Mara Marlene não ficava nervosa facilmente. Sempre manteve a calma nas ocasiões mais difíceis e embaraçosas de sua vida. No entanto, aquela situação estava deveras esquisita. Vômito, cocô, cocô, vômito.... O que estava acontecendo? Aonde isso iria parar?
Sem firmeza nos pés, aproximou-se da terceira porta, abriu-a timidamente e constatou que lá não havia ninguém, a não ser a já conhecida substância marrom e abundante por todo o chão daquele cubículo. E olhando atentamente, notou que toda aquela sujeira vinha do cubículo ao lado, o tal cuja porta ainda se encontrava fechada.
“ É claro que estaria atrás da última porta. Até na vida real nos deparamos com esses clichês de filme de quinta categoria!” – pensava a ruiva com as mãos suando frio. Não queria pensar no que encontraria ao abrir a quarta porta, mas era inevitável que várias imagens aterrorizantes tomassem forma em sua mente assustada. E se encontrasse um animal raivoso? E se fosse um difunto? Ou pior: uma mulher pelada de piriri! Então, completamente apavorada com essa última opção, abriu a porta num empurrão certeiro.
O alívio que sentiu ao ver o que a esperava por trás daquela porta foi tão intenso que deixou o corpo relaxar de uma maneira extremamente peculiar. Se estivesse sozinha, não seguraria a flatulência comemorativa daquele momento. No entanto, se seus gases secretos ganhassem a liberdade tão almejada, não seria uma vergonha compartilha-los com o pequeno ser que se encontrava numa posição mil vezes mais constrangedora do que a de soltar um pum em lugares públicos.
Um senhor, bem velhinho, aparentemente beirando a casa dos 80, estava sentado na privada, provavelmente fazendo o “nº 2” , a julgar pela substância que transbordava do “troninho” e se espalhava chão afora.
Abstraindo todo o nojo e repugnância que sentiu ao se deparar com aquela cena, a ruiva tratou de puxar assunto com aquele senhor que chorava baixinho e nem parecia lá muito incomodado com a grandiosa presença de Mara Marlene. –“ Er....Oi fofinho, tem alguma coisa te incomodando?” – perguntou, mesmo sabendo que a resposta seria óbvia. E o pequeno e idoso homem, olhando com os olhinhos tristes para aquela mulher incrivelmente alta em frente de si, responde –“ Ah minha filha, estou aqui sozinho já tem uns dois dias... Não consigo parar de liberar ... você sabe....” – e soluçando copiosamente, enxugou as lágrimas do rosto enrugado.
Mara Marlene, curiosa com a situação do velho e já preocupada com a condição física do mesmo, pergunta da maneira mais sutil que encontra: -“ O senhor não faz outra coisa em dois dias que não seja CAGAR???” – (quando esta última palavra foi proferida da boca da cantora, ecoou pelo banheiro, ganhando espaço corredor afora de uma maneira estrondosa e reveladora. Algo como “CAGAR –AR- AR- AR –AR- AR......” – o que fez alguns recipientes de vidro espalhados pelas salas nas proximidades estourarem de maneira assustadora e simultânea).
-“Que voz potente você tem minha filha!” – exclamou o velhinho arregalando os olhos cheios de lágrimas e catarata. Por uns breves segundos, pareceu que tinha se esquecido da triste situação em que se encontrava. E muito surpreso com aquele mulherão perto de si, disse quase que hipnotizado: “- Não sabia que uma mulher pudesse ter uma voz tão poderosa...”
Mara Marlene ficava encantada quando as pessoas com quem se deparava não se tocavam do “detalhe insignificante” de sua masculinidade. Não que ela fosse de fato masculina, no entanto, as características de um homem alto e atlético eram inegáveis a qualquer mediana percepção que ia de encontro com sua figura. E já simpatizando com aquele doce de velhinho, ela, lisonjeada, responde alegremente –“Ah lindinho, eu sempre digo que tenho ALGO A MAIS do que as outras meninas, se é que o senhor me entende, ahn?” – e com um sorriso muito largo e branco ria afetadamente para aquele senhor, que olhando encantado para ela, não parecia entender a mensagem implícita.
-“ Mas meu bem” – continuou Mara Marlene – “ por que o senhor está tão afastado do movimento? Esse hospital deve estar em obras ou coisa parecida, pois além do senhor não encontrei viva alma por esses lados.
Mas o velhinho parecia bastante confuso. Ficou calado por um momento antes de responder cautelosamente –“ Obras? Afastado? Como assim minha filha, não estou entendendo. Eu estou no banheiro do quarto particular da minha filha, a Alzira, que acabou de ter nenem e...”- e antes de concluir a frase, ele se cala. Olha para Mara Marlene, vira os olhos para o teto, para as paredes, para o chão, e retorna sua atenção para a ruiva. –“ Onde estou?”- pergunta desanimadamente.
Mara Marlene, muito séria e olhando fixamente para o pequeno idoso, começa a se perguntar o que estaria ela fazendo alí. “Beleza! Mais um pirado para a minha lista...”- e num impulso respondeu –“ Fofinho, eu não sei de mais nada. Estou tão perdida quanto o senhor. Vamos fazer o seguinte, eu te ajudo a sair desse lugar e a encontrar a sua filha e o senhor me ajuda a encontrar um médico que cuide da minha garganta...Pode ser?” – e sem esperar a resposta, já foi levantando o pequeno homem pelos ombros com muito cuidado para não mais escorregar.
Mara Marlene nunca foi fresca. Sabia quando as pessoas precisavam de sua ajuda e fazia o possível para ajudá-las, nem que isso a colocasse em situações nada confortáveis. Depois que o velho ficou de pé, a cantora notou que as calças do dito cujo estavam bastante molhadas com aquela “sopa fecal”, o que o impossibilitaria de sair daquele banheiro. Então, num ato bastante altruista, retirou a larga echarpe alaranjada do largo pescoço, que convenientemente escondia seu “gogó de ouro” e enrolou o pobrezinho da cintura para baixo, o que dava a impressão de que o mesmo vestia uma saia. Uma alegre e laranja saia rodada.
“Nada mal...” – pensou Mara Marlene ao contemplar sua improvisada arte. –“ Vamos lindinho, você acha que pode andar?” – perguntou com carinho ao velho, que sem protestar uma única vez pela nova e forçada aquisição alaranjada, responde que sim, que andar não seria problema.
Saíram os dois do banheiro e começaram a seguir o caminho de volta para a recepção.
Andavam, andavam e andavam. Mara Marlene não fazia idéia do quanto havia percorrido para achar aquele banheiro, tanto que não se lembrava de tantas salas fechadas naquele corredor. E quando já estavam cansados de andar por aquele lugar silencioso e sem iluminação, uma enfermeira de óculos escuros e cabelos bem pretos presos num coque abre a porta de uma sala fazendo com que parte do corredor ficasse iluminado pela luz verde fluorescente que da sala saía.
A primeira coisa que Mara Marlene pensou foi no quão esquisito era uma enfermeira usar óculos escuros, e ainda mais naquela escuridão. E observando aquela mulher se afastar rumo à recepção, teria que decidir rapidamente o que faria.
Se você quer correr atrás daquela enfermeira e pedir ajuda a mesma, clique aqui.
Que estranho... Óculos escuros? Luz verde fluorescente? Que tal averiguar o que tem naquele quarto? Abra aquela porta clicando aqui!