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De Madrid a Silves, um ano de experiência

É hora de falar-vos da minha experiência escolar no estrangeiro. Cabe-me iniciar esta conversa, referindo o pouco interesse em especificar os pormenores de angariação de uma bolsa de estudo com estas características. Esses, são sobejamente conhecidos, ou pelo menos, serão de fácil acesso em qualquer Universidade.

Falarei, sim, desta relevante experiência na Universidade Complutense de Madrid e deste contacto com uma realidade muito diferente à do meu quotidiano académico de então, nomeadamente, na Universidade de Coimbra.

Ao optar por viajar para o estrangeiro, o estudante procura dessa forma uma mudança nos seus hábitos diários e dentro deste espirito parte, levando um conjunto de tarefas a realizar e um sem número de dificuldades a ultrapassar.

As razões motivadores dessa jornada, resumem-se quase sempre à tentativa de uma mudança no dia-a-dia anterior e à busca de algo que o lugar onde estamos não nos pode proporcionar.

Aliás, nestes aspectos, estas experiências não diferem, em muito, embora com objectivos, expectativas e dificuldades diferenciadas, das de qualquer emigrante.

Chegada a hora da partida e durante um espaço temporal previamente definido, todos terão de cumprir algumas etapas, umas delineadas por nós e outras exigidas pelas entidades institucionais fornecedoras desta oportunidade de estudo.

Tratadas as burocracias habituais, os primeiro tempos, são quase exclusivamente absorvidos na adequação a uma nova realidade quotidiana, sendo esta mais o menos rápida, dependendo em muito dos hábitos de vida anteriores.

Ultrapassada esta fase, parte-se à conquista de novas experiências, umas de cariz essencialmente académico, resumindo-se quase sempre à gestão de uma nova forma de ensino, tendo esta, contudo, a agravante de incluir outro idioma escrito e falado.

Outras, mais vivenciais, onde se procura o conhecimento de novas gentes, novos espaços, novas culturas, novas formas de dialogar e abordar o quotidiano, enfim, novas sabedorias.

Não é, pois, de estranhar que fenómenos como os da tolerância, do respeito pelo outro, da solidariedade, do interesse por outros povos, seja reconhecidamente reforçado quando existe um contacto directo com as múltiplas realidades culturais.

E aí, uma experiência como a relatada é de extrema importância nos nossos dias, não só no aprofundar do conhecimento das características intrínsecas às do povo acolhedor, como as recebidas dos outros estrangeiros, representantes de outros povos. Com estas valoriza-se não só a nossa pessoalidade, bem como a forma de encarar os diferentes problemas que envolvem as sociedades contemporâneas.

No meu caso, numa universidade com mais de 100 mil alunos e um grupo de estudantes estrangeiros de várias dezenas de nacionalidades, não parece ser difícil imaginar as múltiplas opções de convivência e as diferentes relações emocionais criadoras de cumplicidades e empatias que se geram. Esgotado o tempo, surge a angústia da despedida, num até logo, ou talvez, num até nunca mais. É neste momento de intensa emotividade que sentimos a dor da perda e a vontade de não partir. A viagem de regresso traz connosco a saudade de um passado recente e de um presente renovado. À bagagem de ida, junta-se uma experiência de vida acumulada num espaço temporal, não muito longo, mas extremamente enriquecedor. Sim, valeu a pena e valeria novamente a pena, repetimos várias vezes, numa tentativa desesperada de agarrar algo que se afasta para sempre. No meio destes mistos sentimentos, de tristeza e perda, somos transportados aos tempos aí passados, tanto os melhores, como os piores, numa recordação próxima e, ao mesmo tempo, já longínqua. De súbito, o cansaço sonolento da longa viagem é repentinamente despertado ao virar do monte, a imagem comovente do nosso castelo transporta-nos às recordações mais íntimas da nossa infância e das nossas gentes. É hora do recomeço, aqui, não somos quase nada, não estamos sempre contentes com a forma como crescemos e nos desenvolvemos, mas daqui nunca partimos e por muito que viajemos por lugares tão variados nas formas e nos tamanhos, na riqueza e na pobreza, sentimos sempre a mesma coisa, ao ver-nos regressar. Neste mundo, cada vez mais pequeno e onde os vizinhos de diferentes cores, formas e tamanhos, falam línguas que não se entendem, não deixemos nunca que ninguém se sinta como não pertencendo a nenhum lugar, se quiserem simplificar, não há terra como a nossa.

Raúl Guerreiro

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