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Ser barbeiro já foi, em tempos, sinónimo de mudança, pois era ele quem cuidava da imagem do homem; hoje, ser barbeiro deixou de ser sinónimo de coisa alguma, para estar em vias de desaparecer da lista de profissões, até porque os poucos que ainda existem já são pessoas de idade, e parece que tudo o que não constitui novidade tem de desaparecer. Em Silves, na rua das Finanças, escondida na esquina e quase passando despercebida, fomos encontrar uma dessas poucas barbearias que ainda existem e que nos transportam para outra época, onde os homens entravam com uma cara e saíam com outra completamente diferente (não significando, claro, que ficassem sempre satisfeitos com o serviço...), mas foi nesse bocadinho de história esquecida que fomos encontrar o senhor Octávio Rodrigues, um senhor de 63 anos, no meio de um cenário que nos transporta para o início do século. Nada do que lá estava nos dava qualquer indicação de que havia ou poderia vir a haver qualquer tipo de tecnologia, excluindo, claro, a electricidade. Octávio Rodrigues, segundo as suas próprias palavras, já passou por muita coisa na sua vida. Radicado em Portugal e mais especificamente no Algarve há apenas três anos, Octávio Rodrigues, começou com os seus tenros catorze anos a aprendizagem de uma profissão que já vem de família. Disse-nos que na altura �ser barbeiro era muito duro e desprestigiante�. Com os seus 38 anos de profissão, segundo ele, �dá para viver melhor do que muita gente pensa�. Contudo, quando iniciou a sua aprendizagem, uma barba custava cinco tostões, o que nós hoje podemos considerar uma ninharia, mas que na altura era muito. Cabelo e barba eram inicialmente um escudo, passando depois para um escudo e vinte centavos. Em 1951, o corte de cabelo de um homem custava dez escudos, o da mulher, com secagem e "mise", vinte escudos. É claro que como tudo, também os seus preços subiram: o corte das senhoras passou hoje para os mil escudos, isto tendo em conta as suas condições e também porque as pessoas já vão com o cabelo lavado e só fazem o corte e penteiam. Quando lhe perguntámos se era capaz de ensinar alguém que quisesse aprender esta profissão respondeu-nos que sim, mas �com certas condições� e acrescentou em jeito de lamento: �Ia dedicar o meu profissionalismo a alguém, que depois me dava com os pés! Para mim não dá�. Apesar de gostar do que faz e de nos dizer que quem se dedica ao mesmo ramo de actividade que ele pode tirar muito mais que o salário mínimo nacional, Octávio Rodrigues também nos confessou que já lhe é muito difícil exercer esta profissão, não tanto pela idade, mas mais por consequência directa de estar o dia todo em pé, o que lhe acarretou graves problemas de coluna. Contudo, continua a fazer o seu trabalho, mesmo que seja através de uma cadeira especialmente concebida para que ele possa continuar a fazer o que gosta. Quase extinta, esta profissão, segundo Octávio Rodrigues, compensa, mas isso não significa que alguém vá fazer esforços para a recuperar, até porque este senhor é o primeiro a admitir que apesar de se ter iniciado como barbeiro, hoje considera-se cabeleireiro, facto que tem uma explicação: hoje, muita gente pensa que ser cabeleireiro é mais fino e elegante que ser barbeiro. Aliás, se todos considerarem que esta profissão tem poucas diferenças do actual cabeleireiro (tirando, talvez, o cenário), talvez encontremos uma razão para compreendermos porque está a cair em desuso esta actividade e a perder-se no tempo e no espaço. Resta-nos esperar e desejar que tal como tantas outras coisas que se vão perdendo com o passar dos anos, esta honrada profissão não desapareça, para que as futuras gerações possam saber o que era e como era ser barbeiro. Liliana Gomes e Lúcia Vieira
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