O corredor norte era movimentado, cheio de médicos e enfermeiras atabalhoados, pessoas em macas pelos corredores e famílias inteiras acompanhando seus parentes. Elleonorah quase perdeu Elza de vista, mas conseguiu seguí-la até o final do corredor, que dava em um terreno baldio no fundo do hospital. Por sorte, a porta era de vidro e não estava tão suja, e Elleonorah pôde se esconder atrás de uma trouxa de roupa suja enquanto observava Elza do lado de fora. Ela viu a moça da reverência tirar um celular preto da bolsa, quase tão fino quanto uma folha de papel, apertar algumas teclas e falar, muito séria, por vários minutos. Era impossível escutar o que dizia com a barulheira no hospital.

Depois de desligar e colocar o telefone em seu bolso, Elza saiu para a rua pelo que um dia já havia sido uma porta. Elleonorah, logo atrás, foi na ponta dos pés até a saída e meteu a cabeça para fora do portão. Olhou para um lado, nada, olhou para o outro, e deu de cara com Elza.

- Por que você está me seguindo? – pergunntou Elza, muito séria e muito calma.

Elleonorah ficou sem reação por alguns segundos. Contaria ela a verdade? Mas e se a tal mulher resolvesse roubar a idéia dela e escrever o seu best seller? Olhou para os lados, bateu o pezinho, deu uma assobiada, e teve a esperança de que a mulher louca tivesse sumido da sua frente quando voltasse a olhar, mas ela ainda estava lá com a mesma cara. E não dizia mais nada, apenas olhava e esperava uma resposta.

- Na verdade – e Elleonorah deu uma pigarrreada – eu sou psiquiatra. Percebi seu comportamento estranho, fazendo uma reverência para aquela grande jovem loira que vomitava, e achei que talvez você precisasse de acompanhamento. Literalmente. E, por favor, me chame de doutora.

Elza olhou para a cara do sorridente projeto de doutora. De fato, os óculos de aro grosso e preto e o cabelo chanel doavam um ar de sabedoria à pequena mulher na sua frente. Se ela não houvesse se escondido atrás do saco de roupa suja, teria acreditado facilmente na história de doutora. Mas de qualquer forma, ela não iria se arriscar. Tinha pressa, muita coisa a fazer, e se contasse sobre a Confederação Intergalática, ela poderia acabar em um manicômio. Agora era ela que não sabia o que responder.

- Doutora, me desculpe, mas não preciso dde acompanhamento.

- É o que todos dizem, querida. Fazer revverência para uma barriga não é normal, conte-me sua história.

- Concordo plenamente. Mas aquilo não eraa reverência. Eu tenho um problema sério no joelho, por isso fui até o hospital. Às vezes a dor é tão forte que eu me ajoelho involuntariamente e me recurvo de dor. Respeite-me, por favor, e respeite a minha dor! – e virou-se, indo embora andando rápido, na esperança de que seria deixada em paz.

Mas a pequena mulher correu atrás dela e bateu em suas costas:

- De qualquer forma, se precisar de ajudaa, nem que seja uma conversa, me ligue – e entregou um guardanapo com seu telefone – e melhoras.

Elza agradeceu rapidamente e continuou seu caminho em direção à sua Land Rover, aliviada por ter se livrado, mas um pouco preocupada por ter sido notada. Ainda era muito cedo. Chegou a amassar o guardanapo para jogar fora, mas acabou guardando. Nunca se sabe. Mas logo parou de pensar, e tratou de correr. A reunião da Comunidade Z516, ou Cometa Transcendente, se iniciaria em um local esquecido do Planalto Central.

 

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Elleonorah descobriu que as pessoas podem acreditar em qualquer coisa. Saiba de suas picaretagens em busca do próximo best seller.

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