Na ampla sala de emergência do hospital, Elleonorah observava os pacatos enfermos goianenses. Aquela cena enfadonha, abarrotada de uniformes brancos e rostos sem expressão, fazia com que a moça concluísse que o única coisa que sairia dali seria o tédio.
Simultaneamente, do lado de fora do hospital, Elza estacionava seu carro de maneira estabanada, sem notar que estava atrapalhando o acesso das ambulâncias. Havia dirigido loucamente por horas, com um medo terrível de perder de vista a luz que tão obstinadamente seguia. E lá estava ela agora, naquele hospital, exatamente abaixo da perseguida luz. A ufóloga não pensava em mais nada a não ser desvendar todo aquele mistério que a consumia.
Prendendo a respiração e já quase tonta pela adrenalina, Elza subiu as pequenas escadas da entrada que fatalmente a levariam para a recepção. Tropeçava, suava e tremia. “Está perto...” – disse baixinho para si mesma, e ao empurrar a pesada porta de vidro, um brilho intenso ofuscou sua visão. Por alguns segundos perdeu a consciência com tamanha luminosidade, mas depois que seus olhos se adaptaram, a nitidez retornou triunfante à percepção da bela ufóloga. A primeira coisa que viu foi o brilho absurdo dos brincos de um traveco de cabelos bem vermelhos que gritava de maneira afetada com a franzina recepcionista do local.
Era Mara Marlene, que do alto de seus 1,90m de presença incontestavelmente escandalosa, batia no balcão com as enormes mãos cheias de anéis de acrílico fazendo um barulho extremamente irritante. - “Minha querida, meu teste está marcado para amanhã de MANHÃ! Como você espera que eu cante Marisa Monte com essa baita inflamação na garganta? Me reponde! HEIN, QUE-RI-DAAAAA!!!” A recepcionista em questão não parecia muito preocupada com aquele ser que berrava sem parar, e lixando suas unhas postiças estampadas de bolinhas azuis, ouvia “Brutu e MyHoney” no último volume de seu walkman, mantido inteiro à base de fita isolante. Ela entregou o formulário sem nem levantar os olhos e simplesmente ignorava a cena que ocorria à sua frente.
Não muito longe da recepção, uma senhora bastante descabelada, num desespero indescritível, quase arromba a porta da entrada fazendo um estardalhaço digno de novela mexicana. - “MINHA FILHA ESTÁ MORRENDO!!! SALVEM MINHA FILHA!!!” – e chorando, agarrava os braços dos pacientes como se esses pudessem fazer qualquer coisa a respeito. Logo atrás dela, vinha Sophie, lívida e mal se aguentando em pé. Vomitava sofregamente dentro do balde que ela própria carregava, que além de escorregadio devido aos fluidos estomacais, já transbordava devido a quantidade exorbitante dos mesmos. - “ Ohn....mãe.....ownn......” – delirava já sem forças e fora de si. Havia vomitado tanto que sua visão se encontrava muito turva e confusa. As paredes pareciam vivas e disformes além das pessoas vestidas de branco transitando por aquele lugar estranho....Seriam anjos? Espíritos? Coelhos??? Que lugar era aquele mesmo? Mas não importava mais. Sentia que desmaiaria dalí a uns segundos. Então, enquanto seu corpo involuntariamente se preparava para jorrar mais uma boa quantidade de fluidos ácidos e mal cheirosos, saiu à procura de outro lugar que não o balde cheio para consumar o já esperado vômito.
Ao notar que a figura alta, magra e de cabelos vermelhos a poucos metros de si carregava um recipiente bastante grande em um dos braços, Sophie não hesitou e se dirigiu cambaleante para bolsa de plástico “lilás elétrico” de Mara Marlene. Esta ainda berrava, relutante em preencher o formulário e revelar seu nome de batismo para aquela funcionariazinha indigna, e não percebeu a enorme figura loura que se aproximava.
“GROAAAAAAHHH.....”- fez Sophie liberando o glorioso e último jato de vômito antes de perder a consciência e cair pesadamente no chão.
“AAAhhh!!!” – soltou Mara Marlene, cheia de nojo e terror. - “Minha bolsa!” – e com a peça mais valiosa da sua vasta coleção comprada em brechós cheia do vômito alheio, pôde finalmente confirmar sua séria suspeita de que estava vivendo, sim, o seu inferno astral.
Elza, ainda hipnotizada pelos brincos ultra brilhantes de Mara Marlene, despertou do transe com os gritos chorosos e estranhamente ritmados daquele ser estranho e exuberante de longos cabelos de fogo. Estranho, mas sem dúvidas exuberante.
Quando naquele momento, como que atraídos por mágica, os belos olhos verdes de Elza se dirigem para a barriga branca e redonda de Sophie, desacordada e troncha, esparramada no chão. Uma descarga elétrica então correu por todo o seu corpo atlético fazendo com que Elza então entendesse o que estava se passando diante de si. Perspicaz como ela só, percebeu que finalmente havia encontrado o que estava procurando.
Num respeito polido e intenso, fez uma sincera e emocionante reverência para a barriga desnuda de Sophie, levantando-se em seguida e indo para longe dali. “Tantas providências a serem tomadas, e tão pouco tempo....” – refletia internamente ao tomar o corredor norte da ampla recepção oval daquela instituição.
Elleonorah, depois de observar toda a sequência de acontecimentos naquela recepção outrora insossa, acreditou ter encontrado ali material para o best seller de sua vida. Mas teria que ser discreta, sagaz. Não estava disposta a perder aquela elegante mulher de olhos verdes de vista. Algo nela despertou a atenção de Elleonorah de uma maneira tão fascinante que resolveu seguí-la hospital adentro. Então esperou Elza se afastar alguns passos e iniciou sua caçada silenciosa.
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