Mara Marlene não sabia o que fazer naquela fatídica situação. Estava tão triste por sua bolsa que “no calor do momento”, nem se importou com aquela mulher estranha fazendo uma reverência (?) para a gordinha desmaiada a seus pés. Será que aquela menina loura era alguma celebridade? Ou a tal mulher é que era uma doida? Mas tratou de relaxar. Já que estava em um hospital, talvez encontar com umas pessoas esquisitas ou momentaneamente loucas não fosse algo tão fora do comum...
Depois de ajudar três enfermeiros a levantar a bonequinha roliça do chão e jogá-la sobre uma maca estreita, tratou de procurar um banheiro onde pudesse descarregar aquele líquido viscoso de sua querida bolsa. Voltando-se para a recepção, respirou fundo e perguntou calmamente para a recepcionista – “Meu anjinho, me ajuda, onde é que eu pos...” – e antes de terminar sua pergunta, a funcionária já foi respondendo – “Aguarde a sua vez.” – sem nem levantar os olhos de suas unhas postiças já falhadas devido às incessantes passadas de lixa.
A cantora de banheiro teve que se segurar para não jogar o vômito na cara da moça, mas na mesma hora se acalmou, e virando as costas para a pequena mal educada, dizia para si mesma, repetidamente, enquanto andava hospital adentro à procura de uma banheiro:
- “Calma Mara, calma mulher... Você é melhor do que isso, você PODE e VAI aguentar toda essa sandice...”
Ao percorrer o longo corredor sul que saía da recepção, notava que seu forte braço esquerdo já estava ficando bastante cansado devido ao “peso extra” que carregava em sua bolsa. Ia de porta em porta atrás daqueles desenhos demonstrativos feminino/masculino, ou de qualquer qualquer placa indicativa de que os sanitários estariam próximos. “Como está vazio isso daqui...” – pensou Mara Marlene ao constatar que depois que saiu da recepção, não havia encontrado mais ninguém por aquelas bandas. O chão estava empoeirado além de algumas teias de aranha ostentarem suas arquitetas por todas as paredes já descascadas pelo tempo. “Cruzes....Que sujeira...Será que a faxineira está de férias?” – e riu mentalmente por alguns segundos.
Depois de andar por mais alguns minutos, entrando e saindo de pequenos quartos escuros cujas portas encontravam-se destrancadas e sem qualquer informação relevante, Mara Marlene finalmente encontrou um pequeno banheiro. –“ AAAAAAAHHH!!” – gritou com satisfação, e com um sorriso louco no rosto, começou a cantar a plenos pulmões uma música de Lana Angelina. –“MINHA GARGANTA ARRANHAAAAAA...” - quando notou que sua garganta de fato estava cada vez mais dolorida. No entanto, continuou cantando e dirigiu-se para a pequena pia branca a fim de despejar todo vômito nojento ralo abaixo.
Já com sua bolsa livre do excesso daquele líquido grotesco, retirou com as pontas dos dedos sua carteira, seu estojo de maquiagem, seu Ipod que certamente já estaria inutilizado, as chaves de seu apartamento e as do quarto de hotel. Abriu a torneira enferrujada e deixou que a água corrente limpasse suas mãos além de seus objetos pessoais.
Enquanto fazia tal serviço, cantarolava baixinho despreocupada com o que viesse em seguida. Pensava que o pior já teria acontecido, pois o que poderia abater um jato de vômito alheio invadindo o seu espaço pessoal? “Nada, com certeza...” – sorria.
Depois de limpar completamente a bolsa e todo o seu conteúdo, resolveu dar um retoque na maquiagem.
Olhando para sua exuberante imagem refletida no espelho, ajeitou a vasta cabeleira vermelha além de passar mais uma camada generosa de rímel azul nos cílios, o que realçava de maneira exagerada os grandes olhos também azuis. Na hora em que pegou o batom alaranjado e o preparou para passar por sobre os lábios, ouviu um gemido bem fraquinho não muito longe de si . Ficou em silêncio a fim de ouvir de onde vinha tal som, e constatou que o mesmo saía de uma das cabines que saparam os vasos sanitários. Mas qual? Eram quatro no total, e todas elas pareciam fechadas.
Mara Marlene, completamente calada e fazendo o mínimo de barulho possível, guardou a maquiagem na bolsa e lentamente foi alcançando a cabine mais próxima de si. Ao chegar pertinho da porta, empurrou-a com cuidado e constatou que o lugar estava vazio.
Seguiu para a segunda porta e fez o mesmo com ela, ato que também revelou um ambiente vazio. “Por que será que “a coisa” está sempre atrás da última porta, heim?” – pensava enquanto o nervosismo tomava conta de si. E quando deu mais um passo para alcançar a terceira porta, pisou em algo bastante escorregadio que a fez cambalear de maneira desajeitada até conseguir se apoiar na parede carcomida pelos anos.
Depois de finalmente recuperar o equilíbrio, olhou para baixo a fim de analisar o que a fez escorregar, quando constatou sem qualquer dúvida que se tratava de fezes humanas.
“Ah não! Além de vômito me deparo com cocô?” – pensou irônica e já com uma pontada de raiva. Não estava acreditando naquilo. Não era possível ter tanto azar num dia só! “Primeiro a bolsa vomitada, agora os sapatos cagados! Ah, cheg...” – e antes de completar sua reclamação metal, escutou outro gemido, só que desta vez, mais intenso. -- “Ôownnn.....”
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