fazia ficar calmo, sereno, parecia que todas as situações ruins haviam ido embora, e somente sensações boas ficavam.
Suspirei, não queria ficar jogando conversa fora, fui direto ao ponto:
--Quando cheguei aqui, ontem, vi que o senhor estava manuseando uma espada.
--É verdade, eu me lembro bem. Era um ritual, uma oração.
--Oração? À Buda?
--Sim, Buda é o símbolo de quem alcançou um patamar acima do conhecimento humano, eu costumo rezar quando estou aflito ou quando procuro paz, você não ora filho? Perguntou ele, seus olhos estavam me observando, parecia que ele me testava, ou talvez tentasse ver através do meu corpo, na minha mente.
--Eu perdi minha fé ha muitos anos. Respondi irônico.
O velho homem sentou se ao meu lado, também observando a estatua de Buda. .
--Eu não acredito nisso, você tem fé, é ela é forte e poderosa!
Ergui as sombracelhas, ele queria dizer alguma coisa pro trás disso, porem eu não compreendia.
--Se o senhor sabe manipular uma espada, provavelmente já praticou Kendo, estou certo?
Ele sorriu para mim, dizendo:
--Sim, você acertou. Realmente eu pratiquei Kendo por muitos anos.
--E alem disso, o que o senhor fazia. Perguntei aproveitando a brecha que ele havia dado.
--Oh, nada importante. Mas e você garoto, o que você fazia antes desse Acidente?
Acidente? O que será que ele quis dizer com isso? Será que ele sabia a fonte de toda essa epidemia? Eu não queria perguntar uma coisa a ele que desviasse do foco, então continuei falando normalmente:
--Estudava, apenas...
--Mas agora você tem um hobby não é mesmo?
A pergunta me surpreendeu.
-- Como assim?
Ele coçou o queixo e me disse:
--Seu hobby agora é sobreviver e matar alguns zumbis não?
--Ah, sim. Bem, esse é o ponto.
Ele continuou calado olhando para o chão.
--Nesses últimos dias, eu precisei usar de habilidades das quais eu não sabia que possuía. E algumas eu realmente necessitei, mas não soube utilizá-las. Continuei.
Silencio.
--Bem, e no caminho daqui, eu precisei utilizar o sabre, porem eu não soube manejá-lo corretamente. E quase paguei um preço por isso, quase perdi duas pessoas importantes.
--O que você realmente quer? Perguntou ele, sua voz estava fria agora, e seria, parecia que eu havia tocado no ponto sensível dele.
--Se o senhor praticou Kendo, deve saber bem como manejar uma espada.
--Eu perguntei o que você realmente quer. Disse ele, sua voz mais elevada e seria do que nunca.
Meus olhos se estreitaram, e eu disse:
--Eu quero que o senhor me treine na arte de manejar uma espada.
Por um momento achei que ele iria me atacar, seus olhos estavam estreitos e uma veia em seu pescoço pulsava forte.
Com um gesto de sua mão ele me indicou a saída.
--Pelo menos responda algo! Disse, em tom de ameaça.
--Eu gostaria de ajudar, mas eu não posso!!! Disse ele quase aos gritos.
Não havia nada que eu pudesse fazer, me levantei e sai, porem antes escutei um lamento, continuei caminhando. A porta do quarto se fechou e assim permaneceu o dia inteiro. Todas as vezes que passei por lá, intencionalmente, a porta se manteve do mesmo jeito e nenhum barulho podia ser ouvido la dentro.
O resto do dia eu passei ao lado de Bianca, Robson e Ana, os dois que já estavam praticamente namorando. Talvez isso não fosse tão fácil se agora o mundo não estivesse presenciando a maior epidemia de todos os tempos. A perda de familiares fazia as pessoas entrarem na solidão, e conseqüentemente ficarem mais acessíveis a um relacionamento.
Apesar de tudo o dia não foi desperdiçado, mesmo vendo poucas vezes ao dia os guardas (voluntários formados por policiais e algumas pessoas com algum conhecimento, desses Ramon parecia ser não só o líder dele, mas também de todas as pessoas que estavam no abrigo.), também pude conhecer um pouco mais as pessoas. Havia um mendigo que por estar no lugar certo na hora certa havia conseguido se salvar, o nome dele era Alfredo e fiquei surpreso ao saber que a causa de sua pobreza havia sido um golpe dado por sua ex mulher. Havia também um professor de física, um roqueiro que costumava tocar nas ruas e agora fazia de vez em quando um solo nas horas das refeições. Fora um biólogo que tentava descobrir como os zumbis haviam surgido. Porem em vão, ele não possuía os equipamentos necessários para isso.
No outro dia, tentei novamente conversar com o homem, do qual eu havia apelidado de “Senpai” mesmo, por não saber seu verdadeiro nome. Perguntei sobre ele para outras pessoas, e a única informação que elas tinham dele era de que ele já morava ali, e que ele era o dono do lugar. Lugar esse que descobri ser um prédio utilizado para negócios e que somente
Senpai morava ali. Era obvio que ele era rico, um prédio daquele com salas e escritórios improvisados para virarem abrigo. Mas havia uma sala que Ramon dizia ser uma enorme sala de reuniões, que estava trancada, e que não foram usadas ainda devido a pedido do próprio Senpai. Segundo ele também, ninguém conhecia o verdadeiro nome do Senpai, e cada um o havia apelidado de uma maneira diferente, mas que o Senpai Havaí pedido para Ramon o chamar de K.
--Isso é estranho. Disse Robson, três dias depois quando contei tudo a ele, já era noite.
As meninas conversavam mais a frente perto do gerador, que ficava na parte superior do prédio.
--Obviamente ele era rico, dono de alguma empresa ou talvez sócio, ocaso é que ninguém o conhece, ou sabe sobre sua vida. Respondi, falando baixo para que as meninas não escutassem.
--Bem, mas acho que esse tal de cabo Vicente deve conhecer alguma coisa dele, já que você o viu chantageando o homem. Disse Robson, pensativo.
--A duvida é, o que ele sabe de tão grave a ponto de querer matá-lo?
Robson ergueu as sombracelhas, talvez ele não achasse que Vicente chegasse tão longe.
--Tem certeza que ele faria isso? Acho difícil.
--Não sei se é tão improvável, se você visse o que eu vi, não diria isso.
Ele suspirou e apertou os olhos, cansado.
--Olhe Henrique, eu não sei não, mas acho que por hora você deveria se manter longe desses caras.
--Negativo. Você não entende? Talvez se nos soubéssemos manejar corretamente uma espada não passaríamos pelo apuro que passamos, e talvez eu não teria de fazer o que fiz.
Disse determinado, mas Robson apenas me olhou, balançou a cabeça e disse:
--Cara, acho que você ta precisando de terapia, talvez umas férias disso tudo.
O vento gélido da noite batia em nossos rostos, Robson estava quase dormindo, mas eu não, eu queria parar aquilo tudo, eu queria ficar mais forte, mais ágil, para não ter que enfrentar tudo aquilo que já havia enfrentado.
--Talvez você não tenha percebido, mas o mundo esta acabando aos poucos, e eu não quero que ninguém passe pelo que estamos passando.
--Sim, mas nos não podemos fazer nada para...
--Você não pode ou não quer? Entenda uma coisa Robson, com um pais cheio de zumbis, não há férias. Disse rispidamente.
Me levantei e sai com passos fortes, Bianca olhou para Robson e para mim não entendendo nada.
Desci as escadas fui para o meu quarto, não queria ser incomodado por ninguém. Já eram quase 1 hora da manhã, e quase tudo estava escuro. Para não gastar energia à toa, a maioria das luzes era desligada às 11 horas da noite, mas algumas ainda continuavam ligadas, fracas como sempre.
No meio do caminho, encontrei o Senpai subindo as escadas. Quando ele me viu, abaixou a cabeça e me cumprimentou continuando em sua subida, mas eu parei, e de costas para ele disse:
--Por que você não quer me treinar, Senpai?
--Tão direto assim... Bem, por dois principais motivos.
Eu continuei olhando para as escadas, a luz piscava no alto, ficando cada vez mais fraca.
--Quais? Perguntei.
Ele demorou a responder, mas quando respondeu, sua voz soou fraca, porem decidida.
--Primeiro, por que demoraria anos para eu poder de ensinar a ponto de você saber utilizar uma espada que não seja uma Shinai (espada de bambu) ou Bokuto (espada de madeira).
-Humph... E o segundo?
--Você não me provou que é capaz de utilizar uma espada. Quando isso acontecer, eu o treino.
Meus olhos se arregalaram, bem era verdade que eu não havia provado que eu poderia manejar uma, mas eu não achava que ele me diria isso.
--Então esta bem. Eu ainda irei provar isso. Não importa o que aconteça, você ira me treinar.
Disse virando o rosto de um jeito que eu poderia vê-lo.
Ele estava lá, parado, porem assim que eu acabei de falar ele continuou subindo as escadas sem olhar para trás.
Não havia nada a dizer, eu continuei descendo as escadas, e fui para meu quarto. Me sentei na cama e fiquei pensando sobre o que ele disse. Provar, eu não tinha idéia de como fazer isso. Mas eu tinha de fazer algo. Me levantei da cama, minhas pernas estavam formigando, já que eu havia passado pelo menos meia hora pensando senado ali, naquele quarto.
Subi as escadas até chegar ao quinto andar, e me dirigi para o corredor que dava para o quarto do “Senpai”. No caminho, comecei a ouvir uma conversa baixa porem, com cara de discussão, não dava para ouvir muito bem o que o interlocutor falava, quando mais ia me aproximando do quarto do “Senpai” mais o volume das vozes aumentava.
--... Você disse que se eu não contasse a ninguém o seu segredo, você iria me recompensar, porem ate agora eu não vi a sombra do dinheiro.
Dizia uma voz conhecida, ma seu não conseguia identificar de quem ela era. Logo depois ouve um murmúrio na sala ao lado do quarto do Senpai, aquela era a sala que segundo Ramon era enorme e era utilizada para reuniões. Eu não sabia o que estava acontecendo, mas ainda sim bati na porta do senpai. Se tinha alguém ali, obviamente não deveria ser ele.
Assim que eu bati na porta do quarto, a sala ao lado ficou em silencio. Uma sensação de insegurança percorreu pelo meu corpo. Eu não estava armado, tudo que se podia chamar de arma estava no deposito, que era guardado quase 24 horas por dia por um guarda. Em troca de eles me fornecerem roupas e abrigo eu tive que seguir a regras. E as regras eram bem claras, ninguém que não fosse treinado por nenhuma força policial ou militar fosse maior de 18 anos, não poderia carregar nenhum tipo de armas. Apesar de eu achar isso correto, não concordava que somente os guardas carregassem armas, o mais apropriado seriam eles pelo menos darem uma noção dede como se usar uma arma para outras pessoas, caso um dia isso fosse necessário.
BAM! A porta se abriu com força e um policial de aproximadamente dois metros de altura, loiro, olhos castanhos, segurando um revolver me grudou pelos cabelos e me jogou para dentro da sala, fechando e trancando a porta em seguida. Era o Cabo Vicente.
Com um sorriso no rosto, ele começou a falar, seus olhos miúdos estavam bem abertos agora, a loucura irradiando por eles.
--Ora, ora, vejam só quem esta aqui. O idiota do metrô e escudeiro do velho, hahaha, que coincidência, dois com uma cartada só! Disse ele, sua voz fria era baixa, mas tinha um tom assassino nela.
Duas pessoas ele disse, eu olhei para cima enquanto me levantava e vi o homem com a mesma roupa da qual eu havia visto pela ultima vez, há meia hora na escada, era o Senpai!
Ele estava vestindo uma roupa que parecia muito com uma espécie de kimono, de cor preta, uma sapatilha também preta e ele suava bastante, ficando espantado quando me viu ali.
--O assunto é entre mim e você, ele não sabe de nada. Disse ele, sua voz aparentava um temor e ele não parecia tão calmo quanto antes.
Vicente riu, sua risada ecoou pela sala, mesmo sendo baixa, causava arrepios a quem estava ali.
--Oh! O que é isso? Leonardo Victer esta com medo que eu faça algo com o garoto? Isso é raro, não é mesmo Leo? Você sentir medo? Não achava que isso fosse possível.
Eu estava lá, olhando para um e logo em seguida para o outro. Por que aquele Vicente iria fazer algo contra o Senpai? Alias o mesmo que foi chamado por Vicente de Leonardo Victer. Esse deveria ser o nome dele, mas por que esconde-lo? Por que esconder seu nome de outras pessoas que não tinham nada a perder? Será Leonardo um criminoso, mesmo assim não era certo o que Vicente estava fazendo, ele não tinha o direito de apontar uma arma para alguém sem provas.
--Então esse é seu nome, não e Senpai? Leonardo, por que escondeu de mim? E você, o que quer com ele? Disse me voltando para Vicente.
--Henrique! Por favor, não se meta nisso, é perigoso! Ouvi Leonardo falando atrás, ele estava se levantando também.
--O que eu quero é que você saia da minha frente, garoto idiota, ou eu... Disse ele levantando a mão que empunhava o revolver.
--Ou o que? Pretende me ameaçar com um revolver? Ótimo, vai em frente. Disse me aproximando dele ficando bem na sua frente, devido sua altura, meu rosto batia em seu peito, mas eu ainda o encarava. –Atira, eu estou querendo fazer isso há algum tempo.
Ele soltou um sorriso amarelo, e pegou meu pescoço me erguendo do chão e eu tentando me soltar.
--O que você sabe sobre dor e sofrimento idiota! Eu que apanhava de meu pai e fui obrigado a fugir de casa! Você não sabe o que é sofrimento!
De relance eu vi Leonardo empunhando a espada e correndo para atacar Vicente, mas ele parou quando Vicente ameaçou atirar em mim.
--Não ouse, ou eu o mato! Disse ele, a loucura voltando aos seus olhos.
--Você esta perturbado, Vicente, não deixe que sua loucura acabe com sua mente. O dinheiro pode ate valer alguma coisa, mas não é mais importante que uma vida!
--O que? Você mais do que todos deveria saber que o dinheiro vale muito. Ou será que você esqueceu de seu aprendiz, o que aconteceu com ele? Se você tivesse tido mais dinheiro, não teria acontecido o que aconteceu.
Leonardo de repente ficou paralisado, parece que a lembrança de um aprendiz o havia deixado mais perturbado do que nunca.
--Eu sabia que você era fraco. E por isso eu vou matá-lo e eu mesmo ou achar o dinheiro, sozinho!
Eu não podia deixar que aquilo acontecesse, a mão de Vicente estava frouxa, e enquanto ele mirava no peito de Leonardo, eu vi que aquela era minha única chance.
--Você... Nunca mais ouse falar dele!! Ahhhh!!
Era Leonardo, ele puxou a katana e correu em direção a Vicente que sorriu se preparava para atirar, “aquela era a minha chance” pensei, então com a mão direita e a esquerda juntas, bati em sua cara.
POW!
Vicente urrou de dor, seu olho esquerdo estava vermelho, devido ao golpe. Ele virou com raiva e me deu uma coronhada na cabeça com o revolver.
Eu senti a dor lancinante, e cai no chão ficando inconsciente, a ultima coisa que vi foi que Leonardo havia levado o tiro, mas a bala havia perfurado seu ombro, provavelmente eu agi na hora, suficiente para fazer errar a pontaria. Escuro.
Não devo ter ficado muito tempo inconsciente, talvez somente uns trinta segundos. Quando acordei, Vicente estava segurando Leonardo, caído no chão, havia sangue em seu rosto, e o local do tiro estava sangrando bastante, Vicente falava coisas que eu não podia ouvir direito. Tentei me levantar as não consegui.
--... Você e sua empresa, tudo o que aconteceu. Você acha que eu, um funcionário não sabia disso? Ande, diga onde esta o dinheiro ou eu o mato!
Dizia Vicente, ele apontou a arma para o rosto de Leonardo, preparando se para atirar. Eu tinha que fazer alguma coisa, afinal aquele homem que estava prestes a ser morto tentou me proteger.
Fiz uma segunda tentativa e consegui ficar de pé. A espada de Leonardo estava jogada no chão, a minha frente. Eu a peguei e senti um calor passar por minha mão, a raiva tomava conta de mim. Eu não ia deixar matá-lo nem que custasse minha vida.
Um passo de cada vez, cheguei bem perto dele enquanto ele falava:
--Esse é seu fim!
--É O SEU!!!
Disse, quando Vicente virou o rosto apontando a arma para mim era tarde. Eu já desferia um golpe com a espada em sua mão, a amputando.
O sangue começou a escorrer e ele gritou de dor. Mas eu não iria deixar tudo aquilo barato, ainda com a espada em punho o empurrei com o pé, fazendo ficar de costas e desferi o golpe fatal.
Em toda minha vida eu nunca havia sentido tal sensação de satisfação e ao mesmo tempo nojo. Enquanto a espada parecia atravessar a costela dele em câmera lenta, de um lado ao outro, um corte enorme ia aparecendo em sua costa, e eu sentia seus ossos quebrarem diante do poder esmagador do fio da katana.
Quando terminei ele caiu de joelhos e depois no chão deitado, imóvel. Por sua boca era possível ouvir um gemido fino e quase inaudível. Rapidamente eu o virei e ele disse em espasmos:
--Bi... Bio... Corporação... Aci... Dente...
E parou morto, de olhos abertos. Eu os feche e sentei do lado, Leonardo se levantava devagar com dor.
--Você... A espada... Disse ele com os olhos arregalados.
Eu sorri nervoso.
--É Senpai, parece que agora você vai ter que me treinar.
Ele sorriu nervoso.
Agora era possível escutar uma correria do lado de fora da sala, no corredor.
Leonardo se levantou, sorrindo e um pouco impressionado, ele disse entre os dentes:
--É melhor se preparar então.


“ C.R.A.Z.: Centro de Resistência Anti-Zumbi”


 

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