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Cortiça de Silves despede-se de Hannover

A Expo de Hannover encerrou as suas portas no passado mês de Outubro, mas o Pavilhão de Portugal deixou uma marca bem viva nas memórias de quantos o visitaram.
A sua concepção arquitectónica, a simpatia de quem lá trabalhou e os materiais - entre eles, a cortiça - em que foi construído, revelaram-se os melhores embaixadores de um país que mantém uma importante ligação com o passado, mas que tem as portas bem abertas para o futuro.
A cortiça, particularmente, diz respeito ao passado e ao presente do concelho de Silves e O GRÉS falou com Simonetta Luz Afonso, Comissária do pavilhão português, para saber qual a relação dos visitantes com este material.

�A decisão de usar a cortiça no pavilhão foi nossa, de Portugal. A cortiça tem muito a ver connosco e foi uma boa resposta ao tema da Exposição - "O Homem, a Natureza e a Tecnologia". A exposição foi uma boa ocasião para o relançamento da cortiça�, disse-nos Simonetta Luz Afonso, recém chegada de Hannover, onde passou os últimos seis meses a coordenar as actividades promovidas por Portugal nesta exposição que reuniu 170 países dos mais variados cantos do globo.

A Comissária do pavilhão português considera que estes certames são sempre ocasiões excelentes para se discutirem novidades e, embora a cortiça não seja um produto novo, talvez neste momento, possa passar a ser encarado com novos olhos, face às preocupações de caracter ecológico que a Humanidade cada vez mais enfrenta. Aliás, a preservação das florestas de sobro foi uma das temáticas abordadas numa série de colóquios e palestras organizadas pelo Pavilhão de Portugal (ver, neste mesmo número, o artigo - "Falou-se de Silves na Expo de Hannover"), que abordaram, igualmente outros assuntos, como a indústria da cortiça e a sua utilização para os mais diversos fins, desde a simples rolha de garrafa, até ao revestimento de edifícios.
Esta série de palestras, a mais extensa organizada por Portugal, atraiu as atenções dos meios de comunicação estrangeiros presentes na exposição, tal como o próprio pavilhão e a sua construção, da responsabilidade dos arquitectos Álvaro Siza Vieira e Eduardo Souto Moura, que integrou vários tipos de cortiça no seu revestimento. A propósito do facto do pavilhão ter usado a cortiça como um dos seus materiais, Simonetta Luz Afonso conta: �O público alemão tinha dificuldade em reconhecer a cortiça e a origem dela. Pensavam que tinham de se cortar as árvores para a extrair�. Por isso, teve a ideia de levar para Hannover três sobreiros de 25 anos, que foram oferecidos por uma associação de produtores de Coruche, no Ribatejo. �As pessoas faziam o percurso da árvore para a parede do pavilhão, para tocarem a cortiça. Era uma experiência muito sensitiva�, explica e salienta que este desconhecimento era, de certa forma, natural, uma vez que os únicos dois locais na Alemanha onde se podem encontrar sobreiros são Frankfurt e Hamburgo. �Nós deixámos estas árvores em Hannover: duas ficaram numa escola de deficientes da fala e a outra ficou no Jardim Botânico de Hannover�, disse-nos a Comissária e referiu-se, ainda, à desconfiança que a princípio muitos sentiram pelo facto de estas árvores terem vindo de Portugal e sofrido um processo de transplantação complicado. Mas elas acabaram por resistir a tudo e ficaram de boa saúde.
Simonetta Luz Afonso sugere mesmo que esta pode ser uma solução para salvar espécies em perigo, por exemplo, por causa das obras de construção de barragens.

Mas não foi só a propósito das árvores e do pavilhão que se falou de cortiça. Durante o período da Expo foram lançados um jornal e um livro exclusivamente sobre este tema. O Instituto do Comércio Externo (ICEP) teve um balcão de informações no pavilhão português, onde davam bastantes explicações sobre os materiais usados na sua construção e sobre as empresas responsáveis pela sua produção (e muitos foram os que se mostraram interessados em adquirir produtos da cortiça, como foi o caso de uma Universidade na Suécia, que pediu informações a Simonetta Luz Afonso, pois pretendia recuperar um edifício muito antigo, utilizando revestimentos deste material). Para além disso, o próprio ICEP organizou diversas provas de vinhos nacionais e, aí, estava em foco a qualidade das rolhas de cortiça portuguesas, exportadas para todos os países produtores de vinho.

Simonetta Luz Afonso salientou, ainda, dois outros aspectos das actividades promovidas por Portugal na Expo de Hannover: a apresentação de um projecto desenvolvido por escolas de Portalegre e que constava da construção de várias páginas da Internet sobre a cortiça, que impressionou muitíssimos os inúmeros professores alemães convidados para assistirem e a criação de uma rede de informação sobre os temas ligados à indústria, investigação e preservação da cortiça e da floresta de sobro. A exposição promoveu o encontro de vários especialistas mundiais no assunto, que daqui em diante poderão trocar informações e experiências, através das novas tecnologias da comunicação.

Simonetta Luz Afonso faz, por isso, um balanço muito positivo da presença portuguesa. O pavilhão nacional teve 2 milhões 360 mil visitantes, ou seja, 13% das pessoas que foram à Expo estiveram no pavilhão de Portugal, o que, nas palavras da comissária, �é muito significativo�. Simonetta Luz Afonso resume tudo de uma forma muito sintética e muito clara: �Mudámos uma imagem, de certa forma passadista, de Portugal�.

Sandra Moreira

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