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Os Cheiros do Algarve

Se naquele dia algum sujeito me tivesse perguntado qual era o cheiro do Algarve, ter-me-ia apetecido dizer-lhe logo que ele era parvo!

Mas até nem teria dito, a não ser que estivesse mal humorado ao ponto de não ter paciência para tentar perceber o que ele pretendesse saber com aquela pergunta. É que, normalmente, tenho paciência e gosto em procurar perceber o que os outros querem dizer com o que dizem.

Por azar, ninguém me fez aquela pergunta, porque eu estava disposto, não a chamar de parvo ao sujeito que ma fizesse, mas a esmiuçar o que de facto ele queria perguntar, orientando-lhe a pergunta para a resposta que eu que lhe queria dar e que seria nestes termos: - "Não há cheiro: há cheiros!
Ainda anteontem, vinha eu a passear por onde outrora fora campo, da parte de trás da zona alta de Armação de Pêra e cheirou-me ao Mar; olhei para cima e vi as nuvens aos molhinhos, a correrem de Sul-sudeste para Nor-noroeste - assim exactamente - ... E só assim poderia ser; assim ou com qualquer outra corrente vinda do Sul, porque de outro modo cheiraria à Terra" - e naquele ano mais "vinhenta" que "figueirenta", porque o aroma dos figos vindimos não se sobreporia ao dos melaços e mostos que ainda pairariam no ar, pois as vindimas tinham sido tardias. E o sujeito ter-me-ia dito:
- "Você é parvo!"

E eu, em estado de paciência, teria percebido o não percebimento dele; aliás, já estaria a contar que ele não percebesse porque é que eu me tinha referido ao "cheiro ao Mar" em vez de "cheiro a mar". Mas se eu lhe tivesse dito que "cheirava a mar" ele continuaria a não perceber que o "cheiro ao Mar" não é qualquer cheiro a mar. E eu explicaria:
- "É que o Mar de Lagos não cheira ao Mar de Armação de Pêra, embora cheirem ambos a mar; embora cheirem ambos ao Mar que banha este Algarve, se comparados com o cheiro de outro mar qualquer.
(já o Mar de Odeceixe tem um cheiro diferente)...
A Terra de Tunes, quando se chega de comboio, não cheira à Terra de Messines nem à Terra de Pêra
(esta sem comboio) e nem à Terra de Almancil (para não enumerar outras e mais) e nem à Terra do Falacho, que é diferente do cheiro da de Silves e também do da parte de trás da zona alta de Armação de Pêra. E também a Terra de Tunes não cheira em Maio à mesma coisa que cheira em Agosto, nem em Agosto à mesma coisa que em Outubro, assim como as outras Terras nestes mesmos e outros meses.
Mas todos estes diferentes cheiros têm um denominador comum: cheiram a Algarve!" - "Então, sempre há um cheiro a Algarve..." - dir-me-ia o sujeito, triunfante.
- "Há, sim senhor! Só que você não o assimila; não porque seja parvo, mas porque não é daqui!..."

Naquele dia eu estava mesmo desconsolado; era o dia da Festa de Setembro de Armação de Pêra e não cheirava... nem mesmo a Polvo Assado!

Zé Baeta

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